A vida é feita de muitas escolhas. E a deles não é exceção…

Têm idades entre os 14 e os 16 anos.
Dir-se-ia que eram feitos de sonhos, de projetos e de vontade de seguir em frente. São-no. Mas a reboque trazem com eles o peso da escolha e o medo do fracasso. O pânico de que um passo mal dado possa definir o resto das suas vidas ou fechar a história sobre a pessoa que serão. Não é assim, mas é preciso dizer-lhes isto, muitas vezes, para que o saibam, respirem fundo e avancem.

O desenvolvimento vocacional é um processo que se inicia desde o momento do nascimento e nos acompanha ao longo do ciclo de vida, com as mudanças necessárias, inerentes ao crescimento.

Em determinadas etapas do percurso escolar, como as do 9º e do 12º ano, o sistema de ensino exige aos jovens uma tomada de decisão relativamente ao curso a seguir, ou outras oportunidades relativas ao ingresso no mercado de trabalho. É uma escolha que se deseja consciente, informada e responsável, mas que não precisa em si da perspectiva de fatalidade que muitas vezes carrega.

O futuro escolar e profissional deve ser pensado como um projeto em permanente construção, passível de ser alterado e reconstruído, as vezes que forem necessárias.

Reconhecer que cada escolha é apenas mais um passo na direção desse futuro, é fundamental, tal como é fundamental o apoio dos pais, professores e educadores nestes momentos de tomada de decisão, podendo constituir bons pontos de partida os seguintes…

Estimular a que se conheçam a si próprios, a que identifiquem os seus interesses, aquilo que valorizam, os seus pontos fortes… O autoconhecimento é fundamental para que as escolhas feitas nos momentos de tomada de decisão escolar se aproximem o mais possível dos fatores que contribuirão para a sua satisfação futura e para o seu sucesso pessoal.

Ajudar a que desenvolvam um mapa de competências que, pela sua transversalidade, lhes permita enfrentar os momentos de transição e a possibilidade de fazer várias escolhas, de exercerem vários trabalhos e terem acesso a várias experiências ao longo da vida. Falo da criatividade, da flexibilidade, da autonomia, da adaptabilidade, do empreendedorismo e do pensamento crítico, mas também da inteligência emocional, da capacidade de comunicação e do espírito de equipa. Entre outras.

A escolha de um curso não significa necessariamente que é nessa área que vamos trabalhar, sobretudo num momento em que o mercado de trabalho está em constante mudança. Surgem novas profissões, extinguem-se outras e cada vez mais, as pessoas se deparam com a necessidade de reequacionar as suas trajetórias de vida e de carreira, de forma a adaptar-se às novas exigências.

E por fim, porque a “lua não fica cheia num dia” (e nós já sabemos disso), é fundamental dizer-lhes que as decisões que assumam não se encerram em si e que podemos sempre voltar atrás, mudar o rumo e recomeçar. Saber disto (e saber que nós sabemos disto), tira-lhes um peso enorme de cima e deixa-os mais tranquilos para fazer face ao momento com a paz e a segurança necessárias, para subir um degrau de cada vez.

Quando eles preferem morrer…

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas. Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

Como se repara um coração partido?

Lembra-te das palavras ditas (ou das que gostarias de ter dito). Experimenta a tristeza. Revive a culpa, a vontade de correr atrás. E depois, a desilusão, o choro fácil, a mesma música no rewind, vezes e vezes sem conta, até chegares à promessa de não voltar a tentar.

A grande maioria de nós viveu o primeiro desgosto de amor na adolescência e por mais que saibamos (agora), que o tempo tudo cura e que a vida dá muitas voltas, seremos quase todos capazes de trazer à tona a dor de um coração partido e a certeza de que a vida nunca mais se faria feliz.

Uma das tarefas da adolescência é o alargamento das relações para além da família, a experimentação das primeiras ligações amorosas que cumprem uma função importante no desenvolvimento emocional e na preparação para os relacionamentos futuros.

