Aquilo que eu quero enquanto mulher.

Não quero ir a jantares de mulheres, não quero que me ofereçam flores, nem tão pouco que me dêem os parabéns. Disso não preciso. 
Tenho o privilégio de viver a liberdade que me permite gostar de ser mulher e isso, não dependerá nunca das homenagens com dia marcado que me prestem. E sobretudo, não pode continuar a ser um privilégio. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que em 1857 morreram 130 mulheres numa fábrica em Nova Iorque, apenas e só por reivindicarem o seu direito a melhores condições de trabalho. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que existem mais meninas do que meninos fora da escola. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que as mulheres ganham em média menos 23% do que os homens. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba, que em 70 países, as mulheres ocupam menos de 15% dos cargos de decisão política. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que 1 em cada 5 raparigas já foi vítima de violência física e/ou sexual por um parceiro íntimo. 
O que eu quero, é que ninguém se cale e que todos ajam.
Para que um dia, nenhuma menina chore por ter nascido mulher e ninguém a impeça de ser tudo aquilo que sonhou.

O tipo de amor que dói.

A Sara saiu a correr da sala. Quis ser a primeira a chegar ao bar. Nem teve tempo de anotar as dicas do professor de Filosofia para o teste do dia seguinte. O João detestava estar na fila e era dela a tarefa de assegurar que isso não acontecia. “Sim, é a tosta mista de sempre. Bem tostadinha, como ele gosta…”

O Sérgio idolatrava a Inês. Há séculos que andava atrás dela. Finalmente tinha conseguido que olhasse para si e há algumas semanas que saíam juntos. A Inês dizia-lhe que tinha potencial, mas que se queria estar com ela, havia coisas que tinham de mudar. O cabelo, a música que ouvia, a forma de falar, até as tardes de jogos de xadrez com os amigos de sempre. “Não posso deixar que pensem que ando com um totó”. O totó era ele, mas se calhar ela tinha razão.

A Bia adorava pessoas. Tinha amigos em todo o lado e nunca lhe faltava programa. Quando conheceu a Marta, achou que era amor para a vida toda. Uma cumplicidade única, a gargalhada sempre a saltar da boca. A forma despreocupada de encarar a vida. Já andavam há 6 meses e a Marta começou a achar que precisavam de mais tempo para estar juntas. “Um amor a sério não precisa de mais ninguém”. A carteira da sala era a mesma, a mesa na cantina encostada à parede também, os dois bancos no cinema, o único número de telefone… As amigas já não ligavam, a Bia estava uma “cortes” e já não havia nada a fazer.

O Paulo já tinha tido relações sexuais. Para a Ana, era a primeira vez. Falaram sobre o assunto, mas ela ainda não estava bem segura se o passo seria para já. Num dos dias em casa do Paulo, as coisas aqueceram e a Ana achou que sim. Quando tiraram a roupa interior, ele tentou penetrá-la e ela empurrou-o: “Espera. Não sei se quero.” Fingiu não a ouvir, disse-lhe que isso não se fazia a um gajo e que agora era para ir até ao fim. A Ana não se lembra de mais nada, só das lágrimas a aquecerem-lhe a pele e da sensação de sonho desfeito. Assim que pôde, levantou-se, vestiu-se e saiu. Nunca mais o viu.

A Inês já o tinha avisado: “Se me deixas faço-te a vida negra.” O Tiago sabia do que ela era capaz, mas já lhe bastava um ano inteiro de cenas à frente de toda a gente, discussões constantes, insultos. Nem sabia como é que tinha aguentado tanto tempo. Os amigos ajudaram-no a ganhar coragem e o Tiago disse à Inês que ficavam por ali. A calma dela surpreendeu-o, deu-lhe um abraço e seguiu caminho. No dia seguinte, ao entrar na escola, sentiu as risadas à volta, o burburinho, os olhares… Valeu-lhe o Pedro que o agarrou e lhe disse: “Meu, não te passa as coisas que a Inês anda a dizer de ti na net. Até um vídeo vosso na curtição lá anda…”

São estas. São outras. São muitas.
Infelizmente, conheço algumas.

