A verdadeira missão da parentalidade.

Ter um filho.

Podemos começar por aqui.
Pela ideia que tantas vezes ouvimos acerca das motivações para a parentalidade: “Engravidei porque queria muito ter um filho” ou, “Desde miúda que sonhava ter filhos. Não um, mas muitos”, ou até, “A minha mulher sempre quis ter uma menina. Eu já me dava por contente por já ter o João.”

Ter um filho.

Pari-lo, alimentá-lo, cuidá-lo, mimá-lo. Dar-lhe o nosso melhor para que um dia se torne muito melhor do que nós, e assim nos afague o ego, nos redima de todos os lados lunares e se cumpra nas expectativas da pessoa que gostaríamos de ter sido.

Ter um filho.

Vinculá-lo a nós, amarrá-lo à ideia que temos de quem é, torná-lo refém da nossa aprovação, para que nos honre e se torne merecedor do nosso mais perfeito amor.

Desaprender.

Sentir o seu crescimento, a sua força de ser, a luz, que às vezes, de tão intensa, quase nos cega. Vê-lo desabrochar, sem saber ao certo o tom predominante das pétalas que lhe nascem dentro. Ouvir a sua essência, celebrar a sua unicidade e permitir-lhe a liberdade de a experimentar, a cada descoberta que faça sobre si.

Renascer.

Em quem somos e em tudo o que somos juntos. Um filho que é afinal mestre de vida, capaz de iluminar os lugares mais esquecidos em nós, não só porque precisamos de nos relacionar com eles, mas também porque precisamos de os compreender, de os sarar e, progressivamente, nos tornarmos conscientes de quem somos, abrindo o coração à ideia de que este filho É, para além de nós.

Aceitar.

Olhá-lo como parceiro de jornada. Livre, meticulosamente perfeito na sua imperfeição, nas escolhas que faça, na personificação do seu espírito. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queira ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de si.

É aqui que se aprende a amar incondicionalmente. Só aqui.

E é aqui, precisamente neste ponto de viragem e de consciência, que começa verdadeiramente a mais corajosa e transformadora viagem da nossa existência: Sermos pais.

Tudo, porque um dia sonhámos ter um filho e descobrimos que afinal, éramos nós que nos tornávamos para sempre seus…

Let it snow, let it snow, let it snow…

 

Primeiro, o pânico: Estamos em Dezembro!
Depois, a palmadinha nas costas: Respira fundo. Tenho boas dicas para ti…

Todos os anos é a mesma coisa. Ando o ano inteiro a sonhar com o Natal e a fervilhar de ideias brilhantes para criar coisas especiais e pôr estas mãozinhas de artista a trabalhar e depois, chego ao mês do dito, a não dar conta do assunto e a pensar: Caramba, I did it again!

A verdade é que mesmo que os presentes não saiam exatamente como o figurino imaginado, sairão, e por cá continuaremos a tentar que as escolhas se façam com o coração e pela vontade de mimar, cada uma das pessoas bonitas que nos enchem a vida.

Ficam por isso algumas sugestões, já testadas e aprovadas pela malta cá de casa:

Jogos de madeira. Podem ser comboios, casinhas de bonecas, puzzles, instrumentos musicais… São bonitos (às vezes apetece-me pô-los a decorar a sala), não precisam de pilhas, apelam à imaginação, deixam memórias e duram imenso tempo (ao contrário do plástico fantástico).

Brinquedos artesanais: pensar num brinquedo como uma peça única, criada por alguém que pôs nele o seu tempo e a sua dedicação, torna tudo mais especial. Transmitir essa ideia aos miúdos falando-lhes sobre a história de quem deu vida àquele brinquedo, contribui para quem entendam este valor e o procurem nas escolhas que façam. O projeto Biscoitos é um projeto assim, bonito e concebido com muito amor, em que cada detalhe conta uma história feliz e nos prepara para muitas outras. De certeza que perto de vós existem amigos, familiares, pequenos comerciantes com mãos de fada ou de duende, capazes de produzir tesouros que se tornarão presentes raros e muito especiais.

Jogos de tabuleiro ou outros. Por cá os preferidos são o mikado, o xadrez, o jenga, o dominó, o jogo da memória e um baralho de cartas. São jogos com benefícios enormes ao nível da aprendizagem, da memória, da atenção, da motricidade fina, e são ainda uma excelente forma de terminar os serões. Este ano descobrimos numa feira de artesanato, um jogo de madeira chamado a escada de Jacó que, vos garanto, vai fazer brilhar os olhos de curiosidade e desafio, dos miúdos que moram aí em casa.

Pincéis, tintas, marcadores, blocos de papel, barro, plasticina… Tudo o que permita explorar materiais, conhecer melhor as cores, experimentar texturas, arriscar o traço é, na minha opinião, do melhor que há para estimular a criatividade, o conhecimento e a livre expressão de emoções e sentimentos;

Livros. Sempre e muitos. Há, hoje em dia, livros para crianças de enorme qualidade. Desde os textos, às ilustrações, aos temas abordados… a maior dificuldade será sempre ter de escolher. Um dos nossos preferidos é o “Pássaro da Alma” de Michal Snunit, que vale a pena conhecer e não mais largar. Depois, existem outros como o “Leonardo, o Monstro Terrível” de Mo Willems, que vos arrancarão umas boas gargalhadas e ainda darão para falar sobre assuntos importantes. Por cá andamos deliciados com a descoberta do “Robot Selvagem” de Peter Brown que conta a história fantástica de Roz, uma robot que vive numa ilha selvagem e cujas aventuras permitem aprender tanto sobre amizade, cooperação, respeito pela diferença, proteção do meio ambiente e progresso tecnológico. Uma espécie de Robinson Crusoé do futuro. Uma delícia, portanto.

