A vida dos outros.

A vida dos outros interessa-me. Ou melhor, a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me.

Interessa-me porque acredito que não é possível ajudar alguém que não vai bem na escola e nos outros contextos, sem primeiro entender como vai em casa, ou como vai por dentro.

Interessa-me porque tudo aquilo que somos, ou antes, tudo aquilo que mostramos aos outros, é resultado das nossas vivências, reflexo de tudo o que trazemos na “mochila” que colocamos às costas todos os dias.

E há “mochilas” tão pesadas que eu às vezes dou por mim a conter a vontade de chorar, quando ouço as histórias que nelas se carrega.

São histórias de perda, de abandono, de desilusão. São histórias mal explicadas e outras com detalhe a mais. São miúdos que aos 5 viram a mãe sair de casa para só voltar a entrar três anos depois, levar a irmã mais nova e desaparecer outra vez. São miúdos que aos 9 entendem como seu, o dever de proteger a mãe de um pai que grita, que bate e que se embebeda todas as noites. São miúdas que aos 15 se prostituem na rua com a irmã no banco ao lado e a mãe na curva seguinte. São histórias de vidas difíceis que a maioria de nós, felizmente, nunca imaginaria existirem.

São as vidas dos outros, que têm idade para só pensar em sonhos e guardar no coração a fé no mundo e nas pessoas mas que, em vez disso, se preocupam em saber de cor o melhor esconderijo quando os gritos tomam conta de tudo, que gostavam que alguém lhes dissesse a que lugar pertencem e que adormecem a acreditar que é amanhã que as promessas feitas se cumprem e trazem com elas a esperança de que tudo mude.

O comportamento de uma criança ou de um adolescente é sempre sintoma da sua vida psíquica, das suas experiências, da forma como tomaram conta de si.

Ora quando o seu crescimento é marcado por uma vinculação insegura, por momentos de trauma, ausência ou negligência, estará inevitavelmente comprometida a sua capacidade de se ligar aos outros e de lidar com os desafios da vida, nos quais a escola e a aprendizagem se incluem. Capacidade esta, só reparável com o amor das relações que quebram o ciclo, que ajudam a colar os pedaços e a fazer acreditar. Outra vez.

Por tudo isto e porque o sítio onde se nasce continuará a ser sempre uma questão de sorte, não nos limitemos a julgar, a repreender, a criticar, a enquadrar um determinado comportamento naquelas que são as nossas vivências, naquele que é o nosso quadro de valores. Há quem esteja dele muito distante e apenas precise de alguém que saiba olhar e esteja disponível para entender.

Às vezes, aquilo que eu faço é aquilo que me é possível fazer naquele momento e isso não resume tudo aquilo que eu sou. Tudo aquilo o que eu trago cá dentro.

Assim é connosco. Assim será com eles.

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9 Comentários em "A vida dos outros."

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feltro nas mãos
Visitante

E os garotos agradecem esse interesse. Às vezes, parece-nos pouco o que fazemos, mas, para alguns garotos, pode ser tanto… Temos que continuar! Também, por aqui, “a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me” e MUITO.
No ano letivo anterior foi, mais ou menos, assim:

http://feltronasmaos.blogspot.pt/2016/08/sobre-o-ano-letivo-que-esta-agora.html?m=0

e este ano letivo, também, já foi um pouco assim:

http://feltronasmaos.blogspot.pt/2016/10/dia-de-atividade-de-halloween-em-sala.html?m=0

Continuação de muito bom trabalho!

Natália
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Mas que grande aperto com que fiquei ao ler este texto…
Realmente somos mais rápidos a julgar do que a tentat compreender… infelizmente…

Tiago Gavinhos
Visitante

O Pés na Lua interessa-me. Ou melhor, interessa-me muito o seu conteúdo, que, ironicamente, é uma overdose de “pés na terra” para “cabeças na lua”.
Interessam-me muito as pessoas a quem interessam as pessoas. O Mundo precisa delas.
Parabéns pelo texto fabuloso e pela substância. A sua, não do texto
Tiago

Rúben Sousa
Visitante

Muita gente deveria ler este post! Só tenho a dizer que é magnífico a profundidade que toca corações e faz nos ver para além da fachada! Acredito que todos somos capazes só nos falta o empurrão e a motivação certa para que se concretize o sucesso!
Assim se faz a compreensão!

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