Para nós, este é muitas vezes um momento difícil porque mesmo que já tenhamos lá estado, trazemos outras coisas na mochila, o que pode dificultar a tarefa de compreender o “tudo ou nada”, o choro inconsolável e a sensação de que o mundo desabou. Ainda assim, e muito por causa disto, é importante resgatar a memória do nosso adolescente apaixonado e, de forma empática, mostrar aos nossos filhos que estamos por perto e que podemos ajudar:

Validar sentimentos. Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas óptimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Mais do que conselhos ou palavras certas, o que eles precisam de ti é que os oiças, que os deixes chorar ao teu colo, pôr para fora aquilo que pensam. Mesmo que tudo pareça às vezes demasiado dramático, aceita-os no que sentem e fá-los sentir que estás disponível para compreender.

Normalizar o dia-a-dia. Encorajá-los a levantar da cama, a passar mais tempo com os amigos, a participar em atividades que ajudem a ocupar a mente e a descobrir outros motivos de satisfação, além de ser favorável à autoestima, estimula novas aprendizagens e, sobretudo, alimenta a relação com os outros, tão importante nos momentos de maior fragilidade emocional.

Aceitar que vida se faz destas coisas. Sim eu sei, mora cá dentro o desejo secreto de os proteger de tudo e de todos e por isso, sempre que alguém magoa os nossos filhos, “baixa” em nós uma espécie de avatar vingador, pronto a defender a cria. Por mais que te apeteça dizer umas quantas coisas ao objeto do amor desiludido, controla-te e deixa a vida acontecer-lhes. E se há coisas que a vida lhes ensinará (e as relações falhadas também) é a lidar com a frustração, a aceitar a quebra das expectativas e a aprender sobre quem são e como são com os outros.

E finalmente, porque esta história de sermos pais implica ter uns olhinhos cravados em nós a cada segundo da nossa existência, há uma ideia de que gosto muito e que procuro ter presente neste meu percurso de mãe: a importância da experiência amorosa familiar.

É com a família que se conhecem as primeiras relações afetivas, que em muito serão preponderantes na qualidade dos laços que se criarão ao longo da vida. Se connosco aprenderam a dizer “gosto de ti”, a mostrar afeto, a defender o que sentem, a comunicar, a respeitar e a ser respeitados, será isso que exigirão nas experiências afetivas que venham a ter.

E só isso, já é meio caminho andado para que mesmo que o coração quebre, muitas e muitas vezes, persista a força e a coragem para apanhar os bocadinhos e alimentar a vontade de um amor maior.

Tribos sem índios.

Ela apanhava-me em casa todas as manhãs para seguirmos juntas para o liceu. Vestíamos camisa de xadrez, larga, calças de ganga e ténis AllStar. À tiracolo, uma bolsinha a puxar para o hippie, completava o figurino. Casaco nem vê-lo. Fizesse chuva ou um frio de rachar. Nada que não se aguente aos 16 anos, porque o importante mesmo, é dar o corpo ao manifesto.

Nos intervalos das aulas, encontrávamo-nos todos junto ao parapeito da janela que dava para o corredor do refeitório. Comíamos croissants de massa folhada a meio da manhã. Éramos um “bando”. Cúmplices nos gestos, na música, nos gostos. Parceiros nos sonhos, nos planos para as férias e a achar que teríamos sempre todo o tempo do mundo. Não tivemos, mas ainda assim, aproveitámo-lo bem.

A adolescência representa talvez, no ciclo vital, o período de desenvolvimento mais desafiante e exigente do indivíduo, pela natureza das transformações que nela ocorrem. Uma dessas transformações, muitas vezes a que causa maior impacto na família, é a que ocorre ao nível das relações sociais, num processo de alargamento das crenças e valores, em que os amigos assumem o papel principal.

Um adolescente de 16 anos quer ainda misturar-se na multidão, ser aceite e respeitado pelo grupo de pertença e isso implica muitas vezes comportar-se como os amigos e adotar os comportamentos preconizados pela maioria. É o grupo que afinal condiciona as relações sociais dos seus membros e que define o manual de normas – valores, estilos de vida, moda, música… entendido e aceite por todos. E esta sensação confortável de que “este é o meu lugar” é de uma enorme proteção para o jovem, contribuindo para o seu bem estar e permitindo que se construam relações de proximidade e suporte significativas.

