Ansiedade nos testes. A nossa tarefa.

Já por aqui falámos no impacto que a ansiedade pode ter nos jovens, transformando os momentos de avaliação numa verdadeira dor de cabeça, capaz de os impedir de enfrentar de forma mais positiva e saudável, os desafios com que lidam em contexto escolar.

E tal como existem estratégias que lhes podem facilitar a vida, ajudando-os a lidar de forma mais adaptativa com o stress, também nós, como em tantas outras situações, podemos ter um papel fundamental nos momentos que antecedem os testes e nos momentos que a eles se seguem. Vejamos como:

Aprender com eles. Uma óptima maneira de testar as aprendizagens feitas é deixá-los explicar-nos os conteúdos que tenham estado a trabalhar, ou fazer-lhes perguntas e deixar que respondam por palavras suas;

Não insistir demasiado com afirmações como: “É só mais um teste…” ou “Não te preocupes tanto!”. A intenção é boa e até pode ser tranquilizadora para alguns, no entanto, quando eles se preocupam demais, pode fazê-los sentir que não compreendemos o que sentem. Quando assim é, é preferível lembrá-los de outras situações semelhantes pelas quais já passaram e a forma como conseguiram ultrapassá-las;

Pensar em conjunto algumas estratégias que possam apoiar no momento do teste, e treiná-las: respiração mais consciente e profunda, pensamentos tranquilizadores e promotores da auto-confiança; leitura atenta dos enunciados, gestão do tempo e das respostas (passando à frente as questões mais difíceis para voltar a elas mais tarde, por exemplo);

Pô-los a dormir. Não, não se trata de os “sedar”, mas sim de garantir que têm uma boa noite de sono. Deitarem-se tarde e estudarem intensivamente na véspera do teste apenas alimenta a ansiedade e contribui para uma maior insegurança, sempre que percebam que há conteúdos que não dominam tão bem. Um banho quente, uma refeição tranquila e um pouco de conversa em família antes de dormir, podem ser boas ajudas, para que consigam relaxar e ter um sono mais reparador, que deixe o cérebro preparado para dar o seu melhor no dia seguinte;

Encorajar a reflexão sobre o processo: “O que funcionou? O que não funcionou? O que é poderias ter feito de diferente?” Ajudar a pensar sobre a forma como se preparam para o teste e como se organizam na hora H, pode contribuir para que sejam capazes de identificar comportamentos a alterar ou pelo contrário, valorizar outros como estratégias eficazes e portanto, a manter.

E por último, e talvez a ideia mais importante a transmitir-lhes: “Tu não és um resultado num teste ou num exame e o teu valor vai muito mais para além disso.”

Terem a certeza de que sabemos disto, contribui para fazer crescer a força que lá dentro empurra para a frente e faz crer, que mesmo que a vida não seja perfeita todos os dias, é em nós que mora o sol capaz de nos guiar por muitas e muitas conquistas.

O teu filho é vítima de bullying? O que podes fazer para ajudar.

Estava no 3º ano do primeiro ciclo. Devia ter uns 8 ou 9 anos. Era a primeira vez naquela escola. Aproximei-me do grupo de rapazes e raparigas que se tinha juntado na lateral do pavilhão onde aconteciam as aulas. Queria fazer amigos. Assim que perceberam que me aproximava, apontaram o dedo para as calças de xadrez que trazia vestidas e, às gargalhadas, gritaram: “Sai daqui oh calças de palhaço!” Nunca mais me esqueci disto. Lembro-me do sítio, lembro-me das caras, do gozo e do som alto do riso conjunto. Lembro-me da vergonha, da cara a arder e da vontade incontrolável de chorar, enquanto fugia dali, aos tropeções. Lembro-me, também, de odiar as malditas calças de xadrez que me tinham vestido naquela manhã. E sei hoje, que se aquela manhã se tivesse repetido e se tivesse colado a mim, eu teria aprendido também a odiar a pele por baixo das calças, o corpo, a voz, a vontade de me aproximar dos outros e de querer torná-los meus. Teria, por fim, aprendido a odiar quem sou.

As sensações que aqui recordo deste dia, que felizmente não se repetiu, tornam-me mais próxima, outra vez, de quem sofre com isto na escola todos os dias. Os miúdos que observo, as famílias com quem trabalho e claro, a experiência da maternidade, fazem-me compreender como nunca, o medo e a dor de perceber que um filho ou filha carrega este peso dentro, que tanto altera a noção de quem somos e a forma como nos amamos ou nos sentimos dignos de amor.

Bullying é a expressão usada para definir os comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos (ou com potencial para a repetição), entre crianças e jovens em idade escolar. Manifesta-se através de um desequilíbrio de poder entre quem agride e entre quem é agredido e inclui comportamentos como insultar, gozar, espalhar boatos, excluir, agredir fisicamente, entre outros.

