ansiedade no estudo

A ansiedade face aos testes. O desafio deles.

Este assunto preocupa-me. Mesmo.
Porque tenho clara noção de que a eles os preocupa. Muito.
Porque sei que a ansiedade face aos testes pode transformar o seu percurso escolar num verdadeiro inferno, minar-lhes a autoconfiança e com isso bloquear a capacidade de pensar o sucesso pessoal como a conjugação de múltiplos fatores, que não apenas os relacionados com a nota num exame.

Cada vez mais me deparo com situações de alunos que têm verdadeiro pavor aos momentos de avaliação, sejam eles testes, seja a apresentação de trabalhos de grupo, sejam exames nacionais.

Corre entre eles a ideia que estes momentos vão decidir o rumo das suas vidas, que falhar uma batalha é perder a luta e que não há margem para negociações, nesta corrida desenfreada pelo melhor resultado.

A ansiedade pode manifestar-se a nível físico, cognitivo e comportamental, com impacto importante na capacidade do adolescente em gerir adequadamente os momentos de maior pressão e desafio.

Esta incapacidade pode materializar-se, por exemplo, em comportamentos de evitamento e de procrastinação na preparação dos testes, bem como em dificuldades em gerir o tempo e em evocar a informação (as conhecidas “brancas”) durante a realização do mesmo. Para além disso e como “um mal nunca vem só”, são frequentes os pensamentos negativos e quase catastróficos: “Vou chumbar” ou “Nunca vou ser capaz de ultrapassar isto”, que em nada contribuem para a autoconfiança.

Reconhecer o impacto da ansiedade no bem estar psicológico dos jovens e, consequentemente, no seu sucesso académico, pode ajudar-nos a nós, pais e professores, a refletir sobre aquelas que poderão ser estratégias importantes no ultrapassar das dificuldades:

adequada gestão do tempo, evitando o estudo intensivo na véspera dos testes, que apenas contribui para que se sintam mais cansados (interferindo com a qualidade do sono) e ainda mais nervosos;

recurso a técnicas de estudo, adequadas às diferentes disciplinas e o esclarecimento de dúvidas que possam surgir durante este processo;

tomada de consciência dos pensamentos automáticos e negativos, frequentes nestas situações e a sua substituição por outros, mais positivos. Ex: “Vou dar o meu melhor e vou ficar contente com isso”, em vez de “Isto vai correr mal e eu vou ter negativa”;

adopção de técnicas como o relaxamento muscular progressivo e a respiração profunda, que podem ajudar a desenvolver uma maior consciência corporal e a acalmar as manifestações físicas da ansiedade, para um nível em que se tornem mais fáceis de gerir;

prática de exercício físico e a realização de atividades que proporcionem prazer e ajudem a libertar as tensões diárias. É importante por isso enquadrar estes momentos na agenda semanal;

reflexão sobre os resultados obtidos, que ajude a integrar o insucesso como parte do processo e como uma oportunidade de aprendizagem e crescimento individual. Ex. Se o teste correu menos bem, é importante perceber se existem comportamentos que devam ser alterados (antes e durante o teste), para que sintam que é sua, a capacidade de superar as dificuldades na próxima oportunidade.

E finalmente, mas não menos importante: falar sobre o assunto.

E aqui o papel dos amigos e da família é, mais uma vez, fundamental.
Para que se sintam apoiados e compreendidos, naqueles que são os seus desafios, os desafios de um mundo centrado na competição e no resultado, que todos os dias os põe à prova, e que pode, naturalmente, ser sentido como extraordinariamente assustador.

2 thoughts on “A ansiedade face aos testes. O desafio deles.

  1. Um tema muito interessante! Sou docente no Ensino Politécnico há 13 anos e deparo-me com alunas (são principalmente, ou exclusivamente elas, que demonstram, embora acredite que muitos rapazes sintam o mesmo mas não demonstram) que não conseguem gerir os nervos nos testes ou exames. Tento sempre relativizar, fazer-lhes ver que um teste é isso mesmo, apenas um teste, mas muitas vezes sinto-me impotente pois percebo que até me dizem que sim mas lá dentro continua tudo na mesma. Eles são sujeitos a tanta pressão que,ou estão psicologicamente preparados para relativizar, ou entram num processo de stress muito complicado. Custa-me imenso cotar testes de alunas que acompanham todas as aulas, participam, eu sei que elas sabem, mas que, por causa dos nervos, bloqueiam.
    Com as minhas filhas, desde pequenas o que digo é, se correr mal, para apróxima corre melhor, o que interessa é terem estudado e terem-se esforçado. Não foi o suficiente? Estamos sempre a aprender 🙂
    Mas tem que ser um trabalho contínuo, e estarmos bem atentos a sinais. O que tenho ouvido, porque felizmente isso não aconteceu conosco, é que muitos professores do 1º ciclo criam uma pressão brutal às crianças do 4º ano por causa dos exames nacionais. Porque isso conta na avaliação deles, porque isso influencia o ranking….e isso é um crime! Crianças de 9 anos devem ir fazer o exame (que já se reveste de um peso enorme) sem pressões, mostrar o que aprenderam durante os 4 anos. Conheço um caso que afectou mesmo fisicamente uma criança(meses a fio com problemas de estômago e intestino devido aos nervos com o exame).
    Há que repensar muito bem e dar ferramentas aos professores para desdramatizar. Não é tirar a importância da avaliação, é sim descomplicar, sob pena de termos muitos jovens a sofrer de ansiedades horríveis.

    1. É tão isso Célia! Andamos distraídos em relação ao que é efetivamente importante e continuamos a focar a atenção no resultado e não no processo, no empenho, no esforço que dedicam aos objetivos. Esse sim, é motor do sucesso e da satisfação pessoal. E o mais assustador é que a forma como transmitidos a ideia de escola aos miúdos está em muito associada ao trabalho, ao cansaço, à competição, às notas, ao fardo que tem de ser carregado… Quando ao invés deveríamos estar a alimentar a ideia de curiosidade, de aprendizagem positiva, de brincadeira, de liberdade, de crescimento pessoal, que vai tanto para além dos resultados num teste ou num exame nacional. Acredito que as boas práticas de ensino noutros países e até em Portugal, conseguirão um dia “contaminar” a Escola que (ainda) conhecemos hoje e aí sim, teremos mais miúdos felizes, a gostar do que fazem e satisfeitos apenas e só com a ideia de aprender, que é afinal tudo! 🙂

Responder a Rita Guapo Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.