A saga do material escolar: vale tudo, menos tirar olhos.

Com a entrada do Manel no ensino pré-escolar público, abriu-se-me a caixa de Pandora. Sim, porque nos últimos anos toda eu era inocência e alegria sem fim em Setembro, longe de saber a “tourada” por que passavam outros pais, com a preparação do ano letivo.

Pois bem meus amigos, já cá estou.

Tudo começou com a reunião de pais na qual foi distribuída uma lista (assim para o compridita) de material a adquirir. Aqui, aplaudo a atitude da educadora, que salientou a importância de reutilizar materiais que tivéssemos em casa e de não gastar dinheiro desnecessariamente, dando-nos também total liberdade para optar por outras marcas que não as sugeridas. Até aqui tudo bem. Identifiquei-me com a abordagem, compreendi a forma como o material seria gerido e lá fui, cheia de vontade, tratar do assunto.

Achei eu, ingénua outra vez, que podia cumprir a tarefa a qualquer hora do dia e assim, às 18:30, entrei com o pé direito numa grande superfície comercial (ou terá sido com o esquerdo? A avaliar pelo que se seguiu, é bem provável…).

Fui imediatamente engolida por um mar de gente, de braços no ar, de cócoras, de bicos de pé, à corrida… tudo o que permitisse agarrar o último exemplar do tão desejado objeto. No meio disto, as crianças, os adolescentes, os adultos saudosistas… todos, em estado de puro êxtase contemplativo, com as cores, os tamanhos, os desenhos, os cheiros… Tudo o que perniciosamente, pudesse desviar os pais do seu propósito: agarrar no dito e fugir dali!

Perante o cenário quase dantesco, foquei-me no objetivo de ir direta ao assunto e tracei um mapa mental para não me perder para sempre. Foi difícil, porque ainda por cima a coisa está organizada de forma sadicamente labiríntica, mas lá consegui identificar alguns dos materiais da lista e sair.

No dia seguinte, levantei-me confiante, fiz uns alongamentos e pensei: “Hoje já não me apanham. Vou às três da tarde, que é uma hora que ninguém desconfia.”

Wrong again.

Mas estas pessoas não trabalham? Mas será que nunca ninguém pensou fazer um manual de sobrevivência para isto? Quais os truques, as dicas, os segredos, para nos safarmos ilesos?

Depois da odisseia, que felizmente se arrumou em duas experiências sociologicamente enriquecedoras, agradeci aos céus o marido artista, que conseguiu arranjar metade das coisas no meio dos seus próprios materiais e pensei: Caramba, Setembro era o meu mês preferido, bucólico e imaculado, e agora carregará para sempre o trauma desta estreia.

Posto isto, pais com filhos em idade escolar: o meu coração está, irremediavelmente, convosco e eu proponho que façamos uns círculos xamânicos antes e depois da coisa, para que a malta se recomponha e sobreviva às sequelas seguintes.

E olhem que serão pelo menos 12. Já pensaram nisso?

P.S – Assumo aqui o compromisso de criar um manual de boas práticas sobre este assunto, mas preciso da vossa ajuda. Dicas, experiências, truques macacos… tudo é válido, pela sanidade mental de todos. Meus senhores/as, isto sim é serviço público… Venham daí esses contributos, ser-me-ão preciosos para os anos que aí vêm. Muito grata. 🙂

Às mulheres que não queriam ter sido mães.

Uma vez cruzei-me na rua com uma mulher que se zangava com os dois filhos gémeos e ouvi-a gritar-lhes: “Eu nunca vos devia ter tido!”

Fiquei horrorizada. Achei que devia ser uma péssima mãe, achei que não merecia tê-lo sido e, acima de tudo, que nenhuma criança, em nenhum cenário, deveria ter de ouvir palavras assim.

Passaram-se alguns anos, fui mãe e nunca mais me lembrei desta história. Até há uns dias, quando encontrei um texto no qual se contava o trabalho de uma socióloga israelita, Orna Donath, que no seu livro Regretting Motherhood, se dedicou a reunir depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos mas que, se pudessem voltar atrás sabendo o que a maternidade implica, optariam por não ser mães.

Voltei a ficar horrorizada. Não pelo que as mulheres entrevistadas tiveram a coragem de assumir, mas pelos comentários de quem as ouviu (ou melhor, de quem não foi capaz de as ouvir) e prontamente lhes tirou a pinta, colando-lhes na testa o rótulo feio de “má mãe”. Exatamente como eu fiz, há uns anos atrás, ainda distante do desafio da maternidade.