Infelizmente sei que o tipo de amor que ensinam é amor que dói. É amor que acredita que o ciúme apimenta a relação. É amor que só precisa do outro para ser feliz. É amor que sabe que o sofrimento e as lágrimas o tornam mais forte. É amor que acha que há coisas tão íntimas que não devem ser partilhadas com mais ninguém. É amor que às vezes perde a cabeça, mas que só queria ajuda para mudar.

É amor que não mata mas mói. Ou melhor, é amor que pode matar.

E é preciso que todos saibam disto, que todos se metam no assunto, que agarrem a mão que ainda está livre e que esperem que a outra se liberte.

É preciso que o façamos. Sempre. As vezes que forem necessárias.

A violência no namoro é crime público e alimenta-se de todas as vezes em que fechamos a boca e olhamos para o lado: “Eles lá sabem entender-se…”

Não, eles não sabem. E há ainda quem não queira ser amado assim…

 

P.S – Um em cada quatro jovens portugueses são vítimas de violência no namoro. Podem ser os teus filhos, os teus amigos, os teus vizinhos… É por isso fundamental valorizar o assunto e saber mais (podes fazê-lo aqui), partilhando e refletindo a informação com eles.

A importância do sono infantil.

E sai do forno, a segunda entrevista by Pés na Lua, com o amor de sempre.

A Teresa Sousa é Psicóloga Clínica, Especialista em Ritmos de Sono do Bebé. É autora do Blog do Bom Soninho e responsável pela Consulta do Sono do Bebé em vários locais no Algarve.

Nesta conversa tivemos oportunidade de conhecer um pouco do seu percurso de vida e como é que o facto de não ter sido uma criança de “sono fácil” a trouxe até à experiência de acompanhar pais e famílias para que possam ter noites progressivamente mais tranquilas.

Como já vem sendo hábito, a conversa informal levou-nos a descobrir outras coisas e a refletir sobre o crescimento, procurando algumas respostas sobre as principais dúvidas que levam os pais a procurar apoio para ajudar os filhos a dormir cada vez melhor.

E porque, tal como diz a Teresa, “nós estamos sempre a crescer como pessoas”, convido-vos a aprender mais um bocadinho sobre um tema tão pertinente. Espero que gostem! 🙂

“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

Mais amor, por favor.

Li esta frase há uns anos, escrita a giz, na parede de um restaurante. Nunca mais a esqueci. Tenho memória aguçada para a origem das coisas que me mudam por dentro e tendo a trazê-las na bagagem, como se me preparasse para os momentos em que se tornarão bússola, ou paraquedas.

O amor que marca o vínculo que desenvolvemos com um filho é diferente de todos os outros tipos de amor.

É diferente porque é forte, porque é irresistível, porque é inabalável e porque dura para lá da nossa existência, para lá de quem somos, transformando-nos irremediavelmente. É diferente ainda, porque é incondicional: Não deixaremos de gostar deles, nem eles deixarão de gostar de nós. No matter what.

É esta certeza (e sobretudo este sentir), que lhes permite ir mais longe, pisar o risco, ganhar coragem para se lançarem em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite que se mostrem sem filtro e sem disfarce, a quem tem por eles um amor sem fim, que resistirá sempre, a todos os lados lunares.

E é por isso que quando me perguntam qual é o ingrediente mais importante para ajudar a crescer uma criança, eu respondo, a cada dia mais convicta: “É o amor”.

E é por isso que quando me perguntam qual é a solução para um determinado desafio na relação com os filhos, eu respondo, antes de qualquer outra coisa: “É o amor”.

