É a saudade, meu amor…

Não fomos ao Madame Tussauds, não vimos o Big Ben, nem sequer assistimos à Troca da Guarda no palácio de Buckingham. Em vez disso, demorámo-nos nos pequenos almoços, matámos as saudades dos amigos, passeámos à chuva e comemos sandes no jardim. Fingimos que a nossa casa era ali, na construção de madeira do parque infantil e deixámo-nos ficar em cada lugar, com o sossego e o sentido de honra, típicos da primeira vez. Apanhámos um comboio para descer a sul. Sentámo-nos ao lado de uma portuguesa e julgámo-la inglesa. Calada e de sorriso cúmplice, ouviu-nos os disparates à “turista chico-esperto” até ao final da viagem, para depois nos dizer: “Vão para Bournemouth, certo? Já chegaram.” Saímos aos tropeços e às gargalhadas pela coincidência feliz. Matámos saudades outra vez, porque os portugueses estão em todo o lado e os que nos moram no coração não são disso excepção. Dormimos até tarde, ficámos à espera dos esquilos e fomos cheirar o mar bravo do atlântico. Cinco dias depois, voltámos a sentar-nos no avião e tu, com um olhar inquieto, disseste-me: “Já estou com saudades outra vez mãe…”

E ali, naquele segundo, antes de rumares ao sol, ao caminho para escola e aos legos espalhados no chão do teu quarto, eu soube que há em ti alma de viajante. E que é a saudade que te fará voltar, meu amor…

A minha Vera.

A minha Vera é força de vida. E de coragem.

Da irmandade adolescente foi ela que agarrou o sonho e o transformou em verdade, logo ali, quandos todas nós ainda suspirávamos pelo dia em que seríamos capazes.

Fomos levá-la ao aeroporto e depois da despedida, das cartas para ler no avião, do abraço apertado, da promessa de visita… ficámos a vê-la desaparecer nos corredores, de braço no ar e sorriso largo, cheio de esperança de que as lágrimas aguentassem até à primeira curva.

A Vera nunca mais voltou. Pelo menos para ficar.

Eu fui, voltei, fiquei. E aprendi a amá-la à distância, nas mensagens curtas, nos e-mails longos, na vontade dos telefonemas que não acontecem, na certeza dos verões e dos natais que se seguirão, apenas e só, para que voltemos a ter 15 anos mais uma vez…

A minha Vera é madrinha do meu filho e essa será sempre a minha maior prova de amor. Possibilitar a outra mulher um espaço próprio, único e tão especial, no coração de quem me tem por inteiro e para sempre. E quando ela chega é vê-los rir e brincar no chão, como se estivessem estado sempre assim. Essa é a sua maior prova de amor.

A minha Vera é força de vida. E de coragem.

E mesmo que o tempo passe e a distância às vezes me consuma pela vontade da amiga irmã, ela sabe (tal como eu), que na vida só se está, quando se é. E nós sabemos ser como ninguém, mesmo que seja preciso um avião para partilharmos um copo de vinho e brindarmos a cada disparate dito.

O meu parte esta semana, e vai saber a tanto…

Aos 38…

Há uns dias, depois de mais um desabafo sobre a ainda necessidade de aprender a ser mais contida na forma como me expresso, alguém de quem gosto muito, olhou para mim e disse: “Tu falas com o coração.” Com um suspiro de alívio calei-me e aceitei, sem censura, a coisa mais bonita que me podiam ter dito.

É por isso que a aceitação, de quem sou e da forma como o sou, me parece o rumo certo para honrar o oitavo dos trinta e lhe estrear os passos.

E mesmo que eu já traga a vida vincada no rosto, agora sei que é o coração que fala, com o ímpeto e o desejo próprios de um adolescente. E isto é o que me basta, para gostar tanto de estar aqui…

“Eu construí a casa.

Primeiramente fi-la de ar.
Depois hasteei a bandeira
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso.

Não se pense mais: esta é a casa
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir
e isso é trabalho da primavera.”

