O bom do Pai Natal.

Tenho uma relação agridoce com esta história do Pai Natal.

Acho que não gosto, mas acabo por provar e ir mastigando a coisa. Por mastigar entenda-se, embarcar no disparate. Sim, porque hoje em dia, mesmo que eu não quisesse abraçar o conceito de um senhor de barbas distribuidor de presentes, tal seria tarefa quase inglória.

O bom do senhor está mesmo em todo lado. É no supermercado, é na televisão, é na escola, é nos outdoors, é nos catálogos na caixa do correio… e eu, que até percebo que papar com a Lapónia o ano inteiro, deixe qualquer um entediado (e que por isso, este apelo natalício seja um espécie de libertação), continuo a achar que o rapaz podia ser um pouco mais comedido na auto propaganda.

Ora vejamos então, uma das mil razões porque é que esta tradição é tramada…

No ano passado, um dos desejos da criança aqui de casa era o camião da patrulha pata. Eu, mantendo-me fiel àqueles que são os nossos princípios enquanto família, achei que cobrar 100 euros por um camião de plástico, usando perniciosamente o facto do mesmo povoar o imaginário de todas as crianças entre os 3 e os 5 anos, era, no mínimo, imoral. E mantive o boicote ao camião da patrulha pata.

Na altura expliquei ao Manel que talvez o Pai Natal não conseguisse trazer aquele brinquedo porque era muito caro e era preciso distribuir os brinquedos (a riqueza) por todos os meninos. A coisa colou mas uns dias depois do Natal, acalmadas as hostes, ele veio ter comigo e perguntou porque é que o Pai Natal tinha trazido um camião tão caro a alguns dos seus amigos e a ele não. Eu, engoli em seco e improvisei a melhor resposta que consegui na altura.

Este foi um dos milhares de momentos em que me apeteceu acabar com a fantochada. Não o tendo feito, procuro não alimentar demasiado a coisa e vou falando no Pai Natal dos pais, do avô, da avó, dos tios… vamos vendo juntos os catálogos dos brinquedos que nos chegam a casa (e que lhe fazem os olhos brilhar) e vamos falando sobre os preços e sobre a sua relação com a qualidade ou interesse do brinquedo. E o Manel vai sendo capaz de fazer escolhas cada vez mais conscientes, o que a mim me faz sentir que estamos no caminho certo.

Ultimamente tem-me feito perguntas estratégicas do género: “Mas porque é que o Pai Natal está sempre com a mesma idade?”, “Mas como é que o Pai Natal entra nas casas que não têm chaminé?, “E porque é que nós raramente vemos o Pai Natal verdadeiro?”

E na vez em que me pergunta se o Pai Natal existe de verdade, eu respondo que há pessoas que acreditam que sim e outras que acreditam que não. Não consigo dizer-lhe outra coisa.

Posto isto, vou continuar neste misto de amargo doce, a deixar-me levar pela sua imaginação e pelo seu ritmo, neste caso, ainda tão conduzido pela melhor estratégia de marketing de sempre: um senhor barbudo, de ar simpático e bochechas rosadas, vestido de vermelho e branco, a beber uma coca cola fresquinha.

Felizmente, o Natal é tão mais do que isto.

Felizmente, eu tenho cá para mim, que ele começa a entendê-lo…

 

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2 Comentários em "O bom do Pai Natal."

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Célia Picoito
Visitante
Olá Rita! O Natal é o que nós fazemos e queremos que seja. É dificil ir contra a maré do consumismo, é, e por vezes, não vou contra. Embarco até onde acho razoavel. Mas depois encho-as de memórias e cheiros que, acho eu, é o que vão guardar dos natais de infância. Fazemos bolachinhas, doce de abóbora e juntamos uns bombons e oferecemos às professoras, às tias e primas, aos avós, a todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, nos são queridas. Vai um bocadinho de nós naquela prenda. E ficam tão lindos os cestos ou caixinhas… Read more »