Por outro lado, como já era de esperar porque tudo tem o seu revés, o conformismo ao grupo pode tornar-se tóxico, sempre que coloque em causa os valores do adolescente e o obrigue a adoptar comportamentos com os quais não concorda, transformando-o em alguém que efetivamente não é. Importa por isso pensar de que forma podemos estar próximos, contribuindo para que se “enturmem” sem perder aquela que é a sua individualidade:

Treinar competências pessoais e sociais, estimulando a tomada de posição e a auto-afirmação no palco lá de casa. Podemos não concordar, podemos achar que têm o mundo no umbigo, mas é seu o direito de defenderem e expressarem aqueles que são os seus valores;

Alargar o círculo relacional da família. Viver numa redoma pais-filho(s) limita a possibilidade de interação. Quando os pais têm também eles relações significativas fora do seio familiar e se envolvem em projetos na comunidade, permitem aos filhos movimentar-se em diferentes grupos e ter diferentes experiências de socialização;

Conhecer a companhia dos filhos e convidá-la a entrar. Tenho um amigo na casa de quem eram sempre feitas as jantaradas de grupo da universidade e há pouco tempo, quando me encontrei com a mãe, valorizei-lhe a paciência dessa altura (a casa ficava em “estado de sítio”!), ao que ela me respondeu: “Assim tive oportunidade de vos conhecer a todos e isso deixou-me sempre mais tranquila”. Saber quem são os amigos dos filhos permite-nos estar próximos das pessoas de quem gostam, compreendendo a importância que assumem nas suas vidas e o papel que desempenham no funcionamento do grupo.

E por fim mas não menos importante, lembrarmo-nos de como foi connosco. Da cumplicidade, dos risos, das lágrimas partilhadas nos desgostos de amor, das zangas que eram o fim do mundo, para no dia seguinte tudo voltar a ser como antes.

A experiência de um amigo é talvez a que mais nos ilumina por dentro e a que mais nos protege ao longo da vida, e para que esse milagre aconteça e eles escolham as suas tribos é preciso deixá-los seguir, explorar e conhecer… os desconhecidos.

Nota: E como já vem sendo um hábito bom, os créditos da imagem são da muito querida Lília Nunes Reis.

Adolescentes fomos nós

Adolescentes fomos nós.

“Não tenho que esconder a minha infância e muito menos a minha feliz adolescência , considerando “adolescência ” a partir dos 12 aos 16 anos, dado que nasci numa época onde se considerava a adolescência (ou nem nisso se pensava!) a partir dos 13 /14 anos de idade, quando aparecia a 1ª. menstruação e logo, as nossas mães diziam às amigas, classificando-nos de “mulherzinhas”…“Sabe vizinha Beatriz, a minha Nini, já lhe apareceu o período, já é mulherzinha!” … 

Foi o meu caso, e de todos os meus amigos da época…éramos crianças  até esse dia acontecer….Quanto aos rapazes a sua evolução era mais lenta e só se sabia que estavam a entrar noutro estádio da vida, quando despertavam pela cara, rompendo-a,  sinais de pequenas borbulhas, a que as pessoas chamavam “espinhas …” Curiosamente eles não eram chamados de “homenzinhos”, mas sim, dependiam da afirmação visível para todos…“Ah! já viu, o meu João já está a ficar um ” homem!”

Isto é apenas um esclarecimento , pois nós raparigas, não  recebíamos  quaisquer noções do que se passava no nosso corpo, e na transformação natural, que  nos deveriam dar,  informando-nos , quer pais, professores ou amigos mais próximos…das fases naturais do nosso crescimento fisico ou hormonal….Era os anos 40/50 , onde tudo era segredo, fazendo parecer o natural,  quase um pecado.

Eu, Nidia, a quem chamavam de Nini, era uma criança alegre, bem disposta, uma razoável estudante e com muitas amigas e amigos… Éramos quase irmãos sem maldade, embora acanhados  e desconhecedores da palavra sexo..

