10 coisas que odiavas quando eras adolescente.

Toda a gente sabe que quando nos tornamos mães e pais somos acometidos por uma espécie de amnésia seletiva, que nos leva a esquecer uma boa parte de quem fomos antes.

É como se nos reinventássemos, numa desejada melhor versão de nós próprios que, por mais bem intencionada que seja, acaba sempre por deixar pelo caminho coisas importantes, como por exemplo, o facto de já termos tido a idade dos nossos filhos e de já ter sido nosso, o seu sentir.

E porque às vezes é preciso fazer um rewind para que os passos em frente se façam mais felizes, arrisco-me hoje a trazer de volta algumas das coisas que talvez te tenham feito “subir as paredes” quando eras adolescente.

Ora vamos a elas…

  1. Que não te ouvissem. Exatamente quando ias começar a explicar-te, lá vinha a voz da razão que dizia algo deste género: “Já estou a ver onde queres chegar! Nem penses nisso!” E tanto que tu tinhas treinado a argumentação na noite anterior…
  2. Que banalizassem tudo. Tenho uma amiga a quem a mãe dizia: “Deixa lá filha, os homens são como os autocarros. Não apanhas este, apanhas o próximo!” Lembras-te de alguma semelhante, que te fizesse ter a certeza que os teus pais estavam a milhas do que estavas a sentir?
  3. Que partilhassem a tua intimidade com toda a gente. “Nem imaginas o tempo que passa a pôr laca na poupa.” ou, “Agora lá em casa só come ervas. Manias.”. E tu só desejavas enfiar-te no primeiro buraco que te aparecesse…
  4. Que generalizassem tudo o que fazias. Andavas tu a dar o teu melhor e lá vinham os vaticínios começados por: “Estás sempre a…” ou “Tu nunca…” Bah.
  5. Que criticassem a roupa que vestias (válido para o penteado, para a música, alimentação…) Ah, e que te aconselhassem a levar um casaquinho.
  6. Que exigissem que soubesses o que fazer no futuro. “Já sabes qual é o curso? Não vais estudar, vais trabalhar!” ou “Tens de pensar bem, porque isto não está para brincadeiras!” E tu sabias disso, mas nem sempre era fácil decidir.
  7. Que duvidassem da tua capacidade para escolher os amigos (válido para os namorados/as também…). E logo quando tu te tinhas conseguido aproximar da malta mais arrojada do liceu…
  8. Que perguntassem “Como foi a escola? Havia sempre tanto para a dizer mas o enjoo da mesma pergunta todos os dias, só resultava num também enjoado: “Correu bem.”
  9. Que ligassem 30 vezes por dia.
  10. Que mandassem ligar outras 30.
  11. Que te comparassem aos outros. “Ah e tal, mas a Mariana foi para a Católica.” “E o que é que eu tenho a ver com isso? – perguntavas tu…” Absolutamente nada, te digo agora eu.
  12. Que pusessem em causa as tuas competências. “Tens a certeza que ficas bem? Se calhar a mãe deixa-te um franguinho guisado feito e basta aquecer…” E tu só querias que se fossem embora depressa, para poderes comer Nestum no sofá (ou quem sabe convidar o resto da malta lá para casa…)
Estas são 12 das frases que, muito provavelmente, odiavas ouvir na adolescência.

Aposto que com boa vontade, conseguias arranjar mais meia dúzia, tal como aposto também que se usares estes exemplos como checklist das tuas reações aos comportamentos dos teus filhos , ainda dás por ti a assinalar alguns.

Toda a gente sabe, que quando nos tornamos mães e pais, a coisa muda de figura e é tão mais fácil falar do que fazer. Afinal, amamentámos as criaturas e aturámos-lhes todas as birras, o que quase nos dá o direito de dizer todas estas coisas. Isso, e o facto de os amarmos como ninguém.

