Como se repara um coração partido?

Lembra-te das palavras ditas (ou das que gostarias de ter dito). Experimenta a tristeza. Revive a culpa, a vontade de correr atrás. E depois, a desilusão, o choro fácil, a mesma música no rewind, vezes e vezes sem conta, até chegares à promessa de não voltar a tentar.

A grande maioria de nós viveu o primeiro desgosto de amor na adolescência e por mais que saibamos (agora), que o tempo tudo cura e que a vida dá muitas voltas, seremos quase todos capazes de trazer à tona a dor de um coração partido e a certeza de que a vida nunca mais se faria feliz.

Uma das tarefas da adolescência é o alargamento das relações para além da família, a experimentação das primeiras ligações amorosas que cumprem uma função importante no desenvolvimento emocional e na preparação para os relacionamentos futuros.

Para nós, este é muitas vezes um momento difícil porque mesmo que já tenhamos lá estado, trazemos outras coisas na mochila, o que pode dificultar a tarefa de compreender o “tudo ou nada”, o choro inconsolável e a sensação de que o mundo desabou. Ainda assim, e muito por causa disto, é importante resgatar a memória do nosso adolescente apaixonado e, de forma empática, mostrar aos nossos filhos que estamos por perto e que podemos ajudar:

Validar sentimentos. Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas óptimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Mais do que conselhos ou palavras certas, o que eles precisam de ti é que os oiças, que os deixes chorar ao teu colo, pôr para fora aquilo que pensam. Mesmo que tudo pareça às vezes demasiado dramático, aceita-os no que sentem e fá-los sentir que estás disponível para compreender.

Normalizar o dia-a-dia. Encorajá-los a levantar da cama, a passar mais tempo com os amigos, a participar em atividades que ajudem a ocupar a mente e a descobrir outros motivos de satisfação, além de ser favorável à autoestima, estimula novas aprendizagens e, sobretudo, alimenta a relação com os outros, tão importante nos momentos de maior fragilidade emocional.

Aceitar que vida se faz destas coisas. Sim eu sei, mora cá dentro o desejo secreto de os proteger de tudo e de todos e por isso, sempre que alguém magoa os nossos filhos, “baixa” em nós uma espécie de avatar vingador, pronto a defender a cria. Por mais que te apeteça dizer umas quantas coisas ao objeto do amor desiludido, controla-te e deixa a vida acontecer-lhes. E se há coisas que a vida lhes ensinará (e as relações falhadas também) é a lidar com a frustração, a aceitar a quebra das expectativas e a aprender sobre quem são e como são com os outros.

E finalmente, porque esta história de sermos pais implica ter uns olhinhos cravados em nós a cada segundo da nossa existência, há uma ideia de que gosto muito e que procuro ter presente neste meu percurso de mãe: a importância da experiência amorosa familiar.

É com a família que se conhecem as primeiras relações afetivas, que em muito serão preponderantes na qualidade dos laços que se criarão ao longo da vida. Se connosco aprenderam a dizer “gosto de ti”, a mostrar afeto, a defender o que sentem, a comunicar, a respeitar e a ser respeitados, será isso que exigirão nas experiências afetivas que venham a ter.

E só isso, já é meio caminho andado para que mesmo que o coração quebre, muitas e muitas vezes, persista a força e a coragem para apanhar os bocadinhos e alimentar a vontade de um amor maior.

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4 Comentários em "Como se repara um coração partido?"

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Luiza Natália Ramos Evangelista
Visitante
Luiza Natália Ramos Evangelista

Maravilhoso esse texto.
Nós pais, ficamos muito atordoados com a primeiro desgosto amoroso dos filhos.
Pra mim foi muito difícil, tive que procurar ajuda especializada para o meu filho. e para minha afamilia.
Fizemos tudo que podíamos até parar no psiquiatra.
Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas ótimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Pura verdade.
Essa parte do texto é super verdadeira.
Gostaria de ter lido isso na época.
Espere que esse texto ajude muitos pais desesperado, porque não é fácil.

Obrigada Rita Guapo

Nidia Horta
Visitante
Olá ! Rita Guapo Mesmo cansada , e com o “coração partido” , não quero deixar de partilhar o belo texto que acabei de ler… Constato que quando o coração dói por amor, ou, por outros males que lhe fizeram, o “triste”, já não pode voltar a bater nunca mais na sua vida, porque «vaso quebrado, não tem solução.» Como todas as adolescentes, eu também vivi sonhos de amor, precários, doentes, fracos… Até que um dia o imprevisto tomou conta de mim e muito a sério. Contudo, por intrigas de familiares e amigos esse vaso quebrou, deixando a dor, o… Read more »
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