A carta que agora me apetece.

 

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas para educar as crianças que, por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.

O mérito, o valor e a excelência.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram no rosto o seu melhor sorriso e dançaram juntos ao som de Freddie Mercury, antes de sair de casa.

Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Tudo estava tão mais bonito, as flores enfeitavam o auditório, as luzes acesas iluminavam o palco, a toalha azul, a mesa de café e chá e uns rolinhos brancos com fita de cetim muito alinhados, faziam adivinhar o que de tão importante lá traziam escrito.

Todos se endireitavam, imponentes, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa de direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara lá estava. 

O mérito, o valor e a excelência ficaram envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada e os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes e por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam que os rolinhos brancos com fita de cetim haviam chegado ao fim.

“Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.

“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.

“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.

Um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Sim, era verdade, naquela escola viviam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.

“Ahãã…” avançou corajosamente alguém: “Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…”

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que por ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e juntos, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

“O passarinho engaiolado” – por Rubem Alves

Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida, o mínimo que se poderia dizer era que era segura e tranquila, como seguras e tranquilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos.

Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para bater suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguer que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da Ponte dos Suspiros.

Há aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa… Ó filhos, voemos pelo azul!… Comei!

É certo que a mãe do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer. Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!

Do seu pequeno espaço ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos seus vôos tranqüilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranquilizavam. Ele queria ser como os outros pássaros, livres… Ah! Se aquela maldita porta se abrisse…

Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!

Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas aguentariam. Elas não estavam acostumadas.

O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

— Ei, você! – era uma passarinha. – Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá… Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.

Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:

— Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego.

Pois, passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar…

O beijo dos sapos ou os sapinhos na boca.

Demorei algum tempo a chegar aqui. Muita tinta já correu, muito bitaite já se atirou, mas eu não consigo deixar de escrever sobre o assunto, como se as palavras pudessem ser uma espécie de purga, deste lado feio humanidade. Tão feio, que preciso, a todo o custo, sacudi-lo de mim.

Daniel Cardoso, pessoa, cidadão, professor universitário e com certeza muitas outras coisas interessantes que só a si, e aos seus, dirão respeito, teve a ousadia de dizer, num programa televisivo, em horário de telenovela, aquilo que há muito se sabe sobre auto determinação, consentimento e respeito pela integridade da criança.

Todos os programas de prevenção do abuso sexual infantil falam sobre isto: sobre a importância de ensinar, desde a infância, o respeito pelo próprio corpo, sobre a possibilidade incontestável, de dizer Não, sobre os limites do próprio, sobre os limites dos outros e ainda, e sobretudo, sobre afeto e relações interpessoais.

Há muito que se sabe disto. E não é preciso estudar-se o assunto ou trabalhar-se na área para se chegar a esta conclusão. Só é preciso alguma sensibilidade, dois dedos de testa e ser-se capaz de os usar para sair do próprio umbigo e para pensar para além da opinião fácil, que carregamos desde o tempo dos afonsinhos (e dos avós deles).

Só que não.

As pessoas indignaram-se, empunharam as armas bacocas e desataram a destilar ódio e a baralhar argumentos infelizes e infundados, com ataques violentos e pessoais, baseados em premissas carregadas de um preconceito atroz, vergonhoso e sobretudo assustador, num tempo de mundo com tanta coisa a acontecer, difícil de digerir. Somos mesmo uma espécie estranha. E só por isso, vale a pena que nos centremos nos factos que, neste assunto, é quase como ir a banhos:

Facto nº 1 – As crianças aprendem modelos de relacionamento humano através da observação dos outros e, sobretudo, dos outros que lhe são mais significativos. Não é preciso mandar fazer, basta ser e fazer, e a criança aprenderá.

Facto nº 2 – As relações de afetividade constroem-se com base na aceitação e respeito mútuos. Não é porque uma criança cumprimenta um adulto mediante coação, que a criança é “bem educada” ou aprende valores como o respeito ou o afeto. Pelo contrário. Forçar uma criança a um determinado comportamento, retira dessa ação toda a possibilidade de ensinar e deixa cair por terra a melhor das intenções. E mais grave ainda, apenas consegue ensinar a obedecer ao adulto, mesmo que essa obediência se coloque num contexto de abuso físico.