Até aqui, nada de novo. O mundo há muito que sabe que o amor por um filho é incondicional e à prova de tudo. O problema está, nas vezes em que o mundo acha que este amor pode ser usado para moldar, para gerir, para manipular e para dosear, sempre que o comportamento deles não alimente a expectativa criada.

É o inocente “ Ai não me dás um beijinho? Assim, já não gosto de ti” ou o “Depois dessa birra, achas que mereces um abraço?”.

São os bem intencionados “Deixa o bebé chorar. Isto já começa a ser manha.”  e “Pára imediatamente com isso ou vais para o quarto sozinho até te passar”.

E são ainda as pérolas de sabedoria que, prontamente, diagnosticam: “O problema desta criança é mimo a mais…”

Estes são apenas alguns dos exemplos, tão enraizados em nós, que ensinam a ideia de que o amor tem de ser merecido, tem de ser conquistado, deve ser refreado e até que pode diminuir, sempre que o passo se faça mal dado. Afinal, amam-me pelo que eu faço. Não pelo que eu sou.

Se o amor por um filho não é moeda de troca, não é punição ou sequer recompensa (e eu acredito que no fundo, todos concordamos com isto), então porque não é assim que às vezes o mostramos?

Se o amor e a sua materialização física e emocional é o maior bem que podemos dar aos nossos filhos, então porque raio é que atribuímos ao mimo (= afeto), a responsabilidade dos momentos mais desafiantes na sua educação?

Se calhar, porque estamos todos a precisar de parar e pensar naquilo que andamos a fazer, de nos tornarmos mais conscientes das mensagens que transmitimos e, sobretudo, a precisar de baixar a guarda, sacudir o peso das frases gastas, abrir o coração e ouvir, tudo o que de extraordinário e libertador acontece cá dentro.

Se calhar, porque andamos todos a precisar de mimo.

E é por isso que, chegada ao fim deste texto, já só me apetece pedir…

Melhor amor, por favor.

Quando a cenoura é a perfeição.

A Sofia tem notas excelentes. Está, desde sempre, no quadro de honra da escola e todos a têm como modelo. Descansa professores, é chamada a ajudar os outros, a dar a resposta mais acertada, a ver os seus testes usados como modelo de correção. Perfeito.

A Sofia não é motivo de preocupação. Conhece as melhores técnicas de estudo, abandonou a dança para se dedicar ao horário diário de exercícios e preparação para os testes e só sai de casa quando não aceitam as suas desculpas. Perfeito.

A Sofia respira, mas não vive e falta-lhe o ar sempre que o pior acontece: Errar.

E sempre que erra, a Sofia dá força à certeza de que não vale nada, de que nada em si será, alguma vez, suficiente e que nunca, nunca estará preparada para os desafios que tem de enfrentar. E com isto a Sofia sofre. Mas só por dentro, porque já se cansou de ouvir dizer: “Andas sempre nesse stress mas tens sempre as melhores notas da turma.” Perfeito.

Conheço cada vez mais alunos a sentirem-se assim. Acredito que, enquanto adultos e enquanto sociedade, temos muita responsabilidade nisto, na forma como os ensinamos a crescer e naquilo que lhes vamos exigindo ao longo do seu percurso escolar, tornando incrivelmente redutora e limitada a noção daquilo que é ser-se um bom aluno. O sistema em que que crescem é afinal um sistema que lhes grita constantemente: “Tu és aquilo que produzes!”

O perfecionismo manifesta-se de muitas formas que podem tornar-se um verdadeiro inferno para quem com ele se habitua a viver: pode ser a dificuldade, o adiamento ou a recusa em iniciar uma tarefa para a qual não se tenha resposta 100% segura, pode ser a insatisfação permanente face ao resultado alcançado, pode ser um ritmo de trabalho mais lento, de forma a não deixar escapar nenhum pormenor, pode ser o enfoque nos bons resultados dos outros e a luta constante para os superar e pode, sobretudo, significar um sofrimento desmedido sempre que a nota final fuja do número definido como meta, ou que um erro “perfeitamente desnecessário” aconteça.

