As maravilhas do cérebro adolescente.

“Mas o que é que se passa na cabeça dele/a?” – perguntas tu.
Algo de verdadeiramente extraordinário, dizem os neurocientistas.

Para muitos de nós, pensar em adolescentes pode ser sinónimo de uma grande dor de cabeça, mas as últimas investigações sobre o desenvolvimento cerebral nesta etapa de vida, mostram-nos que eles são, afinal, seres altamente adaptáveis e de uma sensibilidade única, preparados para lidar com todas as tarefas com que se deparam.

Estes dados contrariam o lugar comum de achar que a adolescência é uma espécie de invenção cultural e ajudam-nos a pensar esta fase como única, marcada por fatores genéticos e de desenvolvimento incríveis que, afinal, têm como função capacitar os jovens para se adaptarem aos desafios que a vida fora do contexto familiar implica.

Estão assim explicadas, neurologicamente, as características típicas do desenvolvimento adolescente:

Predisposição para correr riscos

Contrariamente ao que se pensa, os adolescentes estão aptos a fazer uma avaliação ponderada dos riscos de um determinado comportamento (da mesma forma que os adultos), sendo também já capazes de antecipar as suas consequências. O que interfere na tomada de decisão, é a ponderação que fazem desses riscos, ou seja, o facto de atribuírem uma maior importância à recompensa que pode advir de um determinado comportamento, como por exemplo, obter a admiração dos amigos.

Mudanças de humor 

De manhã choram, à tarde estão bem, à noite zangam-se com o mundo… A experimentação de emoções e a sua rápida alteração estão relacionadas com o aumento da produção hormonal, associada ao sistema límbico, região responsável pelo processamento das emoções.

Preferência pelos amigos

O desenvolvimento dos neurónios-espelho (células nervosas acionadas pela observação dos comportamentos dos outros), explica a disponibilidade para estar em grupo e interagir socialmente. O cérebro dos adolescentes também é mais sensível à ação da oxitocina, uma hormona que torna as relações sociais mais compensadoras e predispõe à criação de vínculos com os outros.

A investigação tem mostrado também, que apesar da importância assumida pelos amigos, os jovens reconhecem nos pais a possibilidade de obter conhecimento e sabedoria, o que nos leva uma vez mais, a valorizar a importância da ligação afetiva com a família, capaz de favorecer a independência e autonomia, mas que se construa fundamentalmente através do respeito e da comunicação.

A noção da adolescência como um período particularmente maleável e adaptável, representa para os jovens e para quem os ajuda a crescer, uma oportunidade fantástica de aprendizagem e de desenvolvimento social.

E sobre isto sim, vale a pena pensar e estimular, de uma forma positiva e empática, para que eles, que se sabem capazes de conquistar o mundo, assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Sobre este assunto, podes saber mais aqui:

10 coisas que odiavas quando eras adolescente.

Toda a gente sabe que quando nos tornamos mães e pais somos acometidos por uma espécie de amnésia seletiva, que nos leva a esquecer uma boa parte de quem fomos antes.

É como se nos reinventássemos, numa desejada melhor versão de nós próprios que, por mais bem intencionada que seja, acaba sempre por deixar pelo caminho coisas importantes, como por exemplo, o facto de já termos tido a idade dos nossos filhos e de já ter sido nosso, o seu sentir.

E porque às vezes é preciso fazer um rewind para que os passos em frente se façam mais felizes, arrisco-me hoje a trazer de volta algumas das coisas que talvez te tenham feito “subir as paredes” quando eras adolescente.