Facto nº 3 – A maioria das situações de abuso sexual na infância acontecem no seio familiar e é por isso importante que percebamos que, ao obrigar uma criança ao toque e ao beijo, só porque existe proximidade familiar e quando há manifesta recusa da própria, estamos também a ensinar-lhe que o seu corpo e a sua vontade não têm qualquer valor e que o afeto (forçado) é uma boa moeda de troca.

Facto nº 4 – Não é porque toda a vida se obrigaram as crianças a distribuir beijos indiscriminadamente, só porque sim (ou pior, para atestar a eficácia do adulto como educador), que devamos continuar a fazê-lo. Felizmente, olhamos cada vez mais para a infância, como uma etapa de vida fundamental a todo o desenvolvimento humano, com um potencial de aprendizagem incrível e uma capacidade de olhar o mundo e de o entender à luz do que é efetivamente importante, absolutamente inspiradora. Há muito que as crianças deixaram de ser vistas como tábuas rasas ou como adultos em miniatura e que o respeito pela sua integridade física e emocional tem de ser sempre o ponto de partida para qualquer reflexão que se faça sobre educação e sobre a infância.

E depois desta catarse muito minha, é ao Daniel, que eu agradeço. Por se ter esquecido da substância de quem o ouvia e por ter dito aquilo que há muito se sabe: Forçar uma criança a beijar seja quem for, é um ato de violência, que nada ensina sobre amor, respeito ou liberdade.

E só para terminar à altura de tudo o que eu já li por aí: Eu bem sei que sapos há muitos, agora se fossem acometidos por uma ligeira mononucleose (vulgo doença do beijinho)… aí sim, seria feita justiça.

Há escolas que não são amigas das crianças.

Às vezes a escola não é um lugar feliz. Não por causa das crianças, que afinal são o melhor que a escola tem, mas por causa dos adultos que não sabem a sorte que têm, por terem sido escolhidos para ser parte da escola.

Às vezes a escola não é um lugar seguro. Não por causa dos portões abertos, mas por causa dos adultos que se esquecem que a segurança que verdadeiramente importa, se constrói a partir do afeto e do amor que se põe nas coisas.

Às vezes a escola não é amiga dos pais. Não por causa dos pais, mas por causa dos adultos que acham que os pais que pensam são pais incómodos e que por isso usam a distância e a retórica gasta, para os manter longe, desinformados e, sobretudo, conformados.

Às vezes a escola não é amiga das crianças. Não que as crianças não o desejem (quando aliás é só isso que desejam), mas porque os adultos que nela moram se esqueceram há muito do que é ser-se criança. E se calhar até têm uma certa inveja da liberdade do corpo, do riso fácil, da energia sem fim, da criatividade na leitura das coisas, que só as crianças sabem ter.

Às vezes a escola não protege a brincadeira. Não por causa do tempo de recreio mas por causa do cinzento e do betão que insistem em consumir, incansáveis, tudo o que possa estimular o corpo e desafiar a mente.

Às vezes a escola não inspira respeito. Não por causa das crianças, mas por causa dos adultos que confundem medo com respeito, obediência com educação e do alto do seu tamanho de corpo, mandam e desmandam, avaliam e decidem, sem nunca sequer tentarem subir ao nível da criança e ler tudo o que de enorme lhes acontece dentro.

Às vezes a escola não ensina a liberdade. Não por causa da falta de vontade dela, mas por causa de quem acha que a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro e se esquece que só se pode ser verdadeiramente livre, na liberdade conjunta, construída e tornada possível, a partir do questionamento e da descoberta individual.

Às vezes a escola é pequenina. Não pelo tamanho daqueles que mais vida lhe trazem, mas pela pequenez de espírito com que os crescidos olham a infância e pela arrogância com que não a entendem.

E não me digam que as crianças são difíceis, que as famílias são insuportáveis ou que os tempos são de crise, porque a única coisa que afinal uma escola precisa para ser grande, É GOSTAR DAS CRIANÇAS (condição estranha, quando é afinal por causa das crianças que ela existe) e saber que nelas mora a esperança de que um dia, o mundo possa ser um lugar feliz, seguro e livre.

Porque é afinal só isto que todos precisamos e é afinal isso que as escolas amigas das crianças são capazes de ensinar, sem nada mais lhes importar, para assim nunca mais pararem de crescer.

