Gosto de me embrenhar nas pessoas. De lhes sentir o pulso, de lhes imaginar a casa, de me deter nos detalhes que as enfeitam. Ainda esta manhã, numa bomba de gasolina, houve um senhor que me disse: “Isto hoje está uma brasa e olhe que eu saio de casa todos os dias às 7:07!” Quem se lembraria disto? Quem se lembraria de tornar preciosos estes 420 segundos, a ponto de os salientar numa conversa de beira de estrada? Fiquei a imaginar-lhe a existência nesse compasso de tempo. 420 segundos para desligar o despertador e voltar a adormecer, 420 segundos para aparar minuciosamente o bigode, 420 segundos para fazer amor com a mulher, 420 segundos para enrolar uma sandes de paio para o almoço… 420 segundos. Que podem não servir para nada, ou que fazem toda a diferença. É mais ou menos isto que fazemos com o tempo. Ou saímos às 7 e tal e nos atabalhoamos o resto do dia no meio dos ponteiros do relógio, ou saímos escrupulosamente às 7:07, dando-nos de presente a cada milésimo dos segundos que tivemos a mais. É mais ou menos isto que fazemos com a vida. Ou nos embrenhamos nas pessoas e esperamos que nos agucem a alma ou deixamos que nos passem ao lado, sem desejo, nem romance, nem paixão. Se for para ser assim, mais vale que nos sobrem segundos com fartura. Ou bem que é para nos pormos de corpo inteiro no tempo que nos resta, ou mais vale sair de casa a uma hora que ninguém desconfie.

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