Sento-me sozinha para almoçar. Estranha, esta coisa de nos desabituarmos da nossa companhia, de passarmos a fazer cerimónia com a nossa própria solidão. Na cadeira em frente, a frase: “Deixe aqui o seu tabuleiro”. Obedeço ao convite com a mão a tremer-me e a sacar-me a caneta do bolso. Agora tenho esta sina, das palavras me tomarem o corpo de assalto nos momentos mais inoportunos. Ou é quando me sento para comer, ou é quando decido deitar-me, ou é quando me deixo escorrer, inteira, debaixo do chuveiro. É como se quisessem ocupar-me espaço, ganhar protagonismo, sobrepor-se à satisfação das obrigações terrenas. Comer, dormir, respirar. Escrever, escrever, escrever. “Deixe aqui o seu tabuleiro”. Apetece-me engolir o arroz de pato e despejar no tabuleiro tudo o que não quero mastigar na alma. E o tudo, hoje, é tanto… Na mesa ao lado duas senhoras entretidas numa conversa sem interesse nenhum. O marido insuportável, a libido da vizinha de cima, as madeixas loiras demais feitas pelo cabeleireiro a que não voltarão. Toda a vida me aborreceram as conversas sem interesse nenhum. Aprendi a disfarçá-lo bem. Mantenho o esgar no sorriso, aceno delicadamente com a cabeça, vou rematando com meia dúzia de interjeições meticulosamente posicionadas, e nos entretantos, alheia ao clímax dos enredos, deixo-me voar por aí sem destino nem vontade nenhuma. Pergunto-me, se na mesa ao lado, as senhoras saberão que podem largar os martírios, as invejas e os queixumes no tabuleiro, junto aos guardanapos usados e às cascas de melancia. Pergunto-me se saberão que podem despejar-se todas no tabuleiro, entregar os maridos e as vizinhas e os cabeleireiros, assim, de bandeja, para não mais voltarem a pôr-lhes a vista em cima. Aposto que lhes saberia pela vida. Pela que querem esquecer e pela que ainda não desistiram de viver. Talvez as conversas se enchessem de reticências, o cabelo voltasse ao vermelho fogo e a pele se arrepiasse toda, apenas e só pela possibilidade leve do desconhecido.

Gosto de me embrenhar nas pessoas. De lhes sentir o pulso, de lhes imaginar a casa, de me deter nos detalhes que as enfeitam. Ainda esta manhã, numa bomba de gasolina, houve um senhor que me disse: “Isto hoje está uma brasa e olhe que eu saio de casa todos os dias às 7:07!” Quem se lembraria disto? Quem se lembraria de tornar preciosos estes 420 segundos, a ponto de os salientar numa conversa de beira de estrada? Fiquei a imaginar-lhe a existência nesse compasso de tempo. 420 segundos para desligar o despertador e voltar a adormecer, 420 segundos para aparar minuciosamente o bigode, 420 segundos para fazer amor com a mulher, 420 segundos para enrolar uma sandes de paio para o almoço… 420 segundos. Que podem não servir para nada, ou que fazem toda a diferença. É mais ou menos isto que fazemos com o tempo. Ou saímos às 7 e tal e nos atabalhoamos o resto do dia no meio dos ponteiros do relógio, ou saímos escrupulosamente às 7:07, dando-nos de presente a cada milésimo dos segundos que tivemos a mais. É mais ou menos isto que fazemos com a vida. Ou nos embrenhamos nas pessoas e esperamos que nos agucem a alma ou deixamos que nos passem ao lado, sem desejo, nem romance, nem paixão. Se for para ser assim, mais vale que nos sobrem segundos com fartura. Ou bem que é para nos pormos de corpo inteiro no tempo que nos resta, ou mais vale sair de casa a uma hora que ninguém desconfie.

No dia em que nasceste o universo alinhou-se dentro de mim para te receber. Trouxe as flores, trouxe o chão, o ajuste quente do colo… Só não trouxe o roteiro porque esse a ti pertence e eu não quereria nunca tirar-te o doce prazer da descoberta de quem és. Basta-me a honra de te dar a mão, ensinar-te o sorriso e esperar que ambos te fiquem e te abram o peito às coisas bonitas que a vida tem.❤️

