“Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

Há uns tempos partilhei um texto sobre a tão corriqueira “palmada pedagógica”. Fundamentei a minha opinião sobre o assunto, com base nas minhas convicções pessoais, no trabalho que desenvolvo com crianças, jovens e famílias e claro, na minha vivência enquanto mãe.

O que se seguiu foi um sem fim de comentários acesos, alguns a concordar com o que era defendido, outros a contestar a ideia, defendendo que as palmadas são benéficas para as crianças e constituem “corretivos” indispensáveis ao crescimento e à aprendizagem. Até aqui tudo bem, não estava à espera que todos concordássemos com uma ideia que é afinal contrária a tudo aquilo que aprendemos ao longo da nossa existência. Até aí tudo bem, até porque acredito e defendo que é nas diferenças e na capacidade de as pormos em comum, que podemos avançar e crescer enquanto seres humanos.

Aquilo que verdadeiramente me assustou (a par do ódio que as pessoas são capazes de destilar na defesa dos seus argumentos), foi ver repetir-se a ideia de que o problema dos jovens de hoje reside na falta que têm de umas belas bofetadas. Assustou-me perceber que há pessoas que julgam que os limites se impõem pela violência e que, à falta de melhor, é com violência que se resolvem as dificuldades e se dá o exemplo. Assustou-me, sobretudo, porque sei que a maioria dos miúdos que manifesta problemas de comportamento na adolescência são precisamente, aqueles que cresceram a ser batidos, a não serem ouvidos, que confundem amor com pancada e que desenvolvem vínculos afetivos de enorme fragilidade com os seus cuidadores.

Confrontar-me com estas ideias trouxe-me à memória a pergunta que tantas vezes oiço: “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?” E muito embora ache que parte desta ideia tem origem naquilo que gosto de pensar como uma espécie de saudosismo geracional, que nos leva a achar que no nosso tempo as coisas corriam sempre melhor, considero que as crianças e os jovens que hoje enfrentam de facto novos desafios, reflexo da sociedade na qual se integram, sobre os quais é importante refletir.

Estes são, na minha opinião, alguns deles:

Cansaço emocional e físico das pessoas em geral e dos pais em particular. Vivemos a um ritmo alucinante, queremos fazer tudo e estar em todo lado, trabalhamos 8h por dia (na melhor das hipóteses), os miúdos entram no infantário aos 5 meses de idade e por lá ficam 8h também. A tudo isto, acresce o facto da vida em comunidade ter deixado de existir, o facto da maioria dos avós trabalhar também e a dificuldade de criar redes de suporte social que permitam às crianças mais tempo em família. Deixa mossa, vos garanto.

Obsessão pelo mundo digital. Se eles são nativos digitais, nós somos emigrantes e andamos a absorver demasiado rápido tudo o que nos encanta neste admirável mundo novo. São os likes nas fotos e nas frases feitas, são as selfies para mostrar a vida boa que levamos, é a aplicação XPTO que promete fazer milagres e poupar tempo… É a estimulação excessiva, constante, frenética, que nos faz andar à roda, maravilhados e, mais grave ainda, levá-los a reboque. Não come? Distrai-o com o vídeo do Panda e enfia-lhe mais uma colher na boca. Não dorme? Põe a música da Xana TocToc a tocar ao pé da cama. Birra no restaurante? Por sorte trouxe o Ipad e sempre dá para se entreter um bocadinho. E de repente, ninguém está onde deveria estar, ninguém sente o que devia sentir.

Estilo de vida sedentário. Quantos de nós subiram às árvores, inventaram brincadeiras com canas e paus, desapareceram horas sem fim a explorar o terreno à volta da casa dos avós, apanharam nêsperas, ficaram de molho no rio até ficar com a pele enrugada? Quantos miúdos têm a oportunidade de experimentar estas e outras coisas? Quantos miúdos têm o privilégio de se aborrecer porque não há nada para fazer e de terem de arranjar uma solução? Poucos, muito poucos, arriscaria eu. Há o tablet, há a consola, há o sem fim de tralha de plástico no quarto, há a televisão… E depois há o shopping, o cinema, as pipocas, o supermercado, a pizza encomendada… Tudo dentro de quatro paredes, enquanto a vida lá fora acontece, sem que percebam como.