Ora vamos a elas…

  1. Que não te ouvissem. Exatamente quando ias começar a explicar-te, lá vinha a voz da razão que dizia algo deste género: “Já estou a ver onde queres chegar! Nem penses nisso!” E tanto que tu tinhas treinado a argumentação na noite anterior…
  2. Que banalizassem tudo. Tenho uma amiga a quem a mãe dizia: “Deixa lá filha, os homens são como os autocarros. Não apanhas este, apanhas o próximo!” Lembras-te de alguma semelhante, que te fizesse ter a certeza que os teus pais estavam a milhas do que estavas a sentir?
  3. Que partilhassem a tua intimidade com toda a gente. “Nem imaginas o tempo que passa a pôr laca na poupa.” ou, “Agora lá em casa só come ervas. Manias.”. E tu só desejavas enfiar-te no primeiro buraco que te aparecesse…
  4. Que generalizassem tudo o que fazias. Andavas tu a dar o teu melhor e lá vinham os vaticínios começados por: “Estás sempre a…” ou “Tu nunca…” Bah.
  5. Que criticassem a roupa que vestias (válido para o penteado, para a música, alimentação…) Ah, e que te aconselhassem a levar um casaquinho.
  6. Que exigissem que soubesses o que fazer no futuro. “Já sabes qual é o curso? Não vais estudar, vais trabalhar!” ou “Tens de pensar bem, porque isto não está para brincadeiras!” E tu sabias disso, mas nem sempre era fácil decidir.
  7. Que duvidassem da tua capacidade para escolher os amigos (válido para os namorados/as também…). E logo quando tu te tinhas conseguido aproximar da malta mais arrojada do liceu…
  8. Que perguntassem “Como foi a escola? Havia sempre tanto para a dizer mas o enjoo da mesma pergunta todos os dias, só resultava num também enjoado: “Correu bem.”
  9. Que ligassem 30 vezes por dia.
  10. Que mandassem ligar outras 30.
  11. Que te comparassem aos outros. “Ah e tal, mas a Mariana foi para a Católica.” “E o que é que eu tenho a ver com isso? – perguntavas tu…” Absolutamente nada, te digo agora eu.
  12. Que pusessem em causa as tuas competências. “Tens a certeza que ficas bem? Se calhar a mãe deixa-te um franguinho guisado feito e basta aquecer…” E tu só querias que se fossem embora depressa, para poderes comer Nestum no sofá (ou quem sabe convidar o resto da malta lá para casa…)
Estas são 12 das frases que, muito provavelmente, odiavas ouvir na adolescência.

Aposto que com boa vontade, conseguias arranjar mais meia dúzia, tal como aposto também que se usares estes exemplos como checklist das tuas reações aos comportamentos dos teus filhos , ainda dás por ti a assinalar alguns.

Toda a gente sabe, que quando nos tornamos mães e pais, a coisa muda de figura e é tão mais fácil falar do que fazer. Afinal, amamentámos as criaturas e aturámos-lhes todas as birras, o que quase nos dá o direito de dizer todas estas coisas. Isso, e o facto de os amarmos como ninguém.

Toda a gente sabe disto, mas às vezes é mesmo preciso trazer a memória do adolescente que fomos e voltar a calçar os ténis, para entender…

P.S – Não te proponho que coles esta lista no frigorífico, porque existem coisas que devemos guardar para nós, mas se a colares num lugar mais reservado (pode ser no coração), sempre dá para lhe dar uma olhadela volta e meia… Eles agradecem. E tu já te lembras porquê. 

Pré-adolescência, essa bela localidade…

Falamos muito sobre a adolescência, falamos ainda mais sobre a infância mas pouco falamos sobre a transição de uma fase para a outra, sobre as mudanças que chegam de mansinho (ou de rompante) e, sem pedir licença, se instalam na vida deles e na nossa, conduzindo-nos a todos às naturais mudanças e reajustes.

É geralmente a partir dos 9/10 anos, que começam a surgir os primeiros sinais de que a adolescência está próxima e, muito embora estas alterações sejam vividas de forma única por cada criança e por cada família, existem alguns comportamentos típicos nesta altura:

Maior necessidade de espaço próprio. Às vezes oiço pais a dizer: “Em minha casa não há portas fechadas!” Percebo. Mas percebo também, que a partir de uma determinada altura, eles começam a sentir falta desse espaço, a gostar de estar mais tempo sozinhos e a precisar de uma maior privacidade e respeito pelos espaços individuais. Estar por perto mas permitir uma maior intimidade nos cuidados pessoais, no banho, no tempo passado no quarto, são boas premissas e não são incompatíveis com o tempo em família. Pelo contrário, são perfeitamente conjugáveis, e devem sê-lo.