Toda a gente sabe disto, mas às vezes é mesmo preciso trazer a memória do adolescente que fomos e voltar a calçar os ténis, para entender…

P.S – Não te proponho que coles esta lista no frigorífico, porque existem coisas que devemos guardar para nós, mas se a colares num lugar mais reservado (pode ser no coração), sempre dá para lhe dar uma olhadela volta e meia… Eles agradecem. E tu já te lembras porquê. 

Pré-adolescência, essa bela localidade…

Falamos muito sobre a adolescência, falamos ainda mais sobre a infância mas pouco falamos sobre a transição de uma fase para a outra, sobre as mudanças que chegam de mansinho (ou de rompante) e, sem pedir licença, se instalam na vida deles e na nossa, conduzindo-nos a todos às naturais mudanças e reajustes.

É geralmente a partir dos 9/10 anos, que começam a surgir os primeiros sinais de que a adolescência está próxima e, muito embora estas alterações sejam vividas de forma única por cada criança e por cada família, existem alguns comportamentos típicos nesta altura:

Maior necessidade de espaço próprio. Às vezes oiço pais a dizer: “Em minha casa não há portas fechadas!” Percebo. Mas percebo também, que a partir de uma determinada altura, eles começam a sentir falta desse espaço, a gostar de estar mais tempo sozinhos e a precisar de uma maior privacidade e respeito pelos espaços individuais. Estar por perto mas permitir uma maior intimidade nos cuidados pessoais, no banho, no tempo passado no quarto, são boas premissas e não são incompatíveis com o tempo em família. Pelo contrário, são perfeitamente conjugáveis, e devem sê-lo.

Maior irritabilidade, às vezes sem razão óbvia ou facilmente identificável. Atividades ou brincadeiras anteriormente aceites, podem tornar-se extremamente intoleráveis nesta altura. Não insistir, respeitar e sobretudo não ridicularizar, sendo sensível às mudanças (e não fazendo delas um cavalo de batalha), pode ser uma boa ajuda. Para todos.

Rejeição de atividades anteriormente desejadas, como determinadas brincadeiras ou programas de tempos livres, por exemplo. Importa aqui compreender e permitir que a seleção e a experimentação se faça espontaneamente. Lembra-te: a pré-adolescência permite que se comece a preparar terreno para aquisições importantes: um maior auto-conhecimento, a definição de uma identidade própria, uma maior autonomia… E para isso, é preciso experimentar, rejeitar, mudar de opinião, arriscar coisas diferentes.

Mau humor ou estados de tristeza mais frequentes. Geralmente, as crianças a partir desta idade experienciam mais emoções negativas e isso não significa que exista algum problema, mas sim que estão em processo de adaptação e a aprender a lidar com os estados emocionais de uma forma mais complexa. Se estiveres triste e eu te acenar com um gelado, a tristeza desaparece? Não. Pois a partir desta idade, começa a ser semelhante.

Se para nós estas alterações nem sempre são pacíficas ou até esperadas nas idades de que falamos, não é menos verdade que para eles, que as vivem na primeira pessoa, também não. E é por isso que é tão fundamental conhecê-las e aceitá-las como adaptativas e parte integrante do fantástico processo de crescer.

Não esquecendo nunca, que aos pais, cabe o papel de porto seguro no meio das águas (por vezes agitadas) do crescimento dos filhos. Aos filhos, a coragem de navegar e de tornar sua, a rota a percorrer.

É através dela que se tornarão, progressivamente, capazes de se compreender melhor, de compreender os outros, de desenvolver relações afetivas coesas e seguras, de pensar o futuro e ter vontade de rumar aos portos seguintes. Com a esperança e a vontade que lhes é merecida.

Afinal, de mares calmos, não reza a história dos bons marinheiros.

 

Adolescentes fomos nós.

Se querem ver-me perdida nas horas é darem-me gente com histórias dentro para contar.

Foi assim naquela noite. Depois do pão, do queijo e do vinho sobre a mesa, depois da partilha dos desaires da semana e do ímpeto aos sonhos e aos projetos para a velhice, encontrámos, ao balcão, o António (nome fictício).

Não mais dali saímos, não antes das histórias nos transbordarem a alma e nos vincarem a certeza de que uma das grandes riquezas da vida, são as pessoas.

