O que eles precisam de ti…

“Não vale a pena. Na maior parte das vezes, ninguém lá em casa se interessa pela minha opinião ou sequer conhece as coisas que me preocupam. Simplesmente, já me habituei.”

Ela chama-se Joana. Tem 15 anos. Tem uma família que a ama. Sabe disso. Mas às vezes, sabê-lo não é suficiente, mesmo que nos digam que assim é. Às vezes (muitas vezes), é preciso sentir. É preciso que aqueles de quem mais gostamos, parem a rotina dos dias, nos olhem nos olhos e perguntem: “Como estás?” E depois sejam capazes de esperar pela resposta, e ouvi-la. Com o corpo todo.

A história da Joana, que se assemelha às histórias de muitos outros miúdos que conheço, faz-me pensar sobre aquilo que os nossos filhos podem precisar de nós, sobretudo quando entram na adolescência e lidam com um sem fim de mudanças, às vezes tão difíceis de integrar. Profundamente crente que a consciência que temos, enquanto pais e mães, destas necessidades pode ter um impacto importante na relação que com eles construímos todos os dias, melhorando-a, arrisco-me a propor que pensemos naquilo que os filhos adolescentes precisam de nós:

Precisam dos nossos limites. Poder-se-ia pensar que o que mais desejariam no mundo seria andar por sua conta e risco, sem horários, nem justificações. Nada disso (e são eles que o dizem!). Não existe sensação de maior segurança afetiva do que a de saber que existe alguém que se preocupa, que espera por nós, que se zanga quando pisamos a linha para além do aceitável. Faz-nos sentir amados. Estabelecer as regras da família, que incluem os horários de regresso, as tarefas em casa, mas também o respeito e a clareza dos diferentes papéis familiares, e acordar consequências para o não cumprimento do que foi definido, é fundamental para que se sintam mais seguros. De quem são e do que esperam de si.

Precisam que os libertemos. Embora às vezes surja alguma confusão em relação a este assunto, permitir-lhes mais liberdade nada tem a ver com a ausência de limites. Tem a ver com deixá-los experimentar coisas novas, ser autónomos, conquistar responsabilidades, fazer amigos… É assim que conhecem o mundo e se preparam para se tornarem adultos.

Precisam que os saibamos ouvir. Eles precisam de falar. Uns fazem-nos com mais facilidade e com mais pormenor do que outros, mas fazem-no, sempre que lhes é dada oportunidade ou quando sentem que é o momento. Ouvir até ao fim, sem a pretensão de acharmos que já sabemos o que vai sair dali (mesmo que em 99% das vezes seja verdade…). Ouvir sem criticar e sem fazer piadas irónicas. Ouvir, tentando imaginar o que sentem. E sempre, entender os silêncios e não desistir.

Precisam dos nossos mimos. É natural enchê-los de beijos e de festas quando são pequeninos e fofos. À medida que crescem, podemos facilmente perder o hábito do toque. Ou porque eles rejeitam, ou porque nos sentimos sem jeito. É normal que não queiram andar a receber beijos constantes da mãe ou do pai (sobretudo se há amigos por perto), mas saber-lhes-á muito bem receber um beijo ou um abraço apertado de bons dias, ou uma festa na cabeça quando passamos por perto. O toque é importante e deve manter-se como forma de comunicação, ainda que com o devido enquadramento que esta fase de vida geralmente exige.

Precisam que os queiramos conhecer. Sim, nós conhecemo-los melhor do que ninguém, mas eles continuam a mudar todos os dias. Saber mais sobre a música que ouvem, a pessoa de quem gostam, as dificuldades que têm na escola ou os projetos de vida, dá-nos muito tema de conversa e fá-los sentir que somos capazes de nos descentrar de nós e daquilo a que estamos habituados, e aprender.

E porque esta reflexão já vai longa, talvez porque enorme é o desafio de ajudar um filho a crescer, há uma coisa que eles precisarão sempre, por mais anos que passem: Precisam que acreditemos, sem nunca desistir da pessoa que são.

