O mundo virtual e as relações reais.

Facto: A maioria dos jovens tem acesso à internet mediante recurso a tablet, smartphone ou computador próprio.

Questão: Estaremos nós, e eles, conscientes do perigo que o mundo digital pode efetivamente representar?

Um estudo recente realizado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), mostra-nos que três quartos dos jovens até aos 25 anos, apresenta sinais de dependência digital, que podem assumir-se através do nível de importância atribuído ao computador ou ao telemóvel, do isolamento social e de sintomas de irritabilidade, agitação e agressividade, sempre que o recurso a estes dispositivos não é possível. Para além disso, outros resultados ao nível da neuroimagem mostram-nos que a utilização excessiva de gadgets, afeta o funcionamento cerebral no que se refere, por exemplo, ao controlo dos impulsos, da mesma forma que a cocaína.

No trabalho que desenvolvo com adolescentes tenho a percepção clara da dimensão que o telemóvel assume nas suas vidas. É através dele, na maioria das vezes com recurso à internet, que se conectam com outros jovens, que partilham músicas, vídeos e que criam uma espécie de “sítio especial” que serve também para crescerem, num processo de identificação e de autonomia importante.

O problema surge quando este espaço se torna o único e quando impede que outras aquisições, ao nível do funcionamento social, aconteçam.

A dependência da internet é uma adição com características próximas das que acontecem com outras substâncias, conduzindo a comportamentos de utilização compulsiva, com efeitos impactantes no desenvolvimento psicoafectivo e social.

Ora, numa altura em que as sociedades se debatem com dificuldades que favorecem o isolamento e a falta de espaços de partilha familiar, o mundo online ganha terreno e as novas tecnologias dão resposta às vontades de quem quer crescer depressa.

Como poderão então os pais e os educadores fazer face a estes desafios, de forma a contribuir para uma utilização saudável, consciente e informada destes recursos, sem que seja necessário fazer deles o “mal do século”? E aqui, como na maioria das questões relacionadas com os filhos, um das ideias chave é prevenir.

Seguem por isso, algumas estratégias de prevenção:

  • “As crianças vêm as crianças fazem.” Procure que os seus comportamentos sejam o espelho dos comportamentos que gostaria de ver nos seus filhos e neste caso, isto significa que é importante que em família se leia, se dedique tempo ao outro, se pratique desporto ou alguma atividade física e se façam programas em conjunto, de carácter lúdico e/ou cultural, privilegiando as atividades ao ar livre.
  • Fale abertamente sobre as razões e os riscos que motivam a importância do estabelecimento de tempos e momentos para a utilização da internet. Estes tempos podem ser negociados, consoante a idade da criança e já agora, em relação aos momentos, vale a pena lembrar que o momento da refeição deve ser um espaço de comunicação face-a-face por excelência e por isso um momento “tecnologia não entra”.
  • Incentive, desde cedo, todas as atividades que permitam o desenvolvimento de competências de socialização, sejam jantares da família com amigos, festinhas da escola, acampamentos de grupo, enfim, todos os momentos que favoreçam a ligação com o outro, a resolução de problemas e a vivência de momentos relacionais significativos.

Felizmente, sabemos hoje que um desenvolvimento saudável na infância e na adolescência depende em grande parte da qualidade da interação social e da criação de uma rede de suporte, que nos protege e nos ampara sempre que a vida nos traz dissabores.

No caso dos jovens, tal como no caso dos adultos, ter construído esta rede de pessoas que nos são significativas e afetivamente relevantes, pode significar a vontade de nos mantermos conectados com o mundo real, ainda que de vez em quando nos saiba bem uma “espreitadela” a tudo o que de fantástico acontece por detrás do ecrã.

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2 Comentários em "O mundo virtual e as relações reais."

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Rosa Martins
Visitante

Muito bom Rita, sempre achei as redes sociais e maneira como as pessoas se expõem e por mim falo, uma ilusão, Tive recentemente um exemplo, de um adolescente completamente apaixonado por uma miúda que nunca viu, tocou, sentiu o cheiro, beijou, estranho …

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