Falta de tempo com os outros e para os outros. Cada vez mais tenho a sensação de que as pessoas vivem sozinhas, de que as famílias crescem isoladas. Pais a viver para os filhos, filhos a receberem a atenção exclusiva dos pais. Perde-se o hábito de abrir a porta de casa, perde-se o hábito de arriscar amigos novos e de mansinho, vamos desaprendendo a gostar de pessoas. O resultado? Começamos a acreditar que a mensagem de telemóvel substitui o abraço, que se a relação não está a dar, o facebook pode dizer-lhe isso por mim, que se eu tenho 3000 amigos virtuais, é porque sou mesmo boa pessoa… Poupa-se tempo, poupam-se emoções, foge-se à frustração e vive-se ao ritmo do gosto fácil da gratificação imediata.

E porque as palavras vão longas e já não somos assim tantos a ler tudo até ao fim, termino, com a pergunta que deu o mote a este texto:

– “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

– “É falta de umas belas bofetadas!”, continuarão a responder alguns…

 

Nota: A fotografia fantástica que ilustra este texto é da Lília Nunes Reis e ao olhar para ela, ocorre-me sonhar que ainda é possível impedir que cresçam, a achar que voar é uma doença…

A vida dos outros.

A vida dos outros interessa-me.

Ou melhor, a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me.

Interessa-me porque acredito que não é possível ajudar alguém que não vai bem na escola, sem primeiro entender como vai em casa, ou como vai por dentro.

Interessa-me porque tudo aquilo que somos, ou melhor, tudo aquilo que mostramos aos outros, é resultado das nossas vivências, reflexo de tudo o que trazemos na “mochila” que colocamos às costas todos os dias.

E há “mochilas” tão pesadas que eu às vezes dou por mim a conter a vontade de chorar, quando ouço as histórias que nelas se carrega.

São histórias de perda, de abandono, de desilusão. São histórias mal explicadas e outras com detalhe a mais. São miúdos que aos 5 viram a mãe sair de casa para só voltar a entrar três anos depois, levar a irmã mais nova e desaparecer outra vez. São miúdos que aos 9 entendem como seu, o dever de proteger a mãe de um pai que grita, que bate e que se embebeda todas as noites. São miúdas que aos 15 se prostituem na rua com a irmã no banco ao lado e a mãe na curva seguinte. São histórias de vidas difíceis que a maioria de nós, felizmente, nunca imaginaria existirem.

São as vidas dos outros, que têm idade para só pensar em sonhos e guardar no coração a fé no mundo e nas pessoas mas que, em vez disso, se preocupam em saber de cor o melhor esconderijo quando os gritos tomam conta de tudo, que gostavam que alguém lhes dissesse a que lugar pertencem e que adormecem a acreditar que é amanhã que as promessas feitas se cumprem e trazem com elas a esperança de que tudo mude.

O comportamento de uma criança ou de um adolescente é sempre sintoma da sua vida psíquica, das suas experiências, da forma como tomaram conta de si.

Ora quando o seu crescimento é marcado por uma vinculação insegura, por momentos de trauma, ausência ou negligência, estará inevitavelmente comprometida a sua capacidade de se ligar aos outros e de lidar com os desafios da vida, nos quais a escola e a aprendizagem se incluem. Capacidade esta, só reparável com o amor das relações que quebram o ciclo, que ajudam a colar os pedacinhos e a fazer acreditar. Outra vez.

Por tudo isto e porque o sítio onde se nasce continuará a ser sempre uma questão de sorte, não nos limitemos a julgar, a repreender, a criticar, a enquadrar um determinado comportamento naquelas que são as nossas vivências, naquele que é o nosso quadro de valores. Há quem esteja dele muito distante e apenas precise de alguém que saiba olhar e esteja disponível para entender.