Música. Pode ser um cd de qualidade, como por exemplo o “Mão Verde” de Capicua e Pedro Geraldes, que é também um livro, ou o da Luísa Sobral que adoramos, ou podem também ser instrumentos musicais, como um ukulele, uma pandeireta, uma viola, uma flauta… Cá em casa temos alguns e é sempre uma alegria imensa organizar concertos em família;

Experiências. A ideia é pensar numa atividade/ momento em família (um concerto, uma viagem, uma ida ao cinema, um piquenique…) e oferecê-lo num postal ou até num desenho. Valoriza os momentos (mais do que os presentes materiais) e é mais uma oportunidade para estarmos juntos e “experimentar”.

Solidariedade. E porque andamos sempre a apregoar que o Natal é um momento para celebrar o amor ao próximo, a família, os afetos, a generosidade… mas tantas vezes fazemos efetivamente muito pouco, para tornar as intenções verdadeiras, partilho convosco as ideias de uma leitora muito querida que, em família, opta por comprar oferecer um brinquedo ou uma roupa a uma instituição ou a alguém que precise de apoio e comprar estrelinhas da Associação Make a Wish.
(obrigada Célia !:) )

Made by us. Já há alguns anos que tentamos não comprar presentes para adultos e deitamos mãos à obra para tornar os mimos ainda mais especiais: uma compota de abóbora, um frasquinho de granola caseira, azeite aromatizado, um pacotinho de biscoitos feitos em família, são só alguns exemplos possíveis. O resto, só depende da vossa imaginação. Os mais pequenos gostam imenso de participar, desde a confeção até ao último toque especial no embrulho. E eu acredito mesmo, que estes presentes únicos e personalizados, chegam mais depressa ao coração de quem os recebe.

Para terminar, continuo a falar numa ideia de que gosto muito: um globo terrestre, daqueles iluminados. Oferecemos um ao nosso filho há uns anos atrás e sempre que falamos de um país novo lá vamos nós, a pedido, apontar onde o dito fica. Pode ser que seja um empurrãozinho para fazer crescer a vontade de mundo.

E para que eles aprendam, devagarinho (e para sempre), que o Natal é muito mais do que um saco cheio de presentes, tornemo-nos mais conscientes do nosso papel enquanto famílias, esquecendo o telemóvel e o computador, constituindo equipas na cozinha para fazer filhozes e aletria, vestindo casacos quentinhos para passear ao ar livre e sobretudo, demorando os jantares para que neles se converse, se olhe nos olhos e se faça sentir a todos que, afinal… já todos temos tudo, o que efetivamente é preciso ter.

Feliz Natal, pessoas tão bonitas!

Nota: E porque às vezes para entender é preciso fazer pensar, partilho convosco um anúncio produzido pela Ikea, que nos deixa o coração apertado, de tão real que esta cena podia ser…

Entre nós, há um bebé.

Preparamo-nos para tudo durante uma gravidez.
Fazemos uma lista dos sinais de alerta que podem significar risco, aprendemos a contabilizar o número de mexidas na barriga, a registá-lo num livrinho e a comer um chocolate sempre que o miúdo esteja estranhamente mais calmo. Compramos os melhores (e maiores) soutiens, espantadas com a inesperada voluptuosidade, besuntamos a barriga com toneladas de creme gordo, para evitar as estrias e até vamos, devagarinho, conformando-nos com a ideia de ter de gramar com um sem fim de malta a enfiar-nos o dedo na vagina nas idas ao hospital e durante todo o internamento.

Pelo caminho, vamos também aprendendo mais sobre o recém nascido.
Falamos sobre o choro, sobre mamas, sobre o choro por falta de mamas e ainda arrecadamos a preciosa informação de que existem praí uns 30 tipos de mamilos, e que alguns poderão facilitar-nos ou dificultar-nos a vida daí para diante. Aprendemos a mudar a fralda, a conhecer as melhores marcas do mercado para evitar as fugas, sabemos medir a temperatura da água ao milésimo de grau centígrado e até a fazer uma “argolhinha” com os dedos para não deixar escorregar o bebé durante o banho (ainda que qualquer semelhança entre um nenuco e um bebé, seja pura coincidência). Iniciamos uma biblioteca privada e especializadíssima que nos acompanhará para o resto da nossa existência e que promete ter resposta pronta para todas as dúvidas: o sono, a falta dele, a fome, as rotinas, as birras, a disciplina, a entrada na escola, os irmãos, os tempos livres, and so on… and on, and on…

Falamos muito sobre quase tudo e passamos a pente fino os principais desafios da maternidade, para depois nos esquecermos de um: aquilo que se transforma na relação amorosa e sexual com os nossos/as parceiro/as.

Pois é, a boa da sexualidade. Logo ela que tantas vezes é negligenciada, como se fosse o parente pobre da educação. Logo ela, que mexe com tudo o que somos e impregna de uma energia incrível, aquilo que sentimos enquanto pessoas e a forma como nos relacionamos com os outros.

E como é que a chegada de um bebé podia ser imune a isto? Não podia.