A vida às vezes não é fácil e a adolescência não o é com toda a certeza (lembras-te?). É não sabermos bem quem somos e absorvermos tudo o que dizem de nós. É arriscar o que nunca se fez e, quando dá para o torto, achar que é o fim o mundo. É um sem fim de coisas novas a acontecer que constantemente desafiam e ameaçam a pessoa que queremos ser. E claro, no meio de todo este turbilhão de emoções e de incertezas, é preciso alguém que acredite, que insista e que diga: “Vai em frente!”. Todos os dias.

É pela importância disto que as bancadas da primeira fila estão reservadas às mães, aos pais, aos avós… É por causa disto que eles as procuram com os olhos e sorriem por dentro, sempre que as encontram cheias.

Adolescentes somos nós.

“A adolescência é uma viagem de barco: inevitavelmente vamos sofrer tempestades, marés altas, e teremos de nos afastar de icebergues que se vão encontrando pelo caminho. Mas também há dias de sol, de gaivotas amigas que nos sobrevoam e nos transmitem uma sensação de liberdade e alegria indescritível. O vasto oceano torna-se uno connosco e somos um só nele. E, por fim, todos nós ansiamos por desembarcar numa ilha paradisíaca, onde os nossos sonhos são cumpridos.”

Raquel, 17 anos

A vida é feita de muitas escolhas. E a deles não é exceção…

Têm idades entre os 14 e os 16 anos.
Dir-se-ia que eram feitos de sonhos, de projetos e de vontade de seguir em frente. São-no. Mas a reboque trazem com eles o peso da escolha e o medo do fracasso. O pânico de que um passo mal dado possa definir o resto das suas vidas ou fechar a história sobre a pessoa que serão. Não é assim, mas é preciso dizer-lhes isto, muitas vezes, para que o saibam, respirem fundo e avancem.

O desenvolvimento vocacional é um processo que se inicia desde o momento do nascimento e nos acompanha ao longo do ciclo de vida, com as mudanças necessárias, inerentes ao crescimento.

Em determinadas etapas do percurso escolar, como as do 9º e do 12º ano, o sistema de ensino exige aos jovens uma tomada de decisão relativamente ao curso a seguir, ou outras oportunidades relativas ao ingresso no mercado de trabalho. É uma escolha que se deseja consciente, informada e responsável, mas que não precisa em si da perspectiva de fatalidade que muitas vezes carrega.

O futuro escolar e profissional deve ser pensado como um projeto em permanente construção, passível de ser alterado e reconstruído, as vezes que forem necessárias.

Reconhecer que cada escolha é apenas mais um passo na direção desse futuro, é fundamental, tal como é fundamental o apoio dos pais, professores e educadores nestes momentos de tomada de decisão, podendo constituir bons pontos de partida os seguintes…

Estimular a que se conheçam a si próprios, a que identifiquem os seus interesses, aquilo que valorizam, os seus pontos fortes… O autoconhecimento é fundamental para que as escolhas feitas nos momentos de tomada de decisão escolar se aproximem o mais possível dos fatores que contribuirão para a sua satisfação futura e para o seu sucesso pessoal.

Ajudar a que desenvolvam um mapa de competências que, pela sua transversalidade, lhes permita enfrentar os momentos de transição e a possibilidade de fazer várias escolhas, de exercerem vários trabalhos e terem acesso a várias experiências ao longo da vida. Falo da criatividade, da flexibilidade, da autonomia, da adaptabilidade, do empreendedorismo e do pensamento crítico, mas também da inteligência emocional, da capacidade de comunicação e do espírito de equipa. Entre outras.

A escolha de um curso não significa necessariamente que é nessa área que vamos trabalhar, sobretudo num momento em que o mercado de trabalho está em constante mudança. Surgem novas profissões, extinguem-se outras e cada vez mais, as pessoas se deparam com a necessidade de reequacionar as suas trajetórias de vida e de carreira, de forma a adaptar-se às novas exigências.