Falou-nos da mãe e da gratidão que lhe tem. Falou-nos da mota e de quanto valiam duzentos contos na altura. Falou-nos dos filhos e do que um pai sofre quando os vê crescer longe. Falou-nos da mulher companheira e das tempestades a que têm sobrevivido. Disse-nos, com um orgulho imenso (dela e de si próprio), que desde que a mulher tinha voltado a estudar, finalmente tinha aprendido a cozinhar e a passar as camisas a ferro. “Ainda não ficam grande coisa, mas vão ficando cada vez melhor”. Pediu-nos truques para que a pele do peixe assado na brasa não ficasse agarrada à grelha. Partilhou outros, que aprendeu com a vida. Pediu-nos que não tivéssemos só um filho. “Porque ser filho sozinho no mundo é uma tristeza sem fim.” Falou-nos de tudo e falou-nos de nada, porque a vida é feita das pequenas coisas e do amor com que nos lembramos delas.

E assim, o António, que nunca nos tinha posto a vista em cima, olhou-nos como já poucas pessoas o fazem e ainda nos disse: “Vocês são mesmo boa gente. Eu sei, porque sinto.”

Soubesses tu António, que por nos teres sorrido ao balcão e teres pedido mais um copo de vinho para encetar a conversa, mudaste a pessoa que eu era e tornaste-a substancialmente melhor.

Tudo, pela honra de te poder trazer comigo.

Carta de uma adolescente aos adultos.

Queridos Adultos,

Daqui escreve-vos uma adolescente. Primeiro que tudo, queria pedir que acalmassem essas hormonas. Isto porque quando se fala dos vossos filhos adolescentes, parecem as nossas.

Nós não somos um problema, não somos todos deprimidos. Temos opiniões, sabemos falar, não temos uma linguagem diferente da vossa. Queria pedir-vos também que larguem esse preconceito de que a palavra “adolescente” tem a mesma origem que a palavra “problema”. Larguem os livros que compraram sobre como lidar com um adolescente, nós não precisamos todos da mesma coisa, pelo contrário, tentem conhecer-nos, perceber o que nos faz felizes, o que nos faz tristes, o que nos magoa, as feridas que ainda temos abertas.

Motivem-nos! Nós precisamos de ser motivados, cada um de nós precisa de acreditar que tem o poder de mudar. Somos a próxima geração, não queremos ouvir “este país está a descambar”, “é tudo uma vergonha… que horror!”. Motivem-nos! É em nós que têm de pôr a pressão toda, não desistam de nós. Abram as nossas mentes, não nos deixem pensar tudo quadrado!

Quanto ao ensino… Bem, quanto ao ensino, tentem perceber que não é fácil estar 90 minutos a olhar para um professor a debitar matéria. Nesses 90 minutos há sempre alguma coisa mais engraçada para prestar atenção do que estar a ouvir o professor, por isso, tentem ensinar de outra maneira, não nos obriguem a decorar, ajudem-nos a perceber.

Deixem-nos cair as vezes que forem necessárias, nós precisamos disso mesmo, precisamos de cair. São as quedas que nos vão mostrando como somos fortes e como somos capazes de ultrapassar os obstáculos da vida. Não nos aparem os golpes, temos que aprender sozinhos.

Não nos tentem ensinar o que demoraram 40 anos a aprender. Vocês aprenderam vivendo e nós também vamos ter que viver para aprender. Deixem-nos viver, deixem-nos demorar o tempo que for preciso a aprender… Enquanto vocês vivem tudo a 500, nós vivemos tudo a 5000 e é normal fazermos de uma coisa pequena um grande drama, não se zanguem connosco por isso. Mostrem-nos que não é nenhum drama, mostrem-nos que existe solução e que há coisas bem piores.

Deixem-nos viver intensamente.

Podem ser os melhores anos das nossas vidas, é “SÓ” ajudarem-nos a viver.