Maior irritabilidade, às vezes sem razão óbvia ou facilmente identificável. Atividades ou brincadeiras anteriormente aceites, podem tornar-se extremamente intoleráveis nesta altura. Não insistir, respeitar e sobretudo não ridicularizar, sendo sensível às mudanças (e não fazendo delas um cavalo de batalha), pode ser uma boa ajuda. Para todos.

Rejeição de atividades anteriormente desejadas, como determinadas brincadeiras ou programas de tempos livres, por exemplo. Importa aqui compreender e permitir que a seleção e a experimentação se faça espontaneamente. Lembra-te: a pré-adolescência permite que se comece a preparar terreno para aquisições importantes: um maior auto-conhecimento, a definição de uma identidade própria, uma maior autonomia… E para isso, é preciso experimentar, rejeitar, mudar de opinião, arriscar coisas diferentes.

Mau humor ou estados de tristeza mais frequentes. Geralmente, as crianças a partir desta idade experienciam mais emoções negativas e isso não significa que exista algum problema, mas sim que estão em processo de adaptação e a aprender a lidar com os estados emocionais de uma forma mais complexa. Se estiveres triste e eu te acenar com um gelado, a tristeza desaparece? Não. Pois a partir desta idade, começa a ser semelhante.

Se para nós estas alterações nem sempre são pacíficas ou até esperadas nas idades de que falamos, não é menos verdade que para eles, que as vivem na primeira pessoa, também não. E é por isso que é tão fundamental conhecê-las e aceitá-las como adaptativas e parte integrante do fantástico processo de crescer.

Não esquecendo nunca, que aos pais, cabe o papel de porto seguro no meio das águas (por vezes agitadas) do crescimento dos filhos. Aos filhos, a coragem de navegar e de tornar sua, a rota a percorrer.

É através dela que se tornarão, progressivamente, capazes de se compreender melhor, de compreender os outros, de desenvolver relações afetivas coesas e seguras, de pensar o futuro e ter vontade de rumar aos portos seguintes. Com a esperança e a vontade que lhes é merecida.

Afinal, de mares calmos, não reza a história dos bons marinheiros.

 

Carta de uma adolescente aos adultos.

Queridos Adultos,

Daqui escreve-vos uma adolescente. Primeiro que tudo, queria pedir que acalmassem essas hormonas. Isto porque quando se fala dos vossos filhos adolescentes, parecem as nossas.

Nós não somos um problema, não somos todos deprimidos. Temos opiniões, sabemos falar, não temos uma linguagem diferente da vossa. Queria pedir-vos também que larguem esse preconceito de que a palavra “adolescente” tem a mesma origem que a palavra “problema”. Larguem os livros que compraram sobre como lidar com um adolescente, nós não precisamos todos da mesma coisa, pelo contrário, tentem conhecer-nos, perceber o que nos faz felizes, o que nos faz tristes, o que nos magoa, as feridas que ainda temos abertas.

Motivem-nos! Nós precisamos de ser motivados, cada um de nós precisa de acreditar que tem o poder de mudar. Somos a próxima geração, não queremos ouvir “este país está a descambar”, “é tudo uma vergonha… que horror!”. Motivem-nos! É em nós que têm de pôr a pressão toda, não desistam de nós. Abram as nossas mentes, não nos deixem pensar tudo quadrado!

Quanto ao ensino… Bem, quanto ao ensino, tentem perceber que não é fácil estar 90 minutos a olhar para um professor a debitar matéria. Nesses 90 minutos há sempre alguma coisa mais engraçada para prestar atenção do que estar a ouvir o professor, por isso, tentem ensinar de outra maneira, não nos obriguem a decorar, ajudem-nos a perceber.