E por fim, porque a “lua não fica cheia num dia” (e nós já sabemos disso), é fundamental dizer-lhes que as decisões que assumam não se encerram em si e que podemos sempre voltar atrás, mudar o rumo e recomeçar. Saber disto (e saber que nós sabemos disto), tira-lhes um peso enorme de cima e deixa-os mais tranquilos para fazer face ao momento com a paz e a segurança necessárias, para subir um degrau de cada vez.

Quando eles preferem morrer…

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas. Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

Como se repara um coração partido?

Lembra-te das palavras ditas (ou das que gostarias de ter dito). Experimenta a tristeza. Revive a culpa, a vontade de correr atrás. E depois, a desilusão, o choro fácil, a mesma música no rewind, vezes e vezes sem conta, até chegares à promessa de não voltar a tentar.

A grande maioria de nós viveu o primeiro desgosto de amor na adolescência e por mais que saibamos (agora), que o tempo tudo cura e que a vida dá muitas voltas, seremos quase todos capazes de trazer à tona a dor de um coração partido e a certeza de que a vida nunca mais se faria feliz.

Uma das tarefas da adolescência é o alargamento das relações para além da família, a experimentação das primeiras ligações amorosas que cumprem uma função importante no desenvolvimento emocional e na preparação para os relacionamentos futuros.

Para nós, este é muitas vezes um momento difícil porque mesmo que já tenhamos lá estado, trazemos outras coisas na mochila, o que pode dificultar a tarefa de compreender o “tudo ou nada”, o choro inconsolável e a sensação de que o mundo desabou. Ainda assim, e muito por causa disto, é importante resgatar a memória do nosso adolescente apaixonado e, de forma empática, mostrar aos nossos filhos que estamos por perto e que podemos ajudar:

Validar sentimentos. Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas óptimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Mais do que conselhos ou palavras certas, o que eles precisam de ti é que os oiças, que os deixes chorar ao teu colo, pôr para fora aquilo que pensam. Mesmo que tudo pareça às vezes demasiado dramático, aceita-os no que sentem e fá-los sentir que estás disponível para compreender.

Normalizar o dia-a-dia. Encorajá-los a levantar da cama, a passar mais tempo com os amigos, a participar em atividades que ajudem a ocupar a mente e a descobrir outros motivos de satisfação, além de ser favorável à autoestima, estimula novas aprendizagens e, sobretudo, alimenta a relação com os outros, tão importante nos momentos de maior fragilidade emocional.

Aceitar que vida se faz destas coisas. Sim eu sei, mora cá dentro o desejo secreto de os proteger de tudo e de todos e por isso, sempre que alguém magoa os nossos filhos, “baixa” em nós uma espécie de avatar vingador, pronto a defender a cria. Por mais que te apeteça dizer umas quantas coisas ao objeto do amor desiludido, controla-te e deixa a vida acontecer-lhes. E se há coisas que a vida lhes ensinará (e as relações falhadas também) é a lidar com a frustração, a aceitar a quebra das expectativas e a aprender sobre quem são e como são com os outros.

E finalmente, porque esta história de sermos pais implica ter uns olhinhos cravados em nós a cada segundo da nossa existência, há uma ideia de que gosto muito e que procuro ter presente neste meu percurso de mãe: a importância da experiência amorosa familiar.

É com a família que se conhecem as primeiras relações afetivas, que em muito serão preponderantes na qualidade dos laços que se criarão ao longo da vida. Se connosco aprenderam a dizer “gosto de ti”, a mostrar afeto, a defender o que sentem, a comunicar, a respeitar e a ser respeitados, será isso que exigirão nas experiências afetivas que venham a ter.

E só isso, já é meio caminho andado para que mesmo que o coração quebre, muitas e muitas vezes, persista a força e a coragem para apanhar os bocadinhos e alimentar a vontade de um amor maior.

Tribos sem índios.

Ela apanhava-me em casa todas as manhãs para seguirmos juntas para o liceu. Vestíamos camisa de xadrez, larga, calças de ganga e ténis AllStar. À tiracolo, uma bolsinha a puxar para o hippie, completava o figurino. Casaco nem vê-lo. Fizesse chuva ou um frio de rachar. Nada que não se aguente aos 16 anos, porque o importante mesmo, é dar o corpo ao manifesto.