Obrigada,

Uma Adolescente

Nota: Conheci a Matilde na Capazes, lugar onde coisas boas acontecem. E assim, fazendo justiça à grandeza das palavras que escreve, a Matilde partilhou o seu texto para que ele pudesse brilhar na Lua também. Obrigada Matilde, pela honra da tua voz e pelas coisas bonitas que trazes dentro. Não nos esqueçamos nunca. Viver intensamente será sempre o caminho mais feliz.

O que eles precisam de ti…

“Não vale a pena. Na maior parte das vezes, ninguém lá em casa se interessa pela minha opinião ou sequer conhece as coisas que me preocupam. Simplesmente, já me habituei.”

Ela chama-se Joana. Tem 15 anos. Tem uma família que a ama. Sabe disso. Mas às vezes, sabê-lo não é suficiente, mesmo que nos digam que assim é. Às vezes (muitas vezes), é preciso sentir. É preciso que aqueles de quem mais gostamos, parem a rotina dos dias, nos olhem nos olhos e perguntem: “Como estás?” E depois sejam capazes de esperar pela resposta, e ouvi-la. Com o corpo todo.

A história da Joana, que se assemelha às histórias de muitos outros miúdos que conheço, faz-me pensar sobre aquilo que os nossos filhos podem precisar de nós, sobretudo quando entram na adolescência e lidam com um sem fim de mudanças, às vezes tão difíceis de integrar. Profundamente crente que a consciência que temos, enquanto pais e mães, destas necessidades pode ter um impacto importante na relação que com eles construímos todos os dias, melhorando-a, arrisco-me a propor que pensemos naquilo que os filhos adolescentes precisam de nós:

Precisam dos nossos limites. Poder-se-ia pensar que o que mais desejariam no mundo seria andar por sua conta e risco, sem horários, nem justificações. Nada disso (e são eles que o dizem!). Não existe sensação de maior segurança afetiva do que a de saber que existe alguém que se preocupa, que espera por nós, que se zanga quando pisamos a linha para além do aceitável. Faz-nos sentir amados. Estabelecer as regras da família, que incluem os horários de regresso, as tarefas em casa, mas também o respeito e a clareza dos diferentes papéis familiares, e acordar consequências para o não cumprimento do que foi definido, é fundamental para que se sintam mais seguros. De quem são e do que esperam de si.

Precisam que os libertemos. Embora às vezes surja alguma confusão em relação a este assunto, permitir-lhes mais liberdade nada tem a ver com a ausência de limites. Tem a ver com deixá-los experimentar coisas novas, ser autónomos, conquistar responsabilidades, fazer amigos… É assim que conhecem o mundo e se preparam para se tornarem adultos.

Precisam que os saibamos ouvir. Eles precisam de falar. Uns fazem-nos com mais facilidade e com mais pormenor do que outros, mas fazem-no, sempre que lhes é dada oportunidade ou quando sentem que é o momento. Ouvir até ao fim, sem a pretensão de acharmos que já sabemos o que vai sair dali (mesmo que em 99% das vezes seja verdade…). Ouvir sem criticar e sem fazer piadas irónicas. Ouvir, tentando imaginar o que sentem. E sempre, entender os silêncios e não desistir.

Precisam dos nossos mimos. É natural enchê-los de beijos e de festas quando são pequeninos e fofos. À medida que crescem, podemos facilmente perder o hábito do toque. Ou porque eles rejeitam, ou porque nos sentimos sem jeito. É normal que não queiram andar a receber beijos constantes da mãe ou do pai (sobretudo se há amigos por perto), mas saber-lhes-á muito bem receber um beijo ou um abraço apertado de bons dias, ou uma festa na cabeça quando passamos por perto. O toque é importante e deve manter-se como forma de comunicação, ainda que com o devido enquadramento que esta fase de vida geralmente exige.

Precisam que os queiramos conhecer. Sim, nós conhecemo-los melhor do que ninguém, mas eles continuam a mudar todos os dias. Saber mais sobre a música que ouvem, a pessoa de quem gostam, as dificuldades que têm na escola ou os projetos de vida, dá-nos muito tema de conversa e fá-los sentir que somos capazes de nos descentrar de nós e daquilo a que estamos habituados, e aprender.