Eu, brincalhona e ladina como era, cedo fui “abrindo os olhos”, pois as minhas amigas eram sempre mais velhas do que eu, e foram as minhas “mestras”, nos conhecimentos que a minha mãe, não teve capacidade de me dar, apesar de ser professora… 

Enfim…os tempos falam por si….A Evolução foi-se fazendo pouco a pouco e as escolas foram abrindo horizontes… . 
Contudo, fui uma adolescente estudiosa, amiga dos seus amigos,preocupada com os outros, sonhando amor , como qualquer uma de nós…
Considero como o fato, que mais me marcou, o meu primeiro baile, pois nunca havia dançado com rapazes… Andava , então, num colégio misto, numa terra alentejana, Cuba, e o diretor, pessoa dura, esquizófrénico e sempre mal encarado, atendeu o pedido dos alunos e deixou que no largo espaço do recreio, fizessemos o nosso tão esperado baile. Tinha eu, então 16 anos…
Juntávamo-nos na casa de uma ou outra colega, e riamos só de pensar, o que nos poderia acontecer…
Vestidas como ” senhoras”, sapatinhos de meio salto, as primeiras meias de seda, lá nos juntamos aos garotos , vestidinhos a rigor com gavatinha e tudo, e dançámos até à meia noite… 
Havia rapazes já muito mais velhos , e até já homens feitos de vários anos , e nunca esquecerei a declaração de amor, dum rapaz com 22 anos, o Caixinha, que me fez uma linda declaração de amor..
Foi a 1ª. vez, que me encontrei numa situação igual, mas ” portei-me como uma senhora…”,
Agradeci dizendo que era muito nova e não queria namorar… 
Parece que recordando esta noite, ainda oiço as palavras do meu apaixonado::
 – « Nidia, és tão bonita…gosto tanto de ti…um dia quero casar contigo,..»
O nosso diretor portou-se muito bem, e no dia seguinte elogiou o nosso comportamento…”
Nídia, 86 anos

Histórias de sexo e de género.

O João chegou para atendimento. O motivo não era diferente de tantos outros.

O João estava apaixonado e queria iniciar a sua vida sexual. Tinha combinado com a namorada que era sua a tarefa de arranjar preservativo.

Na palestra da escola já tinham aprendido tudo. A confirmar a data de validade, a tirá-lo da embalagem, com cuidado, a segurar o reservatório, para não ficar com ar, para só depois o desenrolar.. O João e a namorada estavam informados e por isso, preparados.

Depois de conversarmos um pouco, o João guardou no bolso alguns preservativos mas, ao invés de se levantar, porque a fila lá fora era grande, o João ficou.

Perguntei-lhe se tinha mais alguma dúvida. E foi aí que a expressão do seu rosto alterou, que as mãos suaram e as palavras não saíram. Havia alguma coisa a angustiar o João e nós precisámos de tempo.

– “Sabe, o problema… O problema é que eu gosto dela. Mas eu gosto MESMO dela!”

– “Mas isso é bom João. É uma decisão importante…”

– “Pois, só que aqui… aqui o rapaz sou eu! E é suposto eu saber como se faz, certo?”

A ficha caiu-me.

O João estava a sofrer com aquilo que os outros esperavam de si. Neste caso, com aquilo que o seu grande amor esperava de si. Com a agravante de que ele era “o homem daquela relação.”

A sexualidade na adolescência é muito marcada por influências sociais, culturais e pelas expectativas às quais os jovens acreditam ter de corresponder e que obedecem a padrões pré definidos pelo sexo a que pertencem.

Às raparigas, pede-se ainda, que sejam comedidas, maduras, que valorizem os afetos e não o prazer ou o desejo, não devendo nunca deixar escapar qualquer manifestação explícita de interesse por um rapaz.

Já os rapazes, querem-se excitados, masculinos e fortes. É a eles que cabe a tarefa de conquista da rapariga, desvalorizando ou disfarçando quaisquer sinais de emotividade. A masculinidade é avaliada pelo número de conquistas ou “curtes” exibidas, a par das histórias, verdadeiras ou não, contadas aos colegas nos balneários.

As especificações que envolvem os papéis sexuais acima descritos, fazem parte da nossa existência enquanto seres humanos e, apesar de algumas transformações ao longo da evolução das sociedades, existem traços que permanecem estáveis e que perpetuam formas de agir e reagir sexualmente, consoante se seja homem ou mulher.

Experimentem perguntar aos vossos/as filhos/as, como é conhecida entre o grupo, uma rapariga que tem muitos namorados. E um rapaz? A resposta continua a ser, invariavelmente, a mesma…

Estes estereótipos, difundidos e alimentados pelo grupo de pares, assumem muitas vezes contornos de um manual de instruções e, inevitavelmente, exercem influência na forma como os adolescentes vivem a sua sexualidade e como a percepcionam nos outros.

