Aquilo que eu espero da escola do meu filho.

O Manel vai fazer o último ano do ensino pré-escolar numa escola pública.

Já tínhamos decidido que o 1º ciclo se faria assim e, como a escola onde esteve até agora não terá sala de cinco anos, optámos por fazer a transição mais cedo.

Esta mudança e o entusiasmo do Manel face à mesma, deu o mote à conversa com um amigo sobre o ensino público e privado e foi quando nos alongámos na mesma, que ele me disse: “Pois, mas uma das vantagens que os pais veem em meter os filhos nas privadas, é a rede de contactos…”

Confesso que tive de me esforçar para perceber do que falava…

– “Rede de contactos?”
– “Sim, o facto de crescerem perto de pessoas de um determinado nível social, pode abrir-lhes portas no futuro…”

Percebi então que estava longe. A leste do paraíso, como costumo dizer. Não me tinha passado pela cabeça que se projetasse o futuro dos filhos, com base na rede de contactos que estabelecessem a partir do 1º ciclo. Não me tinha passado pela cabeça que se pudessem forjar as amizades na infância, com base no proveito que os filhos pudessem tirar delas quando chegassem à idade adulta.

Mesmo sabendo que esta não é de todo, a motivação de todos os pais que optam pelo ensino privado, mas sim o facto de ser a única opção viável, tendo em conta o prolongamento dos horários, ou a mais interessante, relacionada com o projeto pedagógico que apresente, o admirável mundo novo que o meu amigo me mostrou, fez-me pensar naquilo que eu esperava da escola do meu filho. E claro, por acréscimo, naquilo que a escola pública tinha significado para mim, desde o primeiro dia de infantário, até ao dia da defesa da tese de mestrado no ensino superior.

E a par de todas as coisas boas de que me lembro e de todas as outras menos boas (porque também as há), existem vantagens que considero imbatíveis, tendo em conta os valores nos quais quero que o Manel cresça:

Na escola fazem-se amigos para a vida e os amigos não se escolhem, nem pela roupa de marca, nem pelo telemóvel que usam, nem pelo carro dos pais. Escolhem-se pela forma como abraçam a vida e os outros, pelos valores que norteiam o seu comportamento, pela capacidade de dar a mão, sem olhar ao relógio que temos no pulso.

A escola promove a igualdade de direitos e de oportunidades e isto implica ter de lidar com as necessidades especiais de alguns miúdos, com os comportamentos desafiantes de outros, com as dificuldades escolares de muitos. Tudo, sob a premissa máxima de que a educação é de todos e para todos. Tudo, sem a possibilidade de excluir por questões religiosas, por questões financeiras, por questões associadas à prática dos “bons costumes”…. Tudo, sem olhar aos rankings, porque há metas tão mais importantes.

A escola prepara cidadãos para o mundo e o mundo não é dos ricos, não é dos brancos, não é dos filhos de famílias importantes. O mundo é de toda a gente, e por mais que às vezes assim não pareça, cabe-nos a nós lutar para que assim seja. E eu acredito que a melhor receita para ensinar a pluralidade do mundo, é crescer dentro dela.

É por tudo isto, que aquilo que eu espero da escola do meu filho é que o ensine a viver em liberdade, que o ensine a conviver com a diferença, a respeitar os outros, a ser empático com as histórias e os padrões de vida diferentes dos seus. E que assim, com tudo isto, a escola lhe traga amigos dos bons. Sejam eles o Zé da Esquina ou o Zé do Casino.

A vida não é uma gaiola dourada.
E ainda bem.

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12 Comentários em "Aquilo que eu espero da escola do meu filho."

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Rute B
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Boa tarde, existem escolas boas e menos boas tanto no público como no privado. Mais do que paredes, as escolas são feitas por pessoas. Quando o poder económico ou a oferta não estão em causa (como não deveriam estar) sobram as expectativas dos pais. Uns valorizam a vertente elitista (senão snob) e outros a vertente da qualidade… Uma vez mais… reforço que existem escolas fantásticas quer no público quer no privado. Generalizar é um erro tão crasso como a opinião desse cidadão… Errado mesmo… é cada família não poder escolher optar livremente através do cheque ensino…. Afinal as pessoas defendem… Read more »
Dulce S
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Obrigada!! Respiro fundo por ver que mais alguém pensa como nós! Com excelentes escolas privadas ao pé da porta, somos professores do público (e até nisso, um em cada extremo da realidade da profissão) e acreditamos no ensino público. Acreditamos, pelo menos, que temos de ser nós, pais, a colaborar com a escola e a chamá-la ao seu dever quando as coisas correm menos bem. E os nossos filhos frequentarão o ensino público enquanto pudermos lutar por ele… nas bases que tão bem defendeu.

Elisabete
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Revejo-me neste desabafo!

Adília César
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Totalmente de acordo. Já não há Castelos e se houver, são castelos de areia, desabam rapidamente. As “elites” que se cuidem. Falando das escolas públicas, ainda bem que TODAS AS CRIANÇAS, sem excepção, são aceites, porque todas deveriam ter as mesmas oportunidades.

Sílvia R.
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Identifiquei-me imenso com o seu artigo e felicito-a pela opção. Cá em casa tivemos dose dupla de escola pública no ano lectivo que terminou: a mais velha no primeiro ano e a mais nova no jardim de infância. Desde o berçário estiveram sempre no privado. No fim do ano concluímos que devíamos ter tomado uma decisão semelhante à da Rita, com a mais velha. Quanto às rede de contactos… Espero que as minhas filhas tenham um papel muito mais activo e consciente nas escolhas “das redes” em que se decidirem integrar do que sermos nós pais a decidir por elas,… Read more »
Sónia Esteves
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Olá Rita <3 Fui educada num misto de escola pública e privada, que me preparou para a vida, me deu amigos para a vida, com os quais ainda hoje me relaciono, me ensinou igualdade, respeito mútuo e disciplina, e me tornei assim uma cidadã do mundo… claro que não foi só a escola que me deixou neste estado de Pessoa, sentindo-me inteira… tive uma estrutura, uma rede, uma família que me educou e que ainda hoje está lá! Pessoalmente nunca entro em grandes discussões sobre opções publicas ou privadas, teríamos aqui uma conversa longa… é desafiante para os pais escolher…… Read more »
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