Muitas vezes são alunos vistos pelos outros como altamente irritantes, armados em espertos, marrões e isso não contribui para o estabelecimento de relações sociais capazes de funcionar como verdadeiro escudo de proteção, face às vulnerabilidades sentidas.

Os alunos perfecionistas são, na maior parte das vezes, alunos preocupados, ansiosos, com baixa auto-estima e estratégias de coping pouco eficazes.

Saber disto, ajuda-nos a ser capazes de compreender e ajudar os nossos filhos e alunos, de forma a que se tornem progressivamente mais confiantes face aos sucessos e mais tranquilos perante os insucessos:

Aceitar o que estão a sentir e ser paciente.

É difícil ver os nossos filhos fazer uma tempestade num copo de água por causa de um resultado num teste ou de um engano num trabalho, assistir à sua insatisfação permanente e à constante busca da perfeição. É por isso fácil, deixar sair as palavras: “Que disparate. Isso lá vale a pena!”. Garanto que estão cansados de o ouvir. Seguramente sentirão que ainda são mais esquisitos do que pensavam, porque de facto ninguém os entende.

Nenhuma criança ou jovem escolhe ser prisioneiro do medo de falhar e da ansiedade de não cumprir a expectativa de si próprio. Todas as crianças e jovens, se pudessem, libertar-se-iam num abrir e fechar de olhos.

Um simples: “Eu sei que isto é difícil para ti e é por isso que vamos resolvê-lo juntos…” é suficiente para fazer sentir que compreendemos, que aceitamos e que estamos disponíveis para pensar o problema e encontrar soluções. Demore o tempo que demorar. E assim, mediante reflexão conjunta e questionamento das crenças pessoais, se torna possível reconstruir a forma como é pensado o (in)sucesso.

Acarinhar o erro como parte do processo.

Passamos a infância a estimular as crianças a serem vencedoras e o mais eficazes possíveis nas tarefas a que se dediquem. Valorizamos o pintar dentro do risco e dizemos que está mal quando a couve é pintada de azul. Aplaudimos, sempre que a atividade é concluída dentro dos padrões que nós próprios criámos, mas olhamos pouco para o esforço que é despendido pelo caminho.

Errar desenvolve competências tão importantes como a paciência, a tolerância e a persistência e isso é tão mais rico do que tudo o que se possa assemelhar à perfeição. Partilhar com os nossos filhos aquelas que são as nossas dificuldades e os erros que cometemos (bem como a aprendizagem que deles advém), torna-nos mais humanos e ajuda-os a perceber que no fim, o que verdadeiramente importa é orgulharmo-nos do percurso feito e saber que temos em nós o que é preciso para continuar a tentar.

Valorizar o esforço, muito mais do que o resultado.

Lembro-me sempre da história de uma aluna que, quando mostrava ao pai o 95% que tinha tido no teste, recebia a seguinte resposta: “Boa. Mas mais importante que o resultado no teste, é que tenhas dado o teu melhor.” E mesmo que esta não fosse a resposta mais desejada, para quem só queria ter a família inteira em ovação, era uma resposta que servia aos 95%, assim como serviria aos 59%, cabendo nela a ideia que não é a nota num teste que define o aluno, mas sim o esforço, a dedicação e a capacidade de arriscar, que seja capaz de imprimir a cada desafio do seu caminho académico.

E aqui o nosso papel torna-se ainda mais importante, sobretudo porque desde o momento em que os nossos filhos entram na escola e ao longo de todo o seu crescimento, tentarão vender-lhes a ideia de que o seu mérito enquanto pessoas dependerá, em primeira instância, dos prémios, das menções honrosas, dos certificados, dos louvores que consigam arrecadar, transformando a fantástica aventura de aprender numa corrida desenfreada em direção ao pódio.

