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As pessoas crescidas.

Passo a vida a deliciar-me com a beleza das palavras dos outros e a espantar-me com as coisas grandes que me ensinam e que, ainda que complicadas, se tornam simples, pela forma sentida como alguém as soube contar.

Hoje, voltei a reencontrar um livro de que gosto muito e aproximei-me outra vez das pessoas pequeninas (crescidas por dentro, mas não em tamanho) e de tudo o que tão sabiamente lêem na alma das pessoas adultas:

“As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da minha mãe… Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia nelas era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes no mundo: os bichos de seda e os guarda-chuvas de chocolate. Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaro. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza… não sei se sou crescido.” 

E assim, na história reencontrada no Livro de Crónicas do fabuloso António Lobo Antunes, voltei a pensar que também eu não sei se sou crescida.

Se calhar sou, nas contas que pago, nos horários que cumpro, na tristeza que já trago no olhar, na frustração que me assalta nas vezes em que sinto que já não me maravilho como antes, na fartura da rotina, no desejo constante de não me desviar do que é verdadeiramente importante na vida…

Se calhar sou. Vezes demais.

Mas depois ele vem, saltita à minha volta, tira-me tudo do lugar, chama-me vezes sem conta: “Oh mãe, anda cá ver isto!, desenha naves espaciais capazes de sair do papel e levar-nos aos dois até à lua, dá gargalhadas sonoras, transforma-me o chão da sala numa cidade para super-heróis, recorta máscaras de homem peixe, com barbatanas e tudo e vem tirar-me a mão do teclado para me dizer: “Vá, anda daí, está na hora de jogarmos um jogo.”

E é nestes momentos que eu volto a sentir que afinal talvez ainda não seja assim tão crescida e prometo a mim mesma que na próxima ida ao supermercado vou trazer dois guarda-chuvas de chocolate que comeremos juntos, no meio das almofadas que todos os dias atiras para o tapete.

Afinal, de bifes tártaro está o inferno cheio.

P.S – Se tal como eu te encantaste com as palavras de Lobo Antunes, podes ler este e outros textos aqui.

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Hi-tech, mas pouco.

Temos em família um princípio de ouro: a tecnologia não substitui as pessoas. Agarradas a este princípio vêm algumas regras, definidas com o mais novo cá de casa.

A saber:

  • Durante a refeição não há tablets, não há televisão, não há telemóveis;
  • Uma conversa com alguém presente não se interrompe para atender uma chamada ou espreitar o facebook;
  • O tablet tem acesso controlado (quase inexistente) e a televisão limita-se a 1h/dia ao fim de semana e a uns 30m durante os dias da semana, quando e se for possível, porque o jantar às vezes demora. Fora estes momentos, por norma, a televisão está sempre desligada e o tablet guardado (dica de ouro – nem se lembra que ele existe);
  • Os canais de televisão infantis são limitados ao Panda, ao Disney e à RTP2 e no Ipad não há jogos instalados (há umas aplicações de pinturas e de histórias);
  • Na sala há uma estante cheia de jogos como o mikado, cartas, xadrez, dominó, o jogo da memória… e são eles que nos fazem as alegrias ao serão, sentados no tapete da sala.

Muitas vezes, assaltada pelos apelos do mundo digital, questiono esta nossa estratégia: “Será que o Manel vai ser um “totó” no que se refere às competências tecnológicas?” ou “Será que vai estranhar quando lhe for solicitado dominar estas ferramentas, na escola ou no trabalho?”.

Felizmente, isto dá-me poucas vezes. Infelizmente, porque assisto vezes sem contas ao lado mau de uma má utilização das tecnologias.

E o lado mau é mesmo muito mau. É terrível.

Consegue pôr famílias inteiras à mesa sem que as pessoas olhem umas para as outras, sem que falem de banalidades e muito menos de coisas importantes.

Consegue pôr adolescentes a adormecer às 4 da manhã em dias de semana, impedindo-os de ter um sono reparador, como todos os sonos devem ser.

Consegue provocar nos miúdos, comportamentos típicos da síndrome de abstinência de uma substância psicoativa: descontrolo motor, ansiedade, irritabilidade, nervosismo, mudança de humor…

Consegue pôr os pais a dizer aos filhos: “Já vou”, demasiadas vezes, porque é preciso enviar um email fora de horas ou ver o número de likes da selfie tirada no último almoço de trabalho.