Contrariamente ao que tantas vezes ouço dizer, o bullying não está na moda.

Está na moda falar-se sobre ele e ainda bem.  E é a falar sobre o assunto que conseguimos estar mais atentos, mais despertos, que podemos ser mais empáticos, mais solidários, mais interventivos, nesta responsabilidade conjunta, de tornar seguros e mais felizes, os espaços escolares.

E se à escola cabe a tarefa de envolver todos os elementos da comunidade escolar: professores, educadores, assistentes operacionais, alunos, técnicos psicossociais, enfermeiros de saúde escolar… na criação de estratégias promotoras da saúde e preventivas de todas as situações de violência escolar, aos pais cabe a dura tarefa de apanhar os cacos e de ajudar a reparar a auto-estima, transmitindo a esperança e a certeza de que a vida não tem de ser assim.

Importa por isso e ainda que nunca tenhamos enfrentado este desafio, refletir sobre o assunto e definir, de uma forma prática, como é que podemos ajudar…

  • Mantendo a calma.

A forma como reagimos à situação é determinante na forma como os nossos filhos a encaram. Demasiado nervosismo, ansiedade ou indignação, podem afastá-los e impedir que voltem a falar sobre assunto, o que pode ser motivado pela culpa que sentem por serem fonte de preocupação. É importante também escolher o momento para abordar o assunto, de forma a que estejam, o mais possível, tranquilos e num espaço em que se sintam seguros. Evitar os momentos logo à chegada da escola, deixando-os recuperar e descansar na sensação de porto seguro que somos, contribui para que se sintam mais tranquilos e disponíveis para conversar.

  • Sendo empática/o.

De todas as formas de apoiar uma criança ou adolescente que é agredido, a mais importante é aquela que lhe permita sentir que o compreendes e que o teu apoio será sempre incondicional. Resiste por isso à tentação de fazer todas as perguntas de forma imediata. Acolhe e deixa que partilhem todas as respostas que lhe vêm à mente. Só assim entenderás o que verdadeiramente por lá se passa.

  • Procurando obter mais informação em relação à situação específica.

Depois de aceitares e ouvires o que lhes vai na alma, existem informações que são importantes e que, ao ritmo deles e com a calma necessária, podem ser fundamentais na definição da melhor abordagem à situação. Se possível, procura compreender o contexto em que a violência aconteceu: com quem estavam, onde estavam, o que aconteceu antes, quem assistiu, o que aconteceu depois. É fundamental também estimular a partilha da forma como se sentiram, o que foi mais difícil e se houve alguma coisa que contribuísse para que se sentissem melhor. Perguntas como: “Como te sentiste?” ou “Sentiste-te triste, humilhado, zangado…?”, ao invés de “Sentiste-te triste?”, dá-lhes mais espaço a que se identifiquem com as diferentes emoções possíveis.

  • Trabalhando as competências necessárias para que aprendam a lidar com desafios semelhantes.

Criar situações fictícias, imaginando em conjunto respostas possíveis e antecipando consequências para cada uma delas. É fundamental fazer sentir que o bullying é uma situação difícil de lidar, mas que não é impossível fazê-lo e haverá sempre alternativas para lidar com a situação. Trabalhar competências ligadas à auto-confiança, à comunicação, à assertividade, à diferenciação emocional, à resolução de problemas, permitirá que se sintam mais confortáveis e confiantes nas relações sociais. Ajudar a obter mais informação, demonstrando que é uma situação que pode acontecer a qualquer um e que é preciso compreender e apoiar vítimas, agressores e espectadores, numa atitude preventiva da reicindência, contribui para que não se sintam sozinhos e desenvolve uma maior consciência social e empowerment na resolução dos conflitos. Incentivar a que se envolvam em atividades fora da escola, permite que treinem estas competências e que procurem suporte social no estabelecimento de outras relações de amizade e de grupo.

  • Estimulando ao desenvolvimento de uma perspectiva positiva do espaço escolar.

Depois de sabermos que isto se passa ou passou com o nosso filho ou filha na escola, podemos ter mais dificuldade em sair do estado de alerta e com isso centrar todos os temas de conversa nesta questão. É fundamental trazer à tona os sentimentos positivos, as pessoas de quem se gosta, as aprendizagens e as conquistas proporcionadas pelo dia a dia na escola, de forma a que sintam que há muito mais por que lutar e acreditar, do que a situação de mal estar e agressão.

  • Sendo parceira/o da escola na resolução do problema.

