Acreditar que o futuro vale a pena. (5 de 5)

E que vale a pena treiná-lo!

Saber que a adolescência é um período de aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção a esse futuro.

É por isso importante, ajudá-los a que desenvolvam aprendizagens que lhes facilitarão a vida mais tarde, preparando-os para lidar com os diferentes desafios que se lhes coloquem, quando entrem para a faculdade ou aquando da procura do 1º emprego.

Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, não estaremos a protegê-los mas sim a impedir que desenvolvam as estratégias necessárias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem.

Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade, tão importantes na idade adulta.

Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas para a solução dos problemas com que se deparem, fá-los também sentir que confiamos na sua capacidade para superar os desafios.

Finalmente, e sobretudo porque fazer escolhas no momento de instabilidade profissional e social atual pode ser sentido como algo extraordinariamente ameaçador, é importante ajudar a focar nos pontos positivos, que representem uma oportunidade de crescimento: o desenvolvimento de diferentes competências, a possibilidade do desempenho de tarefas variadas, a aprendizagem e, sobretudo, a valorização das experiências e características pessoais de sucesso.

Promover cenários positivos para o futuro, é fundamental para que os filhos se interessem por prepará-lo e assim se sintam capazes de superar todos os desafios e conquistar o mundo.

Que assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Na prática: Definir em família a partilha de responsabilidades e a participação de todos nas tarefas e rotinas da casa, desde cedo, é importante para que treinem competências como a cooperação, a partilha e a responsabilidade. A gestão do próprio dinheiro através de uma mesada, a experiência de uma viagem com amigos, a responsabilidade da lista de compras de supermercado, a confeção de refeições para a família, entre outras, são oportunidades que permitem estimular a autonomia e a independência dos nossos filhos, ajudando-os a preparar o futuro. Ajudar a identificar situações anteriores que tenham realizado pela primeira vez e em que se tenham saído bem, ajuda a que se sintam mais confiantes e não tenham medo de arriscar as diferentes opções, não desistindo nunca de tudo aquilo que poderão conquistar na vida.

Pensar nas escolhas como um processo. (4 de 5)

O desenvolvimento vocacional é um processo que se inicia desde o momento do nascimento e nos acompanha ao longo do nosso ciclo de vida, atravessando as mudanças necessárias, inerentes ao crescimento.

Constitui-se assim como uma dimensão do desenvolvimento psicológico global, que nos permite estabelecer relações com o mundo físico e social, através do questionamento e da experimentação, e nos prepara para o desenvolvimento dos diferentes papéis de vida, nos quais se incluem claro, os de estudante e de trabalhador.

Tal como nós, também o mercado de trabalho está em constante mudança. Surgem novas profissões, extinguem-se outras, o que faz com que, atualmente, não existam setores ou profissões imunes a esta transformação. Consequentemente, e tendo em conta as características e desafios do mundo como o conhecemos hoje, as pessoas deparam-se com a necessidade de reequacionar as suas trajetórias de vida e de carreira, de forma a adaptar-se às novas exigências.

Posto isto, é importante aceitar que a ideia que aprendemos do “emprego para a vida”, não será a realidade dos nossos filhos, o que implica que o seu futuro escolar e profissional deva ser pensado como um projeto em permanente construção, passível de ser alterado e reconstruído, as vezes que forem necessárias.

Mas então, como se prepara os filhos para isto?

Primeiro passo: Dizer-lhes, as vezes que forem necessárias, que as decisões que tomem não se encerram em si e que poderão sempre voltar atrás, mudar o rumo e recomeçar. Fazê-los sentir que assim é, mediante a aceitação das frustrações, dos erros, das tentativas, como parte normal e saudável do processo.

A escolha de um curso não significa necessariamente que é nessa área que irão trabalhar. Saber disto (e saber que nós sabemos disto), tira-lhes um peso enorme de cima e deixa-os mais tranquilos para subir um degrau de cada vez.

Segundo passo: Ajudar a que desenvolvam um mapa de competências que, pela sua transversalidade, lhes permita enfrentar os diferentes momentos de transição, preparando-os para a possibilidade de exercerem vários trabalhos ao longo da vida.

criatividade, a flexibilidade, a autonomia, a adaptabilidade, o empreendedorismo e o pensamento crítico, mas também a inteligência emocional, a capacidade de comunicação e o espírito de equipa, são as competências mais valorizadas no mercado de trabalho atual e serão também aquelas que se revelarão fundamentais para fazer face aos diferentes desafios que a vida lhes trará.

