Às mulheres que não queriam ter sido mães.

Uma vez cruzei-me na rua com uma mulher que se zangava com os dois filhos gémeos e ouvi-a gritar-lhes: “Eu nunca vos devia ter tido!”

Fiquei horrorizada. Achei que devia ser uma péssima mãe, achei que não merecia tê-lo sido e, acima de tudo, que nenhuma criança, em nenhum cenário, deveria ter de ouvir palavras assim.

Passaram-se alguns anos, fui mãe e nunca mais me lembrei desta história. Até há uns dias, quando encontrei um texto no qual se contava o trabalho de uma socióloga israelita, Orna Donath, que no seu livro Regretting Motherhood, se dedicou a reunir depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos mas que, se pudessem voltar atrás sabendo o que a maternidade implica, optariam por não ser mães.

Voltei a ficar horrorizada. Não pelo que as mulheres entrevistadas tiveram a coragem de assumir, mas pelos comentários de quem as ouviu (ou melhor, de quem não foi capaz de as ouvir) e prontamente lhes tirou a pinta, colando-lhes na testa o rótulo feio de “má mãe”. Exatamente como eu fiz, há uns anos atrás, ainda distante do desafio da maternidade.

E se continuo a achar que aquela mãe com quem me cruzei, poderia não ter dito aos filhos que preferia não ter sido mãe deles, porque sei o quanto estas palavras podem magoar quem não tem nenhuma responsabilidade em ter nascido, há muitas coisas em mim que se transformaram desde então e que eu procuro que, todos os dias, me ajudem a crescer.

A vida há muito que me ensina, que isto não é um guião encomendado, que as personagens não sabem as falas de cor, e que a história não se repete com os mesmos takes para todos.

A vida há muito que me ensina, que o mundo não se encerra na forma como o penso e como o sinto. Felizmente.

Conhecer as histórias destas mulheres e querer ouvi-las verdadeiramente, implica resistir ao julgamento fácil, requer o extraordinário exercício da empatia, o reconhecimento e a aceitação daqueles que são os seus desejos e daquelas que são as suas frustrações. Não têm de ser as nossas. Mas podem ser as de alguém.

Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E é seu o direito de falar sobre o assunto, de dar nome ao sentir, de sacudir, de vez, o peso do pecado que lhes puseram aos ombros.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem de assumir todos os dias um papel com o qual não se identificam, de sentirem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-las, constantemente, do sacrilégio em que NÃO vivem.

Repito: Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E isto é quanto me basta.

Isto, e um orgulho imenso por terem sido capazes de o gritar aos sete ventos. Para que ao mundo não restem dúvidas, que nem só de maternidade se faz uma mulher.

(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces ter.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei.

É assim que cresço. É assim que tu podes crescer.

Se há seis anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi esta a minha bandeira de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que aquele é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

A lua não fica cheia num dia…

Caminho a um passo apressado. O do costume.
Constante, alinhado com o relógio (ou desalinhado pela hora tardia), cheio de certezas mal amanhadas e de verdades absolutas.
Julgo-te logo atrás de mim, quando te abro a porta do carro, mas depressa percebo que não estás.
Procuro-te com o olhar…
Passo demorado, ao sabor do vento e da vida, cheio de dúvidas certeiras e em estado de puro êxtase com os sons, as cores, o traçado do chão…
Desatino.
É tarde. Tu sabes disso, porque já to disse 100 vezes desde que te acordei.
“Não há vida para isto!” volto a repetir, para depois ler nos teus olhos: Mas há vida mamã, e está em todo lado. Ainda consegues ver?

Esta história tem sido minha. Quase todas as manhãs.
E não há nenhuma delas em que eu não deseje ser diferente, ou pelo menos, ser mais vezes capaz de me espantar com o meu filho, de continuar a esforçar-me para estar atenta e disponível e reaprender essa sábia forma de vida que traz dentro.
Já a tive, sabes?
Já me detive no caminho e acompanhei com o olhar a formiga pequenina que me atravessava o caminho. Já corri atrás do som feliz do passarinho que pousou por instantes na mesa de esplanada ao lado. Já imaginei até, se o barulho da chuva não seria antes uma legião de borboletas azuis, prontas a resgatar-me da sala de aula.
E depois perdi-a. Perdi-me.
Nem sei bem quando, mas decerto quando pensei que já tinha visto quase tudo, ou sempre achei que havia coisas mais importantes do que a vida a acontecer, no chão que piso, na mesa ao lado, no cheiro da terra molhada…
Não sei quando perdemos de vista a capacidade instantânea de nos espantarmos com o mundo, mas sei que o mundo seria um lugar tão melhor, se os adultos que nele moram, pudessem mais vezes esquecer o relógio, e SER.