Nos intervalos das aulas, encontrávamo-nos todos junto ao parapeito da janela que dava para o corredor do refeitório. Comíamos croissants de massa folhada a meio da manhã. Éramos um “bando”. Cúmplices nos gestos, na música, nos gostos. Parceiros nos sonhos, nos planos para as férias e a achar que teríamos sempre todo o tempo do mundo. Não tivemos, mas ainda assim, aproveitámo-lo bem.

A adolescência representa talvez, no ciclo vital, o período de desenvolvimento mais desafiante e exigente do indivíduo, pela natureza das transformações que nela ocorrem. Uma dessas transformações, muitas vezes a que causa maior impacto na família, é a que ocorre ao nível das relações sociais, num processo de alargamento das crenças e valores, em que os amigos assumem o papel principal.

Um adolescente de 16 anos quer ainda misturar-se na multidão, ser aceite e respeitado pelo grupo de pertença e isso implica muitas vezes comportar-se como os amigos e adotar os comportamentos preconizados pela maioria. É o grupo que afinal condiciona as relações sociais dos seus membros e que define o manual de normas – valores, estilos de vida, moda, música… entendido e aceite por todos. E esta sensação confortável de que “este é o meu lugar” é de uma enorme proteção para o jovem, contribuindo para o seu bem estar e permitindo que se construam relações de proximidade e suporte significativas.

Por outro lado, como já era de esperar porque tudo tem o seu revés, o conformismo ao grupo pode tornar-se tóxico, sempre que coloque em causa os valores do adolescente e o obrigue a adoptar comportamentos com os quais não concorda, transformando-o em alguém que efetivamente não é. Importa por isso pensar de que forma podemos estar próximos, contribuindo para que se “enturmem” sem perder aquela que é a sua individualidade:

Treinar competências pessoais e sociais, estimulando a tomada de posição e a auto-afirmação no palco lá de casa. Podemos não concordar, podemos achar que têm o mundo no umbigo, mas é seu o direito de defenderem e expressarem aqueles que são os seus valores;

Alargar o círculo relacional da família. Viver numa redoma pais-filho(s) limita a possibilidade de interação. Quando os pais têm também eles relações significativas fora do seio familiar e se envolvem em projetos na comunidade, permitem aos filhos movimentar-se em diferentes grupos e ter diferentes experiências de socialização;

Conhecer a companhia dos filhos e convidá-la a entrar. Tenho um amigo na casa de quem eram sempre feitas as jantaradas de grupo da universidade e há pouco tempo, quando me encontrei com a mãe, valorizei-lhe a paciência dessa altura (a casa ficava em “estado de sítio”!), ao que ela me respondeu: “Assim tive oportunidade de vos conhecer a todos e isso deixou-me sempre mais tranquila”. Saber quem são os amigos dos filhos permite-nos estar próximos das pessoas de quem gostam, compreendendo a importância que assumem nas suas vidas e o papel que desempenham no funcionamento do grupo.

E por fim mas não menos importante, lembrarmo-nos de como foi connosco. Da cumplicidade, dos risos, das lágrimas partilhadas nos desgostos de amor, das zangas que eram o fim do mundo, para no dia seguinte tudo voltar a ser como antes.

A experiência de um amigo é talvez a que mais nos ilumina por dentro e a que mais nos protege ao longo da vida, e para que esse milagre aconteça e eles escolham as suas tribos é preciso deixá-los seguir, explorar e conhecer… os desconhecidos.

Nota: E como já vem sendo um hábito bom, os créditos da imagem são da muito querida Lília Nunes Reis.

Adolescentes fomos nós

Adolescentes fomos nós.