E com tudo isto consegue, lentamente, fazer com que nos esqueçamos que somos, por natureza, seres sociais e que por isso, precisamos do afeto e do contacto emocional e físico, quase como quem precisa da água para viver. Porque é afinal na relação com os outros que crescemos todos os dias e que nos tornamos seres humanos melhores.

O Manel tem cinco anos e sabe que o pinguim-macaroni vive na Antártida e que no nosso terraço crescem os melhores morangos do mundo. Sabe dizer qual foi a melhor coisa que lhe aconteceu na escola e partilhar o momento mais triste que teve. Sabe dar abraços e dizer os nomes dos nossos amigos todos. Pergunta o que vamos levar quando vamos jantar a casa de alguém e reconhece na nossa expressão facial que o dia não nos correu bem.

O Manel tem cinco anos, tem o coração apinhado de gente e sabe a coisa mais importante de todas: ser feliz, como ninguém.

Não me lixem, os computadores não fazem isto.

 

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Wanna dance?

Estávamos as duas no corredor da consulta de urgência. Eu por mim. Ela pelo marido.

Tínhamos estado juntos a fazer soro na mesma sala. Lembro-me de o observar: Alto, bem parecido, cabelos brancos muito alinhados, meias aos losangos e sapatos bonitos, de pele. 80 e poucos anos.

Quando terminei o tratamento, saí e foi então que a conheci. Sentada ao meu lado, falou-me dele. Falou-me da vida a dois. Dos filhos. Dos momentos felizes. Falou-me do projeto conjunto de ver crescer as oliveiras plantadas o ano passado. Disse-me, com os olhos cheios de amor, que estavam casados há 50 anos. E depois continuou…

“Dizem que é uma demência e que é isso que o deixa confuso, agitado… Mas sabe o que é pior?”

Abanei a cabeça.

“O pior é quando ele me diz: Quem és tu? Vai-te embora que eu não te conheço! Ou quando insiste em beber água da torneira porque acha que eu pus veneno na que está no garrafão. Ou quando me conta histórias que eu não entendo porque nunca antes as ouvi.”

E depois rematou: “E logo nós, que sempre fomos tão amigos…”

Dei-lhe o colo possível. Senti na pele o que pode ser perder o amor da nossa vida, ainda que ele continue a dormir ao nosso lado. Desejei que pudessem dançar uma última vez e que no regresso a casa, caminhassem juntos por entre as oliveiras.

E com isto, trouxe no peito a sensação de que o amor é o melhor que a vida tem. Mas nem sempre a vida o ampara.

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É a saudade, meu amor…

Não fomos ao Madame Tussauds, não vimos o Big Ben, nem sequer assistimos à Troca da Guarda no palácio de Buckingham. Em vez disso, demorámo-nos nos pequenos almoços, matámos as saudades dos amigos, passeámos à chuva e comemos sandes no jardim. Fingimos que a nossa casa era ali, na construção de madeira do parque infantil e deixámo-nos ficar em cada lugar, com o sossego e o sentido de honra, típicos da primeira vez. Apanhámos um comboio para descer a sul. Sentámo-nos ao lado de uma portuguesa e julgámo-la inglesa. Calada e de sorriso cúmplice, ouviu-nos os disparates à “turista chico-esperto” até ao final da viagem, para depois nos dizer: “Vão para Bournemouth, certo? Já chegaram.” Saímos aos tropeços e às gargalhadas pela coincidência feliz. Matámos saudades outra vez, porque os portugueses estão em todo o lado e os que nos moram no coração não são disso excepção. Dormimos até tarde, ficámos à espera dos esquilos e fomos cheirar o mar bravo do atlântico. Cinco dias depois, voltámos a sentar-nos no avião e tu, com um olhar inquieto, disseste-me: “Já estou com saudades outra vez mãe…”

E ali, naquele segundo, antes de rumares ao sol, ao caminho para escola e aos legos espalhados no chão do teu quarto, eu soube que há em ti alma de viajante. E que é a saudade que te fará voltar, meu amor…

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A minha Vera.

A minha Vera é força de vida. E de coragem.

Da irmandade adolescente foi ela que agarrou o sonho e o transformou em verdade, logo ali, quandos todas nós ainda suspirávamos pelo dia em que seríamos capazes.