Às vezes, aquilo que eu faço é aquilo que me é possível fazer num determinado momento e isso não resume tudo aquilo que eu sou. Tudo aquilo que trago cá dentro.

Assim é connosco. Assim será com eles.

Não meus senhores, eu não entendo…

Não meus senhores, eu não entendo que se deixem as crianças ao portão da escola e não se possa sorrir ao professor, e aos funcionários e às outras crianças, desejando-lhes um dia feliz;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas se tenham tornado jardins de betão, sem terra, nem árvores, nem cor;

Não meus senhores, eu não entendo que a seleção dos profissionais que cuidam das crianças todos os dias, não obedeça a uma listagem extensa de critérios rigorosos, que mais não fazem do que procurar garantir-lhes o direito de crescer com os melhores modelos;

Não meus senhores, eu não entendo que se acredite que para aprender é preciso sofrer e que por isso se continue a mandar escrever 30 vezes: “Não volto a falar sem pôr o braço no ar!”;

Não meus senhores, eu não entendo que os programas curriculares se pensem de forma a espartilhar e a matar a criatividade do professor, impedindo-o de ensinar a paixão pelo conhecimento, vivendo-a;

Não meus senhores, eu não entendo que sempre que uma criança que se atrasa ou se engana num exercício da aula, fique proibida de ir ao intervalo e definhe, mais 30 minutos, sentada na mesma cadeira onde está cerca de 7 horas por dia;

Não meus senhores, eu não entendo que nos corredores das escolas se grite, se ameace, se mande caminhar em fila indiana encostada à parede, como se essa fosse forma de manter o controlo e de ensinar a crescer;

Não meus senhores, eu não entendo que uma família deixe de jantar tranquilamente ou de ir ao parque ou de ver filmes no sofá, só porque há três fichas de matemática, duas de estudo do meio e ainda um ditado para fazer;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas promovam desfiles de vaidades (dos pais e da própria escola), com base nas notas dos testes, deixando de fora centenas de crianças que, só por serem crianças, mereceriam todos os louvores;

Não meus senhores, eu não entendo que se pense e se apregoe, que um aluno bem comportado é um aluno que se cala e obedece;

Não meus senhores, eu não entendo que se desista de uma criança apenas e só porque ela dá trabalho e esse trabalho cabe à família.

Não meus senhores, eu não entendo…

Mas há, felizmente, quem a mim me entenda.

E é graças a eles e a elas, e à forma como amam aquilo que fazem, à forma como superam o cansaço e a frustração das histórias difíceis que lhes caem ao colo, como não esquecem a enorme honra e a responsabilidade que trazem dentro e, sobretudo, à forma como reconhecem que têm em mãos o maior legado de todos, que a escola há-de conseguir TRANSFORMAR-SE.

E assim ensinar, a quem nela vive a acreditar que afinal, as pessoas, são mesmo o melhor que a Escola tem.

Acreditar que o futuro vale a pena. (5 de 5)

E que vale a pena treiná-lo!

Saber que a adolescência é um período de aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção a esse futuro.

É por isso importante, ajudá-los a que desenvolvam aprendizagens que lhes facilitarão a vida mais tarde, preparando-os para lidar com os diferentes desafios que se lhes coloquem, quando entrem para a faculdade ou aquando da procura do 1º emprego.

Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, não estaremos a protegê-los mas sim a impedir que desenvolvam as estratégias necessárias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem.

Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade, tão importantes na idade adulta.

Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas para a solução dos problemas com que se deparem, fá-los também sentir que confiamos na sua capacidade para superar os desafios.

Finalmente, e sobretudo porque fazer escolhas no momento de instabilidade profissional e social atual pode ser sentido como algo extraordinariamente ameaçador, é importante ajudar a focar nos pontos positivos, que representem uma oportunidade de crescimento: o desenvolvimento de diferentes competências, a possibilidade do desempenho de tarefas variadas, a aprendizagem e, sobretudo, a valorização das experiências e características pessoais de sucesso.