E porque esta reflexão já vai longa, talvez porque enorme é o desafio de ajudar um filho a crescer, há uma coisa que eles precisarão sempre, por mais anos que passem: Precisam que acreditemos, sem nunca desistir da pessoa que são.

A vida às vezes não é fácil e a adolescência não o é com toda a certeza (lembras-te?). É não sabermos bem quem somos e absorvermos tudo o que dizem de nós. É arriscar o que nunca se fez e, quando dá para o torto, achar que é o fim o mundo. É um sem fim de coisas novas a acontecer que constantemente desafiam e ameaçam a pessoa que queremos ser. E claro, no meio de todo este turbilhão de emoções e de incertezas, é preciso alguém que acredite, que insista e que diga: “Vai em frente!”. Todos os dias.

É pela importância disto que as bancadas da primeira fila estão reservadas às mães, aos pais, aos avós… É por causa disto que eles as procuram com os olhos e sorriem por dentro, sempre que as encontram cheias.

Adolescentes somos nós.

“A adolescência é uma viagem de barco: inevitavelmente vamos sofrer tempestades, marés altas, e teremos de nos afastar de icebergues que se vão encontrando pelo caminho. Mas também há dias de sol, de gaivotas amigas que nos sobrevoam e nos transmitem uma sensação de liberdade e alegria indescritível. O vasto oceano torna-se uno connosco e somos um só nele. E, por fim, todos nós ansiamos por desembarcar numa ilha paradisíaca, onde os nossos sonhos são cumpridos.”

Raquel, 17 anos

A vida é feita de muitas escolhas. E a deles não é exceção…

Têm idades entre os 14 e os 16 anos.
Dir-se-ia que eram feitos de sonhos, de projetos e de vontade de seguir em frente. São-no. Mas a reboque trazem com eles o peso da escolha e o medo do fracasso. O pânico de que um passo mal dado possa definir o resto das suas vidas ou fechar a história sobre a pessoa que serão. Não é assim, mas é preciso dizer-lhes isto, muitas vezes, para que o saibam, respirem fundo e avancem.

O desenvolvimento vocacional é um processo que se inicia desde o momento do nascimento e nos acompanha ao longo do ciclo de vida, com as mudanças necessárias, inerentes ao crescimento.

Em determinadas etapas do percurso escolar, como as do 9º e do 12º ano, o sistema de ensino exige aos jovens uma tomada de decisão relativamente ao curso a seguir, ou outras oportunidades relativas ao ingresso no mercado de trabalho. É uma escolha que se deseja consciente, informada e responsável, mas que não precisa em si da perspectiva de fatalidade que muitas vezes carrega.

O futuro escolar e profissional deve ser pensado como um projeto em permanente construção, passível de ser alterado e reconstruído, as vezes que forem necessárias.

Reconhecer que cada escolha é apenas mais um passo na direção desse futuro, é fundamental, tal como é fundamental o apoio dos pais, professores e educadores nestes momentos de tomada de decisão, podendo constituir bons pontos de partida os seguintes…

Estimular a que se conheçam a si próprios, a que identifiquem os seus interesses, aquilo que valorizam, os seus pontos fortes… O autoconhecimento é fundamental para que as escolhas feitas nos momentos de tomada de decisão escolar se aproximem o mais possível dos fatores que contribuirão para a sua satisfação futura e para o seu sucesso pessoal.

Ajudar a que desenvolvam um mapa de competências que, pela sua transversalidade, lhes permita enfrentar os momentos de transição e a possibilidade de fazer várias escolhas, de exercerem vários trabalhos e terem acesso a várias experiências ao longo da vida. Falo da criatividade, da flexibilidade, da autonomia, da adaptabilidade, do empreendedorismo e do pensamento crítico, mas também da inteligência emocional, da capacidade de comunicação e do espírito de equipa. Entre outras.

