Contos com gente dentro

Do lado de fora ninguém diria.
Tinha aprendido a disfarçar-se bem, a esconder-se por dentro, no meio das respostas ao que não queria que lhe perguntassem. Às vezes não era fácil, esta história do sorriso pronto, da casa limpa, da roupa engomada e a cheirar a lavanda, o mesmo caminho todas as manhãs, a voz a transbordar-lhe de palavras gentis…
“Bom dia D. Lurdes! Está uma manhã tão bonita e encontrá-la a si ainda me alegra mais o dia!” Era sempre um gosto vê-lo chegar, de pulôver de decote em bico, camisa branca e sapatos polidos, a condizer com o castanho fino da pasta de pele. As senhoras alinhavam-se rua abaixo, junto à soleira das portas, ajeitavam a brancura dos cabelos e esticavam a cara para a frente, não fosse ele adivinhar-lhes a idade. Ainda que a soubesse, nunca o diria. Não era isso que elas queriam ouvir. O que elas queriam era que lhes falasse de alegria, de beleza, de pessoas direitas e de dias bons. E ele fazia-lhes a vontade, para na curva seguinte relaxar os ombros e afrouxar o colarinho. Era um instante só, um segundo para respirar e expandir a barriga dentro da camisa apertada, antes que um outro alguém conhecido se aproximasse e esperasse uma melhor versão de si.
As pessoas nem sempre sabem disto, mas os sorrisos, a doçura e o corpo educado dão uma trabalheira desgraçada. É como se tivéssemos de nos ensaiar, vezes e vezes sem conta, e noutras tantas calássemos o grito para o atafulhar de coisas mais bonitas de se ouvir.
As pessoas não pensam nisto mas gostam de quadros alinhados, passarinhos chilreantes e de crianças quietas de meiinhas de renda e obediência no olhar. E é isso que esperam dos outros. A impertinência, o mau feitio, a tristeza ou a exuberância nunca foram convidados para os melhores jantares. As pessoas feias também não. Ou se foram, alguém se encarregou de lhes dizer que tinham uma beleza exótica, fazendo-as sentir que a sua presença era afinal uma honra e não um ato de misericórdia.
A sorte disto tudo é que a seguir ao dia fechava a porta de casa, baixava as persianas, tirava a roupa apertada e deixava-se cair, de corpo mole e imperfeito, no sofá da sala. E depois era vê-lo noite adentro a dizer palavrões, a ver filmes pornográficos e a beber vinho do pacote, para depressa adormecer num sono profundo e barulhento. Na manhã seguinte, acordaria cedo, as senhoras esperariam por ele e ele saberia exatamente o que dizer-lhes.
Do lado de fora ninguém diria, ninguém nunca diz, mas era mesmo só esse lado que elas queriam conhecer…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.