Para além disso, favorecer o conhecimento daquelas que são as suas características pessoais e daquilo que valorizam enquanto pessoas, é importante para permitir que antecipem as vantagens e desvantagens de cada possibilidade, abrindo caminho a que as escolhas feitas se aproximem, o mais possível, dos fatores que contribuirão para o seu bem estar e satisfação.

Alimentando sempre a ideia de que a pessoa que são, constrói-se a cada passo dado e cresce, em todos os sentidos, sempre que aceita na bagagem todas as experiências e caminhos percorridos.

Na prática: Estimula os teus filhos a que participem em atividades comunitárias, incentiva a que se associem a uma causa humanitária, a que colaborem com uma associação juvenil ou a que se agarrem a um part-time nas férias… Estas experiências contribuirão para que desenvolvam competências como as que acima foram descritas, permitindo ainda que alarguem o círculo relacional e aprendam a adaptar-se e a funcionar em ambientes diferentes daqueles que estão habituados. E isso dá-lhes muita estaleca. Para além disso, é fundamental favorecer a possibilidade de se dedicarem a atividades extracurriculares como a música, a dança, o desporto… Estas aprendizagens promovem o autoconhecimento, representando para os adolescentes uma oportunidade para explorar e desenvolver as suas aptidões e interesses, que poderão mais tarde revelar-se verdades sobre si.

Não esquecer que a história é deles. (3 de 5)

Sermos conscientes da importância da família, não significa que sejamos nós a assumir as rédeas de um destino que não é o nosso. E eu sei que a tentação é grande… Afinal existem coisas que a vida já se encarregou de nos ensinar e que com certeza lhes poupariam algum trabalho. E até algumas desilusões.

O medo da frustração dos desejos dos pais e o receio de não estar à altura das suas expectativas, é um dos fatores que mais atormenta os adolescentes, dificultando a tomada de decisões face ao percurso na escola ou às áreas/experiências que venham a desenvolver.

“O meu pai diz que esta profissão não tem futuro.” ou, “O que eu gostava mesmo era de fazer um curso profissional, mas lá em casa diz-se que é para os maus alunos…” ou ainda, “A minha mãe sempre quis ser advogada e eu gostava de poder cumprir esse objetivo.” Estas são apenas algumas das ideias que eles absorvem e que, invariavelmente, acabam por influenciar as escolhas que têm de fazer, que deveriam ser, o mais possível, livres de pressões e de medos.

Apoiar os nossos filhos não significa decidir por eles, nem tão pouco direcionar aquelas que serão as suas opções. Significa orientá-los ao longo do seu crescimento, significa sobretudo estar por perto, motivar, valorizar e ajudar a refletir e a debater, para que as decisões aconteçam de uma forma responsável, mais consciente e ponderada.

Apoiar os nossos filhos implica que sejamos capazes de aceitar que as suas escolhas podem ser diferentes das nossas, estimulando a sua autonomia e contribuindo para que sintam confiantes em todos os desafios que lhes surjam. A autonomia promove a responsabilidade, pelo que eles crescem enquanto pessoas sempre que sentem que existe da nossa parte, a confiança necessária para que possam experimentar, arriscar, concretizar.

E por fim, para que tudo isto possa acontecer, é importante recordar que o diálogo e o respeito serão sempre as chaves mágicas que abrem todas as portas. Ainda que discordemos de muitas das opiniões que têm, é seu o direito de as partilharem, de as defenderem, de as porem em comum.

E é precisamente nesta partilha que podem surgir outras reflexões, que os ajudem a pensar nas diferentes opções de uma forma mais sólida, e sobretudo mais próxima da decisão que, no momento, dê sentido a quem são e aos sonhos que namoram por dentro.

Na prática: Mesmo que os projetos que os nossos filhos equacionam nos pareçam disparatados ou pouco consistentes, se nos limitarmos a gritar: “Nem penses nisso!”, estaremos inevitavelmente a afastá-los e a fazer com que magiquem todos os planos em segredo ou, pior, que frustrem sonhos e projetos apenas e só, porque não houve abertura para sequer pensar sobre eles. Pegar nas ideias que têm e, em conjunto, identificar e disponibilizar informações objetivas, que permitam conhecer os diferentes percursos e opções disponíveis, será sempre uma boa estratégia e muitas vezes, aquela que permite a que cheguem eles próprios a novas alternativas e possibilidades.