A escolha de um curso não significa necessariamente que é nessa área que vamos trabalhar, sobretudo num momento em que o mercado de trabalho está em constante mudança. Surgem novas profissões, extinguem-se outras e cada vez mais, as pessoas se deparam com a necessidade de reequacionar as suas trajetórias de vida e de carreira, de forma a adaptar-se às novas exigências.

E por fim, porque a “lua não fica cheia num dia” (e nós já sabemos disso), é fundamental dizer-lhes que as decisões que assumam não se encerram em si e que podemos sempre voltar atrás, mudar o rumo e recomeçar. Saber disto (e saber que nós sabemos disto), tira-lhes um peso enorme de cima e deixa-os mais tranquilos para fazer face ao momento com a paz e a segurança necessárias, para subir um degrau de cada vez.

Quando eles preferem morrer…

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas. Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

Como se repara um coração partido?

Lembra-te das palavras ditas (ou das que gostarias de ter dito). Experimenta a tristeza. Revive a culpa, a vontade de correr atrás. E depois, a desilusão, o choro fácil, a mesma música no rewind, vezes e vezes sem conta, até chegares à promessa de não voltar a tentar.

A grande maioria de nós viveu o primeiro desgosto de amor na adolescência e por mais que saibamos (agora), que o tempo tudo cura e que a vida dá muitas voltas, seremos quase todos capazes de trazer à tona a dor de um coração partido e a certeza de que a vida nunca mais se faria feliz.

Uma das tarefas da adolescência é o alargamento das relações para além da família, a experimentação das primeiras ligações amorosas que cumprem uma função importante no desenvolvimento emocional e na preparação para os relacionamentos futuros.

Para nós, este é muitas vezes um momento difícil porque mesmo que já tenhamos lá estado, trazemos outras coisas na mochila, o que pode dificultar a tarefa de compreender o “tudo ou nada”, o choro inconsolável e a sensação de que o mundo desabou. Ainda assim, e muito por causa disto, é importante resgatar a memória do nosso adolescente apaixonado e, de forma empática, mostrar aos nossos filhos que estamos por perto e que podemos ajudar:

Validar sentimentos. Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas óptimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Mais do que conselhos ou palavras certas, o que eles precisam de ti é que os oiças, que os deixes chorar ao teu colo, pôr para fora aquilo que pensam. Mesmo que tudo pareça às vezes demasiado dramático, aceita-os no que sentem e fá-los sentir que estás disponível para compreender.

Normalizar o dia-a-dia. Encorajá-los a levantar da cama, a passar mais tempo com os amigos, a participar em atividades que ajudem a ocupar a mente e a descobrir outros motivos de satisfação, além de ser favorável à autoestima, estimula novas aprendizagens e, sobretudo, alimenta a relação com os outros, tão importante nos momentos de maior fragilidade emocional.

Aceitar que vida se faz destas coisas. Sim eu sei, mora cá dentro o desejo secreto de os proteger de tudo e de todos e por isso, sempre que alguém magoa os nossos filhos, “baixa” em nós uma espécie de avatar vingador, pronto a defender a cria. Por mais que te apeteça dizer umas quantas coisas ao objeto do amor desiludido, controla-te e deixa a vida acontecer-lhes. E se há coisas que a vida lhes ensinará (e as relações falhadas também) é a lidar com a frustração, a aceitar a quebra das expectativas e a aprender sobre quem são e como são com os outros.

E finalmente, porque esta história de sermos pais implica ter uns olhinhos cravados em nós a cada segundo da nossa existência, há uma ideia de que gosto muito e que procuro ter presente neste meu percurso de mãe: a importância da experiência amorosa familiar.

É com a família que se conhecem as primeiras relações afetivas, que em muito serão preponderantes na qualidade dos laços que se criarão ao longo da vida. Se connosco aprenderam a dizer “gosto de ti”, a mostrar afeto, a defender o que sentem, a comunicar, a respeitar e a ser respeitados, será isso que exigirão nas experiências afetivas que venham a ter.

E só isso, já é meio caminho andado para que mesmo que o coração quebre, muitas e muitas vezes, persista a força e a coragem para apanhar os bocadinhos e alimentar a vontade de um amor maior.