Crescer também é isto…

Hoje dispensaste-me outra vez. Fechaste a porta da casa de banho e disseste: “Podes ir mãe, que eu dou conta disto.” Acompanhaste a certeza com um sacolejar de mão a indicar-me o caminho, não fossem ter ficado em mim algumas dúvidas. Apareceste pouco tempo depois, lavado, vestido, com o cabelo cheio de gel e o sorriso de sempre: “Vamos, que os meus amigos estão à espera!” Hoje o dia é vosso e eu vou ficar a aguardar o regresso e o sorriso. Por mais que cresças, esses ninguém mos tira. Aproveita muito, meu amor maior.
Eu aguento-me.

A lua não fica cheia num dia…

Caminho a um passo apressado. O do costume.
Constante, alinhado com o relógio (ou desalinhado pela hora tardia), cheio de certezas mal amanhadas e de verdades absolutas.
Julgo-te logo atrás de mim, quando te abro a porta do carro, mas depressa percebo que não estás.
Procuro-te com o olhar…
Passo demorado, ao sabor do vento e da vida, cheio de dúvidas certeiras e em estado de puro êxtase com os sons, as cores, o traçado do chão…
Desatino.
É tarde. Tu sabes disso, porque já to disse 100 vezes desde que te acordei.
“Não há vida para isto!” volto a repetir, para depois ler nos teus olhos: Mas há vida mamã, e está em todo lado. Ainda consegues ver?

Esta história tem sido minha. Quase todas as manhãs.
E não há nenhuma delas em que eu não deseje ser diferente, ou pelo menos, ser mais vezes capaz de me espantar com o meu filho, de continuar a esforçar-me para estar atenta e disponível e reaprender essa sábia forma de vida que traz dentro.
Já a tive, sabes?
Já me detive no caminho e acompanhei com o olhar a formiga pequenina que me atravessava o caminho. Já corri atrás do som feliz do passarinho que pousou por instantes na mesa de esplanada ao lado. Já imaginei até, se o barulho da chuva não seria antes uma legião de borboletas azuis, prontas a resgatar-me da sala de aula.
E depois perdi-a. Perdi-me.
Nem sei bem quando, mas decerto quando pensei que já tinha visto quase tudo, ou sempre achei que havia coisas mais importantes do que a vida a acontecer, no chão que piso, na mesa ao lado, no cheiro da terra molhada…
Não sei quando perdemos de vista a capacidade instantânea de nos espantarmos com o mundo, mas sei que o mundo seria um lugar tão melhor, se os adultos que nele moram, pudessem mais vezes esquecer o relógio, e SER.

Não sei quando nos perdemos de vista, mas sinto, na tua mão pequenina que ainda não desistiu de me encantar, que vou a tempo de me encontrar.
Vou sempre a tempo, meu amor…

E é por isso que amanhã acordo uma hora mais cedo, e cedo ao passo demorado e à perfeita delícia de te acompanhar…

Nota: Se tal como eu te sentes assim (às vezes tempo demais), partilho contigo algumas ideias que procuro ter como farol, capaz de guiar a vontade de manter vivo e de boa saúde este seu (nosso) sentido de espanto:

Desligar a televisão e esconder os tablet e os outros gadgets maravilha (depreendo que imagines porquê…);

Manter o contacto com a natureza e tornar mais conscientes as sensações que isso nos traz: pôr os pés descalços na terra, comer frutos das árvores, fazer uma horta na varanda… Deixar a vida acontecer ao ar livre, sempre e o mais possível;

Dar espaço para a brincadeira livre. Enquanto adultos interferimos vezes demais neste processo: orientamos, damos diretrizes, proibimos ou permitimos… Brincar livremente e escolher a forma e o conteúdo da brincadeira favorece, como nenhuma outra atividade, o desenvolvimento social, criativo e emocional das crianças;

Encorajar a exploração do ambiente. As crianças são naturais inventoras e hábeis exploradoras do espaço e do meio em que se movem. Estimular essa descoberta traz-lhes ferramentas únicas para se superarem do ponto de vista físico e cognitivo;

Estimular o questionamento acerca das descobertas feitas. “O que achas que aconteceu aqui? Porque será que este passarinho preferiu fazer o ninho nesta árvore?” Formular hipóteses em conjunto acerca do que é observado, permitindo que construam as suas conclusões, traz significado próprio a todas as experiências e aprendizagens, e fortalece-as;

Transformar objetos da natureza e do quotidiano, descobrindo-lhes novas funções: estimula o pensamento divergente, a criatividade, a resolução de problemas. Resistir à tentação dos brinquedos luminosos, barulhentos, “pilhodependentes” e tão pouco desafiantes, é o primeiro passo para que isto possa acontecer;

Permitir o “aborrecimento”, e abraçá-lo como oportunidade única para estar atento ao que lhes acontece dentro e ao seu redor. Garanto-te que o que daí advém, é quase mágico.

E porque acabar de uma forma bonita ajuda a que o fim perdure, o vídeo que hoje te deixo, transforma tudo isto em poesia… Enjoy. <3

A elas e a eles, que educam os filhos dos outros.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração.

