A mais honrosa missão do mundo.

Acredito que a escola é um lugar de todos e um lugar para todos.

Quando a penso, penso-a enquanto espaço comunitário, de crescimento, de construção e aprendizagem conjunta, com a participação ativa e envolvida de todos os que têm a capacidade de a transformar: alunos, pais, assistentes operacionais, educadores, professores, técnicos. Cada um tem o seu papel e cada um terá, na mais firme certeza, contributos importantíssimos a dar, em nome da mais honrosa missão do mundo e que à Escola cabe: Educar.

E ainda que todos saibamos disto (uns mais do que outros), há escolas que ainda se fecham aos pais, há pais que ainda recusam abrir-se à escola, há funcionários que ainda acham que a sua opinião não conta (porque há quem nunca pergunte por ela), há professores que acreditam que a sua tarefa se encerra nas páginas do manual da disciplina que ensinam. E depois há os miúdos, esses, que depressa tiram a pinta aos adultos que, perdidos no meio das regras e dos números, vão tratando de transformar a escola num lugar inerte, de passos e caminhos contados, tantas vezes assustadoramente limitados, no pensamento, nas portas fechadas, nos horários, nas mesas arrumadinhas em fila.

E à medida que os meninos vão crescendo em tamanho, a comunicação vai deixando de existir, deixamos de saber os nomes dos funcionários, os carros limitam-se a parar ao portão de manhã e ao cair da noite, as festas já não se fazem, as reuniões de pais têm cada vez mais cadeiras vazias…

A Escola vai perdendo assim a sua essência e afasta-se da mais honrosa missão do mundo, aquela que ela lhe caberia, se tudo estivesse no seu devido lugar e se misturasse, muitas e muitas vezes, para crescimento de todos.

Hoje assumi o compromisso de integrar a equipa da associação de pais da escola do meu filho. Se me vai dar um trabalho do caraças? Vai. Se vai valer a pena? Vai. Se quero que a Escola mude? Quero. E vou lutar a cada instante para que a mudança aconteça e se construa positiva, refletida e sempre, sempre partilhada.

É isto afinal que eu quero que ele mais aprenda: que cá dentro mora o sonho de que o mundo se pode tornar num lugar melhor e que a transformação bem pode começar no chão da Escola, com a participação de todos os que dela fazem espaço de Ser, espaço de Educação.

A revolução que lhes devemos.

O planeta aquece, as espécies extinguem-se, os robots assemelham-se a humanos e nós continuamos tremendamente enganados, neste caminho de achar que ensinamos as crianças a amar a natureza, explicando-lhes para que servem as cores do ecoponto ou dizendo-lhes para poupar a água que lhes cai, milagrosamente, da torneira.

Enquanto lhes construirmos recreios de betão, enquanto circundarmos de arame as árvores para que não lhes trepem, enquanto lhes comprarmos os legumes e as frutas já lavados e cortados num saco de plástico, enquanto os levarmos ao jardim zoológico e ao circo para que se divirtam, enquanto lhes pusermos televisões no quarto, impedindo-os de entender que a vida lá fora é tão mais interessante… enquanto lhes fizermos isto e tantos outros disparates mais, estaremos longe de resgatar aquela que é a sua essência.

A revolução que é verdadeiramente necessária, não acontecerá nunca dentro de quatro paredes, nem tão pouco precisará de computadores.

Esta de que falo, e que acredito ser a única capaz de salvar o mundo, precisa de crianças sem medo de mexer na terra, precisa de miúdos a desejar o cheiro do mar bravo de inverno, a procurar o sabor doce dos figos acabados de apanhar, a saber porque é que os cucos não fazem ninhos ou a conhecer a idade de uma árvore, pelos anéis que traz desenhados no tronco.

Precisa, enfim, de gente que sinta na pele o privilégio que é estar vivo e que saiba que existem coisas tão mais importantes do que o nosso umbigo ou o nosso conforto. Afinal, o sol nasce e põe-se todos os dias, porque é assim que deve ser e assim será, para além da nossa existência.

Era esta, só esta, a minha mais honrosa missão. E eu estou ainda tão longe de ta ensinar como mereces.

Perdoa-me meu amor e eu prometo-te não desistir. Ainda não…

 

P.S – Esta é a Sophia. E é ela que materializa a revolução que mais temo.

Das coisas que ele me ensina…

– “Sabes pai, a avó está tramada! E olha que não é só ela, são todas…”
– “Porquê filho?”
– “Porque avó rima com cocó.”

Tudo isto com ar de quem está a abordar um assunto da maior seriedade.
Avós do mundo, caso não tivessem ainda pensado nisto, há quem se preocupe com esta enorme injustiça. Toda a minha solidariedade está convosco.