Deixem-nos cair as vezes que forem necessárias, nós precisamos disso mesmo, precisamos de cair. São as quedas que nos vão mostrando como somos fortes e como somos capazes de ultrapassar os obstáculos da vida. Não nos aparem os golpes, temos que aprender sozinhos.

Não nos tentem ensinar o que demoraram 40 anos a aprender. Vocês aprenderam vivendo e nós também vamos ter que viver para aprender. Deixem-nos viver, deixem-nos demorar o tempo que for preciso a aprender… Enquanto vocês vivem tudo a 500, nós vivemos tudo a 5000 e é normal fazermos de uma coisa pequena um grande drama, não se zanguem connosco por isso. Mostrem-nos que não é nenhum drama, mostrem-nos que existe solução e que há coisas bem piores.

Deixem-nos viver intensamente.

Podem ser os melhores anos das nossas vidas, é “SÓ” ajudarem-nos a viver.

Obrigada,

Uma Adolescente

Nota: Conheci a Matilde na Capazes, lugar onde coisas boas acontecem. E assim, fazendo justiça à grandeza das palavras que escreve, a Matilde partilhou o seu texto para que ele pudesse brilhar na Lua também. Obrigada Matilde, pela honra da tua voz e pelas coisas bonitas que trazes dentro. Não nos esqueçamos nunca. Viver intensamente será sempre o caminho mais feliz.

Adolescentes somos nós.

“A adolescência é uma viagem de barco: inevitavelmente vamos sofrer tempestades, marés altas, e teremos de nos afastar de icebergues que se vão encontrando pelo caminho. Mas também há dias de sol, de gaivotas amigas que nos sobrevoam e nos transmitem uma sensação de liberdade e alegria indescritível. O vasto oceano torna-se uno connosco e somos um só nele. E, por fim, todos nós ansiamos por desembarcar numa ilha paradisíaca, onde os nossos sonhos são cumpridos.”

Raquel, 17 anos

A vida é feita de muitas escolhas. E a deles não é exceção…

Têm idades entre os 14 e os 16 anos.
Dir-se-ia que eram feitos de sonhos, de projetos e de vontade de seguir em frente. São-no. Mas a reboque trazem com eles o peso da escolha e o medo do fracasso. O pânico de que um passo mal dado possa definir o resto das suas vidas ou fechar a história sobre a pessoa que serão. Não é assim, mas é preciso dizer-lhes isto, muitas vezes, para que o saibam, respirem fundo e avancem.

O desenvolvimento vocacional é um processo que se inicia desde o momento do nascimento e nos acompanha ao longo do ciclo de vida, com as mudanças necessárias, inerentes ao crescimento.

Em determinadas etapas do percurso escolar, como as do 9º e do 12º ano, o sistema de ensino exige aos jovens uma tomada de decisão relativamente ao curso a seguir, ou outras oportunidades relativas ao ingresso no mercado de trabalho. É uma escolha que se deseja consciente, informada e responsável, mas que não precisa em si da perspectiva de fatalidade que muitas vezes carrega.

O futuro escolar e profissional deve ser pensado como um projeto em permanente construção, passível de ser alterado e reconstruído, as vezes que forem necessárias.

Reconhecer que cada escolha é apenas mais um passo na direção desse futuro, é fundamental, tal como é fundamental o apoio dos pais, professores e educadores nestes momentos de tomada de decisão, podendo constituir bons pontos de partida os seguintes…

Estimular a que se conheçam a si próprios, a que identifiquem os seus interesses, aquilo que valorizam, os seus pontos fortes… O autoconhecimento é fundamental para que as escolhas feitas nos momentos de tomada de decisão escolar se aproximem o mais possível dos fatores que contribuirão para a sua satisfação futura e para o seu sucesso pessoal.

Ajudar a que desenvolvam um mapa de competências que, pela sua transversalidade, lhes permita enfrentar os momentos de transição e a possibilidade de fazer várias escolhas, de exercerem vários trabalhos e terem acesso a várias experiências ao longo da vida. Falo da criatividade, da flexibilidade, da autonomia, da adaptabilidade, do empreendedorismo e do pensamento crítico, mas também da inteligência emocional, da capacidade de comunicação e do espírito de equipa. Entre outras.