Saber disto é não dizer aos meninos quando se assustam, que têm de ser uns valentes porque têm de proteger as meninas. É deixá-los chorar sempre que queiram e verbalizar o que sentem, o que os magoa, sem acharmos que têm uma “sensibilidade” estranha, feminina…

Saber disto é deixá-los crescer na certeza de que é seu o direito de não saber como se faz, o direito de pedir ajuda e o direito de viver uma sexualidade que é única e que é livre do orgão genital com que nasceram.

E finalmente, não saber disto pode significar que um dia, se a vida se fizer mais difícil, uns copos atrás de um balcão de um bar se tornem a solução mais fácil e eficaz. Afinal, só as mulheres é que ficam deprimidas…

 

P.S – Coisas boas que ajudam a pensar sobre o que andamos a dizer aos meninos e às meninas…

Dicas para estudar…

Vocês veem-se a braços com a necessidade de melhor organizar o estudo. Nós, queremos ajudar mas às vezes a coisa não é fácil e depressa estamos a despejar conselhos do tipo: “No meu tempo…”

Quando isso acontece, vocês ouvem: “No tempo da Maria Cachucha…” E o resto é barulho de fundo.

Malta jovem, nós sabemos, já por aí andámos… mas, conflitos de geração à parte, bora pensar um pouco sobre isto de estudar?

Partindo da certeza de que quando organizamos o nosso estudo e usamos técnicas que ajudam a aprender, os resultados que obtemos melhoram e os objetivos que definimos não se perdem pelo caminho, aqui ficam algumas ideias que podem ser boas sugestões quando o tempo é de estudo:

  1. Começa a estudar cedo e planeia aquilo que vais estudar durante a semana. Podes usar um calendário em papel ou até recorrer aos calendários do Google. Nele podes anotar tudo o que pretendes fazer em cada dia. Inclui neste registo os tempos de estudo, os tempos de lazer e os tempos dedicados às atividades extracurriculares (e claro, as refeições, a escola e o tempo de dormir). Este calendário deve espelhar as tuas rotinas e deve ser flexível quanto baste: se num dia ficaste até mais tarde na gelataria com os amigos, não é o fim do mundo. Compensas no dia seguinte.

  2. Um espaço de estudo bem iluminado e bem organizado é meio caminho andado para que os momentos que lá passas sejam produtivos. Antes de qualquer sessão de estudo é importante que confirmes se tens à mão tudo o que precisas: canetas, cadernos, dicionários, manuais… Todas as vezes que te levantares quando acabaste de te sentar, vão ser vezes em que a tua concentração se vai quebrar e tu vais ter de começar tudo outra vez.

  3. Evita as distrações. O telemóvel e a televisão não são bons companheiros de estudo, por isso dá uma vista de olhos no facebook e nas mensagens antes de começar a estudar e depois desliga tudo o que é tecnologia tentadora. Chato eu sei, mas muito, muito importante.

  4. Usa marcadores fluorescentes para sublinhar os tópicos e as ideias-chave a destacar e post-it para agrupar a informação mais relevante. Estes pequenos truques ajudam a memorizar a matéria com mais facilidade e rapidez.

  5. Se ouvir música te ajuda a concentrares-te melhor, podes fazê-lo mas mantém o volume baixo e tenta que a playlist que escolhes não seja a que mais te entusiasma. A ideia é evitar que desates a dançar e a cantar durante a sessão de estudo.

  6. Transforma a informação que estás trabalhar e coloca-a em palavras tuas. Pode ser um resumo ou um esquema, ou até “dar uma aula” em voz alta. Estes exercícios obrigam-te a perceber se consegues explicar aquilo que acabaste de estudar.

  7. A alimentação e o sono são muito importantes para manter o nosso cérebro disponível para aprender. Dormir bem e pelo menos 7 horas por noite e comer alimentos como as nozes, as maças, os cereais integrais, os frutos vermelhos, o peixe, os ovos e o chocolate preto, ajuda a melhorar a concentração e a estimular as nossas capacidades.