Marcar uma reunião com a direção ou o professor responsável pela turma, tornar comuns as preocupações que tens e, de acordo com o conhecimento que o professor tenha em relação ao funcionamento do grupo e às características dos miúdos envolvidos, definir em conjunto a melhor estratégia para atuar. É importante que o teu filho/a saiba que esta reunião se realizará e que compreenda a sua importância na resolução do problema. Sempre que sintas que as medidas adoptadas e apoio familiar e escolar não estão a ser suficientes para resolver a situação ou sempre que notes uma ansiedade crescente ou comportamentos de maior isolamento e tristeza, procura apoio e aconselhamento junto dos serviços de psicologia da escola, ou externamente.

O bullying acontece todos os dias, em todas as escolas, com os nossos filhos ou com os filhos dos outros. Passa-se na sala de aula, nos balneários, na cantina, no recreio. E alimenta-se do nosso silêncio, das vezes em que fazemos de conta ou daquelas em que achamos que o assunto não é connosco.

Será sempre, tal como é nossa, a responsabilidade de impedir que alguma criança ou jovem, um dia, se sinta assim:

“Parece que passam sem ver-me os instantes
mas passam sem que o seu passo seja breve.”

Álvaro de Campos

“Isso não é para brincar!!!”

Começo assim…

O Manel devia ter uns 2 anos. Estávamos numa feira de artesanato e parámos numa tenda cheia de caixas e caixinhas carregadas de missangas, pedras semi preciosas, estatuetas pequeninas de madeira… Ele, encantado com as cores e o brilho à nossa volta queria tocar em tudo e enterrava as mãos sapudas no meio das caixas de contas e pedrinhas. Eu, em pânico, dizia: “Não mexas querido. Só podemos ver.” Andei nesta aflição, em modo helicóptero, durante uns minutos, até que ouvi alguém dizer, do canto da tenda improvisada: “Menina, as crianças conhecem as coisas, tocando-lhes.” Era senegalesa e trazia, na suavidade da voz, a soberania de não esquecer de que substância de faz uma criança.

E a substância de uma criança mora na forma sábia como lê o mundo, com honestidade, curiosidade, coragem e bondade sem fim. Faz-se, também, da procura constante daquilo que verdadeiramente lhe alimenta a alma e que está, tantas vezes, na sua aptidão para brincar. E é a brincar que tenta, incansavelmente e com a seriedade que o assunto merece, ensinar-nos a nós, adultos, a viver outra vez.

O problema está naquilo que fazemos com os sinais que as crianças nos oferecem, nas vezes em que fingimos não ouvir ou ignoramos o apelo e, sobretudo, nas vezes em que esquecemos o cerne da questão e deixamos que nos saia da boca a frase fácil: “Isso não é para brincar.”

E eu, que provavelmente ouvi esta frase a vida inteira, sem lhe dar a devida atenção, tenho agora o privilégio de aprender com quem faz do brincar motivo de vida e com isso percebo, que a ouço vezes demais.

E de todas essas vezes, em que a mastigo e regurgito enjoada, acendo em mim a certeza de que há coisas que não deviam mesmo ser ditas, de tão disparatadas que são, nas situações como as que se seguem…

A criança explora as caixas de brinquedos na prateleira do supermercado. Nós: “Isso não é para mexer (brincar)!

A criança equilibra-se num muro do jardim. Nós: “Isso não é para andar aí em cima (brincar)!”

A criança desmonta a porta da casinha de brincar. Nós: “Isso não é para fazer (brincar)!”

A criança empilha um monte de livros na biblioteca. Nós: “Isso não é para desarrumar (brincar)!”

A criança sobe a uma árvore. Nós: “Isso não é para trepar (brincar)!

A criança desce o corrimão das escadas. Nós: “Isto não é para escorregar (brincar)!”

A criança corre no corredor livre da escola. Nós: “Aqui não é para correr (brincar)!”

A criança mexe na terra, à procura de bichos de conta. Nós: “Isso não é para andar a meter as mãos (brincar)!

Caramba!

Parece-me compreensível que se diga a uma criança que não se brinca com facas afiadas ou que não se brinca com fogo (e ainda assim o mundo está cheio de malabaristas e de faquires extraordinários), mas é só disto que, honestamente, me lembro.

Tudo o resto é para ser mexido, transformado, explorado, trepado, conhecido, escorregado, descoberto, partido, desmontado, reinventado… E é bom que assim seja, é assim que se cresce e é aí que se compreende, afinal, onde reside a magia de brincar: escancarar a janela do conhecimento, puxar o lustro ao pensamento divergente e estimular a criatividade, experimentando-a.

Quando as crianças brincam, descobrem o mundo, dão-lhe sentido e expressam a forma como o sentem e como se sentem nele. É, através da atividade lúdica, que se gravam na memória as aprendizagens mais importantes, aquelas que se revelarão fundamentais pela vida fora e que facilitarão, no futuro, a relação com o meio, a criação de vínculos afetivos, a interação social, a cooperação e a resolução de problemas, materializando quem somos e experimentando as fronteiras do possível e a liberdade da imaginação.