Não sei quando nos perdemos de vista, mas sinto, na tua mão pequenina que ainda não desistiu de me encantar, que vou a tempo de me encontrar.
Vou sempre a tempo, meu amor…

E é por isso que amanhã acordo uma hora mais cedo, e cedo ao passo demorado e à perfeita delícia de te acompanhar…

Nota: Se tal como eu te sentes assim (às vezes tempo demais), partilho contigo algumas ideias que procuro ter como farol, capaz de guiar a vontade de manter vivo e de boa saúde este seu (nosso) sentido de espanto:

Desligar a televisão e esconder os tablet e os outros gadgets maravilha (depreendo que imagines porquê…);

Manter o contacto com a natureza e tornar mais conscientes as sensações que isso nos traz: pôr os pés descalços na terra, comer frutos das árvores, fazer uma horta na varanda… Deixar a vida acontecer ao ar livre, sempre e o mais possível;

Dar espaço para a brincadeira livre. Enquanto adultos interferimos vezes demais neste processo: orientamos, damos diretrizes, proibimos ou permitimos… Brincar livremente e escolher a forma e o conteúdo da brincadeira favorece, como nenhuma outra atividade, o desenvolvimento social, criativo e emocional das crianças;

Encorajar a exploração do ambiente. As crianças são naturais inventoras e hábeis exploradoras do espaço e do meio em que se movem. Estimular essa descoberta traz-lhes ferramentas únicas para se superarem do ponto de vista físico e cognitivo;

Estimular o questionamento acerca das descobertas feitas. “O que achas que aconteceu aqui? Porque será que este passarinho preferiu fazer o ninho nesta árvore?” Formular hipóteses em conjunto acerca do que é observado, permitindo que construam as suas conclusões, traz significado próprio a todas as experiências e aprendizagens, e fortalece-as;

Transformar objetos da natureza e do quotidiano, descobrindo-lhes novas funções: estimula o pensamento divergente, a criatividade, a resolução de problemas. Resistir à tentação dos brinquedos luminosos, barulhentos, “pilhodependentes” e tão pouco desafiantes, é o primeiro passo para que isto possa acontecer;

Permitir o “aborrecimento”, e abraçá-lo como oportunidade única para estar atento ao que lhes acontece dentro e ao seu redor. Garanto-te que o que daí advém, é quase mágico.

E porque acabar de uma forma bonita ajuda a que o fim perdure, o vídeo que hoje te deixo, transforma tudo isto em poesia… Enjoy. <3

Aquilo que eu quero enquanto mulher.

Não quero ir a jantares de mulheres, não quero que me ofereçam flores, nem tão pouco que me dêem os parabéns. Disso não preciso. 
Tenho o privilégio de viver a liberdade que me permite gostar de ser mulher e isso, não dependerá nunca das homenagens com dia marcado que me prestem. E sobretudo, não pode continuar a ser um privilégio. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que em 1857 morreram 130 mulheres numa fábrica em Nova Iorque, apenas e só por reivindicarem o seu direito a melhores condições de trabalho. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que existem mais meninas do que meninos fora da escola. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que as mulheres ganham em média menos 23% do que os homens. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba, que em 70 países, as mulheres ocupam menos de 15% dos cargos de decisão política. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que 1 em cada 5 raparigas já foi vítima de violência física e/ou sexual por um parceiro íntimo. 
O que eu quero, é que ninguém se cale e que todos ajam.
Para que um dia, nenhuma menina chore por ter nascido mulher e ninguém a impeça de ser tudo aquilo que sonhou.

“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

A carta que agora me apetece.

 

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas para educar as crianças que, por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.

O mérito, o valor e a excelência.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram no rosto o seu melhor sorriso e dançaram juntos ao som de Freddie Mercury, antes de sair de casa.

Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Tudo estava tão mais bonito, as flores enfeitavam o auditório, as luzes acesas iluminavam o palco, a toalha azul, a mesa de café e chá e uns rolinhos brancos com fita de cetim muito alinhados, faziam adivinhar o que de tão importante lá traziam escrito.

Todos se endireitavam, imponentes, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa de direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara lá estava. 

O mérito, o valor e a excelência ficaram envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada e os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes e por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam que os rolinhos brancos com fita de cetim haviam chegado ao fim.

“Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.

“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.

“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.

Um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Sim, era verdade, naquela escola viviam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.

“Ahãã…” avançou corajosamente alguém: “Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…”

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que por ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e juntos, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

“O passarinho engaiolado” – por Rubem Alves

Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida, o mínimo que se poderia dizer era que era segura e tranquila, como seguras e tranquilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos.

Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para bater suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguer que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da Ponte dos Suspiros.

Há aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa… Ó filhos, voemos pelo azul!… Comei!