Ontem disse ao rapaz da peixaria que ele era extraordinário, na forma atenciosa como se dirigia às pessoas, no sorriso, no brio que punha naquilo que estava a fazer. Espantou-se, sorriu-me e agradeceu e eu tenho a certeza que, naquele momento, se orgulhou ainda mais de quem era. Eu segui caminho mais feliz (e orgulhosa também), por ter perdido a vergonha e ter partilhado tudo o que de bom me estava entalado na garganta.
Boa quarta-feira, cheia de pessoas bonitas…

(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei. É assim que cresço, é assim que tu podes crescer.

Se há cinco anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi uma das minhas bandeiras de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que ali é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

Das coisas que ele me ensina…

Sempre que vou buscar o Manel à escola, ele gosta de subir para o gradeamento que envolve parte o edifício e assim seguir até ao portão. É uma situação de risco físico controlado e não provoca danos na infraestrutura. Posto isto, tudo ok.

Ontem, voltou a fazê-lo e um menino que saía no mesmo momento, seguiu-lhe as pisadas. A mãe gritou-lhe de imediato: “Sai já daí! Esse muro foi feito para ser gradeamento e não para tu andares aí em cima!” E eu pensei cá com os meus botões: Caramba! Em que momento do crescimento teremos nós, adultos, perdido a criatividade, o pensamento divergente, a capacidade de nos reinventarmos e de reinventarmos o mundo à nossa volta? E com este pensamento, voltei a lembrar-me desta animação.

E firmei mais uma vez a promessa, de não esquecer…

A saga do material escolar: vale tudo, menos tirar olhos.

Com a entrada do Manel no ensino pré-escolar público, abriu-se-me a caixa de Pandora. Sim, porque nos últimos anos toda eu era inocência e alegria sem fim em Setembro, longe de saber a “tourada” por que passavam outros pais, com a preparação do ano letivo.

Pois bem meus amigos, já cá estou.

Tudo começou com a reunião de pais na qual foi distribuída uma lista (assim para o compridita) de material a adquirir. Aqui, aplaudo a atitude da educadora, que salientou a importância de reutilizar materiais que tivéssemos em casa e de não gastar dinheiro desnecessariamente, dando-nos também total liberdade para optar por outras marcas que não as sugeridas. Até aqui tudo bem. Identifiquei-me com a abordagem, compreendi a forma como o material seria gerido e lá fui, cheia de vontade, tratar do assunto.

Achei eu, ingénua outra vez, que podia cumprir a tarefa a qualquer hora do dia e assim, às 18:30, entrei com o pé direito numa grande superfície comercial (ou terá sido com o esquerdo? A avaliar pelo que se seguiu, é bem provável…).

Fui imediatamente engolida por um mar de gente, de braços no ar, de cócoras, de bicos de pé, à corrida… tudo o que permitisse agarrar o último exemplar do tão desejado objeto. No meio disto, as crianças, os adolescentes, os adultos saudosistas… todos, em estado de puro êxtase contemplativo, com as cores, os tamanhos, os desenhos, os cheiros… Tudo o que perniciosamente, pudesse desviar os pais do seu propósito: agarrar no dito e fugir dali!

Perante o cenário quase dantesco, foquei-me no objetivo de ir direta ao assunto e tracei um mapa mental para não me perder para sempre. Foi difícil, porque ainda por cima a coisa está organizada de forma sadicamente labiríntica, mas lá consegui identificar alguns dos materiais da lista e sair.

No dia seguinte, levantei-me confiante, fiz uns alongamentos e pensei: “Hoje já não me apanham. Vou às três da tarde, que é uma hora que ninguém desconfia.”

Wrong again.

Mas estas pessoas não trabalham? Mas será que nunca ninguém pensou fazer um manual de sobrevivência para isto? Quais os truques, as dicas, os segredos, para nos safarmos ilesos?

Depois da odisseia, que felizmente se arrumou em duas experiências sociologicamente enriquecedoras, agradeci aos céus o marido artista, que conseguiu arranjar metade das coisas no meio dos seus próprios materiais e pensei: Caramba, Setembro era o meu mês preferido, bucólico e imaculado, e agora carregará para sempre o trauma desta estreia.

Posto isto, pais com filhos em idade escolar: o meu coração está, irremediavelmente, convosco e eu proponho que façamos uns círculos xamânicos antes e depois da coisa, para que a malta se recomponha e sobreviva às sequelas seguintes.

E olhem que serão pelo menos 12. Já pensaram nisso?

P.S – Assumo aqui o compromisso de criar um manual de boas práticas sobre este assunto, mas preciso da vossa ajuda. Dicas, experiências, truques macacos… tudo é válido, pela sanidade mental de todos. Meus senhores/as, isto sim é serviço público… Venham daí esses contributos, ser-me-ão preciosos para os anos que aí vêm. Muito grata. 🙂