É por isso urgente, entender de uma vez por todas, que brincar é um assunto sério, trazendo esta consciência para dentro de casa, para os cafés, para os bairros, para os jardins, para as escolas, sobretudo para as escolas…

Porque se houve em tempos quem, de forma tão sagaz, nos tirasse a pinta assim:

“Os adultos adoram números. Sempre que falamos aos adultos de um amigo novo, nunca perguntam o mais importante. Nunca dizem: “Como soa a sua voz? De que jogos gosta? Coleciona borboletas?” Em vez disso perguntam: “Quantos anos tem? Quantos irmãos? Quanto pesa? Quanto ganha o pai dele?” E só então parece que o conhecem. Se disserem aos adultos “Vi uma casa muito bonita de tijolos cor de rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado…”, eles não conseguem imaginar a casa. Mas se lhes dissermos “Vi uma casa de 200 mil euros!” Então eles exclamam: “Tão bonita!” *

… continuará felizmente a existir, uma mão pequenina e esperta, que nos corrige o olhar, nos aponta para o sítio certo e nos garante, num sorriso feliz, que nunca é tarde para voltar a ver os gerânios nas janelas.
São tão mais bonitos do que os números…

 

*excerto retirado de “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry.

P.S – Desafio-te a ver este pequeno vídeo sem ficar com um sorriso no rosto (e uma pontinha de inveja), por tudo o que de bom estas crianças podem experimentar. E eu acredito que era assim, que lhes devíamos mostrar o mundo…

Estamos todos juntos nisto.

Pois estamos.

Mas sempre que algo corre mal, limitamo-nos a tirar o dedinho do bolso e a apontá-lo, num gesto fácil e efémero, fazemos conversa de café e sentimo-nos os maiores do mundo, num suspiro de alívio, porque afinal, se mandássemos, nunca permitiríamos que as coisas acontecessem assim. E isto é fácil, leva-o o vento e tudo continua como era antes.

Se há quem precise de nós, porque ficou sem casa, sem família, sem vida… bora!

Se há uma campanha, como esta: Planta-me , que apela à responsabilização para com a floresta, através da plantação de uma árvore e do seu cuidado, bora!

Se existe informação que merece ser partilhada, para que, de uma forma positiva e construtiva, as coisas possam mudar, bora!

E sobretudo, se há em nossa casa, ao nosso lado, uma criança que traz em si todos os sonhos do mundo e que precisa que lhe mostremos, em nós, de que substância se faz a humanidade, bora muitas vezes! 

“A mão que embala o berço é a mão que embala o mundo”, e nós precisamos tanto de quem dele aprenda a cuidar…

A analogia que me tornou melhor companheira de viagem do meu filho.

Falam-me dos “terrible two” e eu devolvo: Então e os “fabulous five”?

Cá em casa andamos a aprender a gerir as emoções: as dele geradas pela frustração, as minhas provocadas por tudo o que o descontrolo dele acende em mim.

Neste caminho, fiquei feliz por encontrar um texto que me fez todo o sentido e que me tem ajudado imenso, pela enormidade de coisas que me ajudou a entender.

A analogia do comboio pensa as emoções difíceis como se fossem túneis e faz de nós, passageiros do comboio que os atravessa. E como acontece em todos os túneis, somos convidados a tolerar alguma escuridão, para chegarmos depois a um lugar mais iluminado, mais calmo e mais desperto para tudo o que acontece à nossa volta.

Vou dar-vos um exemplo de uma situação que se passou connosco há uns dias, quando o meu filho se desentendeu com um dos amigos com quem brincava e correu para perto de mim num choro compulsivo.

O motivo prendia-se com o facto do amigo não querer brincar ao jogo que ele lhe tinha proposto e como tal, o melhor seria eu resolver o problema e ir dizer-lhe que aquela brincadeira era afinal, uma excelente ideia.
Disse ao Manel que não o faria, expliquei-lhe que o seu amigo tinha todo o direito de decidir se queria brincar ou não.

Dito isto, e depois da tristeza inicial, veio uma onda repentina de raiva, provocada pela percepção de que eu não lhe resolveria o problema. Deitou-se no chão, esperneou, gritou, cerrou os pulsos, num enorme descontrolo de si, do seu corpo e de todas as sensações desconcertantes pelas quais passava.

Noutros momentos, provavelmente teria tentado acalmá-lo, ter-lhe-ia dito que não valia a pena aborrecer-se com isso, que podiam escolher outra brincadeira ainda mais gira… Tê-lo-ia dito, tentando amenizar a situação, sem que no entanto adviesse daí algum resultado que valesse realmente a pena.

Mas desta vez, lembrei-me da história lida e limitei-me a entrar no comboio com ele, sentando-me ao seu lado.