Pablo Neruda, in Plenos Poderes

Nesta história, de Super não temos nada.

Há uns tempos, num dos grupos de facebook a que pertenço, alguém partilhou um vídeo que mostrava uma criança sob o efeito de uma anestesia e a conversa alucinada que mantinha com os pais. Olhos vidrados, expressão apática, discurso confuso e desorganizado. Falava sobre aliens, perguntava onde estava, deixava a cabeça cair para a frente, e ria, ria sem parar, longe de saber o que lhe estava a acontecer. Os pais, conscientes do sítio onde estavam e da origem do comportamento do filho, tiveram o feliz impulso de filmar o episódio e a brilhantíssima ideia de o partilhar na internet. Tornou-se viral. Vá-se lá saber porquê.

Ou talvez se saiba.

Talvez o vírus seja o mesmo que carregou a página oficial do programa Super Nanny de comentários a parabenizar a iniciativa, agradecendo a boa hora em que apareceu a ama que corrige e resolve, pedindo vida longa às histórias das crianças que se seguem, excitado com a possibilidade de continuar a espreitar pelo buraco da fechadura da vida dos outros. Aos muitos que se insurgem contra (tal como eu me insurgi contra o vídeo do miúdo anestesiado), acusam de falsos moralismos, de serem responsáveis pela má educação dos miúdos de hoje, de se meterem com decisões que só aos pais cabem, de lançarem polémica sob um formato que foi sucesso em tantos outros países. E outras pérolas mais.

E debaixo do fogo cruzado dos discursos inflamados, do ataque cerrado, das acusações sem fim, está a Mariana, que mesmo tendo sido batizada de “furacão” não conseguiu usar a força para desaparecer dali e deixar os adultos no meio do caos que os próprios criaram.

É, apenas e só, a Mariana que me interessa. É a ela que devo respeito, que devo colo, que devo proteção. Era nela que alguém devia ter pensado antes de ter pensado em dinheiro, em audiências, em projeção profissional.

Saiu-nos pela culatra o propósito desmedido e pelo caminho levámos a Mariana que não tem culpa nenhuma de que mandem nela. A mãe, a Nanny e o mundo inteiro.

Do velho e do novo.

Tenho escrito pouco. A vida pede-me tempo, os meus merecem que o tenha. Temos andado ao ritmo da preguiça e ao sabor da vontade e é tão bom poder estar assim.

Mesmo não exercitando os dedos no teclado, as palavras continuam a dançar-me na cabeça e, sempre que não agarro num papel de rascunho para lhes dar vida, elas fogem-me e eu nunca mais lhes ponho a vista em cima. Pelo menos da forma como as pensei na primeira vez.

Engraçada esta coisa da inspiração. Fugaz e ainda assim tão vital.

Tenho escrito pouco mas tenho pensado muito. Pensado naquilo que o ano velho me trouxe, pensado naquilo que o novo pode trazer e uso esta dicotomia do velho e do novo para me insuflar de esperança, de força, de vontade e assim me libertar de tudo aquilo que não me serviu.

O 17 foi um ano generoso, como felizmente me têm sido todos. E eu sou mesmo uma sortuda, pelas pessoas que me amam, pelo trabalho pelo qual me apaixono todos os dias, pela materialização dos projetos que me fazem bem, pela saúde do corpo, pela insaciedade da alma… Este foi um ano cheio de conquistas pessoais e de aprendizagens enormes, mas também de algumas frustrações e suspiros cansados, os necessários para entender e aceitar que não posso ser tudo o que quero ser, pelo menos de uma só vez.

É preciso tempo e é preciso paz para deixar acontecer, na certeza de que todas as mudanças que ficam, se desenham num sem fim de pequenos grandes momentos (talvez este tenha sido o maior ensinamento).