Saber que a família importa. (2 de 5)

A partir do momento em que nos tornamos mães e pais, passamos a viver com uns olhinhos cravados em nós, atentos a tudo o que dizemos e, sobretudo, atentos a tudo o que fazemos.

Para os filhos, os pais constituem o exemplo mais próximo e mais significativo daquilo que é ser-se adulto, pelo que a grande maioria das suas atitudes e comportamentos, se desenham a partir daquilo que aprenderam connosco.

Tal como acontece a outros níveis, os pais afetam as escolhas vocacionais dos filhos, quer através daquilo que expressam verbalmente e das ideias que têm em relação à escola e ao mundo do trabalho quer através do desempenho dos seus diferentes papéis de vida – enquanto pais, enquanto companheiros, enquanto trabalhadores…

Neste sentido, a forma como nos posicionamos em cada um desses papéis, bem como os valores que guiam os nossos comportamentos e atitudes acabam por constituir, por isso só, uma poderosa fonte de inspiração – se eu cresço num ambiente em que o esforço e o empenho são valorizados e realizados, é isso que, naturalmente, procurarei no meu percurso…

Ainda que com a entrada na adolescência tenhamos a sensação de passar a representar uma espécie de papel secundário, neste que é o romance da nossa vida, a investigação tem demonstrado que, paralelamente à importância dos amigos nesta fase de vida, os adolescentes continuam a reconhecer a família como a fonte mais fidedigna de informação. E isto faz com que esperem dos pais compreensão e apoio no debater das suas dúvidas, bem como encorajamento no sentido da exploração e da construção de projetos de vida.

Envolver-se de forma intencional e refletida no percurso escolar e profissional dos nossos filhos, implica construir pontes de diálogo e de comunicação, que se revelarão insubstituíveis nos momentos de maior desafio. Fazê-lo com consciência, afetividade e empatia, traz-lhes a força que precisam para fazer todas as escolhas. De cabeça erguida e coração ao alto.

Na prática: Participar nas reuniões e iniciativas da escola, sempre e até ao fim do seu percurso escolar (a participação da família na vida escolar dos filhos tende a diminuir à medida que progridem no sistema de ensino, mas não é por estarem mais crescidos que deixa de ser importante…). Falar sobre as profissões da família e os percursos feitos, favorece o sentido de pertença (tão protetor para os jovens), bem como o reconhecimento de características comuns, contribuindo também para a obtenção de informações práticas sobre as diferentes possibilidades. Favorecer os momentos de exploração de informação sobre o mundo do trabalho, através de conversas informais com amigos e aproveitar as situações do dia-a-dia para pôr em comum ideias e projetos individuais e familiares, são atividades que promovem a reflexão conjunta, reforçando o impacto positivo que a família pode desempenhar nos processos de exploração e de tomada de decisão vocacional. 

Entender o momento. (1 de 5)

aqui falámos sobre a importância das escolhas e de que forma as mesmas podem ser vividas pelos adolescentes. Falámos também na influência que a nossa reação às suas (in)decisões pode ter sobre eles, na medida em que afeta a forma como vão refletindo sobre as opções que surgem ao longo do seu percurso escolar.

Considero que pensar sobre as nossas intenções enquanto mães e enquanto pais, ajuda a tornar mais conscientes e ponderadas as expectativas que temos em relação aos nossos filhos e em relação ao seu futuro. E por isso acredito, que é essa reflexão que nos faz ser capazes de controlar ou minorar o impacto que essas mesmas expectativas, possam vir a ter sobre quem são e sobre quem quererão ser.

O futuro deles às vezes mete-nos medo, eu sei, mas é nossa a tarefa de lhes dar o mapa sem lhes assinalar o caminho. E este é o momento ideal para que isso aconteça. Vejamos porquê…

A adolescência é um período de vida marcado por um conjunto de alterações biofisiológicas, psicológicas, intelectuais e sociais significativas, que implicam aos jovens uma readaptação profunda a si próprios e ao mundo que os rodeia. Essas alterações são fundamentais ao seu crescimento e vão permitir-lhes que ao longo desta etapa de vida, sejam cumpridas tarefas de desenvolvimento importantes, tais como:

       Construção da identidade: Significa ser capaz de se definir como pessoa, com valores e   necessidades próprias, com as quais nos comprometemos. Dá-se através do questionamento e da construção de valores, pela forma personalizada de ver o mundo e de o compreender com a afirmação de gostos próprios.