Estarmos atentos, enquanto pais, a cada conquista feita no atingir de um determinado objetivo ajuda a redirecionar-lhes o olhar e a torná-las parte fundamental da aprendizagem: “Adoro ver-te entusiasmado a ultrapassar os problemas.” ou “Reparei que arriscaste em dar a resposta, mesmo não tendo a certeza. Que bom!”, constituem palavras de alento que contribuirão também para que entendam o valor do esforço e da persistência, mais do que o resultado que dele advenha.

Viver na senda da perfeição é difícil. Porque nos atrasa, porque limita a capacidade de resposta ao imprevisto, porque nos angustia, porque nos faz sentir incapazes, porque nos incita à comparação com o outro, porque nos cristaliza o olhar no resultado final e com isso nos faz perder tanto do que pelo meio acontece.

Viver na senda da perfeição será, muitas vezes, um caminho infeliz, simplesmente porque a perfeição não existe.

E é por isso tão vital ensinar a amar os desafios, a aceitar os erros e a procurar na cenoura, o valor do esforço e o crescimento da aprendizagem constante.

Ansiedade nos testes. A nossa tarefa.

Já por aqui falámos no impacto que a ansiedade pode ter nos jovens, transformando os momentos de avaliação numa verdadeira dor de cabeça, capaz de os impedir de enfrentar de forma mais positiva e saudável, os desafios com que lidam em contexto escolar.

E tal como existem estratégias que lhes podem facilitar a vida, ajudando-os a lidar de forma mais adaptativa com o stress, também nós, como em tantas outras situações, podemos ter um papel fundamental nos momentos que antecedem os testes e nos momentos que a eles se seguem. Vejamos como:

Aprender com eles. Uma óptima maneira de testar as aprendizagens feitas é deixá-los explicar-nos os conteúdos que tenham estado a trabalhar, ou fazer-lhes perguntas e deixar que respondam por palavras suas;

Não insistir demasiado com afirmações como: “É só mais um teste…” ou “Não te preocupes tanto!”. A intenção é boa e até pode ser tranquilizadora para alguns, no entanto, quando eles se preocupam demais, pode fazê-los sentir que não compreendemos o que sentem. Quando assim é, é preferível lembrá-los de outras situações semelhantes pelas quais já passaram e a forma como conseguiram ultrapassá-las;

Pensar em conjunto algumas estratégias que possam apoiar no momento do teste, e treiná-las: respiração mais consciente e profunda, pensamentos tranquilizadores e promotores da auto-confiança; leitura atenta dos enunciados, gestão do tempo e das respostas (passando à frente as questões mais difíceis para voltar a elas mais tarde, por exemplo);

Pô-los a dormir. Não, não se trata de os “sedar”, mas sim de garantir que têm uma boa noite de sono. Deitarem-se tarde e estudarem intensivamente na véspera do teste apenas alimenta a ansiedade e contribui para uma maior insegurança, sempre que percebam que há conteúdos que não dominam tão bem. Um banho quente, uma refeição tranquila e um pouco de conversa em família antes de dormir, podem ser boas ajudas, para que consigam relaxar e ter um sono mais reparador, que deixe o cérebro preparado para dar o seu melhor no dia seguinte;

Encorajar a reflexão sobre o processo: “O que funcionou? O que não funcionou? O que é poderias ter feito de diferente?” Ajudar a pensar sobre a forma como se preparam para o teste e como se organizam na hora H, pode contribuir para que sejam capazes de identificar comportamentos a alterar ou pelo contrário, valorizar outros como estratégias eficazes e portanto, a manter.

E por último, e talvez a ideia mais importante a transmitir-lhes: “Tu não és um resultado num teste ou num exame e o teu valor vai muito mais para além disso.”