Ele, no meio de todo aquele caos, conseguiu pousar a cabeça no meu colo e eu fiquei a fazer-lhe festas no cabelo. Sem dizer uma palavra.

Fizemos a viagem assim e uns minutos depois o Manel levantou a cabeça, sentou-se, limpou as lágrimas e disse-me: Vou brincar, mamã.” E lá foi, como se nada se tivesse passado ali.

Eu, fiquei a vê-lo afastar-se tão dono de si e pensei: Caramba, como é que uma atitude tão simples pode ter um resultado tão poderoso? Porque é que eu andei a desgastar-me por me sentir incapaz de travar as emoções mais difíceis do meu filho, sempre que elas eram avassaladoras demais, quando afinal só tinha de as aceitar e deixar ir?

Resposta simples, sei agora. Melhor do que nunca.

Quando os nossos filhos lidam com a frustração, com a vergonha, com a culpa, com o medo… dentro de nós reativa-se a sensação difícil dessas emoções e acabamos por tentar protegê-los, evitando que passem por elas. Muito, porque a dor dos nossos filhos nos dói como nenhuma outra.

Afinal, somos nós que precisamos que parem de chorar, não eles.

Mas é connosco que eles podem aprender a sentar-se com o que sentem e seguir viagem, rumo a tudo o que de mais claro, apaziguador e consciente, os espera na paisagem seguinte.

Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, a cada descoberta feita. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos e na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio, e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.

Estes dias, que se querem doces…

Eles estão na escola. Nós estamos a trabalhar.

Provavelmente não é a vida que sonhámos, mas é a vida que temos.

Aquela que vai agora começar a correr mais depressa e que nas manhãs de segunda, nos vai deixar a suspirar pelos sábados seguintes. E sim, esta coisa de voltarmos a ter de cumprir horários e não podermos continuar ao sabor do sol e do mar, é chata. Mas faz-se.

A parte mais difícil e a que tantas vezes me atordoa, é a noção clara de que é nesta velocidade dos dias que eles crescem, que mudam, que se tornam gente e que com isso ganham tantas outras coisas, verdadeiramente incríveis, a cada instante.

E enquanto tudo isto se passa, nós estamos, demasiadas vezes, sem tempo ou sem disponibilidade efetiva, para absorver cada segundo desta transformação quase mágica.

O desafio parece tornar-se maior na proporção do “encolher” dos dias, que se mede pela infindável lista de tarefas a que temos de dar resposta.

É por isso a partir deste momento, que devemos estar ainda mais atentos e disponíveis (tornando consciente essa necessidade), para aquilo que é realmente importante na relação com os nossos filhos, que será também o que constituirá porto seguro, nos momentos que se façam mais difíceis.

Depois do afastamento físico do dia, uma boa forma de restabelecer a ligação é em cada chegada a casa, através de um abraço, de uma conversa, da partilha dos desafios vividos: o que foi mais positivo, o que nos fez sentir tristes, o que nos surpreendeu, enfim… tudo o que em nós mudou desde que acordámos de manhã.

Na comunicação com os nossos filhos, as perguntas mais fechadas ajudam ao retorno de respostas específicas, estimulando a conversa e facilitando a construção de pontes de comunicação e afetividade.

E atenção às armadilhas a que cedemos facilmente e que acabam por tomar conta de nós: “Ok, deixa-me só tomar um duche, tirar a loiça da máquina, ler os emails… e já conversamos um bocadinho.”

No excuses.

É fundamental dar-lhes tempo (o que temos e o que precisamos de arranjar), de uma forma real e presente e ser também capaz de o fazer por nossa iniciativa, sem que eles tenham de o pedir ou, no caso dos adolescentes, sem que eles aprendam a achar que isso já não é necessário.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em cada regresso a casa…

 

P.S- Escrever este texto trouxe-me também a vontade de partilhar este vídeo. Convido-te a que o vejas, de coração aberto e atento, para não esquecer… 

Aos professores. Os bons.

Sou de uma família de professores.

Desde que me sei como gente, que me habituei a ouvir falar de escola, de alunos, de colegas, de livros, de exames, de dias difíceis, de conquistas importantes, enfim, da vida de quem passa grande parte da vida, na escola.

Quis o destino que viesse também eu, na minha profissão, a conviver diariamente com professores, a escutar as suas angústias e a partilhar os seus anseios, em relação à escola e a quem nela habita todos os dias.

Existem profissões que têm em si o poder de mudar o mundo, de salvar vidas e de fazer crescer a esperança. E aqui, falo convicta, dos professores. Dos bons professores.

E os bons professores são aqueles que se dão aos seus alunos todos os dias, que os levam para casa no coração e que procuram, incansavelmente, todas as formas de dar significado ao que é suposto ensinar-se, que tantas vezes está distante da vida e daquilo que é efetiva e afetivamente importante.