Promover cenários positivos para o futuro, é fundamental para que os filhos se interessem por prepará-lo e assim se sintam capazes de superar todos os desafios e conquistar o mundo.

Que assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Na prática: Definir em família a partilha de responsabilidades e a participação de todos nas tarefas e rotinas da casa, desde cedo, é importante para que treinem competências como a cooperação, a partilha e a responsabilidade. A gestão do próprio dinheiro através de uma mesada, a experiência de uma viagem com amigos, a responsabilidade da lista de compras de supermercado, a confeção de refeições para a família, entre outras, são oportunidades que permitem estimular a autonomia e a independência dos nossos filhos, ajudando-os a preparar o futuro. Ajudar a identificar situações anteriores que tenham realizado pela primeira vez e em que se tenham saído bem, ajuda a que se sintam mais confiantes e não tenham medo de arriscar as diferentes opções, não desistindo nunca de tudo aquilo que poderão conquistar na vida.

Não esquecer que a história é deles. (4 de 5)

Sermos conscientes da importância da família, não significa que sejamos nós a assumir as rédeas de um destino que não é o nosso. E eu sei que a tentação é grande… Afinal existem coisas que a vida já se encarregou de nos ensinar e que com certeza lhes poupariam algum trabalho. E até algumas desilusões.

O medo da frustração dos desejos dos pais e o receio de não estar à altura das suas expectativas, é um dos fatores que mais atormenta os adolescentes, dificultando a tomada de decisões face ao percurso na escola ou às áreas/experiências que venham a desenvolver.

“O meu pai diz que esta profissão não tem futuro.” ou, “O que eu gostava mesmo era de fazer um curso profissional, mas lá em casa diz-se que é para os maus alunos…” ou ainda, “A minha mãe sempre quis ser advogada e eu gostava de poder cumprir esse objetivo.” Estas são apenas algumas das ideias que eles absorvem e que, invariavelmente, acabam por influenciar as escolhas que têm de fazer, que deveriam ser, o mais possível, livres de pressões e de medos.

Apoiar os nossos filhos não significa decidir por eles, nem tão pouco direcionar aquelas que serão as suas opções. Significa orientá-los ao longo do seu crescimento, significa sobretudo estar por perto, motivar, valorizar e ajudar a refletir e a debater, para que as decisões aconteçam de uma forma responsável, mais consciente e ponderada.

Apoiar os nossos filhos implica que sejamos capazes de aceitar que as suas escolhas podem ser diferentes das nossas, estimulando a sua autonomia e contribuindo para que sintam confiantes em todos os desafios que lhes surjam. A autonomia promove a responsabilidade, pelo que eles crescem enquanto pessoas sempre que sentem que existe da nossa parte, a confiança necessária para que possam experimentar, arriscar, concretizar.

E por fim, para que tudo isto possa acontecer, é importante recordar que o diálogo e o respeito serão sempre as chaves mágicas que abrem todas as portas. Ainda que discordemos de muitas das opiniões que têm, é seu o direito de as partilharem, de as defenderem, de as porem em comum.

E é precisamente nesta partilha que podem surgir outras reflexões, que os ajudem a pensar nas diferentes opções de uma forma mais sólida, e sobretudo mais próxima da decisão que, no momento, dê sentido a quem são e aos sonhos que namoram por dentro.

Na prática: Mesmo que os projetos que os nossos filhos equacionam nos pareçam disparatados ou pouco consistentes, se nos limitarmos a gritar: “Nem penses nisso!”, estaremos inevitavelmente a afastá-los e a fazer com que magiquem todos os planos em segredo ou, pior, que frustrem sonhos e projetos apenas e só, porque não houve abertura para sequer pensar sobre eles. Pegar nas ideias que têm e, em conjunto, identificar e disponibilizar informações objetivas, que permitam conhecer os diferentes percursos e opções disponíveis, será sempre uma boa estratégia e muitas vezes, aquela que permite a que cheguem eles próprios a novas alternativas e possibilidades.

São 6, meu amor maior…

No dia antes de nasceres, o teu avô disse-me: “Coração ao alto, filhota.”