       Construção de projetos de vida: Materializa a procura de uma maior independência e crescente autonomização. A necessidade da tomada de decisões escolares e profissionais, favorece a disponibilidade para o autoconhecimento, uma maior reflexão pessoal, a capacidade de integração no grupo de iguais e a progressiva capacitação para a entrada no mundo dos adultos.

A noção da adolescência como um período particularmente desafiante mas profundamente adaptável e com objetivos muito claros, representa para os jovens e para quem os ajuda a crescer, uma oportunidade fantástica de aprendizagem e de crescimento pessoal e social.

Entender o momento, torna-nos mais empáticos na relação com os nossos filhos e isso contribui para que sejamos capazes de compreender que é normal estar indeciso, que é normal ter medo, que é normal ter mil e uma vontades e, às vezes, perder-se no meio delas.

Entender o momento ajuda a apaziguar a incerteza do futuro, a dar esperança e a transmitir a ideia de que a vida pode (e deve), ser feita de muitas escolhas e que haverá sempre espaço para abraçar mais uma das que possa fazer-nos estar mais próximos de quem queremos ser.

Ver crescer um filho implica o difícil exercício de deixar ir quem leva dentro o nosso coração. De o aceitar enquanto ser autónomo, capaz de fazer as suas escolhas, de seguir o seu caminho, na certeza de que é seu o direito de arriscar e nosso o dever de deixar que os seus passos se façam diferentes dos nossos.

Na prática: Lembra-te do adolescente que foste. Das dúvidas que te assaltaram o presente sempre que pensaste no futuro, dos momentos que te fizeram incomparavelmente feliz, daqueles que te causaram medo e até falta de esperança. A forma como os ultrapassaste. Partilha algumas dessas histórias com o teu/tua filho(a) e deixa-o(a) conhecer-te nessa altura, fazer perguntas… Saber que os pais passaram por momentos e dúvidas semelhantes, estimula a reflexão sobre si próprios e fá-los sentir que serão capazes de enfrentar os obstáculos com que se venham a deparar. Para além disso, ajuda a que sintam que conseguimos compreendê-los e isso normaliza o turbilhão de emoções e sobretudo, aproxima-vos.

P.S – Este é o primeiro de 5 posts, nos quais vou propor algumas ideias para ajudar a pensar o futuro deles. Espero que te sejam úteis. 🙂

“Tecnotóxico”

Andamos a fazer asneira da grossa. E vamos pagá-la cara.

Quem me conhece sabe que gosto pouco de me manifestar sobre a forma como cada um vive a sua vida, mas há uma situação particular, em que a coisa muda de figura e quase me salta a tampa.

Falo das vezes em que entro num restaurante e me deparo com famílias inteiras à mesa, completamente alienadas do que as rodeia e, sobretudo, de quem as rodeia. Ninguém fala com ninguém, ninguém olha para ninguém. Os dedos sim. Mexem-se. Teclam a uma velocidade estonteante e deslizam, ecrã brilhante acima, ecrã brilhante abaixo… E aqui, meus senhores, é ver-me a lançar olhares inquisitórios e reprovadores, sem o menor pudor. Não que as pessoas percebam, de tão absortas que estão, mas ainda assim correndo o risco de qualquer dia, levar com uma resposta torta. Merecida, eu sei, mas é mais forte do que eu…

Até lá e até que me batam, continuarei a dar o meu melhor, nesta minha missão de salvar o mundo do lado negro da tecnologia, que os sacanas do tablets e dos smartphones insistem em impingir-nos.

Agora, depois do necessário desabafo, passemos aos factos, antes que me acusem de má língua…

Sempre que interrompemos uma conversa com alguém que está à nossa frente, para atender o telefone… a tecnologia afasta-nos dos outros.

Sempre que nos sentamos à espera de uma consulta e a primeira coisa que fazemos é tirar o telefone da mala… a tecnologia afasta-nos de nós próprios.

Sempre que não temos a coragem de dizer o que sentimos e preferimos mandar um sms…a tecnologia faz-nos perder competências.

Sempre que achamos que a nossa vida é muita boa porque a foto do passeio de domingo na praia tem imensos likes… A tecnologia faz-nos achar que somos os maiores.