“Não tenho que esconder a minha infância e muito menos a minha feliz adolescência , considerando “adolescência ” a partir dos 12 aos 16 anos, dado que nasci numa época onde se considerava a adolescência (ou nem nisso se pensava!) a partir dos 13 /14 anos de idade, quando aparecia a 1ª. menstruação e logo, as nossas mães diziam às amigas, classificando-nos de “mulherzinhas”…“Sabe vizinha Beatriz, a minha Nini, já lhe apareceu o período, já é mulherzinha!” … 

Foi o meu caso, e de todos os meus amigos da época…éramos crianças  até esse dia acontecer….Quanto aos rapazes a sua evolução era mais lenta e só se sabia que estavam a entrar noutro estádio da vida, quando despertavam pela cara, rompendo-a,  sinais de pequenas borbulhas, a que as pessoas chamavam “espinhas …” Curiosamente eles não eram chamados de “homenzinhos”, mas sim, dependiam da afirmação visível para todos…“Ah! já viu, o meu João já está a ficar um ” homem!”

Isto é apenas um esclarecimento , pois nós raparigas, não  recebíamos  quaisquer noções do que se passava no nosso corpo, e na transformação natural, que  nos deveriam dar,  informando-nos , quer pais, professores ou amigos mais próximos…das fases naturais do nosso crescimento fisico ou hormonal….Era os anos 40/50 , onde tudo era segredo, fazendo parecer o natural,  quase um pecado.

Eu, Nidia, a quem chamavam de Nini, era uma criança alegre, bem disposta, uma razoável estudante e com muitas amigas e amigos… Éramos quase irmãos sem maldade, embora acanhados  e desconhecedores da palavra sexo..

Eu, brincalhona e ladina como era, cedo fui “abrindo os olhos”, pois as minhas amigas eram sempre mais velhas do que eu, e foram as minhas “mestras”, nos conhecimentos que a minha mãe, não teve capacidade de me dar, apesar de ser professora… 

Enfim…os tempos falam por si….A Evolução foi-se fazendo pouco a pouco e as escolas foram abrindo horizontes… . 
Contudo, fui uma adolescente estudiosa, amiga dos seus amigos,preocupada com os outros, sonhando amor , como qualquer uma de nós…
Considero como o fato, que mais me marcou, o meu primeiro baile, pois nunca havia dançado com rapazes… Andava , então, num colégio misto, numa terra alentejana, Cuba, e o diretor, pessoa dura, esquizófrénico e sempre mal encarado, atendeu o pedido dos alunos e deixou que no largo espaço do recreio, fizessemos o nosso tão esperado baile. Tinha eu, então 16 anos…
Juntávamo-nos na casa de uma ou outra colega, e riamos só de pensar, o que nos poderia acontecer…
Vestidas como ” senhoras”, sapatinhos de meio salto, as primeiras meias de seda, lá nos juntamos aos garotos , vestidinhos a rigor com gavatinha e tudo, e dançámos até à meia noite… 
Havia rapazes já muito mais velhos , e até já homens feitos de vários anos , e nunca esquecerei a declaração de amor, dum rapaz com 22 anos, o Caixinha, que me fez uma linda declaração de amor..
Foi a 1ª. vez, que me encontrei numa situação igual, mas ” portei-me como uma senhora…”,
Agradeci dizendo que era muito nova e não queria namorar… 
Parece que recordando esta noite, ainda oiço as palavras do meu apaixonado::
 – « Nidia, és tão bonita…gosto tanto de ti…um dia quero casar contigo,..»
O nosso diretor portou-se muito bem, e no dia seguinte elogiou o nosso comportamento…”
Nídia, 86 anos

Histórias de sexo e de género.

O João chegou para atendimento. O motivo não era diferente de tantos outros.

O João estava apaixonado e queria iniciar a sua vida sexual. Tinha combinado com a namorada que era sua a tarefa de arranjar preservativo.

Na palestra da escola já tinham aprendido tudo. A confirmar a data de validade, a tirá-lo da embalagem, com cuidado, a segurar o reservatório, para não ficar com ar, para só depois o desenrolar.. O João e a namorada estavam informados e por isso, preparados.

Depois de conversarmos um pouco, o João guardou no bolso alguns preservativos mas, ao invés de se levantar, porque a fila lá fora era grande, o João ficou.