A escolha de um curso não significa necessariamente que é nessa área que vamos trabalhar, sobretudo num momento em que o mercado de trabalho está em constante mudança. Surgem novas profissões, extinguem-se outras e cada vez mais, as pessoas se deparam com a necessidade de reequacionar as suas trajetórias de vida e de carreira, de forma a adaptar-se às novas exigências.

E por fim, porque a “lua não fica cheia num dia” (e nós já sabemos disso), é fundamental dizer-lhes que as decisões que assumam não se encerram em si e que podemos sempre voltar atrás, mudar o rumo e recomeçar. Saber disto (e saber que nós sabemos disto), tira-lhes um peso enorme de cima e deixa-os mais tranquilos para fazer face ao momento com a paz e a segurança necessárias, para subir um degrau de cada vez.

Como se repara um coração partido?

Lembra-te das palavras ditas (ou das que gostarias de ter dito). Experimenta a tristeza. Revive a culpa, a vontade de correr atrás. E depois, a desilusão, o choro fácil, a mesma música no rewind, vezes e vezes sem conta, até chegares à promessa de não voltar a tentar.

A grande maioria de nós viveu o primeiro desgosto de amor na adolescência e por mais que saibamos (agora), que o tempo tudo cura e que a vida dá muitas voltas, seremos quase todos capazes de trazer à tona a dor de um coração partido e a certeza de que a vida nunca mais se faria feliz.

Uma das tarefas da adolescência é o alargamento das relações para além da família, a experimentação das primeiras ligações amorosas que cumprem uma função importante no desenvolvimento emocional e na preparação para os relacionamentos futuros.

Para nós, este é muitas vezes um momento difícil porque mesmo que já tenhamos lá estado, trazemos outras coisas na mochila, o que pode dificultar a tarefa de compreender o “tudo ou nada”, o choro inconsolável e a sensação de que o mundo desabou. Ainda assim, e muito por causa disto, é importante resgatar a memória do nosso adolescente apaixonado e, de forma empática, mostrar aos nossos filhos que estamos por perto e que podemos ajudar:

Validar sentimentos. Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas óptimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Mais do que conselhos ou palavras certas, o que eles precisam de ti é que os oiças, que os deixes chorar ao teu colo, pôr para fora aquilo que pensam. Mesmo que tudo pareça às vezes demasiado dramático, aceita-os no que sentem e fá-los sentir que estás disponível para compreender.

Normalizar o dia-a-dia. Encorajá-los a levantar da cama, a passar mais tempo com os amigos, a participar em atividades que ajudem a ocupar a mente e a descobrir outros motivos de satisfação, além de ser favorável à autoestima, estimula novas aprendizagens e, sobretudo, alimenta a relação com os outros, tão importante nos momentos de maior fragilidade emocional.

Aceitar que vida se faz destas coisas. Sim eu sei, mora cá dentro o desejo secreto de os proteger de tudo e de todos e por isso, sempre que alguém magoa os nossos filhos, “baixa” em nós uma espécie de avatar vingador, pronto a defender a cria. Por mais que te apeteça dizer umas quantas coisas ao objeto do amor desiludido, controla-te e deixa a vida acontecer-lhes. E se há coisas que a vida lhes ensinará (e as relações falhadas também) é a lidar com a frustração, a aceitar a quebra das expectativas e a aprender sobre quem são e como são com os outros.

E finalmente, porque esta história de sermos pais implica ter uns olhinhos cravados em nós a cada segundo da nossa existência, há uma ideia de que gosto muito e que procuro ter presente neste meu percurso de mãe: a importância da experiência amorosa familiar.

É com a família que se conhecem as primeiras relações afetivas, que em muito serão preponderantes na qualidade dos laços que se criarão ao longo da vida. Se connosco aprenderam a dizer “gosto de ti”, a mostrar afeto, a defender o que sentem, a comunicar, a respeitar e a ser respeitados, será isso que exigirão nas experiências afetivas que venham a ter.