Sempre que levamos o tablet para o quarto para aproveitar mais uns minutinhos de deriva online…a tecnologia tira-nos o sono.

Sempre que deixamos de apanhar sol, ou chuva, ou vento na cara, para ficar no sofá a ver televisão…a tecnologia deixa-nos doentes.

Sempre que dizemos aos nossos filhos “espera aí, deixa-me só ver uma coisa no computador!”… a tecnologia rouba-nos o melhor que a vida nos dá.

A tecnologia pode não fazer nada disto e se assim for, estamos com certeza no bom caminho, o de a por no seu devido lugar. E esse lugar é acessório, é provisório, é material, é descartável.

As pessoas não. As pessoas riem, as pessoas choram, as pessoas têm cheiro, sentem coisas, dizem disparates, pedem desculpa, emocionam-se…

As pessoas podem fazer do mundo um lugar melhor.

A tecnologia torna-o eficiente. E isso, felizmente, ainda é muito pouco.

 

Nota: O filme Wall E foi lançado em 2008, altura em que começavam a surgir os primeiros smartphones, tal como os conhecemos hoje. Futuro longínquo na altura? Nunca estivemos tão perto…

Aprender pelo espanto ou o espanto de aprender.

Tu, pela milionésima vez: “Vá, vamos embora. Já chega!”

O teu filho, como se fosse a primeira… “Olha só para isto, mamã!”

A ideia da aprendizagem pelo espanto é a base da teoria educativa de Catherine L´Ecuyer, investigadora canadiana, que se dedica a estudar a forma como as crianças aprendem e aquilo que as move na construção de significados próprios, decorrentes das experiências que vivem.

A autora, que valoriza a curiosidade como o factor chave no crescimento, capaz de despertar nas crianças o desejo e a busca constante de conhecimento, empurrando-as assim para que descubram o mundo, diz-nos ainda que na infância mora o sentido inato para nos estimularmos com o que acontece à nossa volta e que por isso, aos pais, cabe apenas tarefa de serem jardineiros (e nunca carpinteiros ou escultores), capazes de regar e fazer crescer esse sentido.

Há, nas crianças, uma predisposição natural para a observação atenta do que as rodeia, numa atitude de enorme respeito pelo mistério e pela beleza das coisas de todos os dias. A décima descida no escorrega nunca é igual à anterior. A estrelinha ao lado da lua parece ainda mais brilhante esta noite.

Há, nos adultos, uma pretensão aprendida de quem já sabe muito e por isso acha, que o muito que sabe, é suficiente para não ter que insistir num segundo olhar. Quem já viu um pôr do sol já viu todos. Quem já correu à chuva não tem necessidade de se molhar outra vez.

E depois há a vida que acontece, com eles a espantarem-se a cada passo dado e connosco a seguir caminho. Quase cegos.

Acredito pois, que sempre que nascemos pais ou mães, temos em mãos uma espécie de segunda oportunidade. A oportunidade de nos reconciliarmos com a criança que fomos, o privilégio de nos pasmarmos com a criança que os nossos filhos são e com tudo aquilo que de mágico podemos descobrir juntos, a cada virar de esquina.

E são essas descobertas que movidas pela curiosidade insaciável e pela atenção no olhar, serão capazes de nos arrancar suspiros e assim nos mudar por dentro, fazendo perdurar no tempo o respeito e a gratidão com que lemos o mundo.

Para que entendamos, de uma vez por todas, que por mais coisas que saibamos e que tenhamos vivido, os dias nunca acontecem da mesma maneira, o céu tem sempre um azul diferente e aquele sorriso, daquela pessoa, jamais se fará igual.

Para que na próxima vez que ouvirmos: “Olha só para isto, mamã!”, nos deixemos de tretas e tenhamos a humildade de estar e chegar perto, permitindo que os seus olhos nos guiem e nos tragam deslumbramento. Pela vida nas coisas e pelas coisas da vida.

 

Nota: E porque em 8 minutos se pode dizer tanto e porque em 8 minutos cabe a vontade gigante de não esquecer e recuperar a cor perdida, algures, na rotina dos dias. Aqui vos deixo então, esta pequena delícia…

A força da vulnerabilidade.

Tens medo? Mostra coragem.

Não sabes a resposta? Disfarça, com um ar entendido.

Tens vontade de chorar? Foge daí, antes que alguém dê por isso.