Perguntei-lhe se tinha mais alguma dúvida. E foi aí que a expressão do seu rosto alterou, que as mãos suaram e as palavras não saíram. Havia alguma coisa a angustiar o João e nós precisámos de tempo.

– “Sabe, o problema… O problema é que eu gosto dela. Mas eu gosto MESMO dela!”

– “Mas isso é bom João. É uma decisão importante…”

– “Pois, só que aqui… aqui o rapaz sou eu! E é suposto eu saber como se faz, certo?”

A ficha caiu-me.

O João estava a sofrer com aquilo que os outros esperavam de si. Neste caso, com aquilo que o seu grande amor esperava de si. Com a agravante de que ele era “o homem daquela relação.”

A sexualidade na adolescência é muito marcada por influências sociais, culturais e pelas expectativas às quais os jovens acreditam ter de corresponder e que obedecem a padrões pré definidos pelo sexo a que pertencem.

Às raparigas, pede-se ainda, que sejam comedidas, maduras, que valorizem os afetos e não o prazer ou o desejo, não devendo nunca deixar escapar qualquer manifestação explícita de interesse por um rapaz.

Já os rapazes, querem-se excitados, masculinos e fortes. É a eles que cabe a tarefa de conquista da rapariga, desvalorizando ou disfarçando quaisquer sinais de emotividade. A masculinidade é avaliada pelo número de conquistas ou “curtes” exibidas, a par das histórias, verdadeiras ou não, contadas aos colegas nos balneários.

As especificações que envolvem os papéis sexuais acima descritos, fazem parte da nossa existência enquanto seres humanos e, apesar de algumas transformações ao longo da evolução das sociedades, existem traços que permanecem estáveis e que perpetuam formas de agir e reagir sexualmente, consoante se seja homem ou mulher.

Experimentem perguntar aos vossos/as filhos/as, como é conhecida entre o grupo, uma rapariga que tem muitos namorados. E um rapaz? A resposta continua a ser, invariavelmente, a mesma…

Estes estereótipos, difundidos e alimentados pelo grupo de pares, assumem muitas vezes contornos de um manual de instruções e, inevitavelmente, exercem influência na forma como os adolescentes vivem a sua sexualidade e como a percepcionam nos outros.

Saber disto é não dizer aos meninos quando se assustam, que têm de ser uns valentes porque têm de proteger as meninas. É deixá-los chorar sempre que queiram e verbalizar o que sentem, o que os magoa, sem acharmos que têm uma “sensibilidade” estranha, feminina…

Saber disto é deixá-los crescer na certeza de que é seu o direito de não saber como se faz, o direito de pedir ajuda e o direito de viver uma sexualidade que é única e que é livre do orgão genital com que nasceram.

E finalmente, não saber disto pode significar que um dia, se a vida se fizer mais difícil, uns copos atrás de um balcão de um bar se tornem a solução mais fácil e eficaz. Afinal, só as mulheres é que ficam deprimidas…

 

P.S – Coisas boas que ajudam a pensar sobre o que andamos a dizer aos meninos e às meninas…

Dicas para estudar…

Vocês veem-se a braços com a necessidade de melhor organizar o estudo. Nós, queremos ajudar mas às vezes a coisa não é fácil e depressa estamos a despejar conselhos do tipo: “No meu tempo…”

Quando isso acontece, vocês ouvem: “No tempo da Maria Cachucha…” E o resto é barulho de fundo.

Malta jovem, nós sabemos, já por aí andámos… mas, conflitos de geração à parte, bora pensar um pouco sobre isto de estudar?

Partindo da certeza de que quando organizamos o nosso estudo e usamos técnicas que ajudam a aprender, os resultados que obtemos melhoram e os objetivos que definimos não se perdem pelo caminho, aqui ficam algumas ideias que podem ser boas sugestões quando o tempo é de estudo:

  1. Começa a estudar cedo e planeia aquilo que vais estudar durante a semana. Podes usar um calendário em papel ou até recorrer aos calendários do Google. Nele podes anotar tudo o que pretendes fazer em cada dia. Inclui neste registo os tempos de estudo, os tempos de lazer e os tempos dedicados às atividades extracurriculares (e claro, as refeições, a escola e o tempo de dormir). Este calendário deve espelhar as tuas rotinas e deve ser flexível quanto baste: se num dia ficaste até mais tarde na gelataria com os amigos, não é o fim do mundo. Compensas no dia seguinte.