  8. Orgulha-te das tuas conquistas e dos teus erros também. Quando as coisas correm menos bem, importa pensar que estratégias podemos melhorar para ultrapassar as dificuldades. Pode ser o método de estudo, pode ser melhorar os apontamentos nas aulas e até esclarecer todas as dúvidas com o/a professor/a antes dos testes. Lembra-te: uma nota baixa num teste não significa um “Nunca”, mas sim um ”Ainda não”.

E para terminar, porque tu és a pessoa mais importante nesta história, CUIDA DE TI!

Sempre que terminares um período de testes ou uma semana mais desafiante, tira uma tarde para fazeres algo que gostes: pode ser uma saída com um grupo de amigos, pode ser uma ida ao cinema, podem ser umas horas no sofá a ouvir música ou uma maratona da tua série preferida.

Tudo o que te permita fazer uma pausa e quebrar a rotina vai ser importante para ganhar a força que precisas para atingir todos os teus objetivos, para chegar a todos os sonhos. Na escola e na vida.

Bora?

Adolescentes fomos nos

Adolescentes fomos nós.

“Quando eu era adolescente tinha um orgulho imenso em ter um pai que adorava música e estava sempre a par das novidades do que eu e a minha irmã gostávamos. Apesar de não vivermos desafogados, o meu pai comprava os LP’s que mais gostávamos e que ouvíamos vezes sem conta…..isso marcou muito, de forma positiva, a minha adolescência!

Outra coisa que os meus pais permitiam (e que a maioria das minhas amigas não podia), era ficar acordada até de madrugada (ao fim de semana ou férias) a desenhar e a ouvir música. No dia seguinte, podia acordar bem tarde. Eu adorava! E ainda hoje adoro trabalhar à noite e dormir um pouco mais de manhã…”

Célia, 42 anos

A vida dos outros.

A vida dos outros interessa-me. Ou melhor, a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me.

Interessa-me porque acredito que não é possível ajudar alguém que não vai bem na escola e nos outros contextos, sem primeiro entender como vai em casa, ou como vai por dentro.

Interessa-me porque tudo aquilo que somos, ou antes, tudo aquilo que mostramos aos outros, é resultado das nossas vivências, reflexo de tudo o que trazemos na “mochila” que colocamos às costas todos os dias.

E há “mochilas” tão pesadas que eu às vezes dou por mim a conter a vontade de chorar, quando ouço as histórias que nelas se carrega.

São histórias de perda, de abandono, de desilusão. São histórias mal explicadas e outras com detalhe a mais. São miúdos que aos 5 viram a mãe sair de casa para só voltar a entrar três anos depois, levar a irmã mais nova e desaparecer outra vez. São miúdos que aos 9 entendem como seu, o dever de proteger a mãe de um pai que grita, que bate e que se embebeda todas as noites. São miúdas que aos 15 se prostituem na rua com a irmã no banco ao lado e a mãe na curva seguinte. São histórias de vidas difíceis que a maioria de nós, felizmente, nunca imaginaria existirem.

São as vidas dos outros, que têm idade para só pensar em sonhos e guardar no coração a fé no mundo e nas pessoas mas que, em vez disso, se preocupam em saber de cor o melhor esconderijo quando os gritos tomam conta de tudo, que gostavam que alguém lhes dissesse a que lugar pertencem e que adormecem a acreditar que é amanhã que as promessas feitas se cumprem e trazem com elas a esperança de que tudo mude.

O comportamento de uma criança ou de um adolescente é sempre sintoma da sua vida psíquica, das suas experiências, da forma como tomaram conta de si.

Ora quando o seu crescimento é marcado por uma vinculação insegura, por momentos de trauma, ausência ou negligência, estará inevitavelmente comprometida a sua capacidade de se ligar aos outros e de lidar com os desafios da vida, nos quais a escola e a aprendizagem se incluem. Capacidade esta, só reparável com o amor das relações que quebram o ciclo, que ajudam a colar os pedaços e a fazer acreditar. Outra vez.

Por tudo isto e porque o sítio onde se nasce continuará a ser sempre uma questão de sorte, não nos limitemos a julgar, a repreender, a criticar, a enquadrar um determinado comportamento naquelas que são as nossas vivências, naquele que é o nosso quadro de valores. Há quem esteja dele muito distante e apenas precise de alguém que saiba olhar e esteja disponível para entender.