Estás com um problema? Desenrasca-te sozinho/a porque toda a gente tem os seus.

Somos habituados a pensar a vulnerabilidade como uma fraqueza, como algo que nos deixa à mercê dos outros e lhes dá margem para definir o nosso valor enquanto pessoas.

Para não parecer frágil, há que ser prudente. Para não sofrer há que não mostrar sofrimento.

Assim vamos crescendo, a morrer de medo do julgamento dos outros e a aprender a defender o oposto daquilo que estamos a sentir, na busca de um ideal de perfeição disparatado. E inatingível, felizmente.

E depois há o tempo. Os anos que passam, a vida que ensina e que, na maioria das vezes, nos vai deixando mais disponíveis para ouvir quem somos e assim saborearmos o gosto suave da autoaceitação.

Pensar sobre a vulnerabilidade traz-nos a memória das muitas vezes em que achamos que não estamos à altura, que não somos suficientes e nos centramos na ideia de que os outros serão sempre melhores do que nós.

Assumir a nossa vulnerabilidade (e aceitá-la incondicionalmente), traz-nos a força de sentir que sempre que nos expomos, sempre que pedimos ajuda, sempre que baixamos a guarda e recebemos o desafio da incerteza, crescemos por dentro e tornamo-nos melhores pessoas.

Este blogue é um dos meus caminhos, o salto sem paraquedas, a minha entrega.

E eu sou grata, por todas as vezes em que abro o coração e deixo que as palavras me desacertem o passo. Sem medo e sem nenhuma outra garantia, a não ser, a fé em mim.

Que ela um dia me baste e assim, tal como a Sophia, aprenderei também eu “a viver em pleno vento”.

 

Nota: Brené Brown é uma investigadora e uma “contadora de histórias”, que se tem dedicado ao estudo dos processos envolvidos na vulnerabilidade, na coragem e na vergonha. Para saber mais, com quem sabe, espreita o vídeo…

Quando o gato lhes come a língua.
E demora a devolvê-la…

– Ah e tal, dizem-me que o mais importante é falar com o meu/minha filho/a.

– Verdade.

– Mas e se ele não fala comigo?

– Pois…

A mudança nos padrões de comunicação pode ser uma realidade, mais ou menos sentida, na maioria das famílias e é reflexo das muitas mudanças ocorridas na adolescência, que implicam uma maior introspeção e a necessidade de reorganização interna.

Ora para quem se habitou a ter dos filhos respostas rápidas sempre que os questionava sobre a vida e sobre a escola, pode ser especialmente difícil obter um vago e insípido “Hum, hum…”, sempre que tenta saber mais.

Ainda assim, mesmo que às vezes seja frustrante, vale a pena insistir e comunicar, pelo que aqui vão algumas propostas que talvez ajudem:

Banalizar os momentos de conversa. Falar no caminho para a escola, durante o jantar, enquanto fazem compras, durante uma caminhada… torna a comunicação parte da rotina e traz a naturalidade necessária a que os temas sérios aconteçam, sem que a sua seriedade seja entendida como solene… e chata.

Fechar as perguntas. Ajuda a trazer respostas mais significativas e espontâneas. “Qual foi a aula mais interessante hoje? A de Português ou a de Matemática?” ou “ Numa escala de 0-10, como é que correu o teu dia?”

Partilhar quem somos. Falar sobre nós, sobre o desafio que estamos a atravessar no trabalho, sobre a ideia de tirar um curso de pintura, sobre o restaurante novo onde fomos almoçar, etc, contribui para que se sintam mais próximos e valorizados na sua presença.

Sermos honestos. “Eu entendo que agora não te apeteça falar mas eu gostava de compreender melhor o que se passa e poder ajudar. Como achas que posso fazê-lo?” Mostrar-lhes que estamos atentos será sempre positivo. Dizer-lhes que sabemos que é difícil torna-nos mais empáticos. Pedir-lhes ajuda sobre a melhor forma de apoiar fá-los sentirem-se respeitados.

Não levar a peito. Podem existir dias em que, mesmo que te pintes de amarelo e faças o pino, não consigas sacar-lhe um sorriso ou uma frase completa. Não é um ataque pessoal nem significa que não vocês não tenham uma boa relação, pode apenas querer dizer que aquele não é um dia bom (tu também os tens). Outros dias virão e com eles outras oportunidades. Eles precisam da segurança de que tu sabes disso. E entendes.