Fomos levá-la ao aeroporto e depois da despedida, das cartas para ler no avião, do abraço apertado, da promessa de visita… ficámos a vê-la desaparecer nos corredores, de braço no ar e sorriso largo, cheio de esperança de que as lágrimas aguentassem até à primeira curva.

A Vera nunca mais voltou. Pelo menos para ficar.

Eu fui, voltei, fiquei. E aprendi a amá-la à distância, nas mensagens curtas, nos e-mails longos, na vontade dos telefonemas que não acontecem, na certeza dos verões e dos natais que se seguirão, apenas e só, para que voltemos a ter 15 anos mais uma vez…

A minha Vera é madrinha do meu filho e essa será sempre a minha maior prova de amor. Possibilitar a outra mulher um espaço próprio, único e tão especial, no coração de quem me tem por inteiro e para sempre. E quando ela chega é vê-los rir e brincar no chão, como se estivessem estado sempre assim. Essa é a sua maior prova de amor.

A minha Vera é força de vida. E de coragem.

E mesmo que o tempo passe e a distância às vezes me consuma pela vontade da amiga irmã, ela sabe (tal como eu), que na vida só se está, quando se é. E nós sabemos ser como ninguém, mesmo que seja preciso um avião para partilharmos um copo de vinho e brindarmos a cada disparate dito.

O meu parte esta semana, e vai saber a tanto…

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Aos 38…

Há uns dias, depois de mais um desabafo sobre a ainda necessidade de aprender a ser mais contida na forma como me expresso, alguém de quem gosto muito, olhou para mim e disse: “Tu falas com o coração.” Com um suspiro de alívio calei-me e aceitei, sem censura, a coisa mais bonita que me podiam ter dito.

É por isso que a aceitação, de quem sou e da forma como o sou, me parece o rumo certo para honrar o oitavo dos trinta e lhe estrear os passos.

E mesmo que eu já traga a vida vincada no rosto, agora sei que é o coração que fala, com o ímpeto e o desejo próprios de um adolescente. E isto é o que me basta, para gostar tanto de estar aqui…

“Eu construí a casa.

Primeiramente fi-la de ar.
Depois hasteei a bandeira
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso.

Não se pense mais: esta é a casa
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir
e isso é trabalho da primavera.”

Pablo Neruda, in Plenos Poderes

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Nesta história, de Super não temos nada.

Há uns tempos, num dos grupos de facebook a que pertenço, alguém partilhou um vídeo que mostrava uma criança sob o efeito de uma anestesia e a conversa alucinada que mantinha com os pais. Olhos vidrados, expressão apática, discurso confuso e desorganizado. Falava sobre aliens, perguntava onde estava, deixava a cabeça cair para a frente, e ria, ria sem parar, longe de saber o que lhe estava a acontecer. Os pais, conscientes do sítio onde estavam e da origem do comportamento do filho, tiveram o feliz impulso de filmar o episódio e a brilhantíssima ideia de o partilhar na internet. Tornou-se viral. Vá-se lá saber porquê.

Ou talvez se saiba.

Talvez o vírus seja o mesmo que carregou a página oficial do programa Super Nanny de comentários a parabenizar a iniciativa, agradecendo a boa hora em que apareceu a ama que corrige e resolve, pedindo vida longa às histórias das crianças que se seguem, excitado com a possibilidade de continuar a espreitar pelo buraco da fechadura da vida dos outros. Aos muitos que se insurgem contra (tal como eu me insurgi contra o vídeo do miúdo anestesiado), acusam de falsos moralismos, de serem responsáveis pela má educação dos miúdos de hoje, de se meterem com decisões que só aos pais cabem, de lançarem polémica sob um formato que foi sucesso em tantos outros países. E outras pérolas mais.

E debaixo do fogo cruzado dos discursos inflamados, do ataque cerrado, das acusações sem fim, está a Mariana, que mesmo tendo sido batizada de “furacão” não conseguiu usar a força para desaparecer dali e deixar os adultos no meio do caos que os próprios criaram.

É, apenas e só, a Mariana que me interessa. É a ela que devo respeito, que devo colo, que devo proteção. Era nela que alguém devia ter pensado antes de ter pensado em dinheiro, em audiências, em projeção profissional.

Saiu-nos pela culatra o propósito desmedido e pelo caminho levámos a Mariana que não tem culpa nenhuma de que mandem nela. A mãe, a Nanny e o mundo inteiro.