Às vezes, aquilo que eu faço é aquilo que me é possível fazer naquele momento e isso não resume tudo aquilo que eu sou. Tudo aquilo o que eu trago cá dentro.

Assim é connosco. Assim será com eles.

Aprender a estudar.

Chamamos-lhes estudantes mas a maioria dos alunos não sabe estudar, o que até é perfeitamente compreensível uma vez que tal, nunca lhes foi ensinado. Estranhamente, porque todos vão ter de o fazer durante, pelo menos, uma década de vida.

E se até ao 3º ciclo as coisas correm mais ou menos tranquilas e basta agarrar nos livros um ou dois dias antes do teste, o ingresso no ensino secundário traz consigo novos desafios para os quais é importante que eles estejam preparados. E nós também.

Aprende-se a estudar estudando mas existem algumas premissas que já aqui foram abordadas e que podem fazer a diferença. A ideia é que a tarefa se torne mais fácil e o hábito se desenvolva, de uma forma positiva e autónoma, sem que miúdos e pais tenham de ficar à beira de um ataque de nervos, sempre que um teste se aproxima. Para além disso, pode ser útil pensar sobre questões como a rotina de estudo e as metodologias mais eficazes quando o objetivo é estudar e, sobretudo, estudar bem:

O ambiente. Todos sabemos que quando estamos num local onde nos sentimos bem, somos capazes de produzir mais e com maior qualidade. Assim é em relação ao local de estudo. O espaço onde se dedicam a aprender deve ser um espaço calmo, organizado, agradável no que se refere à temperatura e à luminosidade e adequado do ponto de vista da ergonomia – cadeira e secretária que permitam uma boa postura corporal. Muitas vezes noto que o hábito é andar a saltitar pela casa. Ora estudam na sala, ora na cozinha, ora no quarto, o que pode não ser muito favorável à sensação de tranquilidade e de organização, aqui são tão necessárias.

A regularidade. A ideia é evitar o estudo intensivo na véspera dos testes, que deve ser um dia dedicado apenas à revisão dos conteúdos que foram sendo trabalhados atempadamente. Sem stress. Isto implica que regularmente se dedique algum tempo a pensar nos conteúdos que foram aprendidos, o que, para além de permitir consolidar a informação recebida, permite também a percepção de eventuais dúvidas, que deverão ser esclarecidas com o professor nas aulas seguintes. Para além disso, em cada sessão de estudo e como forma de manter a motivação, é importante alternar as disciplinas preferidas com aquelas em que se sente mais dificuldade, a par da realização de pausas de 15 minutos por cada 45 minutos de trabalho.

As técnicas. Diferentes disciplinas requerem diferentes estratégias, mas conhecer algumas pode ser fundamental para obter melhores resultados. Para começar, é importante aprender a destacar as ideias principais ou as palavras-chave, de um determinado texto. Sublinhar, com recurso a marcadores coloridos, fazer anotações adicionais, ajuda a integrar a informação, de forma a que sejamos capazes de a compreender. Depois, pode ser importante fazer um resumo ou esquema da matéria trabalhada, já que isso nos obriga a ser capazes de a explicar por outras palavras, o que por si só, ajuda à sua consolidação. Também a resolução de exercícios é uma forma de testar os conhecimentos adquiridos e de perceber os pontos que é ainda necessário rever. Ainda neste contexto, uma estratégia que costuma ter bons resultados é pedir-lhes que nos “dêem uma aula” acerca daquilo que aprenderam. De facto, a aprendizagem torna-se mais efetiva, sempre que temos de ensinar a alguém um determinado assunto e por isso, nada melhor do que estarmos disponíveis a aprender com eles.

Finalmente, e porque se sabe que é preciso tempo e treino até que se “entranhe” uma rotina de estudo produtiva, autónoma e personalizada, é fundamental valorizar e congratular os nossos filhos/ alunos pelo esforço despendido, mais do que pelo resultado alcançado. Só assim contribuiremos para que se sintam motivados, na consciência poderosa de que têm em si, a capacidade de chegar a todo o lado, sempre que assim o decidam.