Dar asas à comunicação. A comunicação faz-se de muitas formas e se a palavra não funcionar existe sempre a possibilidade de escrever. Podem fugir das conversas “tête-à-tête”, mas gostarão de encontrar um post-it num local estratégico a dizer: “Estou tão orgulhosa/o da forma como resolveste o problema com a Joana”, ou um email a dizer que o teste de Filosofia vai correr bem. Não é o meio que usamos para comunicar que é mais importante, mas sim garantir que a informação lhes chega e não os deixa esquecer que estamos por perto e nos importamos.

Propor alternativas. Uma vez que estas coisas nem sempre vão funcionar ou até porque sabemos que há assuntos que são particularmente difíceis (para nós ou para eles), é importante que existam momentos com outros adultos significativos. Um almoço estratégico com uma tia com quem se identificam e têm boa relação, um pedido de ajuda a um professor de referência ou a sugestão de uma conversa com o psicólogo da escola, podem constituir canais de comunicação importantes e extremamente protetores.

E por fim, porque tu tens em mãos a mais incrível missão, esta é para ti: Senta-te, respira e confia.

Nem sempre a estrada é fácil, nem sempre estarás preparada/o, e vais ter medo… muitas e muitas vezes. Mas no meio deste turbilhão de emoções, existe a certeza de que ajudar alguém a crescer, é uma das experiências mais extraordinárias que a vida nos pode dar.

O resto, dar-te-ão eles, no sábio retorno e na doce sensação de que vive em vós o segredo de um amor maior.

Ansiedade nos testes. A nossa tarefa.

Já por aqui falámos no impacto que a ansiedade pode ter nos jovens, transformando os momentos de avaliação numa verdadeira dor de cabeça, capaz de os impedir de enfrentar de forma mais positiva e saudável os desafios com que lidam em contexto escolar.

E tal como existem estratégias que lhes podem facilitar a vida, ajudando-os a lidar de forma mais adaptativa com o stress, também nós, como em tantas outras situações, podemos ter um papel fundamental nos momentos que antecedem os testes e nos momentos que a eles se seguem. Vejamos como:

Aprender com eles. Uma óptima estratégia para testar as aprendizagens é deixá-los explicar-nos a matéria aprendida, ou fazer-lhes perguntas e deixar que respondam por palavras suas;

Não insistir demasiado com afirmações como: “É só mais um teste…” ou “Não te preocupes tanto!”. A intenção é boa e até pode ser tranquilizadora para alguns, no entanto, quando eles se preocupam demais, pode fazê-los sentir que não compreendemos o que sentem. Quando assim é, é preferível lembrá-los de outras situações semelhantes pelas quais já passaram e a forma positiva como a ultrapassaram;

Pensar em conjunto em algumas estratégias que possam apoiar no momento do teste e treiná-las: respiração consciente e profunda, pensamentos tranquilizadores e promotores da auto-confiança; leitura atenta dos enunciados, gestão do tempo e das respostas (passando à frente as questões mais difíceis para voltar a elas mais tarde, por exemplo);

Pô-los a dormir. Não, não se trata de os “sedar”, mas sim de garantir que têm uma boa noite de sono. Deitarem-se tarde e estudarem intensivamente na véspera do teste apenas alimenta a ansiedade e contribui para uma maior insegurança, sempre que percebam que há conteúdos que não dominam tão bem. Um banho quente, uma refeição tranquila e um pouco de conversa em família antes de dormir, pode ser uma boa ajuda para que consigam relaxar e ter um sono mais reparador, que deixe o cérebro preparado para dar o seu melhor no dia seguinte;

Encorajar a reflexão sobre o processo: “O que funcionou? O que não funcionou? O que é poderias ter feito de diferente?” Ajudar a pensar sobre a forma como se preparam para o teste e como se organizam na hora H, pode contribuir para que sejam capazes de identificar comportamentos a alterar ou pelo contrário, valorizar outros como estratégias eficazes e portanto, a manter.

E por último, e talvez a ideia mais importante a transmitir-lhes: “Tu não és um resultado num teste ou num exame e o teu valor vai muito mais para além disso.” Terem a certeza de que sabemos disto, contribui para fazer crescer a força que lá dentro empurra para a frente e faz crer, que mesmo que a vida não seja perfeita todos os dias, é em nós que mora o sol capaz de nos guiar por muitas e muitas conquistas.