Sei por isso de cor, os nomes dos professores que marcaram o meu caminho. Reconheço-lhes as expressões, as marcas do rosto, as palavras ditas no momento certo, o afeto…

Alguns, tiveram a capacidade de me ajudar a compreender a forma como os números se relacionavam, a simplificar equações e a aprender que a matemática está em todo o lado, mesmo que eu tenha com ela uma relação difícil. Outros, fizeram com que me apaixonasse por aquilo que me ensinaram, de tal forma, que decidi fazer disso profissão.

Foi também na escola que aprendi a ser pessoa, que me relacionei com quem era diferente de mim e dos meus e que lidei com desafios gigantes, numa espécie de treino para a vida adulta.

E é afinal isto que a escola nos dá. Bagagem, sentido de ser, educação.

Porque mesmo que muitos me contestem, muito mais do que transmitir conhecimento, na escola EDUCA-SE, ensina-se a crescer. No saber e no coração.

E ainda bem que assim é, porque para muitas crianças e muitos jovens, o que existe para lá dos portões da escola é assustador, é desorganizador e duro, muito duro.

A escola pode tornar-se aqui uma espécie de porto seguro, quando as famílias sofrem e não sabem sê-lo. E os professores, os adultos significativos que com um gesto, uma palavra ou um olhar, têm em si o poder mágico de evitar que alguém que cresce, se zangue para sempre. Com as pessoas e com a vida.

Ora, claro que isto não é fácil e que existem cansaços, desalentos e frustrações, que conseguem por vezes desgastar os dias e roubar a esperança das histórias seguintes.

E é por isso eu sei, porque sinto, que os bons professores também precisam de colo. Precisam que lhes digam, muitas e muitas vezes, que podem realmente fazer a diferença e ser fonte de inspiração, conquistando assim a enorme honra de não serem esquecidos.

Eu fá-lo-ei sempre, com a gratidão de quem sabe que tem o privilégio de aprender, todos os dias, com aqueles que têm em si o poder de mudar o mundo.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

Mãe, quero ir brincar! Já fizeste os trabalhos de casa?

E porque a distância é a melhor conselheira, aproveito os dias que antecedem o ano letivo para recuperar um tema que me é tão querido: O bom do trabalho de casa.

Trago-o também porque foi levantado de chofre pelo meu filho, ontem no regresso da praia, com da seguinte pergunta: “Mamã, trabalhar é a melhor coisa do mundo?”

A resposta estava-me na ponta da língua: “Trabalhar naquilo que gostamos é uma das melhores coisas do mundo, meu amor.”

Resposta aceite.

Next round, porque a cabeça aos cinco anos fervilha e não arrefece: “Fazer trabalhos da escola é a coisa mais importante da vida? O M. diz que sim…”

A resposta foi outra vez imediata e fácil: “Não!” Mas desta vez foi seguida do peso da responsabilidade parental, que me fez morder a língua para não iniciar um discurso anti-trabalhos-de-casa e continuei… “Há trabalhos de casa que podem ser importantes, se nos ajudarem a saber mais e a descobrir coisas novas.” (Blarghhh, não era bem isto, mas foi o melhor que consegui…)

Resposta aceite.

Aproveitei a satisfação temporária para não me alongar no discurso. Deixo-o para depois, aquando da entrada no 1º ciclo, na esperança de que tenhamos sorte porque há cada vez mais professores e pais a defender que:

As crianças passam demasiado tempo na escola, para terem ainda de trazer o trabalho da escola para dentro de casa. Já chega de contas, já chega de letras impostas, já chega de problemas por resolver. Não quer isto dizer que não acompanhemos o seu crescimento enquanto alunos, que não falemos sobre as aprendizagens realizadas e até que não arranjemos forma de lhes mostrar a sua utilidade nas coisas do dia-a-dia, consolidando as aquisições feitas. Quer isto dizer, que há tantas outras maneiras interessantes de o fazer que não envolvem fichas, cadernos, cadeiras e mesas.

O regresso a casa deve ser o regresso ao tempo em família, ao tempo para não fazer nada, ao tempo para respirar, ao tempo para jantares e conversas demoradas e histórias bonitas para dormir. Ora, se quando chegamos a casa, com o sol a pôr-se, ainda tivermos que nos sentar à mesa e olhar com os olhos pesados de cansaço para as fichas de um livro, vamos ter de deixar todas as outras coisas para depois… E o depois tarda em chegar, porque no dia seguinte começa tudo outra vez.

Não há nenhuma associação entre a realização de trabalhos de casa e o sucesso escolar. São vários os estudos que deitam por terra a ideia de que os alunos que fazem muitos trabalhos de casa, são melhores alunos. Aliás, de acordo com a neurociência, o que as crianças aprendem durante o dia de escola, só é metabolizado nessa noite, o que, traduzido em miúdos, significa que “mastigar” a matéria dada no próprio dia não serve absolutamente para nada. Este argumento seria suficiente para convencer os mais céticos, não?