Terem a certeza de que sabemos disto, contribui para fazer crescer a força que lá dentro empurra para a frente e faz crer, que mesmo que a vida não seja perfeita todos os dias, é em nós que mora o sol capaz de nos guiar por muitas e muitas conquistas.

adolescentes

“O meu filho não acata os meus limites!”

(Ponto de partida para este texto: os limites não se impõem. Compreendem-se, experimentam-se e constroem-se em conjunto.)

A questão dos limites e do seu (in)cumprimento por parte dos filhos é uma das dificuldades que mais as famílias partilham. E se a questão na infância era mais ou menos contornável, com maior ou menor criatividade, com maior ou menor flexibilidade, na adolescência pode tornar-se um verdadeiro desafio, sobretudo quando as ferramentas usadas anteriormente se basearam na intimidação, na ameaça ou na coação.

Sim, porque na adolescência eles já são do nosso tamanho e as características do pensamento formal já lhes permitem chegar a uma concepção das coisas e do mundo muito própria e mais refletida. E ainda bem.

Do lado dos pais, aumenta a frustração, a sensação de impotência e a reatividade, que muitas vezes se transformam em gritos, ordens e distância afetiva crescente.

Na verdade, ainda que saibamos que nada disto funciona, rapidamente corremos o risco de ficar sem recursos e entrar numa espiral de negatividade, marcada por um padrão de comunicação corrosiva, que não trará com certeza bem estar a nenhum dos protagonistas desta história.

Pensar em limites e na sua construção com os nossos filhos implica que tenhamos, antes de qualquer outra coisa, a lucidez de descobrir algumas coisas dentro de nós:

Primeiro, reconhecer que o nosso único super poder enquanto pais é a capacidade de nos conectarmos com os nossos filhos, sabendo que é ela que nos permitirá criar um espaço de crescimento e entendimento conjunto, mesmo nos momentos mais desafiantes.

Depois, libertarmo-nos do pensamento automático de que tudo o que nossos filhos fazem, tem como objetivo atingir-nos, desafiar-nos maltratar-nos. Não minha gente, não tem. Nem tudo é sobre nós. Na maioria das situações e em relação a vários aspectos, existem outras motivações por detrás do comportamento de um adolescente e elas não passarão pela maquiavélica tarefa de levar o pai ou a mãe aos arames. Desenvolver esta consciência, far-nos-á toda a diferença.

Por outro lado, saber que uma das grandes tarefas da adolescência é precisamente conquistar uma maior autonomia perante a família, permite-nos ser mais empáticos com a natural e desejável necessidade dos adolescentes de sentir que conquistam, progressivamente, um maior controlo sobre si próprios e sobre as decisões da sua vida. Da mesma forma, que saber que um córtex pré frontal ainda em desenvolvimento no cérebro adolescente, interfere com a capacidade de organização e planeamento nesta fase de vida, deixando facilmente cair por terra o compromisso assumido de arrumar o quarto no dia seguinte (sem que tal tenha sido maquiavelicamente premeditado, lembra-te…). Já para não falar na também dificuldade no adiamento da recompensa (típica no cérebro adolescente), sempre que alguma atividade mais interessante se meta no caminho.

Voltamos assim ao ponto de partida deste texto: Os limites não se impõem. Compreendem-se, experimentam-se e constroem-se em conjunto e enchem-se de sentido e de significado sempre que:

  1. São respeitadores e espelham uma preocupação genuína: “Reparei que estás a chegar mais tarde a casa. Para mim é importante saber que estás bem e quando te atrasas fico preocupada. Qual é a tua sugestão para consigamos respeitar-nos neste assunto?”
  2. São flexíveis e resultam da nossa capacidade de sermos empáticos: ”Vejo que ontem foi o aniversário da Sara e que por estarem a divertir-se tanto foi difícil sair mais cedo. Na próxima vez é mesmo importante que me avises que é um dia especial e que têm outros planos, para que possamos pensar em conjunto na melhor hora e forma de regresso.”
  3. São específicos e participados: “Combinámos que tomarias o teu banho antes do jantar, pelas 19h30. Obrigada. Fico contente que tenhamos chegado a um acordo, com base naquele que é o melhor momento para ti.”
  4. Recorrem ao humor e desdramatizam “Olha, pareceu-me ver alguém alguém no quarto parecido com o João! Impossível, a esta hora o João já está no duche…”