  2. Um espaço de estudo bem iluminado e bem organizado é meio caminho andado para que os momentos que lá passas sejam produtivos. Antes de qualquer sessão de estudo é importante que confirmes se tens à mão tudo o que precisas: canetas, cadernos, dicionários, manuais… Todas as vezes que te levantares quando acabaste de te sentar, vão ser vezes em que a tua concentração se vai quebrar e tu vais ter de começar tudo outra vez.

  3. Evita as distrações. O telemóvel e a televisão não são bons companheiros de estudo, por isso dá uma vista de olhos no facebook e nas mensagens antes de começar a estudar e depois desliga tudo o que é tecnologia tentadora. Chato eu sei, mas muito, muito importante.

  4. Usa marcadores fluorescentes para sublinhar os tópicos e as ideias-chave a destacar e post-it para agrupar a informação mais relevante. Estes pequenos truques ajudam a memorizar a matéria com mais facilidade e rapidez.

  5. Se ouvir música te ajuda a concentrares-te melhor, podes fazê-lo mas mantém o volume baixo e tenta que a playlist que escolhes não seja a que mais te entusiasma. A ideia é evitar que desates a dançar e a cantar durante a sessão de estudo.

  6. Transforma a informação que estás trabalhar e coloca-a em palavras tuas. Pode ser um resumo ou um esquema, ou até “dar uma aula” em voz alta. Estes exercícios obrigam-te a perceber se consegues explicar aquilo que acabaste de estudar.

  7. A alimentação e o sono são muito importantes para manter o nosso cérebro disponível para aprender. Dormir bem e pelo menos 7 horas por noite e comer alimentos como as nozes, as maças, os cereais integrais, os frutos vermelhos, o peixe, os ovos e o chocolate preto, ajuda a melhorar a concentração e a estimular as nossas capacidades.

  8. Orgulha-te das tuas conquistas e dos teus erros também. Quando as coisas correm menos bem, importa pensar que estratégias podemos melhorar para ultrapassar as dificuldades. Pode ser o método de estudo, pode ser melhorar os apontamentos nas aulas e até esclarecer todas as dúvidas com o/a professor/a antes dos testes. Lembra-te: uma nota baixa num teste não significa um “Nunca”, mas sim um ”Ainda não”.

E para terminar, porque tu és a pessoa mais importante nesta história, CUIDA DE TI!

Sempre que terminares um período de testes ou uma semana mais desafiante, tira uma tarde para fazeres algo que gostes: pode ser uma saída com um grupo de amigos, pode ser uma ida ao cinema, podem ser umas horas no sofá a ouvir música ou uma maratona da tua série preferida.

Tudo o que te permita fazer uma pausa e quebrar a rotina vai ser importante para ganhar a força que precisas para atingir todos os teus objetivos, para chegar a todos os sonhos. Na escola e na vida.

Bora?

Adolescentes fomos nos

Adolescentes fomos nós.

“Quando eu era adolescente tinha um orgulho imenso em ter um pai que adorava música e estava sempre a par das novidades do que eu e a minha irmã gostávamos. Apesar de não vivermos desafogados, o meu pai comprava os LP’s que mais gostávamos e que ouvíamos vezes sem conta…..isso marcou muito, de forma positiva, a minha adolescência!

Outra coisa que os meus pais permitiam (e que a maioria das minhas amigas não podia), era ficar acordada até de madrugada (ao fim de semana ou férias) a desenhar e a ouvir música. No dia seguinte, podia acordar bem tarde. Eu adorava! E ainda hoje adoro trabalhar à noite e dormir um pouco mais de manhã…”

Célia, 42 anos