O melhor motor para a aprendizagem é a curiosidade e as crianças sabem como ninguém pô-lo a funcionar. É através da curiosidade sobre o que acontece à sua volta, que exploram e aprendem, motivando-se a si mesmas a saber mais e a descobrir o mundo. Ora se essa curiosidade nasce do lado de dentro, se estivermos constantemente a estimular a criança até ao limite e a cansá-la com excesso de trabalho, não estamos a permitir-lhe o espaço necessário para que se reorganize, para que consolide as aprendizagens feitas, alimentando a sede das que virão. Depois de um dia intenso de escola e de estímulos, o tempo para “não fazer nada” ou para inventar o que fazer, deve ser entendido como um tempo sagrado, pela importância que assume no bem estar cognitivo e emocional infantil.

É preciso brincar. Muito e todos os dias. E para brincar é preciso tempo, tempo esse que num dia normal de uma criança se circunscreve aos 20 minutos de intervalo da manhã e às duas horas entre o regresso a casa e o jantar, que muitas vezes ainda têm de ser divididas entre outras tarefas. São tantas as investigações que provam que o hábito de brincar ajuda a desenvolver a alfabetização, favorece a leitura, a familiaridade com os números, promove a criatividade, potencia a criação de laços afetivos e o treino de competências pessoais e sociais, que é difícil entender porque é que a brincadeira é a primeira a saltar do barco, sempre que achamos que a criança precisa de melhorar os resultados na escola.

E depois de tudo isto e porque falamos de coisas sérias, continuemos a pensar sobre o assunto para que, em conjunto (pais, professores, educadores…), não tenhamos medo da mudança e mantenhamos a coragem de questionar o hábito e contrariar as ideias feitas, aprendendo sempre mais sobre aquilo que fazemos e sobre aquilo que podemos fazer melhor.

Tudo, pela causa mais importante do mundo: ajudar miúdos a crescer, mantendo acesa a chama da paixão por aprender, que naturalmente trazem dentro.

P.S – Bom ano letivo. Com poucos trabalhos de casa. Ou muitos, como este…

Há por aí campistas para partilhar dicas?

A primeira vez que acampei foi pela mão do meu pai. Não nos rendíamos aos parques e preferíamos aventuras mais ao género “into the wild”, com uma noite na praia ou um fim de semana na barragem. Na altura, ainda podíamos escolher, a nosso belo prazer, o sítio onde assentar a barraca.

Depois vieram as experiências com amigos na adolescência. Semanas de planificação, listas de supermercardo pensadas ao milímetro, o nervoso miudinho na véspera do grande dia… E lá íamos nós, aos magotes, de mochila às costas e colchão enrolado, no comboio rumo à ilha de Tavira. Fazíamos salada de atum e massa à carbonara, dormíamos na praia ao som dos djembês e éramos sempre felizes. Muito.

Já na idade adulta, continuei a fazer disto rotina sempre que me foi possível e por isso, assim que o Manel dormiu uma noite inteira, fizemos-lhe o batismo (sim, porque isto de acordar 300 vezes à noite até quase aos 2 anos, fez com que tivéssemos de adiar alguns planos). Foi por isso em 2014 que nos estreámos em modo trio campista e desde então, honramos este pacto bom todos os anos. É maravilhoso ver como se sente peixinho na água e ainda assim vibra, como se fosse a primeira vez, sempre que montamos a tenda, sempre que acordamos com nevoeiro cerrado e chuva miudinha, sempre que nos reunimos com amigos à volta de uma mesa pequenina e bamboleante para picar da panela comum ou para jogar ao Uno…

(Ups, não era bem isto…mas obrigada por teres chegado até aqui. Sempre que começo a escrever dá nisto e o que era para ser uma lista de dicas transforma-se num sem fim de palavras cheias de vontade própria, que me desviam do propósito inicial. Desculpa. Não desistas. Abaixo vêm umas dicas top. Continuemos pois…)

Nesta minha jornada de mãe que acampa com o filho, tenho aprendido alguns truques que tenho aprimorado de ano para o ano. Uns permanecem, outros caem por terra por serem completamente desnecessários e porque, felizmente, cada vez tenho mais a certeza que é preciso muito pouco para sermos felizes e que o importante mesmo é descomplicar. Por isso, malta aspirante a campista, campistas veteranos, curiosos cheios de vontade e à espera que alguém os convide, aqui seguem algumas dicas simples que para nós se tornaram importantes:

Os básicos

Tenda: A nossa é uma espécie de iglo grande, sem divisórias. Dá para quatro pessoas. Tem uma característica fundamental para nós: um avançado que dá para deixar as coisas da praia, os sapatos e as pranchas de surf que nos acompanham sempre.

