Contos com gente dentro…

Precisava da cabeça limpa, não de ti a entrar por ela adentro sem cerimónia nem pudor.
Precisava da cabeça limpa, não só porque já me ocupas espaço demais mas porque sem ti, talvez ficasse mais arejado e conseguisse ouvir-me melhor. Já é tempo demais contigo dentro. Nem ela (a cabeça) te aguenta. Nem eu. Abro os olhos de manhã e lá estás tu. Ensaboo o corpo, abro o chuveiro no lado frio e ainda assim, és tu. Há mais de uma semana que tomo banhos gelados na esperança de te pôr a mexer, e nada. Continuas aqui. Desço a rua para o trabalho a olhar para as janelas a ver se me encanto por alguém, e lá estás tu. Oiço as conversas sem graça nenhuma para ver se me encho de nada, e lá estás tu. Preparo o jantar de ervilhas com ovos de que não gosto, e lá estás tu. Sempre tu, sempre à coca, à espera de me apanhar o desespero num passo em falso que não quero dar.
Densa, espaçosa, repetida.
E eu nem sei bem porquê. É isso que me é mais difícil de engolir neste espaço que me ocupas: não saber porquê. Não és especialmente bonita. Não és especialmente interessante. Da inteligência nem falo, não chegámos aí para que o pudesse perceber, mas imagino, do que te tenho visto, que até nem seja nada fora de série. Não sei mesmo bem porquê.
Talvez seja porque que as pessoas não se explicam.
Há qualquer coisa nelas que encontra qualquer coisa em nós e depois pronto, deixamos de ser nossos para passar a viver na cabeça dos outros. Foi assim contigo, embora eu ache que foi coisa de um lado só. Tu moras em mim mas eu não cheguei a entrar-te.
Há quem tenha outros fados, eu agora tenho este, precisar da cabeça limpa mas ter-te a ti a sujar-me tudo…

(A foto bonita que dá vida a este texto é da Lília. Tão grata, minha Portugueselily…)

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