Que lhes dão colo e mimo e espaço para crescer. Que aprendem a lê-los por dentro, a cada sorriso tímido ou a cada hesitação no olhar. Que ensinam a paixão pelas histórias, a curiosidade pela natureza e lhes alimentam a fome de mundo e de saber.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração. Que dão tudo de si, todos os dias, para que o brilho se mantenha a dançar nos olhos pequeninos e atentos e a vontade de aprender seja sempre acha de fogueira, e de calor.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração. Que escondem a tristeza dos dias tristes num sorriso doce que entregam de bandeja, a quem dele precisa para acreditar que a vida é, quase sempre, bonita de viver. Que partilham a alegria das ideias novas e dos projetos que sonharam na noite anterior, para os fazer crescer no dia seguinte, no chão da sala, entre papel de seda e de cenário, no meio dos lápis de carvão e das aguarelas, em que o único guia é a desafinação feliz das vozes que riem e gritam e se entusiasmam a cada descoberta feita.

Às mulheres e aos homens que escolheram para a caminhada, a bonita tarefa de educar os filhos dos outros, a minha gratidão eterna. Por quem são, pela forma como o são e sobretudo por se darem todos os dias, inteiros, àqueles por quem temos um amor sem fim.

Tenho cá para mim que foi a vida que vos escolheu a vocês, porque sabe da grandeza da tarefa e da importância de se tornar eterno no coração das nossas (vossas) crianças, ensinando-as a fazer do crescimento, a mais bela das histórias de aventura.

Das coisas bonitas que me enchem o coração…

 

“Tivesse eu os tecidos bordados dos céus, 
lavrados com o ouro e a prata da luz.
Os tecidos azuis e turvos e de breu
da noite e da luz e da meia luz,
estenderia esses tecidos a teus pés.

Mas eu, que sou pobre, apenas tinha os meus sonhos.

São os meus sonhos que estendi a teus pés,
sê suave ao pisar, porque pisas os meus sonhos.”

William Butler Yeats

Não meus senhores, eu não entendo…

Não meus senhores, eu não entendo que se deixem as crianças ao portão da escola e não se possa sorrir ao professor, e aos funcionários e às outras crianças, desejando-lhes um dia feliz;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas se tenham tornado jardins de betão, sem terra, nem árvores, nem cor;

Não meus senhores, eu não entendo que a seleção dos profissionais que cuidam das crianças todos os dias, não obedeça a uma listagem extensa de critérios rigorosos, que mais não fazem do que procurar garantir-lhes o direito de crescer com os melhores modelos;

Não meus senhores, eu não entendo que se acredite que para aprender é preciso sofrer e que por isso se continue a mandar escrever 30 vezes: “Não volto a falar sem pôr o braço no ar!”;

Não meus senhores, eu não entendo que os programas curriculares se pensem de forma a espartilhar e a matar a criatividade do professor, impedindo-o de ensinar a paixão pelo conhecimento, vivendo-a;

Não meus senhores, eu não entendo que sempre que uma criança que se atrasa ou se engana num exercício da aula, fique proibida de ir ao intervalo e definhe, mais 30 minutos, sentada na mesma cadeira onde está cerca de 7 horas por dia;

Não meus senhores, eu não entendo que nos corredores das escolas se grite, se ameace, se mande caminhar em fila indiana encostada à parede, como se essa fosse forma de manter o controlo e de ensinar a crescer;

Não meus senhores, eu não entendo que uma família deixe de jantar tranquilamente ou de ir ao parque ou de ver filmes no sofá, só porque há três fichas de matemática, duas de estudo do meio e ainda um ditado para fazer;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas promovam desfiles de vaidades (dos pais e da própria escola), com base nas notas dos testes, deixando de fora centenas de crianças que, só por serem crianças, mereceriam todos os louvores;

Não meus senhores, eu não entendo que se pense e se apregoe, que um aluno bem comportado é um aluno que se cala e obedece;

Não meus senhores, eu não entendo que se desista de uma criança apenas e só porque ela dá trabalho e esse trabalho cabe à família.

Não meus senhores, eu não entendo…

Mas há, felizmente, quem a mim me entenda.

E é graças a eles e a elas, e à forma como amam aquilo que fazem, à forma como superam o cansaço e a frustração das histórias difíceis que lhes caem ao colo, como não esquecem a enorme honra e a responsabilidade que trazem dentro e, sobretudo, à forma como reconhecem que têm em mãos o maior legado de todos, que a escola há-de conseguir TRANSFORMAR-SE.

E assim ensinar, a quem nela vive a acreditar que afinal, as pessoas, são mesmo o melhor que a Escola tem.

São 6, meu amor maior…

No dia antes de nasceres, o teu avô disse-me: “Coração ao alto, filhota.”

Agarrei-me a esta frase como fórmula mágica para afugentar o medo e dar força à certeza de que tudo correria bem. A ela e à tranquilidade do meu obstetra quando, depois de respondidas todas as perguntas, me disse: “O teu corpo saberá o que fazer.”

O corpo e o coração. 

Era afinal tudo o que eu precisaria de saber.
E assim foi. O corpo soube, o coração subiu e tu nasceste. 

São 6, meu amor maior. E são mágicos.