Agarrei-me a esta frase como fórmula mágica para afugentar o medo e dar força à certeza de que tudo correria bem. A ela e à tranquilidade do meu obstetra quando, depois de respondidas todas as perguntas, me disse: “O teu corpo saberá o que fazer.”

O corpo e o coração. 

Era afinal tudo o que eu precisaria de saber.
E assim foi. O corpo soube, o coração subiu e tu nasceste. 

São 6, meu amor maior. E são mágicos.

Saber que a família importa. (2 de 5)

A partir do momento em que nos tornamos mães e pais, passamos a viver com uns olhinhos cravados em nós, atentos a tudo o que dizemos e, sobretudo, atentos a tudo o que fazemos.

Para os filhos, os pais constituem o exemplo mais próximo e mais significativo daquilo que é ser-se adulto, pelo que a grande maioria das suas atitudes e comportamentos, se desenham a partir daquilo que aprenderam connosco.

Tal como acontece a outros níveis, os pais afetam as escolhas vocacionais dos filhos, quer através daquilo que expressam verbalmente e das ideias que têm em relação à escola e ao mundo do trabalho quer através do desempenho dos seus diferentes papéis de vida – enquanto pais, enquanto companheiros, enquanto trabalhadores…

Neste sentido, a forma como nos posicionamos em cada um desses papéis, bem como os valores que guiam os nossos comportamentos e atitudes acabam por constituir, por isso só, uma poderosa fonte de inspiração – se eu cresço num ambiente em que o esforço e o empenho são valorizados e realizados, é isso que, naturalmente, procurarei no meu percurso…

Ainda que com a entrada na adolescência tenhamos a sensação de passar a representar uma espécie de papel secundário, neste que é o romance da nossa vida, a investigação tem demonstrado que, paralelamente à importância dos amigos nesta fase de vida, os adolescentes continuam a reconhecer a família como a fonte mais fidedigna de informação. E isto faz com que esperem dos pais compreensão e apoio no debater das suas dúvidas, bem como encorajamento no sentido da exploração e da construção de projetos de vida.

Envolver-se de forma intencional e refletida no percurso escolar e profissional dos nossos filhos, implica construir pontes de diálogo e de comunicação, que se revelarão insubstituíveis nos momentos de maior desafio. Fazê-lo com consciência, afetividade e empatia, traz-lhes a força que precisam para fazer todas as escolhas. De cabeça erguida e coração ao alto.

Na prática: Participar nas reuniões e iniciativas da escola, sempre e até ao fim do seu percurso escolar (a participação da família na vida escolar dos filhos tende a diminuir à medida que progridem no sistema de ensino, mas não é por estarem mais crescidos que deixa de ser importante…). Falar sobre as profissões da família e os percursos feitos, favorece o sentido de pertença (tão protetor para os jovens), bem como o reconhecimento de características comuns, contribuindo também para a obtenção de informações práticas sobre as diferentes possibilidades. Favorecer os momentos de exploração de informação sobre o mundo do trabalho, através de conversas informais com amigos e aproveitar as situações do dia-a-dia para pôr em comum ideias e projetos individuais e familiares, são atividades que promovem a reflexão conjunta, reforçando o impacto positivo que a família pode desempenhar nos processos de exploração e de tomada de decisão vocacional. 

“Quando os filhos voam” – por Rubem Alves

Admiração profunda por tudo o que este senhor pensou, e disse, e escreveu…

“Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Existem muitos jeitos de voar. Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…

Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.

Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.

É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.

É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.

Muitas vezes, confundimos amor com dependência. Sentimos erroneamente que se nossos filhos voarem livres não nos amarão mais. Criamos situações desnecessárias para mostrar o quanto somos imprescindíveis. Fazemos questão de apontar alguma situação que demande um conselho ou uma orientação nossa, porque no fundo o que precisamos é sentir que ainda somos amados.

Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino.

Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança.

Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado.

Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase.

Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno.

Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assustam por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível.

Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar.

E não há estrada mais bela do que essa.”