Há dois anos a ser feliz por aqui…

Foi há dois anos, com o calor, a maresia e um louva-a-deus (nunca antes visto) a testemunhar o salto, que arrisquei um lugar desconhecido, que tanto me trouxe a conhecer.

Foi há dois anos que publiquei o primeiro dos 150 textos que escrevi. Um texto que falava em coragem, em vulnerabilidade, na zona de não conforto que precisava tanto de conhecer.

E foi essa sede e essa vontade, empurrada por uma coragem de que me orgulho muito, que me fez chegar aqui. A um projeto meu, à insaciedade de continuar, às pessoas tão especiais, aos retornos que me empurram para a frente, à aprendizagem e sempre, sempre, ao compromisso de me manter fiel a quem sou e ao que me move.

E mesmo que procure não perdê-lo de vista, houve momentos, sobretudo neste segundo ano de vida, em que me perdi e duvidei da importância do caminho, voltando à ideia fácil de que para se ser merecedor, é preciso ser-se reconhecido. E alimentei-me dos “gostos” nas redes sociais e corri atrás dos outros e andei na corda bamba, a dar mais do que me era possível e a sentir o peso daquilo que mais queria.

Valeram-me as palavras de quem não conhecia, a gratidão dos outros, a confiança dos convites profissionais, as pessoas bonitas com quem me cruzei… Valeram-me os meus, que me ajudaram a vir ao centro outra vez, a desligar o computador quando era preciso fazê-lo e a não perder o rumo e o propósito de estar aqui.

São dois anos de Lua e aquilo que trago dentro é tanto e tão mais em equilíbrio, que eu celebro a conquista e respiro fundo por sentir que agora, aqui, “o tempo apaixonadamente, encontra a própria liberdade” *. E continua a fazer-me feliz.

É este o lugar.

* As palavras mais bonitas deste texto não são minhas, são da Sophia, neste poema. Achei que a ocasião merecia.

Destes dias felizes…

Somos muitos e somos bons. Uma espécie de tribo do sol, que todos os anos ruma à mesma costa, às mesmas praias de mar gelado e areal sem fim.

Somos catorze. Às vezes menos, tantas vezes mais, porque aqui se cresce com os outros, partilha-se e aprende-se a viver em comum.

Há um círculo de tendas, há uma rede entre as árvores e no meio uma mesa, onde cabem todos. Há pranchas de surf, pinhas para o fogareiro e fatos de banho estendidos. E há sempre, sempre, o barulho do mar.

O dia chega cedo e a noite termina tarde, entre baralhos de cartas e conversas embrulhadas nos sacos de cama. Não há pressa, não há tempo que importe e permanece a vontade de deixar acontecer. A manhã seguinte ditará o destino e nós saberemos ouvir.

Os miúdos andam quase em auto-gestão. Decidem juntos o que fazer, inventam brincadeiras, arriscam, protegem-se e cuidam uns dos outros. São parceiros de aventura, num espanto constante com a vida nas coisas e as coisas da vida. Constroem muralhas de areia, destroem-nas aos saltos sempre que a maré sobe. Trazem a bola no pé, o cabelo revolto e o sol nas maçãs do rosto. Correm para as rochas à procura de búzios, apanham caranguejos, escolhem seixos, trazem conchas e, se lhes dá a fome, comem pêssegos lavados no mar. Vão crescendo assim, em tamanho e no coração, a cada descoberta feita.

São felizes nesta irmandade de sol e de sal. E nós somo-lo também, no seu sorriso, na vontade de ficar, no desejo secreto de que os dias se fizessem sempre assim.

Levamos dentro o barulho no mar e a promessa de voltar. À vida, como ela deveria sempre ser….

Crescer também é isto…

Hoje dispensaste-me outra vez. Fechaste a porta da casa de banho e disseste: “Podes ir mãe, que eu dou conta disto.” Acompanhaste a certeza com um sacolejar de mão a indicar-me o caminho, não fossem ter ficado em mim algumas dúvidas. Apareceste pouco tempo depois, lavado, vestido, com o cabelo cheio de gel e o sorriso de sempre: “Vamos, que os meus amigos estão à espera!” Hoje o dia é vosso e eu vou ficar a aguardar o regresso e o sorriso. Por mais que cresças, esses ninguém mos tira. Aproveita muito, meu amor maior.
Eu aguento-me.