E só isso, já é meio caminho andado para que mesmo que o coração quebre, muitas e muitas vezes, persista a força e a coragem para apanhar os bocadinhos e alimentar a vontade de um amor maior.

Tribos sem índios.

Ela apanhava-me em casa todas as manhãs para seguirmos juntas para o liceu. Vestíamos camisa de xadrez, larga, calças de ganga e ténis AllStar. À tiracolo, uma bolsinha a puxar para o hippie, completava o figurino. Casaco nem vê-lo. Fizesse chuva ou um frio de rachar. Nada que não se aguente aos 16 anos, porque o importante mesmo, é dar o corpo ao manifesto.

Nos intervalos das aulas, encontrávamo-nos todos junto ao parapeito da janela que dava para o corredor do refeitório. Comíamos croissants de massa folhada a meio da manhã. Éramos um “bando”. Cúmplices nos gestos, na música, nos gostos. Parceiros nos sonhos, nos planos para as férias e a achar que teríamos sempre todo o tempo do mundo. Não tivemos, mas ainda assim, aproveitámo-lo bem.

A adolescência representa talvez, no ciclo vital, o período de desenvolvimento mais desafiante e exigente do indivíduo, pela natureza das transformações que nela ocorrem. Uma dessas transformações, muitas vezes a que causa maior impacto na família, é a que ocorre ao nível das relações sociais, num processo de alargamento das crenças e valores, em que os amigos assumem o papel principal.

Um adolescente de 16 anos quer ainda misturar-se na multidão, ser aceite e respeitado pelo grupo de pertença e isso implica muitas vezes comportar-se como os amigos e adotar os comportamentos preconizados pela maioria. É o grupo que afinal condiciona as relações sociais dos seus membros e que define o manual de normas – valores, estilos de vida, moda, música… entendido e aceite por todos. E esta sensação confortável de que “este é o meu lugar” é de uma enorme proteção para o jovem, contribuindo para o seu bem estar e permitindo que se construam relações de proximidade e suporte significativas.

Por outro lado, como já era de esperar porque tudo tem o seu revés, o conformismo ao grupo pode tornar-se tóxico, sempre que coloque em causa os valores do adolescente e o obrigue a adoptar comportamentos com os quais não concorda, transformando-o em alguém que efetivamente não é. Importa por isso pensar de que forma podemos estar próximos, contribuindo para que se “enturmem” sem perder aquela que é a sua individualidade:

Treinar competências pessoais e sociais, estimulando a tomada de posição e a auto-afirmação no palco lá de casa. Podemos não concordar, podemos achar que têm o mundo no umbigo, mas é seu o direito de defenderem e expressarem aqueles que são os seus valores;

Alargar o círculo relacional da família. Viver numa redoma pais-filho(s) limita a possibilidade de interação. Quando os pais têm também eles relações significativas fora do seio familiar e se envolvem em projetos na comunidade, permitem aos filhos movimentar-se em diferentes grupos e ter diferentes experiências de socialização;

Conhecer a companhia dos filhos e convidá-la a entrar. Tenho um amigo na casa de quem eram sempre feitas as jantaradas de grupo da universidade e há pouco tempo, quando me encontrei com a mãe, valorizei-lhe a paciência dessa altura (a casa ficava em “estado de sítio”!), ao que ela me respondeu: “Assim tive oportunidade de vos conhecer a todos e isso deixou-me sempre mais tranquila”. Saber quem são os amigos dos filhos permite-nos estar próximos das pessoas de quem gostam, compreendendo a importância que assumem nas suas vidas e o papel que desempenham no funcionamento do grupo.

E por fim mas não menos importante, lembrarmo-nos de como foi connosco. Da cumplicidade, dos risos, das lágrimas partilhadas nos desgostos de amor, das zangas que eram o fim do mundo, para no dia seguinte tudo voltar a ser como antes.