A sexualidade no pós parto tem de ser tema de conversa e de reflexão, nos cursos, entre os amigos, na relação, para que o tempo e o que não se perguntou, não se transformem numa espécie de elefante no meio da sala e com ele remetam ao silêncio todos os que a vivem, transformando as naturais mudanças/ ajustamentos, em barreiras difíceis de transpor. E as barreiras, às vezes, crescem em ideias feitas com estas que às vezes ouço por aí…

Quarenta dias depois do parto, a mulher pode retomar a sua vida sexual.
Pode, não quer dizer que tenha de o fazer. A prolactina, hormona responsável pela produção do leite materno é diminuidora do desejo sexual, com natural impacto na lubrificação da vagina, o que pode tornar a penetração mais dolorosa e a mulher menos predisposta à relação sexual. Para além disso, a intensidade e a exigência das transformações ocorridas durante a gravidez, no momento do parto e no puerpério, podem significar à mulher a necessidade de preservação de um espaço de retorno a si própria, do acarinhar da relação com o próprio corpo e de integração e entendimento dos novos desafios, nos quais o bebé se torna muitas vezes figura central. Pode por isso restar pouco espaço para a relação com o/a parceira e isso deve ser entendido, respeitado e muitas vezes, desdramatizado por ambos. Retomar a vida sexual sim, sempre que haja essa indicação médica, mas sobretudo apenas e quando a mulher assim o sentir.

E importante não deixar que o bebé desvie a atenção da relação e a importância de investir na relação com o/a parceiro/a.
Quando se nasce mulher, nasce-se também com a ideia de desejabilidade social, de cuidadora exímia, de mãe extremosa, de amante sensual… no matter what. E depois, quando por razões mais do que óbvias, nada disto é possível, vem a culpa que se carrega em silêncio e se disfarça de “sins” e de lingerie nova e de casa arrumada. A experiência de nos tornarmos mães, por mais que isso seja desejado e verdadeiramente apaixonante, é mais ou menos como ser albaroada por um camião em desgoverno, que nos despeja em cima um sem fim de caixotes cheios de informação variada, que é preciso digerir e arrumar devagarinho e a seu tempo, sem pressão. O sexo pode aqui não ser efetivamente o mais importante.

Depois do parto, a vagina da mulher muda irremediavelmente.
Os músculos do assoalho pélvico sofrem alteram-se, não apenas devido à passagem do bebé, mas também devido ao aumento de peso da mãe e às inúmeras mudanças hormonais ocorridas. Esta é uma das questões que por vezes preocupa as mulheres (e os homens), ainda que isso não seja muitas vezes assumido. E esta questão é tão pertinente que ainda, em alguns contextos, (e sobretudo perpretada por médicos homens), que há quem, depois de uma episiotomia, não se esqueça do “ponto do marido”, apertando e reduzindo a entrada da vagina com mais um ponto, como forma de garantir o seu estreitamento para um maior prazer do parceiro sexual, e sem que tal tenha sido consentido pela mulher. E isto, meus senhores, não tem outro nome que não, violência obstétrica. Na maioria das situações, as mudanças não provocam alterações significativas e, com o passar do tempo e a recuperação natural do corpo, as mesmas são minimizadas, sobretudo pelo facto da vagina se tratar de uma região em que os músculos são elásticos e têm a fantástica propriedade de relaxar e contrair. Existem por isso, exercícios específicos para o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, como os exercícios de Kegel, que serão fundamentais a um maior bem estar e à prevenção de problemas como a incontinência urinária ou a dor durante a relação sexual com penetração.

Depois de um bebé a relação amorosa nunca mais será a mesma.
O nascimento de um bebé e a experiência da parentalidade altera profundamente quem somos e a forma como pensamos a relação connosco e com os outros. Ter um bebé em casa, sobretudo nos primeiros tempos, altera toda a rotina familiar, interfere nos padrões de sono, implica um sem fim de reajustes e, sobretudo, assume muitas vezes contornos de uma verdadeira montanha russa emocional. Os silêncios, a falta de espaço íntimo, os medos relativos aos novos papéis, a falta de disponibilidade física e mental para o/a parceiro/a, podem efetivamente fazer mossa na relação. Tornar isto consciente, procurar partilhá-lo, sempre e quando nos for possível, e ser empático naquilo que o outro poderá estar a sentir, serão sempre ingredientes indispensáveis ao “surfar” da onda avassaladora de nos tornarmos mães e pais, sem perdermos de vista as mulheres e os homens que somos.

E se entre nós (vós) há um bebé, muitas vezes haverá também amor, amizade, companheirismo, cumplicidade, aceitação… E sempre que assim for, o bebé existirá e crescerá, na medida proporcional do amor que o gerou. Até aos fim dos tempos, ou até que o amor e o tempo, se transforme não naquilo que se esperava, mas naquilo que aconteceu. E isso, pode ser bonito também.

Do elogio ao encorajamento. Descubra as diferenças.

Voltou da tarde do Centro de Ciência Viva, feliz. Procurou a taça, o copo e o algodão para fazer outra vez magia na experiência aprendida. Chamou-nos. Encantados e com a vontade incontrolável de o encantar, dissemos: “Uau, que giro!”, para depois voltarmos ao que estávamos a fazer.
Percebi que depois daquele elogio nada tinha acontecido.
O sorriso tinha-me soado pouco entusiasmado e eu não voltei a ver o brilho do espanto inicial. Resolvi voltar atrás e perguntar: “Isso foi mesmo giro! Gostava mesmo de aprender como se faz…” E num segundo, foi ver o rosto iluminar-se outra vez e as palavras darem corpo à sensação feliz de se ser capaz e de se ser reconhecido por isso.