Sobre as mães…

O Manel devia ter um ou dois meses quando fiquei com 39 graus de febre por causa de uma mastite. Lembro-me de estar no banho e de deixar o corpo escorregar para se encolher a um canto da banheira, num choro tão de dentro que só o som da água a cair conseguiu disfarçar. Na minha cabeça gritavam as palavras: “Não podes ficar doente. O teu bebé precisa de ti. Não podes ficar doente. O teu bebé, o teu bebé… “ Fiquei ali o tempo que pude. Sozinha (ainda que tivesse a casa cheia de gente) e a achar-me a pior mãe do mundo, apenas e só porque me sentia sem forças, incapaz de lidar com a intensidade com que precisavam de mim. E era o meu bebé que precisava de mim. Não falei disto a ninguém, a não ser agora, que partilho a mensagem deste sentir nos grupos de mães e pais com quem trabalho. Aquilo que ela me ensina é que a maternidade é um desafio imenso a que só se consegue dar resposta quando pomos a correr esta ideia pesada de que as mães são super mulheres. Uma mãe é uma mulher. Ponto final. Uma mulher que se transforma e se reajusta às exigências e aprendizagens que a maternidade implica, mas que continua a ser uma mulher. Uma mulher que é coragem mas que às vezes também morre de medo, uma mulher que tem as respostas na ponta da língua, mas que em tantos momentos não sabe o que fazer, uma mulher de colo grande e eterno mas que também precisa de colo e sobretudo, precisa de reaprender a dar colo a si própria. O auto cuidado é um dos grandes desafios da maternidade e a ideia de que eu existo antes de existir o meu filho, será sempre o primeiro passo para que este amor se viva e se goze, inteiro, pleno, real, e sobretudo capaz de inspirar este filho, a que um dia possa amar-se também… 

Janeiro

Não nasci em tempo quente.
Acho mesmo que este facto foi um erro crasso que devia ter sido cuidadosamente acautelado na noite de amor em que fui gerada. Restou-me, ao longo dos anos, a árdua tarefa de tornar janeiro um mês mais interessante, poupando-o à constatação evidente de que era no meio do calor que aconteciam as melhores coisas da vida.
Agora, a modos que sou esta pessoa de janeiro que devia ter nascido em junho mas que ainda assim teve a sorte de que o feito quase se desse por terras algarvias. Venha por isso o sol a queimar-me a pele, as conchas ao pescoço, o cabelo feito sal, o pé descalço e as noites quentes. Venham as sardinhas e o gaspacho, os amigos tardios, a música na rua e o tinto de verano.
Venha tudo isto, que para o resto e para o janeiro, há-de sempre haver tempo que sobre…

Bom primeiro fim de semana de verão, pessoas tão bonitas ❤️

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu andava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse, ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto sem fim. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

As pessoas crescidas.

Passo a vida a deliciar-me com a beleza das palavras dos outros e a espantar-me com as coisas grandes que me ensinam e que, ainda que complicadas, se tornam simples, pela forma sentida como alguém as soube contar.

Hoje, voltei a reencontrar um livro de que gosto muito e aproximei-me outra vez das pessoas pequeninas (crescidas por dentro, mas não em tamanho) e de tudo o que tão sabiamente lêem na alma das pessoas adultas:

“As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da minha mãe… Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia nelas era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes no mundo: os bichos de seda e os guarda-chuvas de chocolate. Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaro. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza… não sei se sou crescido.” 

E assim, na história reencontrada no Livro de Crónicas do fabuloso António Lobo Antunes, voltei a pensar que também eu não sei se sou crescida.

Se calhar sou, nas contas que pago, nos horários que cumpro, na tristeza que já trago no olhar, na frustração que me assalta nas vezes em que sinto que já não me maravilho como antes, na fartura da rotina, no desejo constante de não me desviar do que é verdadeiramente importante na vida…

Se calhar sou. Vezes demais.

Mas depois ele vem, saltita à minha volta, tira-me tudo do lugar, chama-me vezes sem conta: “Oh mãe, anda cá ver isto!, desenha naves espaciais capazes de sair do papel e levar-nos aos dois até à lua, dá gargalhadas sonoras, transforma-me o chão da sala numa cidade para super-heróis, recorta máscaras de homem peixe, com barbatanas e tudo e vem tirar-me a mão do teclado para me dizer: “Vá, anda daí, está na hora de jogarmos às escondidas.”

E é nestes momentos que eu volto a sentir que afinal talvez ainda não seja assim tão crescida e prometo a mim mesma que na próxima ida ao supermercado vou trazer dois guarda-chuvas de chocolate que comeremos juntos, no meio das almofadas que todos os dias atiras para o tapete.

Afinal, de bifes tártaro está o inferno cheio.

P.S – Se tal como eu te encantaste com as palavras de Lobo Antunes, podes ler este e outros textos aqui.

As mamas da discórdia.

Sou eu nesta fotografia. Eu e o meu filho.

Partilho-a em modo de protesto, porque estou farta de ouvir falar das mamas das mulheres como se fossem propriedade comum. Património mundial da humanidade.

É porque dão de mamar, é porque não dão de mamar. É porque é em livre demanda, é porque é a toque de relógio. É porque as tapam, é porque as põem ao léu… Toda a minha gente sabe, melhor do que nós próprias, se havemos de guardar a mama ou se havemos de a pôr de fora. Se havemos de aproveitar a produção caseira ou se havemos de nos render ao pó da lata. Se havemos de gostar de amamentar ou se havemos de fingir que gostamos, só porque sim e porque é isso que se espera de uma boa mãe.

Amamentei até aos dois anos de vida do Manel. Senti sempre que era um privilégio quase mágico, o da possibilidade de poder alimentar o meu filho, apenas e só, com o meu corpo. Parei de o fazer, no dia em que me senti colapsar pela ressaca das noites sem dormir. Foram muitas noites. Mais precisamente, 730.