A experiência de um amigo é talvez a que mais nos ilumina por dentro e a que mais nos protege ao longo da vida, e para que esse milagre aconteça e eles escolham as suas tribos é preciso deixá-los seguir, explorar e conhecer… os desconhecidos.

Nota: E como já vem sendo um hábito bom, os créditos da imagem são da muito querida Lília Nunes Reis.

Adolescentes fomos nós

Adolescentes fomos nós.

“Não tenho que esconder a minha infância e muito menos a minha feliz adolescência , considerando “adolescência ” a partir dos 12 aos 16 anos, dado que nasci numa época onde se considerava a adolescência (ou nem nisso se pensava!) a partir dos 13 /14 anos de idade, quando aparecia a 1ª. menstruação e logo, as nossas mães diziam às amigas, classificando-nos de “mulherzinhas”…“Sabe vizinha Beatriz, a minha Nini, já lhe apareceu o período, já é mulherzinha!” … 

Foi o meu caso, e de todos os meus amigos da época…éramos crianças  até esse dia acontecer….Quanto aos rapazes a sua evolução era mais lenta e só se sabia que estavam a entrar noutro estádio da vida, quando despertavam pela cara, rompendo-a,  sinais de pequenas borbulhas, a que as pessoas chamavam “espinhas …” Curiosamente eles não eram chamados de “homenzinhos”, mas sim, dependiam da afirmação visível para todos…“Ah! já viu, o meu João já está a ficar um ” homem!”

Isto é apenas um esclarecimento , pois nós raparigas, não  recebíamos  quaisquer noções do que se passava no nosso corpo, e na transformação natural, que  nos deveriam dar,  informando-nos , quer pais, professores ou amigos mais próximos…das fases naturais do nosso crescimento fisico ou hormonal….Era os anos 40/50 , onde tudo era segredo, fazendo parecer o natural,  quase um pecado.

Eu, Nidia, a quem chamavam de Nini, era uma criança alegre, bem disposta, uma razoável estudante e com muitas amigas e amigos… Éramos quase irmãos sem maldade, embora acanhados  e desconhecedores da palavra sexo..

Eu, brincalhona e ladina como era, cedo fui “abrindo os olhos”, pois as minhas amigas eram sempre mais velhas do que eu, e foram as minhas “mestras”, nos conhecimentos que a minha mãe, não teve capacidade de me dar, apesar de ser professora… 

Enfim…os tempos falam por si….A Evolução foi-se fazendo pouco a pouco e as escolas foram abrindo horizontes… . 
Contudo, fui uma adolescente estudiosa, amiga dos seus amigos,preocupada com os outros, sonhando amor , como qualquer uma de nós…
Considero como o fato, que mais me marcou, o meu primeiro baile, pois nunca havia dançado com rapazes… Andava , então, num colégio misto, numa terra alentejana, Cuba, e o diretor, pessoa dura, esquizófrénico e sempre mal encarado, atendeu o pedido dos alunos e deixou que no largo espaço do recreio, fizessemos o nosso tão esperado baile. Tinha eu, então 16 anos…
Juntávamo-nos na casa de uma ou outra colega, e riamos só de pensar, o que nos poderia acontecer…
Vestidas como ” senhoras”, sapatinhos de meio salto, as primeiras meias de seda, lá nos juntamos aos garotos , vestidinhos a rigor com gavatinha e tudo, e dançámos até à meia noite… 
Havia rapazes já muito mais velhos , e até já homens feitos de vários anos , e nunca esquecerei a declaração de amor, dum rapaz com 22 anos, o Caixinha, que me fez uma linda declaração de amor..
Foi a 1ª. vez, que me encontrei numa situação igual, mas ” portei-me como uma senhora…”,
Agradeci dizendo que era muito nova e não queria namorar… 
Parece que recordando esta noite, ainda oiço as palavras do meu apaixonado::
 – « Nidia, és tão bonita…gosto tanto de ti…um dia quero casar contigo,..»
O nosso diretor portou-se muito bem, e no dia seguinte elogiou o nosso comportamento…”
Nídia, 86 anos