Usamos frequentemente o elogio como forma de mostrar amor e de o ganhar na satisfação imediata dos nossos filhos, mas o problema está precisamente nesta gratificação instantânea que pouco ou nada ensina e que muitas vezes serve de travão à comunicação, exatamente como aconteceu no início da história que aqui partilhei: “Gostaste? Boa, está tudo dito…”

O elogio sabe bem, mas o encorajamento consegue ir muito além dele e constitui uma ferramenta fundamental ao nível do desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima da criança. Pensar na forma como comunicamos o valor que sentimos nos nossos filhos, procurando estimular a ligação emocional e o desenvolvimento de um sentido de capacidade e empoderamento a cada passo dado, pode significar-lhes a diferença no enfrentar dos diferentes desafios de vida e na autonomia e confiança necessário para os superar. Ora vejamos porquê…

O elogio é uma espécie de shot de felicidade. O encorajamento faz-nos fazer sentir capazes de abraçar todos os desafios;

O elogio salienta as coisas que temos, a forma como parecemos ou aquilo que fazemos: “Que desenho bonito!” O encorajamento permite aprendizagem e conhecimento: “Olha só as cores que usaste! Gostas muito de azul?”

Um elogio é uma avaliação: “Lindo menino! Arrumaste tudo sozinho!” O encorajamento ensina-nos mais sobre nós próprios e sobre os outros: “Obrigada por teres cuidado do teu quarto. Como te sentes por ter tudo mais organizado?”

O elogio celebra o produto: “Estás linda!” O encorajamento valoriza o processo: “Vejo que hoje escolheste a tua roupa sozinha e que isso foi importante para ti. Queres contar-me como o fizeste?”

O elogio alimenta o locus de controle externo: “O que é os os outros pensam?”. O encorajamento favorece a reflexão interna: “O que é eu penso sobre isto?”

O elogio tem como objetivo a conformidade: “Fizeste muito bem!”. O encorajamento promove a compreensão: “O que senti? O que aprendi?”

O elogio usa os outros como termómetro: “Mamã, hoje fui melhor que os outros, não fui?” O encorajamento faz nascer sentido de competência: “Mamã, sinto que hoje fiz um bom trabalho.”

As diferenças são muitas e conseguem muitas vezes notar-se no imediato, porque para além do sorriso radiante, o encorajamento acrescenta ainda o brilho no olhar e a certeza de que somos donos e senhores do que é preciso para continuar a experimentar o mundo.

É aqui que passamos a gostar de quem somos, mesmo que às vezes nem todos gostem de nós.
E todos já sentimos na pele o quão é isto importante, não sentimos?

O poder da empatia.

Na fantástica, e ao mesmo tempo assustadora, missão de educar, cada um de nós estabelece prioridades, modelando, através daquelas que são as suas (re)ações, o comportamento dos filhos e a sua forma de pensar o mundo.

Neste meu caminho de mãe em constante crescimento, tenho tentado que o Manel se torne pessoa, sem esquecer que se é pessoa perto dos outros e que a essência da nossa humanidade reside, precisamente, na disponibilidade para entender o sofrimento, a alegria, as frustrações, as conquistas… o sentir de quem nos rodeia.

Falo aqui da capacidade de sermos empáticos, de nos aproximarmos do outro, de assumir o seu lugar, sem filtros e sem julgamento, fazendo sentir que se é compreendido e aceite. No matter what.

A empatia, diz quem sabe, melhora a relação com os outros, motiva o cuidado a quem está próximo, promove a aceitação social, a resolução pacífica de conflitos, diminuindo ainda a frequência de respostas agressivas. Tudo coisas boas, portanto.

E perguntam vocês:

“Mas como é que isso se consegue?”

1ª boa notícia: A empatia treina-se.

2ª boa notícia: Ajudar os nossos filhos a desenvolvê-la depende, em grande parte, de nós.

Vários estudos sugerem que existem práticas parentais que promovem o desenvolvimento da empatia nas crianças e nos jovens.

São os pais que incentivam os filhos à expressão emocional e à tomada da perspetiva do outro, e que experimentam os seus benefícios, sendo também eles empáticos nas relações que estabelecem.

É o permitir chorar, sem provocar o medo de perder o nosso amor. Sim, porque quando dizemos a uma criança que não chore, estamos a dizer-lhe que chorar é errado e isso, além de ensinar a reprimir emoções, pode também alimentar uma maior insegurança nas ligações que estabelecem connosco;

É contribuir para que identifiquem o que sentem e lhe dêem nome: “Estou triste porque um amigo não quis brincar comigo” ou, “Estou zangado porque não me deixaste sair à noite com o resto da turma”. E validar esse sentimento e a sua livre expressão;

É ajudar a que se coloquem na pele do outro e que pensem naquilo que possa estar a viver: “Imagina que te tinham feito o mesmo a ti (descrever a ação). Consegues imaginar como te sentirias?”

