6 maneiras de os ajudar a “desligar” em tempo de férias (e ao longo do ano).

Este é um tema que me preocupa. Muito.

Lá em casa visto quase sempre a pele de fiscal do tablet e da televisão, mas dou por mim muitas vezes a pensar sobre a estratégia e a tentar preparar-me da melhor forma para os desafios futuros. E digo futuros, porque até agora a coisa tem funcionado bem, o Manel raramente se lembra do tablet, nós não temos por hábito andar com o dito e nas poucas vezes em que o usa, recebe bem a sugestão de o desligar ao fim de pouco tempo.

Mas eu sei que é um ilusão achar que isto vai ser sempre assim. Sei porque tenho amigos com filhos mais velhos, sei porque trabalho com adolescentes na escola, sei, porque sei, que o mundo da tecnologia e, sobretudo dos jogos online, está pensado ao pormenor para favorecer a dependência e a desconexão de quem o procura.

Ajudar os filhos a fazer um uso adequado da tecnologia é um dos maiores desafios dos pais da atualidade, pelo que seguem algumas propostas que podem ser úteis às famílias e significar pontos de início e de retorno para todos, capazes de colocar os gadgets no seu devido lugar: o do entretenimento divertido e casual:

Não fazer da tecnologia um bicho de 7 cabeças.

Este é o ponto que mais tenho de trabalhar. Odeio jogos online, odeio ver crianças e adultos constantemente agarrados tablet e morro de medo de que isto se torne uma realidade cá em casa. E isto, faz com que ande constantemente a reagir à sua utilização e a verbalizá-lo: “Que perda de tempo!”. Não é, definitivamente, a melhor estratégia. Para entender o que se passa no ecrã, para poder aproveitar o seu lado bom e explicar o lado menos bom, é preciso não espantar os pequenos seres que por ele se encantam. A velha máxima do “fruto proibido é o mais apetecido” faz aqui todo o sentido e é por isso tão importante dar espaço para se falar no assunto e tentar compreender melhor a tentação: “Bem, isso parece mesmo desafiante!” ou “Queres explicar-me como se joga?”, são geralmente bons pontos de partida.

Falar abertamente acerca dos riscos associados ao uso excessivo de ecrãs.

Tal como em tudo na vida, nem todos os jogos ou vídeos são terríveis e nem sempre o recurso à tecnologia é um problema. Mas quando se transforma em tal, é nossa a tarefa de ajudar a pensar no impacto que a sua utilização excessiva pode provocar-nos, no que se refere ao bem estar e à saúde: “Reparei que quando jogas durante mais tempo, acabas por faltar ao treino de futebol” ou “Como te sentirias se dormisses um pouco mais?” ou ainda, “Tenho um colega no trabalho que está com dificuldades por causa do uso excessivo do computador…”, são exemplos que poderão ajudar a que cheguem eles próprios aos riscos que esta utilização representa.

Definir regras em conjunto.

A maioria das situações que me chegam de pais com dificuldade em definir limites aos filhos para a utilização do telefone ou do tablet, são situações em que o tema nunca foi discutido em família, muito menos aquando da tomada de decisão de comprar o dito aparelho. E acredito que este deve ser um ponto fundamental, capaz de evitar algumas dificuldades no futuro. Combinar que à mesa não se usa telemóvel, definir um lugar na casa onde guardar os gadgets durante a noite, estabelecer limites máximos de tempo para o jogo e estipular dias da semana específicos em que isso pode acontecer, limitar a existência de computadores e televisões às áreas comuns da casa, são algumas ideias que podem ser facilitar a saudável convivência com a tecnologia, protegendo, claro está, a convivência em família. (Nota importante: não esquecer que as regras aplicam-se a todos os elementos do agregado.)

Mostrar compreensão.

Terminar um jogo ou uma atividade que nos está a provocar sensações de bem estar e de prazer, só porque alguém nos diz para o fazermos, não é fácil e na maioria das vezes não será pacífico. Se, enquanto pais, mostrarmos empatia em relação a isto, ajudamos a lidar com a frustração e a facilitar que aceitem melhor a nossa colaboração nesta gestão: “Eu sei que estavas a gostar de jogar, mas já chegámos ao fim do tempo que combinámos”, relembra a importância de desligar, mas compreende que tal possa ser difícil.

Criar momentos em família do tipo “tecnologia não entra”.

“Vamos acampar? Deixamos o tablet em casa.” “Vamos jantar com  amigos? Não precisamos de telemóvel.” Fazer da experiência uma espécie de estudo sociológico e envolvê-los na sua implementação, análise e avaliação pode ser uma boa forma de motivar à participação. Aproveitar a moda do detox tecnológico: “Quanto tempo acham que aguentaríamos sem usar o telemóvel?” lança o desafio e torna tudo muito mais interessante.

Dar o exemplo.

Se eles são nativos digitais, nós já temos comportamentos muitos semelhantes, ainda que não tenhamos nascido com um telemóvel no bolso. Quantos de nós já se esconderam por uns instantes para espreitar as mensagens, quantos de nós já sacaram o telefone do bolso para fazer scroll no facebook assim que nos sentamos em qualquer lado, quantos de nós já levaram o tablet para a cama à noite? Quantos de nós já gritaram: “Já vou!”, só para estar mais um pouco no computador. Provavelmente todos. E a verdade é que em todas essas vezes, há alguém pequenino que nos observa. E aprende. Não nos esqueçamos disto.

E por fim, sabendo que estas propostas servirão assim a algumas famílias, e a outras servirão de outra forma, sendo que a todas será possível enfrentar o desafio imenso que esta coisa de viver num mundo cada vez mais digital representa, proponho ainda que não nos esqueçamos das coisas que nos fazem verdadeiramente sentir vivos: um banho de mar, as gargalhadas dos amigos, um desgosto de amor, um piquenique no parque, um concerto ao ar livre, uma viagem… estas são as experiências capazes de aguçar a vontade de mundo. E são elas que baterão aos pontos qualquer jogo online.

Sejamos vivos assim e não nos esqueçamos de os trazer connosco. Mesmo que às vezes a cara se faça feia, a memória não se fará dela…

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