A lua não fica cheia num dia…

Caminho a um passo apressado. O do costume.
Constante, alinhado com o relógio (ou desalinhado pela hora tardia), cheio de certezas mal amanhadas e de verdades absolutas.
Julgo-te logo atrás de mim, quando te abro a porta do carro, mas depressa percebo que não estás.
Procuro-te com o olhar…
Passo demorado, ao sabor do vento e da vida, cheio de dúvidas certeiras e em estado de puro êxtase com os sons, as cores, o traçado do chão…
Desatino.
É tarde. Tu sabes disso, porque já to disse 100 vezes desde que te acordei.
“Não há vida para isto!” volto a repetir, para depois ler nos teus olhos: Mas há vida mamã, e está em todo lado. Ainda consegues ver?

Esta história tem sido minha. Quase todas as manhãs.
E não há nenhuma delas em que eu não deseje ser diferente, ou pelo menos, ser mais vezes capaz de me espantar com o meu filho, de continuar a esforçar-me para estar atenta e disponível e reaprender essa sábia forma de vida que traz dentro.
Já a tive, sabes?
Já me detive no caminho e acompanhei com o olhar a formiga pequenina que me atravessava o caminho. Já corri atrás do som feliz do passarinho que pousou por instantes na mesa de esplanada ao lado. Já imaginei até, se o barulho da chuva não seria antes uma legião de borboletas azuis, prontas a resgatar-me da sala de aula.
E depois perdi-a. Perdi-me.
Nem sei bem quando, mas decerto quando pensei que já tinha visto quase tudo, ou sempre achei que havia coisas mais importantes do que a vida a acontecer, no chão que piso, na mesa ao lado, no cheiro da terra molhada…
Não sei quando perdemos de vista a capacidade instantânea de nos espantarmos com o mundo, mas sei que o mundo seria um lugar tão melhor, se os adultos que nele moram, pudessem mais vezes esquecer o relógio, e SER.

Não sei quando nos perdemos de vista, mas sinto, na tua mão pequenina que ainda não desistiu de me encantar, que vou a tempo de me encontrar.
Vou sempre a tempo, meu amor…

E é por isso que amanhã acordo uma hora mais cedo, e cedo ao passo demorado e à perfeita delícia de te acompanhar…

Nota: Se tal como eu te sentes assim (às vezes tempo demais), partilho contigo algumas ideias que procuro ter como farol, capaz de guiar a vontade de manter vivo e de boa saúde este seu (nosso) sentido de espanto:

Desligar a televisão e esconder os tablet e os outros gadgets maravilha (depreendo que imagines porquê…);

Manter o contacto com a natureza e tornar mais conscientes as sensações que isso nos traz: pôr os pés descalços na terra, comer frutos das árvores, fazer uma horta na varanda… Deixar a vida acontecer ao ar livre, sempre e o mais possível;

Dar espaço para a brincadeira livre. Enquanto adultos interferimos vezes demais neste processo: orientamos, damos diretrizes, proibimos ou permitimos… Brincar livremente e escolher a forma e o conteúdo da brincadeira favorece, como nenhuma outra atividade, o desenvolvimento social, criativo e emocional das crianças;

Encorajar a exploração do ambiente. As crianças são naturais inventoras e hábeis exploradoras do espaço e do meio em que se movem. Estimular essa descoberta traz-lhes ferramentas únicas para se superarem do ponto de vista físico e cognitivo;

Estimular o questionamento acerca das descobertas feitas. “O que achas que aconteceu aqui? Porque será que este passarinho preferiu fazer o ninho nesta árvore?” Formular hipóteses em conjunto acerca do que é observado, permitindo que construam as suas conclusões, traz significado próprio a todas as experiências e aprendizagens, e fortalece-as;

Transformar objetos da natureza e do quotidiano, descobrindo-lhes novas funções: estimula o pensamento divergente, a criatividade, a resolução de problemas. Resistir à tentação dos brinquedos luminosos, barulhentos, “pilhodependentes” e tão pouco desafiantes, é o primeiro passo para que isto possa acontecer;

Permitir o “aborrecimento”, e abraçá-lo como oportunidade única para estar atento ao que lhes acontece dentro e ao seu redor. Garanto-te que o que daí advém, é quase mágico.

E porque acabar de uma forma bonita ajuda a que o fim perdure, o vídeo que hoje te deixo, transforma tudo isto em poesia… Enjoy. <3

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CristinaRita Guapoedite Recent comment authors
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propostas amplamente postas em ação quando – está com os avós ;))
o tempo é o seu, o nosso adapta-se e tão bem, a corrida desaparece, tudo flui. não há gadgets (pouco pouco e só para ver coisas giras).
só um senão – os avós trabalham muito e aos fins de semana há sempre tantas festas!! e é também o tempo bom de os pais puderem estar mais e melhor.

beijos mil com o amor de sempre 😉

Cristina
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Cristina

Acho as ideias maravilhosas! Os meus filhos ja são crescidos, espero um dia, quando for avó, por essas ideias em pratica.