É dizer que aceitamos e compreendemos o que sentem, mas que, naquele momento, determinada atitude é a que nos parece mais acertada, por esta, ou por aquela razão;

É escutá-los. Sempre. Existe uma diferença abismal entre ouvir e escutar, já que a última não se limita a captar os sons à nossa volta, mas prefere ser sensível e estar verdadeiramente disponível para entender aquilo que está a ser comunicado.

Gosto de pensar que ser empático é estar de coração aberto e atento, na firme certeza de que, tal como o disse Adriano Moreira: “O mundo é a casa de todos os Homens”.

Não é a casa dos nossos filhos, não é a minha, não é a tua.

É a casa de todos nós e, como tal, nada mais amplo e justo do que, enquanto seres humanos, procurarmos sempre a construção de espaços comuns, que a todos cheguem e a todos permitam ser quem são.

Para melhor compreender e espalhar por aí o poder da empatia, aqui vos deixo esta pequena maravilha… :

Aos professores. Os bons.

Sou de uma família de professores.

Desde que me sei como gente, que me habituei a ouvir falar de escola, de alunos, de colegas, de livros, de exames, de dias difíceis, de conquistas importantes, enfim, da vida de quem passa grande parte da vida, na escola.

Quis o destino que viesse também eu, na minha profissão, a conviver diariamente com professores, a escutar as suas angústias e a partilhar os seus anseios, em relação à escola e a quem nela habita todos os dias.

Existem profissões que têm em si o poder de mudar o mundo, de salvar vidas e de fazer crescer a esperança. E aqui, falo convicta, dos professores. Dos bons professores.

E os bons professores são aqueles que se dão aos seus alunos todos os dias, que os levam para casa no coração e que procuram, incansavelmente, todas as formas de dar significado ao que é suposto ensinar-se, que tantas vezes está distante da vida e daquilo que é efetiva e afetivamente importante.

Sei por isso de cor, os nomes dos professores que marcaram o meu caminho. Reconheço-lhes as expressões, as marcas do rosto, as palavras ditas no momento certo, o afeto…

Alguns, tiveram a capacidade de me ajudar a compreender a forma como os números se relacionavam, a simplificar equações e a aprender que a matemática está em todo o lado, mesmo que eu tenha com ela uma relação difícil. Outros, fizeram com que me apaixonasse por aquilo que me ensinaram, de tal forma, que decidi fazer disso profissão.

Foi também na escola que aprendi a ser pessoa, que me relacionei com quem era diferente de mim e dos meus e que lidei com desafios gigantes, numa espécie de treino para a vida adulta.

E é afinal isto que a escola nos dá. Bagagem, sentido de ser, educação.

Porque mesmo que muitos me contestem, muito mais do que transmitir conhecimento, na escola EDUCA-SE, ensina-se a crescer. No saber e no coração.

E ainda bem que assim é, porque para muitas crianças e muitos jovens, o que existe para lá dos portões da escola é assustador, é desorganizador e duro, muito duro.

A escola pode tornar-se aqui uma espécie de porto seguro, quando as famílias sofrem e não sabem sê-lo. E os professores, os adultos significativos que com um gesto, uma palavra ou um olhar, têm em si a capacidade mágica de evitar que alguém que cresce, se zangue para sempre. Com as pessoas e com a vida.

Ora, claro que isto não é fácil e que existem cansaços, desalentos e frustrações, que conseguem por vezes desgastar os dias e roubar a esperança das histórias seguintes.

E é por isso eu sei, porque sinto, que os bons professores também precisam de colo. Precisam que lhes digam, muitas e muitas vezes, que podem realmente fazer a diferença e ser fonte de inspiração, conquistando assim a enorme honra de não serem esquecidos.

Eu fá-lo-ei sempre, com a gratidão de quem sabe que tem o privilégio de aprender, todos os dias, com aqueles que têm em si o poder de mudar o mundo.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

Seis livros para pensar o crescimento.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade, nunca se conheceram tantos especialistas na matéria e nunca se deram tantas dicas e se fizeram tantos tratados, acerca de como educar uma criança.

E isso é bom.

É bom desde que não percamos de vista quem somos e em quem nos queremos tornar enquanto educadores. É bom desde que não cedamos à tentação de não nos ouvirmos e de não ouvirmos os nossos filhos, conhecendo aquilo que os torna tão especiais. É bom desde que não nos deixemos enganar pela culpa de achar que, se não funciona assim connosco, é porque somos péssimos pais. É bom, sempre que saibamos integrar a informação e ver para além dela, à luz daquele que é o nosso caminho e enquadrando-a naquele que é o nosso contexto familiar e história de vida.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade e eu tenho uma prateleira cheia de livros sobre o assunto. Estão carregados de anotações e reflexões pessoais, que se fizeram do eco que as palavras lidas deixaram em mim.

De todos eles retirei o meu melhor, em todos eles deixei um pouco de quem sou, que volto sempre para buscar, quando a vontade me dá ou quando a vida me lembra da certeza absoluta de que nada sei. Não são bíblias, porque acredito que nunca nenhum livro, nem nenhum autor, por mais especializado que seja, será capaz de transformar em fórmula universal, a complexidade e o desafio de ajudar um filho a crescer. A eles, dou-lhes a tarefa consciente de se constituírem luz e impulso para pensar e para me conhecer nos sentidos com que me identifique e naqueles que construa a partir daí.

É por isto que nos textos que escrevo, procuro deixar espaço para que cada mãe, cada pai e cada família se possa encontrar num caminho que lhe é próprio e retirar das palavras, apenas e só, aquilo que lhe sirva, para depois o transformar e lhe trazer verdadeiro significado.

