Wanna dance?

Estávamos as duas no corredor da consulta de urgência. Eu por mim. Ela pelo marido.

Tínhamos estado juntos a fazer soro na mesma sala. Lembro-me de o observar: Alto, bem parecido, cabelos brancos muito alinhados, meias aos losangos e sapatos bonitos, de pele. 80 e poucos anos.

Quando terminei o tratamento, saí e foi então que a conheci. Sentada ao meu lado, falou-me dele. Falou-me da vida a dois. Dos filhos. Dos momentos felizes. Falou-me do projeto conjunto de ver crescer as oliveiras plantadas o ano passado. Disse-me, com os olhos cheios de amor, que estavam casados há 50 anos. E depois continuou…

“Dizem que é uma demência e que é isso que o deixa confuso, agitado… Mas sabe o que é pior?”

Abanei a cabeça.

“O pior é quando ele me diz: Quem és tu? Vai-te embora que eu não te conheço! Ou quando insiste em beber água da torneira porque acha que eu pus veneno na que está no garrafão. Ou quando me conta histórias que eu não entendo porque nunca antes as ouvi.”

E depois rematou: “E logo nós, que sempre fomos tão amigos…”

Dei-lhe o colo possível. Senti na pele o que pode ser perder o amor da nossa vida, ainda que ele continue a dormir ao nosso lado. Desejei que pudessem dançar uma última vez e que no regresso a casa, caminhassem juntos por entre as oliveiras.

E com isto, trouxe no peito a sensação de que o amor é o melhor que a vida tem. Mas nem sempre a vida o ampara.

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