É certo que a mãe do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer. Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!

Do seu pequeno espaço ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos seus vôos tranqüilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranquilizavam. Ele queria ser como os outros pássaros, livres… Ah! Se aquela maldita porta se abrisse…

Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!

Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas aguentariam. Elas não estavam acostumadas.

O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

— Ei, você! – era uma passarinha. – Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá… Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.

Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:

— Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego.

Pois, passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar…

O beijo dos sapos ou os sapinhos na boca.

Demorei algum tempo a chegar aqui. Muita tinta já correu, muito bitaite já se atirou, mas eu não consigo deixar de escrever sobre o assunto, como se as palavras pudessem ser uma espécie de purga, deste lado feio humanidade. Tão feio, que preciso, a todo o custo, sacudi-lo de mim.

Daniel Cardoso, pessoa, cidadão, professor universitário e com certeza muitas outras coisas interessantes que só a si, e aos seus, dirão respeito, teve a ousadia de dizer, num programa televisivo, em horário de telenovela, aquilo que há muito se sabe sobre auto determinação, consentimento e respeito pela integridade da criança.

Todos os programas de prevenção do abuso sexual infantil falam sobre isto: sobre a importância de ensinar, desde a infância, o respeito pelo próprio corpo, sobre a possibilidade incontestável, de dizer Não, sobre os limites do próprio, sobre os limites dos outros e ainda, e sobretudo, sobre afeto e relações interpessoais.

Há muito que se sabe disto. E não é preciso estudar-se o assunto ou trabalhar-se na área para se chegar a esta conclusão. Só é preciso alguma sensibilidade, dois dedos de testa e ser-se capaz de os usar para sair do próprio umbigo e para pensar para além da opinião fácil, que carregamos desde o tempo dos afonsinhos (e dos avós deles).

Só que não.

As pessoas indignaram-se, empunharam as armas bacocas e desataram a destilar ódio e a baralhar argumentos infelizes e infundados, com ataques violentos e pessoais, baseados em premissas carregadas de um preconceito atroz, vergonhoso e sobretudo assustador, num tempo de mundo com tanta coisa a acontecer, difícil de digerir. Somos mesmo uma espécie estranha. E só por isso, vale a pena que nos centremos nos factos que, neste assunto, é quase como ir a banhos:

Facto nº 1 – As crianças aprendem modelos de relacionamento humano através da observação dos outros e, sobretudo, dos outros que lhe são mais significativos. Não é preciso mandar fazer, basta ser e fazer, e a criança aprenderá.

Facto nº 2 – As relações de afetividade constroem-se com base na aceitação e respeito mútuos. Não é porque uma criança cumprimenta um adulto mediante coação, que a criança é “bem educada” ou aprende valores como o respeito ou o afeto. Pelo contrário. Forçar uma criança a um determinado comportamento, retira dessa ação toda a possibilidade de ensinar e deixa cair por terra a melhor das intenções. E mais grave ainda, apenas consegue ensinar a obedecer ao adulto, mesmo que essa obediência se coloque num contexto de abuso físico.

Facto nº 3 – A maioria das situações de abuso sexual na infância acontecem no seio familiar e é por isso importante que percebamos que, ao obrigar uma criança ao toque e ao beijo, só porque existe proximidade familiar e quando há manifesta recusa da própria, estamos também a ensinar-lhe que o seu corpo e a sua vontade não têm qualquer valor e que o afeto (forçado) é uma boa moeda de troca.

Facto nº 4 – Não é porque toda a vida se obrigaram as crianças a distribuir beijos indiscriminadamente, só porque sim (ou pior, para atestar a eficácia do adulto como educador), que devamos continuar a fazê-lo. Felizmente, olhamos cada vez mais para a infância, como uma etapa de vida fundamental a todo o desenvolvimento humano, com um potencial de aprendizagem incrível e uma capacidade de olhar o mundo e de o entender à luz do que é efetivamente importante, absolutamente inspiradora. Há muito que as crianças deixaram de ser vistas como tábuas rasas ou como adultos em miniatura e que o respeito pela sua integridade física e emocional tem de ser sempre o ponto de partida para qualquer reflexão que se faça sobre educação e sobre a infância.

E depois desta catarse muito minha, é ao Daniel, que eu agradeço. Por se ter esquecido da substância de quem o ouvia e por ter dito aquilo que há muito se sabe: Forçar uma criança a beijar seja quem for, é um ato de violência, que nada ensina sobre amor, respeito ou liberdade.

E só para terminar à altura de tudo o que eu já li por aí: Eu bem sei que sapos há muitos, agora se fossem acometidos por uma ligeira mononucleose (vulgo doença do beijinho)… aí sim, seria feita justiça.