 

Texto de Rubem Alves, escritor e pedagogo brasileiro, psicanalista, “professor do espanto”, e tantas outras coisas bonitas…

Entender o momento. (1 de 5)

aqui falámos sobre a importância das escolhas e de que forma as mesmas podem ser vividas pelos adolescentes. Falámos também na influência que a nossa reação às suas (in)decisões pode ter sobre eles, na medida em que afeta a forma como vão refletindo sobre as opções que surgem ao longo do seu percurso escolar.

Considero que pensar sobre as nossas intenções enquanto mães e enquanto pais, ajuda a tornar mais conscientes e ponderadas as expectativas que temos em relação aos nossos filhos e em relação ao seu futuro. E por isso acredito, que é essa reflexão que nos faz ser capazes de controlar ou minorar o impacto que essas mesmas expectativas, possam vir a ter sobre quem são e sobre quem quererão ser.

O futuro deles às vezes mete-nos medo, eu sei, mas é nossa a tarefa de lhes dar o mapa sem lhes assinalar o caminho. E este é o momento ideal para que isso aconteça. Vejamos porquê…

A adolescência é um período de vida marcado por um conjunto de alterações biofisiológicas, psicológicas, intelectuais e sociais significativas, que implicam aos jovens uma readaptação profunda a si próprios e ao mundo que os rodeia. Essas alterações são fundamentais ao seu crescimento e vão permitir-lhes que ao longo desta etapa de vida, sejam cumpridas tarefas de desenvolvimento importantes, tais como:

       Construção da identidade: Significa ser capaz de se definir como pessoa, com valores e   necessidades próprias, com as quais nos comprometemos. Dá-se através do questionamento e da construção de valores, pela forma personalizada de ver o mundo e de o compreender com a afirmação de gostos próprios.

       Construção de projetos de vida: Materializa a procura de uma maior independência e crescente autonomização. A necessidade da tomada de decisões escolares e profissionais, favorece a disponibilidade para o autoconhecimento, uma maior reflexão pessoal, a capacidade de integração no grupo de iguais e a progressiva capacitação para a entrada no mundo dos adultos.

A noção da adolescência como um período particularmente desafiante mas profundamente adaptável e com objetivos muito claros, representa para os jovens e para quem os ajuda a crescer, uma oportunidade fantástica de aprendizagem e de crescimento pessoal e social.

Entender o momento, torna-nos mais empáticos na relação com os nossos filhos e isso contribui para que sejamos capazes de compreender que é normal estar indeciso, que é normal ter medo, que é normal ter mil e uma vontades e, às vezes, perder-se no meio delas.

Entender o momento ajuda a apaziguar a incerteza do futuro, a dar esperança e a transmitir a ideia de que a vida pode (e deve), ser feita de muitas escolhas e que haverá sempre espaço para abraçar mais uma das que possa fazer-nos estar mais próximos de quem queremos ser.

Ver crescer um filho implica o difícil exercício de deixar ir quem leva dentro o nosso coração. De o aceitar enquanto ser autónomo, capaz de fazer as suas escolhas, de seguir o seu caminho, na certeza de que é seu o direito de arriscar e nosso o dever de deixar que os seus passos se façam diferentes dos nossos.

Na prática: Lembra-te do adolescente que foste. Das dúvidas que te assaltaram o presente sempre que pensaste no futuro, dos momentos que te fizeram incomparavelmente feliz, daqueles que te causaram medo e até falta de esperança. A forma como os ultrapassaste. Partilha algumas dessas histórias com o teu/tua filho(a) e deixa-o(a) conhecer-te nessa altura, fazer perguntas… Saber que os pais passaram por momentos e dúvidas semelhantes, estimula a reflexão sobre si próprios e fá-los sentir que serão capazes de enfrentar os obstáculos com que se venham a deparar. Para além disso, ajuda a que sintam que conseguimos compreendê-los e isso normaliza o turbilhão de emoções e sobretudo, aproxima-vos.