E se continuo a achar que aquela mãe com quem me cruzei, poderia não ter dito aos filhos que preferia não ter sido mãe deles, porque sei o quanto estas palavras podem magoar quem não tem nenhuma responsabilidade em ter nascido, há muitas coisas em mim que se transformaram desde então e que eu procuro que, todos os dias, me ajudem a crescer.

A vida há muito que me ensina, que isto não é um guião encomendado, que as personagens não sabem as falas de cor, e que a história não se repete com os mesmos takes para todos.

A vida há muito que me ensina, que o mundo não se encerra na forma como o penso e como o sinto. Felizmente.

Conhecer as histórias destas mulheres e querer ouvi-las verdadeiramente, implica resistir ao julgamento fácil, requer o extraordinário exercício da empatia, o reconhecimento e a aceitação daqueles que são os seus desejos e daquelas que são as suas frustrações. Não têm de ser as nossas. Mas podem ser as de alguém.

Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E é seu o direito de falar sobre o assunto, de dar nome ao sentir, de sacudir, de vez, o peso do pecado que lhes puseram aos ombros.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem de assumir todos os dias um papel com o qual não se identificam, de sentirem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-las, constantemente, do sacrilégio em que NÃO vivem.

Repito: Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E isto é quanto me basta.

Isto, e um orgulho imenso por terem sido capazes de o gritar aos sete ventos. Para que ao mundo não restem dúvidas, que nem só de maternidade se faz uma mulher.

Há um ano…

Há um ano estava aqui. Precisamente aqui. Nesta mesa, neste terraço de céu estrelado e cheiro de mar.

Já tinha escrito o primeiro texto, já o tinha guardado outra vez na pasta na tentativa de o esquecer, já me tinha dito que sim, para depois voltar a achar que não. Vezes e vezes sem conta.

Há um ano estava aqui. Cheia de hesitações, de medos, de certezas de não estar à altura da vontade gigante que tinha: escrever, escrever, escrever. E, sobretudo, tornar de todos as palavras que sinto, sobre este desafio gigante de ajudar a crescer. É tramada a vulnerabilidade de nos darmos a conhecer. Assim como é poderosa a segurança de ficar num cantinho onde ninguém dê por nós.

No preciso momento em que decidi carregar no botão “Publicar”, um louva a deus pousou no teclado e eu, que tenho destas coisas de gostar de acreditar que o universo sabe o que faz e o que diz, respirei fundo e pensei: Venha o que vier. Sou eu.

E veio tanto.

Veio a força das pessoas bonitas que gostam de mim, veio a empatia de quem ainda não conhecia, veio o privilégio enorme de saber que há quem leia e se identifique com aquilo que escrevo, veio o mimo das partilhas de outros sentires, que me deram a honra de poder aprender.

E vieram as palavras a dançar dentro da cabeça desde que me levanto até que adormeço, a atenção maior a tudo o que me rodeia e a tudo o que me vai cá dentro, a capacidade de me entregar sem filtro e a certeza boa de saber, que o tempo só não leva aquilo que corajosamente deixamos que fique.

Passado um ano estou aqui. E continuo a acreditar que sempre que pensamos com o coração e ousamos caminhar na lua, coisas boas acontecem.

Passado um ano estou aqui, tenho o cheiro a maresia, a vontade de sempre, e escrevo. Para ser feliz.

Tão grata por caminharem comigo…

Destes dias felizes…

Somos muitos e somos bons. Uma espécie de tribo do sol, que todos os anos ruma à mesma costa, às mesmas praias de mar gelado e areal sem fim.

Somos catorze. Às vezes menos, tantas vezes mais, porque aqui se cresce com os outros, partilha-se e aprende-se a viver em comum.

Há um círculo de tendas, há uma rede entre as árvores e no meio uma mesa, onde cabem todos. Há pranchas de surf, pinhas para o fogareiro e fatos de banho estendidos. E há sempre, sempre, o barulho do mar.

O dia chega cedo e a noite termina tarde, entre baralhos de cartas e conversas embrulhadas nos sacos de cama. Não há pressa, não há tempo que importe e permanece a vontade de deixar acontecer. A manhã seguinte ditará o destino e nós saberemos ouvir.