É por isso assim, com este propósito, que hoje vos deixo alguns dos autores que me trouxeram reflexões importantes e me deram asas para voar a partir dos livros que escreveram.

Não os vejam como especialistas, porque o especialista mais inspirador, mora em cada um de vós e no sujeito da vossa especialidade, que será sempre um ser único e com características irrepetíveis.

É essa a magia de educar. Não a percamos de vista.

 

Aqui te deixo a referência de alguns dos livros sobre parentalidade que mais me têm ensinado, esperando que possam trazer-te sentido também… (e claro, adoraria conhecer outros que a ti te tenham marcado 🙂

 

Pais Conscientes, Educar para crescer, de Shefali Tsabary
Pais Conscientes
Educar para crescer
de Shefali Tsabary

Disciplina Sem Dramas de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel
Disciplina Sem Dramas
Zangas para quê ? Os segredos da neurociência para educar os filhos tranquilamente
de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel

Educar na Curiosidade de Catherine L'Ecuyer
Educar na Curiosidade
Como educar num mundo frenético e hiperexigente?
de Catherine L’Ecuyer

Mindfulness para Pais Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes de Laura Sanches
Mindfulness para Pais
Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes
de Laura Sanches

O Cérebro da Criança Explicado aos Pais de Álvaro Bilbao
O Cérebro da Criança Explicado aos Pais
Como ajudar o seu filho a desenvolver todo o potencial intelectual e emocional
de Álvaro Bilbao

Free To Learn : Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
Free To Learn
Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
de Peter Gray


 

6 maneiras de os ajudar a “desligar” em tempo de férias (e ao longo do ano).

Este é um tema que me preocupa. Muito.

Lá em casa visto quase sempre a pele de fiscal do tablet e da televisão, mas dou por mim muitas vezes a pensar sobre a estratégia e a tentar preparar-me da melhor forma para os desafios futuros. E digo futuros, porque até agora a coisa tem funcionado bem, o Manel raramente se lembra do tablet, nós não temos por hábito andar com o dito e nas poucas vezes em que o usa, recebe bem a sugestão de o desligar ao fim de pouco tempo.

Mas eu sei que é um ilusão achar que isto vai ser sempre assim. Sei porque tenho amigos com filhos mais velhos, sei porque trabalho com adolescentes na escola, sei, porque sei, que o mundo da tecnologia e, sobretudo dos jogos online, está pensado ao pormenor para favorecer a dependência e a desconexão de quem o procura.

Ajudar os filhos a fazer um uso adequado da tecnologia é um dos maiores desafios dos pais da atualidade, pelo que seguem algumas propostas que podem ser úteis às famílias e significar pontos de início e de retorno para todos, capazes de colocar os gadgets no seu devido lugar: o do entretenimento divertido e casual:

Não fazer da tecnologia um bicho de 7 cabeças.

Este é o ponto que mais tenho de trabalhar. Odeio jogos online, odeio ver crianças e adultos constantemente agarrados tablet e morro de medo de que isto se torne uma realidade cá em casa. E isto, faz com que ande constantemente a reagir à sua utilização e a verbalizá-lo: “Que perda de tempo!”. Não é, definitivamente, a melhor estratégia. Para entender o que se passa no ecrã, para poder aproveitar o seu lado bom e explicar o lado menos bom, é preciso não espantar os pequenos seres que por ele se encantam. A velha máxima do “fruto proibido é o mais apetecido” faz aqui todo o sentido e é por isso tão importante dar espaço para se falar no assunto e tentar compreender melhor a tentação: “Bem, isso parece mesmo desafiante!” ou “Queres explicar-me como se joga?”, são geralmente bons pontos de partida.

Falar abertamente acerca dos riscos associados ao uso excessivo de ecrãs.

Tal como em tudo na vida, nem todos os jogos ou vídeos são terríveis e nem sempre o recurso à tecnologia é um problema. Mas quando se transforma em tal, é nossa a tarefa de ajudar a pensar no impacto que a sua utilização excessiva pode provocar-nos, no que se refere ao bem estar e à saúde: “Reparei que quando jogas durante mais tempo, acabas por faltar ao treino de futebol” ou “Como te sentirias se dormisses um pouco mais?” ou ainda, “Tenho um colega no trabalho que está com dificuldades por causa do uso excessivo do computador…”, são exemplos que poderão ajudar a que cheguem eles próprios aos riscos que esta utilização representa.

Definir regras em conjunto.

A maioria das situações que me chegam de pais com dificuldade em definir limites aos filhos para a utilização do telefone ou do tablet, são situações em que o tema nunca foi discutido em família, muito menos aquando da tomada de decisão de comprar o dito aparelho. E acredito que este deve ser um ponto fundamental, capaz de evitar algumas dificuldades no futuro. Combinar que à mesa não se usa telemóvel, definir um lugar na casa onde guardar os gadgets durante a noite, estabelecer limites máximos de tempo para o jogo e estipular dias da semana específicos em que isso pode acontecer, limitar a existência de computadores e televisões às áreas comuns da casa, são algumas ideias que podem ser facilitar a saudável convivência com a tecnologia, protegendo, claro está, a convivência em família. (Nota importante: não esquecer que as regras aplicam-se a todos os elementos do agregado.)

Mostrar compreensão.