Os limites são importantes às famílias porque traduzem aquelas que são as suas rotinas, tarefas ou tradições e por isso devem ser adaptados às suas características e dinâmica conjunta, atendendo também às necessidades e especificidades de cada um dos seus elementos.

A nossa reflexão enquanto pais e mães sobre os limites que reconhecemos como essenciais, permite-nos entender se efetivamente estamos em sintonia com os mesmos ou se, pelo contrário, obedecemos-lhes  e a eles recorremos apenas e só, porque os herdámos da relação com os nossos pais ou porque outro alguém os defendeu como importantes.

Aceitar que alguns deles podem não nos servir, naquele que é o nosso propósito na relação com os nossos filhos e permitir que os mesmos possam ser refletidos, participados e construídos em conjunto, é o passo mais importante para que efetivamente se constituiam como um bom apoio à navegação.

Afinal, não é o limite em si que garante que o mesmo seja respeitado, ou até que tenha alguma utilidade. É, sobretudo, a forma como o sentimos, como o identificamos e como o comunicamos.

É este entendimento que permite que, de uma forma conectada e respeitadora, as diferentes necessidades (de pais e filhos) possam ser atendidas. E que todos se sintam parte importante da viagem de crescer.

A verdadeira missão da parentalidade.

Ter um filho.

Podemos começar por aqui.
Pela ideia que tantas vezes ouvimos acerca das motivações para a parentalidade: “Engravidei porque queria muito ter um filho” ou, “Desde miúda que sonhava ter filhos. Não um, mas muitos”, ou até, “A minha mulher sempre quis ter uma menina. Eu já me dava por contente por já ter o João.”

Ter um filho.

Pari-lo, alimentá-lo, cuidá-lo, mimá-lo. Dar-lhe o nosso melhor para que um dia se torne muito melhor do que nós, e assim nos afague o ego, nos redima de todos os lados lunares e se cumpra nas expectativas da pessoa que gostaríamos de ter sido.

Ter um filho.

Vinculá-lo a nós, amarrá-lo à ideia que temos de quem é, torná-lo refém da nossa aprovação, para que nos honre e se torne merecedor do nosso mais perfeito amor.

Desaprender.

Sentir o seu crescimento, a sua força de ser, a luz, que às vezes, de tão intensa, quase nos cega. Vê-lo desabrochar, sem saber ao certo o tom predominante das pétalas que lhe nascem dentro. Ouvir a sua essência, celebrar a sua unicidade e permitir-lhe a liberdade de a experimentar, a cada descoberta que faça sobre si.

Renascer.

Em quem somos e em tudo o que somos juntos. Um filho que é afinal mestre de vida, capaz de iluminar os lugares mais esquecidos em nós, não só porque precisamos de nos relacionar com eles, mas também porque precisamos de os compreender, de os sarar e, progressivamente, nos tornarmos conscientes de quem somos, abrindo o coração à ideia de que este filho É, para além de nós.

Aceitar.

Olhá-lo como parceiro de jornada. Livre, meticulosamente perfeito na sua imperfeição, nas escolhas que faça, na personificação do seu espírito. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queira ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de si.

É aqui que se aprende a amar incondicionalmente. Só aqui.

E é aqui, precisamente neste ponto de viragem e de consciência, que começa verdadeiramente a mais corajosa e transformadora viagem da nossa existência: Sermos pais.

Tudo, porque um dia sonhámos ter um filho e descobrimos que afinal, éramos nós que nos tornávamos para sempre seus…