Os miúdos andam quase em auto-gestão. Decidem juntos o que fazer, inventam brincadeiras, arriscam, protegem-se e cuidam uns dos outros. São parceiros de aventura, num espanto constante com a vida nas coisas e as coisas da vida. Constroem muralhas de areia, destroem-nas aos saltos sempre que a maré sobe. Trazem a bola no pé, o cabelo revolto e o sol nas maçãs do rosto. Correm para as rochas à procura de búzios, apanham caranguejos, escolhem seixos, trazem conchas e, se lhes dá a fome, comem pêssegos lavados no mar. Vão crescendo assim, em tamanho e no coração, a cada descoberta feita.

São felizes nesta irmandade de sol e de sal. E nós somo-lo também, no seu sorriso, na vontade de ficar, no desejo secreto de que os dias se fizessem sempre assim.

Levamos dentro o barulho no mar e a promessa de voltar. À vida, como ela deveria ser….

Aquilo que eu espero da escola do meu filho.

O Manel vai fazer o último ano do ensino pré-escolar numa escola pública.

Já tínhamos decidido que o 1º ciclo se faria assim e, como a escola onde esteve até agora não terá sala de cinco anos, optámos por fazer a transição mais cedo.

Esta mudança e o entusiasmo do Manel face à mesma, deu o mote à conversa com um amigo sobre o ensino público e privado e foi quando nos alongámos na mesma, que ele me disse: “Pois, mas uma das vantagens que os pais veem em meter os filhos nas privadas, é a rede de contactos…”

Confesso que tive de me esforçar para perceber do que falava…

– “Rede de contactos?”
– “Sim, o facto de crescerem perto de pessoas de um determinado nível social, pode abrir-lhes portas no futuro…”

Percebi então que estava longe. A leste do paraíso, como costumo dizer. Não me tinha passado pela cabeça que se projetasse o futuro dos filhos, com base na rede de contactos que estabelecessem a partir do 1º ciclo. Não me tinha passado pela cabeça que se pudessem forjar as amizades na infância, com base no proveito que os filhos pudessem tirar delas quando chegassem à idade adulta.

Mesmo sabendo que esta não é de todo, a motivação de todos os pais que optam pelo ensino privado, mas sim o facto de ser a única opção viável, tendo em conta o prolongamento dos horários, ou a mais interessante, relacionada com o projeto pedagógico que apresente, o admirável mundo novo que o meu amigo me mostrou, fez-me pensar naquilo que eu esperava da escola do meu filho. E claro, por acréscimo, naquilo que a escola pública tinha significado para mim, desde o primeiro dia de infantário, até ao dia da defesa da tese de mestrado no ensino superior.

E a par de todas as coisas boas de que me lembro e de todas as outras menos boas (porque também as há), existem vantagens que considero imbatíveis, tendo em conta os valores nos quais quero que o Manel cresça:

Na escola fazem-se amigos para a vida e os amigos não se escolhem, nem pela roupa de marca, nem pelo telemóvel que usam, nem pelo carro dos pais. Escolhem-se pela forma como abraçam a vida e os outros, pelos valores que norteiam o seu comportamento, pela capacidade de dar a mão, sem olhar ao relógio que temos no pulso.

A escola promove a igualdade de direitos e de oportunidades e isto implica ter de lidar com as necessidades especiais de alguns miúdos, com os comportamentos desafiantes de outros, com as dificuldades escolares de muitos. Tudo, sob a premissa máxima de que a educação é de todos e para todos. Tudo, sem a possibilidade de excluir por questões religiosas, por questões financeiras, por questões associadas à prática dos “bons costumes”…. Tudo, sem olhar aos rankings, porque há metas tão mais importantes.

A escola prepara cidadãos para o mundo e o mundo não é dos ricos, não é dos brancos, não é dos filhos de famílias importantes. O mundo é de toda a gente, e por mais que às vezes assim não pareça, cabe-nos a nós lutar para que assim seja. E eu acredito que a melhor receita para ensinar a pluralidade do mundo, é crescer dentro dela.

É por tudo isto, que aquilo que eu espero da escola do meu filho é que o ensine a viver em liberdade, que o ensine a conviver com a diferença, a respeitar os outros, a ser empático com as histórias e os padrões de vida diferentes dos seus. E que assim, com tudo isto, a escola lhe traga amigos dos bons. Sejam eles o Zé da Esquina ou o Zé do Casino.

A vida não é uma gaiola dourada.
E ainda bem.