Terminar um jogo ou uma atividade que nos está a provocar sensações de bem estar e de prazer, só porque alguém nos diz para o fazermos, não é fácil e na maioria das vezes não será pacífico. Se, enquanto pais, mostrarmos empatia em relação a isto, ajudamos a lidar com a frustração e a facilitar que aceitem melhor a nossa colaboração nesta gestão: “Eu sei que estavas a gostar de jogar, mas já chegámos ao fim do tempo que combinámos”, relembra a importância de desligar, mas compreende que tal possa ser difícil.

Criar momentos em família do tipo “tecnologia não entra”.

“Vamos acampar? Deixamos o tablet em casa.” “Vamos jantar com  amigos? Não precisamos de telemóvel.” Fazer da experiência uma espécie de estudo sociológico e envolvê-los na sua implementação, análise e avaliação pode ser uma boa forma de motivar à participação. Aproveitar a moda do detox tecnológico: “Quanto tempo acham que aguentaríamos sem usar o telemóvel?” lança o desafio e torna tudo muito mais interessante.

Dar o exemplo.

Se eles são nativos digitais, nós já temos comportamentos muitos semelhantes, ainda que não tenhamos nascido com um telemóvel no bolso. Quantos de nós já se esconderam por uns instantes para espreitar as mensagens, quantos de nós já sacaram o telefone do bolso para fazer scroll no facebook assim que nos sentamos em qualquer lado, quantos de nós já levaram o tablet para a cama à noite? Quantos de nós já gritaram: “Já vou!”, só para estar mais um pouco no computador. Provavelmente todos. E a verdade é que em todas essas vezes, há alguém pequenino que nos observa. E aprende. Não nos esqueçamos disto.

E por fim, sabendo que estas propostas servirão assim a algumas famílias, e a outras servirão de outra forma, sendo que a todas será possível enfrentar o desafio imenso que esta coisa de viver num mundo cada vez mais digital representa, proponho ainda que não nos esqueçamos das coisas que nos fazem verdadeiramente sentir vivos: um banho de mar, as gargalhadas dos amigos, um desgosto de amor, um piquenique no parque, um concerto ao ar livre, uma viagem… estas são as experiências capazes de aguçar a vontade de mundo. E são elas que baterão aos pontos qualquer jogo online.

Sejamos vivos assim e não nos esqueçamos de os trazer connosco. Mesmo que às vezes a cara se faça feia, a memória não se fará dela…

Há por aí campistas para partilhar dicas?

A primeira vez que acampei foi pela mão do meu pai. Não nos rendíamos aos parques e preferíamos aventuras mais ao género “into the wild”, com uma noite na praia ou um fim de semana na barragem. Na altura, ainda podíamos escolher, a nosso belo prazer, o sítio onde assentar a barraca.

Depois vieram as experiências com amigos na adolescência. Semanas de planificação, listas de supermercardo pensadas ao milímetro, o nervoso miudinho na véspera do grande dia… E lá íamos nós, aos magotes, de mochila às costas e colchão enrolado, no comboio rumo à ilha de Tavira. Fazíamos salada de atum e massa à carbonara, dormíamos na praia ao som dos djembês e éramos sempre felizes. Muito.

Já na idade adulta, continuei a fazer disto rotina sempre que me foi possível e por isso, assim que o Manel dormiu uma noite inteira, fizemos-lhe o batismo (sim, porque isto de acordar 300 vezes à noite até quase aos 2 anos, fez com que tivéssemos de adiar alguns planos). Foi por isso em 2014 que nos estreámos em modo trio campista e desde então, honramos este pacto bom todos os anos. É maravilhoso ver como se sente peixinho na água e ainda assim vibra, como se fosse a primeira vez, sempre que montamos a tenda, sempre que acordamos com nevoeiro cerrado e chuva miudinha, sempre que nos reunimos com amigos à volta de uma mesa pequenina e bamboleante para picar da panela comum ou para jogar ao Uno…

(Ups, não era bem isto…mas obrigada por teres chegado até aqui. Sempre que começo a escrever dá nisto e o que era para ser uma lista de dicas transforma-se num sem fim de palavras cheias de vontade própria, que me desviam do propósito inicial. Desculpa. Não desistas. Abaixo vêm umas dicas top. Continuemos pois…)

Nesta minha jornada de mãe que acampa com o filho, tenho aprendido alguns truques que tenho aprimorado de ano para o ano. Uns permanecem, outros caem por terra por serem completamente desnecessários e porque, felizmente, cada vez tenho mais a certeza que é preciso muito pouco para sermos felizes e que o importante mesmo é descomplicar. Por isso, malta aspirante a campista, campistas veteranos, curiosos cheios de vontade e à espera que alguém os convide, aqui seguem algumas dicas simples que para nós se tornaram importantes:

Os básicos

Tenda: A nossa é uma espécie de iglo grande, sem divisórias. Dá para quatro pessoas. Tem uma característica fundamental para nós: um avançado que dá para deixar as coisas da praia, os sapatos e as pranchas de surf que nos acompanham sempre.

Sacos cama: Nós não usamos porque já os emprestámos a alguém e perdemos-lhes o rasto. Optámos agora por lençóis e um edredon grande e estamos sempre safos. O saco cama pode ser mais prático e fácil de transportar.

Colchões: Temos três tripartidos, mas também há uns insufláveis. Experimentem-nos sempre, porque se não forem dos bons, mais vale dormir no chão.