A mudança foi tranquila para os dois e absolutamente necessária. E eu decidi que era assim que tinha de ser, nesta que é a MINHA história.

Durante este tempo de mãe que amamenta, ouvi de tudo. Desde: “ele não para de chorar, o leite deve ser fraco…”, até a “um miúdo deste tamanho e ainda agarrado à mama…” Caramba, que nunca estavam satisfeitos.

Durante este tempo de mãe que amamenta, conheci mulheres que adoraram dar de mamar e outras que odiaram fazê-lo, num esforço quase sobre humano, até ao dia em que, apoiadas numa qualquer desculpa socialmente mais aceite, puseram fim ao martírio.

Uma mãe não se mede pelo leite que dá. Mede-se pelo amor, mede-se pelo brilho no olhar, pelo toque quente do colo. Mede-se, também, pela coragem de ser quem é e de assumir que aquele pode não ser o seu caminho, mesmo que os outros insistam em dizer-lhe o contrário, vezes e vezes sem conta.

Se o leite materno é das melhores coisas que podemos dar a um recém nascido? É. Se é uma sensação de conexão única? Para mim, foi. Se às vezes não é possível? Não é. Se às vezes não é desejado? Não é. É e será sempre, uma decisão da mulher a quem as mamas pertencem.

Estas com que nasci, não são do meu filho, não são do meu companheiro, não são vossas, fiéis juízes de bancada…

São minhas. E eu faço com elas o que bem me aprouver.

De chão e de amor…

Ela tinha sido sempre assim.
Trazia a vida inteira no sorriso e abraçava cada madrugada como se nela se contasse a mais bonita história de amor. Nas vezes em que tropeçava, quando o desassossego lhe entrava de rompante casa adentro, ela acolhia-o e dançava no desalinho, por entre flores e linhas e cores. Às vezes até o convidava para jantar e ficavam até altas horas da noite, a beber copos de vinho, até que os contornos cedessem e ela aprendesse outra vez a fechar os olhos e a gritá-los de cor.

Ele já não sabia ser de outra maneira.
A vida tinha-lhe dito há muito que não havia tempo para grandes paixões. Era preciso ser firme, correto, convicto. Às vezes chegava a bocejar, de tão cheio e enfadado de si mesmo. Sonhava com outras coisas. Mas em todas elas lhe vinha a razão, certeira, que ocupava tudo e o fazia descansar no compassar monótono da própria respiração. Sempre as mesmas arestas, o mesmo tom cru, as mesmas reentrâncias gastas. Nem flores, nem linhas, nem cores.

Dificilmente se chegariam a tocar.

Para ele, era demasiado arriscado. Para ela, demasiado familiar.
Às vezes trocavam dois dedos de conversa, como se espera de qualquer boa vizinhança. Mas não iam além das palavras sobre as condições meteorológicas ou sobre o preço do peixe no mercado.

Era preciso que chegasse a noite que lhes baralhasse os sentidos e que no meio de uma conversa dela mais contida ou de um arrepiar de pele dele capaz de lhe acelerar a respiração, confundissem os lados e se encontrassem, perdidos, na linha fina que outrora os detivera.

Era preciso que chegasse a noite, capaz de fazer dançar as flores no chão duro e seco e cru. Dizem que foi assim que tudo começou…

Ao amor…

Estávamos as duas no corredor da consulta de urgência. Eu por mim. Ela pelo marido.

Tínhamos estado juntos a fazer soro na mesma sala. Lembro-me de o observar: Alto, bem parecido, cabelos brancos muito alinhados, meias aos losangos e sapatos bonitos, de pele. Oitenta e poucos anos.

Saí da sala assim que terminei o tratamento, e foi então que a conheci.

Sentada ao meu lado, falou-me dele. Falou-me da vida a dois. Dos filhos. Dos momentos felizes. Falou-me do projeto conjunto de ver crescer as oliveiras plantadas no ano passado. Disse-me, com os olhos cheios de amor, que estavam casados há 50 anos. E depois continuou…

“Dizem que é uma demência e que é isso que o deixa confuso, agitado… Mas sabe o que é pior?”

Abanei a cabeça.

“O pior é quando ele me diz: Quem és tu? Vai-te embora que eu não te conheço! Ou quando insiste em beber água da torneira porque acha que eu pus veneno na que está no garrafão. Ou quando me conta histórias que eu não entendo porque nunca aconteceram.”

E depois rematou: “E logo nós, que fomos sempre tão amigos…”

Dei-lhe o colo possível.

Senti na pele o que pode ser perder o amor da nossa vida, ainda que ele continue a dormir ao nosso lado. Desejei que pudessem dançar uma última vez e que no regresso a casa, caminhassem juntos entre as oliveiras.

E com tudo isto, trouxe no peito a sensação de que o amor é o melhor que a vida tem. Mas nem sempre a vida cuida daqueles que um dia souberam amar assim…