Sacos cama: Nós não usamos porque já os emprestámos a alguém e perdemos-lhes o rasto. Optámos agora por lençóis e um edredon grande e estamos sempre safos. O saco cama pode ser mais prático e fácil de transportar.

Colchões: Temos três tripartidos, mas também há uns insufláveis. Experimentem-nos sempre, porque se não forem dos bons, mais vale dormir no chão.

Camping Gaz ou fogareiro: Campismo rima com massa com atum ou pianinho grelhado, por isso, vale a pena safarmo-nos a confeccionar uma refeição em condições mais extremas: de cócoras, com um frio do caraças e uma panelinha de água que nunca mais ferve. Faz parte.

Polares, meias e um par de ténis: O nosso sítio de eleição fica na costa vicentina e isso implica rapar um frio de rachar todas as noites. Garanto-vos que esta alteração climática do dia para a noite é das melhores coisas de acampar. Aconchega o corpo e alma. Ahhh, e já que falamos de roupa, sejam comedidos, não vão usar metade (acontece-me sempre).

Loção anti mosquitos: Se a noite trouxer o inverno no sítio para onde vão, não haverá mosquito que se aventure, caso não, este é um must have, que vos saberá pela vida. Escusam de me agradecer.

Louça essencial: Existem um kits já feitos ou podem, como nós, reunir em casa tudo o que tenham de plástico rijo (talheres dos miúdos, tigelinhas, tupperwares…). Também é importante uma panela, se quiserem cozinhar e uma faca boa, se não quiserem comprar a batalha inglória de cortar pão e tomates com facas de criança.

Jogos de mesa: Coloco nos essenciais por ser uma das coisas que mais gozo dá viver nesta experiência. Que se aproveite o tempo depois do jantar para jogar às cartas, jogar xadrez, damas, uno… Os miúdos adoram e os adultos também.

Medicamentos: Nunca tinha levado. Mora em mim uma espécie de mãe aluada, que se esquece de pormenores importantes como este. No ano passado, o Manel acordou de madrugada a gritar de dores com uma otite e por isso, eu nunca mais me vou esquecer. Um pequeno saco térmico com o básico: Benuron, Brufen, termómetro. E já agora, Bepanthene Feridas e meia dúzia de pensos. Não custa nada e pode ser muito útil.

Os upgrades

Rede: Estreámo-nos este ano e não há melhor do que balouçar ao som dos grilos e a olhar para a lua por detrás dos pinheiros. Já se estão a imaginar, não estão?

Vassourinha: Não é essencial mas dá um jeitaço para varrer os quilos de areia e de terra que entram todos os dias pela tenda adentro.

Lanterna: Não tenho saudades de andar à procura do telemóvel para acender uma luz. Há umas lanternas pequeninas que se prendem no topo da tenda e são suficientes para encontrar a roupa, ou a carteira, ou o papel higiénico (levar sempre, as casas de banho não costumam ter). E só precisam que estiquemos o braço e… clic, já estás.

Corda e molas de roupa: Passei anos sem levar e a ter de cravar a corda do vizinho. Dá jeito para estender as toalhas e os biquinis até à manhã seguinte.

Ponchos-toalha para os miúdos: São óptimos. Deixam-nos quentinhos até à tenda e não caem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche, sempre que os embrulhamos.

Chinelos com elástico atrás: Dão para a praia e para o banho e ajudam a que não se descalcem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche.

Nécessaire com uma cruzeta para pendurar: E voltamos ao mesmo. Chão molhado e sujo dos balneários. Acho que estou a descobrir aqui um padrão… Sim, o chão molhado e sujo dos balneários é um problema para mim. Cruzeta pendurada no cabide, tudo à mão de semear e estou no paraíso.

E depois desta lista imensa, à qual acredito que acrescentariam um sem fim de coisas igualmente importantes (estou longe de ser uma expert na matéria), só me apetece pedir-vos que experimentem e que levem os miúdos.

Que os deixem procurar o melhor sítio para montar a tenda e perceber onde vai nascer o sol. Que os deixem martelar estacas e tirar pedregulhos do chão para dormirem melhor. Que os deixem fazer a salada, apanhar pinhas para o fogareiro e pôr a mesa com pratos de plástico. Que os deixem jogar às cartas até de madrugada, vestidos com casacos polares e com o cabelo cheio de mar.

E sobretudo, que lhes permitam o privilégio de adormecer sob o céu estrelado e acordar com o cheiro dos pinheiros e o barulho dos pássaros. Entenderão assim, que a natureza sabe mesmo o que faz e que, dentro deles, mora tudo o que é preciso para aprender.

Palavra de campista.