Camping Gaz ou fogareiro: Campismo rima com massa com atum ou pianinho grelhado, por isso, vale a pena safarmo-nos a confeccionar uma refeição em condições mais extremas: de cócoras, com um frio do caraças e uma panelinha de água que nunca mais ferve. Faz parte.

Polares, meias e um par de ténis: O nosso sítio de eleição fica na costa vicentina e isso implica rapar um frio de rachar todas as noites. Garanto-vos que esta alteração climática do dia para a noite é das melhores coisas de acampar. Aconchega o corpo e alma. Ahhh, e já que falamos de roupa, sejam comedidos, não vão usar metade (acontece-me sempre).

Loção anti mosquitos: Se a noite trouxer o inverno no sítio para onde vão, não haverá mosquito que se aventure, caso não, este é um must have, que vos saberá pela vida. Escusam de me agradecer.

Louça essencial: Existem um kits já feitos ou podem, como nós, reunir em casa tudo o que tenham de plástico rijo (talheres dos miúdos, tigelinhas, tupperwares…). Também é importante uma panela, se quiserem cozinhar e uma faca boa, se não quiserem comprar a batalha inglória de cortar pão e tomates com facas de criança.

Jogos de mesa: Coloco nos essenciais por ser uma das coisas que mais gozo dá viver nesta experiência. Que se aproveite o tempo depois do jantar para jogar às cartas, jogar xadrez, damas, uno… Os miúdos adoram e os adultos também.

Medicamentos: Nunca tinha levado. Mora em mim uma espécie de mãe aluada, que se esquece de pormenores importantes como este. No ano passado, o Manel acordou de madrugada a gritar de dores com uma otite e por isso, eu nunca mais me vou esquecer. Um pequeno saco térmico com o básico: Benuron, Brufen, termómetro. E já agora, Bepanthene Feridas e meia dúzia de pensos. Não custa nada e pode ser muito útil.

Os upgrades

Rede: Estreámo-nos este ano e não há melhor do que balouçar ao som dos grilos e a olhar para a lua por detrás dos pinheiros. Já se estão a imaginar, não estão?

Vassourinha: Não é essencial mas dá um jeitaço para varrer os quilos de areia e de terra que entram todos os dias pela tenda adentro.

Lanterna: Não tenho saudades de andar à procura do telemóvel para acender uma luz. Há umas lanternas pequeninas que se prendem no topo da tenda e são suficientes para encontrar a roupa, ou a carteira, ou o papel higiénico (levar sempre, as casas de banho não costumam ter). E só precisam que estiquemos o braço e… clic, já estás.

Corda e molas de roupa: Passei anos sem levar e a ter de cravar a corda do vizinho. Dá jeito para estender as toalhas e os biquinis até à manhã seguinte.

Ponchos-toalha para os miúdos: São óptimos. Deixam-nos quentinhos até à tenda e não caem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche, sempre que os embrulhamos.

Chinelos com elástico atrás: Dão para a praia e para o banho e ajudam a que não se descalcem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche.

Nécessaire com uma cruzeta para pendurar: E voltamos ao mesmo. Chão molhado e sujo dos balneários. Acho que estou a descobrir aqui um padrão… Sim, o chão molhado e sujo dos balneários é um problema para mim. Cruzeta pendurada no cabide, tudo à mão de semear e estou no paraíso.

E depois desta lista imensa, à qual acredito que acrescentariam um sem fim de coisas igualmente importantes (estou longe de ser uma expert na matéria), só me apetece pedir-vos que experimentem e que levem os miúdos.

Que os deixem procurar o melhor sítio para montar a tenda e perceber onde vai nascer o sol. Que os deixem martelar estacas e tirar pedregulhos do chão para dormirem melhor. Que os deixem fazer a salada, apanhar pinhas para o fogareiro e pôr a mesa com a loiça improvisada. Que os deixem jogar às cartas até de madrugada, vestidos com casacos polares e com o cabelo cheio de mar.

E sobretudo, que lhes permitam o privilégio de adormecer sob o céu estrelado e acordar com o cheiro dos pinheiros e o barulho dos pássaros. Entenderão assim, que a natureza sabe mesmo o que faz e que, dentro deles, mora tudo o que é preciso para aprender.

Palavra de campista.

Se os adultos…

Ao folhear um livro antigo, encontrei este texto que, tendo sido escrito em 1952, me fez revisitar aquilo em que acredito quando penso no desafio que é ser mãe e no impacto que a forma como agimos, pode significar no desenvolvimento dos nossos filhos. Não seremos nunca pais perfeitos (nem isso seria desejável) mas morará sempre em nós, a capacidade de refletir, aprender e crescer enquanto seres humanos, de forma a que o melhor que somos, seja sempre bússola. E perdure.

“Se as crianças vivem com crítica, aprender a condenar.

Se as crianças vivem com hostilidade, aprendem a ser agressivas.

Se as crianças vivem com medo, aprender a ser apreensivas.

Se as crianças vivem com pena, aprendem a ter pena de si próprias.

Se as crianças vivem com vergonha, aprendem a sentir-se culpadas.

Se as crianças vivem com encorajamento, aprendem a ser confiantes.

Se as crianças vivem com tolerância aprendem a ser pacientes.

Se as crianças vivem com elogios, aprendem a apreciar.

Se as crianças vivem com aceitação, aprendem a amar.”

Dorothy Law Nolte