P.S – Este é o primeiro de 5 posts, nos quais vou propor algumas ideias para ajudar a pensar o futuro deles. Espero que te sejam úteis. 🙂

“Eu não sabia ensinar, até te ter conhecido…”

No primeiro dia de escola ela olhou para os seus alunos, como qualquer professora faria.

Disse-lhes que os amava a todos de forma igual. Mas isso não era bem verdade porque na primeira fila sentava-se um menino chamado Teddy Soddart.

Já o conhecera no ano anterior e percebera logo que ele era diferente, que as suas roupas eram esquisitas e que parecia estar sempre a precisar de tomar banho. Para além disso, o Teddy era uma criança que sabia bem como ser desagradável.

A meio do ano, a Sra Thompson já se tinha habituado a escrever, com caneta vermelha, “Insuficiente” no topo da primeira folha dos seus testes.

Uns meses mais tarde, uma inspeção na escola obrigou-a a rever os processos de todos os alunos, tarefa que fez incansavelmente, deixando o de Teddy para o fim.

Quando a ele chegou, surpreendeu-se…

Os registos do professor do 1º ano do Teddy contavam assim: ” O Teddy é uma criança brilhante, sempre com um sorriso no rosto. Ele faz o seu trabalho de uma forma irrepreensível e é muito bem educado. É uma alegria tê-lo por perto..”

As avaliações do professor do 2º ano diziam: ” O Teddy é um excelente aluno, todos gostam dele. Ultimamente sinto-o muito preocupado. A mãe está muito doente e a vida em casa deve estar a ser desafiante”

Chegada aos registos do 3º ano, a professora leu: ” A morte da mãe tem sido difícil para o Teddy. Ele tenta fazer o seu melhor, mas o pai não parece apoiá-lo e a sua vida em casa irá em breve afetá-lo ainda mais, se não soubermos apoiá-lo.”

Finalmente, leu as palavras do professor do 4º ano: ” O Teddy é muito introvertido e não demonstra nenhum interesse pela escola. Ele não tem muitos amigos e às vezes chega a adormecer nas aulas.”

A Sra. Thompson percebeu o problema e não consegui evitar sentir alguma vergonha por não ter tentado saber mais, mais cedo.

Quando os seus alunos trouxeram os presentes de natal, embrulhados com belas fitas e papel brilhante, a professora viu que o do Teddy estava embrulhado num papel castanho de mercearia. Lá dentro, estava uma pulseira de missangas e uma garrafa de perfume meio vazia.. Percebendo que as outras crianças riam do presente trazido por Teddy, colocou a pulseira e pôs um pouco do perfume.

Teddy ficou no final da aula e disse-lhe “Sra. Thompson, hoje cheira como a minha mãe.”

Nesse mesmo dia, a Sra Thompson deixou de ensinar leitura, escrita e aritmética.

Em vez disso, começou a ensinar crianças.

E a dar mais atenção ao Teddy.  Quanto mais ela o encorajava, mais rápido ele respondia. Pouco tempo depois, o Teddy tornou-se um dos melhores alunos da turma.

Passado um ano e já depois do pequeno Teddy ter seguido o seu caminho, a Sra Thompson encontrou um bilhete debaixo da porta no qual estava escrito dizendo-lhe que ela ainda era a melhor professora do mundo. Estava assinado por Teddy.

Alguns anos depois, Teddy convidava-a a participar no seu casamento, convite esse assinado agora da seguinte forma: Theodore F. Stoddard, Médico.

A professora preparou-se para a festa, colocou a pulseira de missangas e colocou as últimas gotas de perfume do frasco. Ao abraçar Teddy no casamento ele sussurrou-lhe ao ouvido e disse-lhe:

“Obrigado Sra. Thompson, por ter acreditado em mim. Muito obrigado por me fazer sentir importante e por me mostrar que eu podia fazer a diferença.”

A Sra. Thompson, com lágrimas nos olhos, devolveu-lhe comovida:

“Teddy, está tudo errado. Foste tu que me ensinaste que eu podia fazer a diferença. E eu não sabia ensinar, até te ter conhecido.”

(História original publicada por Terry Philips aqui)