Ao 18 eu peço a generosidade de sempre e prometo-lhe mais gratidão (aos meus e à vida), mais tranquilidade (para permitir às coisas o tempo que elas precisam), mais fé em mim (nos outros tenho sempre). Nestes 18, entrarei com os dois pés firmes, rodeada de amores para a vida e de amigos bons, no lugar mais bonito do mundo. E isto, eu sei, será sempre o melhor augúrio.

E se numa frase eu tivesse de resumir quem fui no ano que agora deixo ir, eu diria:

Ela aprendeu a ser quem era. E foi feliz.

Bom ano gente bonita e aproveitem os 365 dias que aí vêm para repetir tudo o que vos faz bem.

 

P.S – Obrigada por estarem aí. Sempre. Prometo continuar a dar-vos o que de melhor tenho em mim.

O bom do Pai Natal.

Tenho uma relação agridoce com esta história do Pai Natal.

Acho que não gosto, mas acabo por provar e ir mastigando a coisa. Por mastigar entenda-se, embarcar no disparate. Sim, porque hoje em dia, mesmo que eu não quisesse abraçar o conceito de um senhor de barbas distribuidor de presentes, tal seria tarefa quase inglória.

O bom do senhor está mesmo em todo lado. É no supermercado, é na televisão, é na escola, é nos outdoors, é nos catálogos na caixa do correio… e eu, que até percebo que papar com a Lapónia o ano inteiro, deixe qualquer um entediado (e que por isso, este apelo natalício seja um espécie de libertação), continuo a achar que o rapaz podia ser um pouco mais comedido na auto propaganda.

Ora vejamos então, uma das mil razões porque é que esta tradição é tramada…

No ano passado, um dos desejos da criança aqui de casa era o camião da patrulha pata. Eu, mantendo-me fiel àqueles que são os nossos princípios enquanto família, achei que cobrar 100 euros por um camião de plástico, usando perniciosamente o facto do mesmo povoar o imaginário de todas as crianças entre os 3 e os 5 anos, era, no mínimo, imoral. E mantive o boicote ao camião da patrulha pata.

Na altura expliquei ao Manel que talvez o Pai Natal não conseguisse trazer aquele brinquedo porque era muito caro e era preciso distribuir os brinquedos (a riqueza) por todos os meninos. A coisa colou mas uns dias depois do Natal, acalmadas as hostes, ele veio ter comigo e perguntou porque é que o Pai Natal tinha trazido um camião tão caro a alguns dos seus amigos e a ele não. Eu, engoli em seco e improvisei a melhor resposta que consegui na altura.

Este foi um dos milhares de momentos em que me apeteceu acabar com a fantochada. Não o tendo feito, procuro não alimentar demasiado a coisa e vou falando no Pai Natal dos pais, do avô, da avó, dos tios… vamos vendo juntos os catálogos dos brinquedos que nos chegam a casa (e que lhe fazem os olhos brilhar) e vamos falando sobre os preços e sobre a sua relação com a qualidade ou interesse do brinquedo. E o Manel vai sendo capaz de fazer escolhas cada vez mais conscientes, o que a mim me faz sentir que estamos no caminho certo.

Ultimamente tem-me feito perguntas estratégicas do género: “Mas porque é que o Pai Natal está sempre com a mesma idade?”, “Mas como é que o Pai Natal entra nas casas que não têm chaminé?, “E porque é que nós raramente vemos o Pai Natal verdadeiro?”

E na vez em que me pergunta se o Pai Natal existe de verdade, eu respondo que há pessoas que acreditam que sim e outras que acreditam que não. Não consigo dizer-lhe outra coisa.

Posto isto, vou continuar neste misto de amargo doce, a deixar-me levar pela sua imaginação e pelo seu ritmo, neste caso, ainda tão conduzido pela melhor estratégia de marketing de sempre: um senhor barbudo, de ar simpático e bochechas rosadas, vestido de vermelho e branco, a beber uma coca cola fresquinha.

Felizmente, o Natal é tão mais do que isto.

Felizmente, eu tenho cá para mim, que ele começa a entendê-lo…