Às mulheres que não queriam ter sido mães.

Uma vez cruzei-me na rua com uma mulher que se zangava com os dois filhos gémeos e ouvi-a gritar-lhes: “Eu nunca vos devia ter tido!”

Fiquei horrorizada. Achei que devia ser uma péssima mãe, achei que não merecia tê-lo sido e, acima de tudo, que nenhuma criança, em nenhum cenário, deveria ter de ouvir palavras assim.

Passaram-se alguns anos, fui mãe e nunca mais me lembrei desta história. Até há uns dias, quando encontrei um texto no qual se contava o trabalho de uma socióloga israelita, Orna Donath, que no seu livro Regretting Motherhood, se dedicou a reunir depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos mas que, se pudessem voltar atrás sabendo o que a maternidade implica, optariam por não ser mães.

Voltei a ficar horrorizada. Não pelo que as mulheres entrevistadas tiveram a coragem de assumir, mas pelos comentários de quem as ouviu (ou melhor, de quem não foi capaz de as ouvir) e prontamente lhes tirou a pinta, colando-lhes na testa o rótulo feio de “má mãe”. Exatamente como eu fiz, há uns anos atrás, ainda distante do desafio da maternidade.

E se continuo a achar que aquela mãe com quem me cruzei, poderia não ter dito aos filhos que preferia não ter sido mãe deles, porque sei o quanto estas palavras podem magoar quem não tem nenhuma responsabilidade em ter nascido, há muitas coisas em mim que se transformaram desde então e que eu procuro que, todos os dias, me ajudem a crescer.

A vida há muito que me ensina, que isto não é um guião encomendado, que as personagens não sabem as falas de cor, e que a história não se repete com os mesmos takes para todos.

A vida há muito que me ensina, que o mundo não se encerra na forma como o penso e como o sinto. Felizmente.

Conhecer as histórias destas mulheres e querer ouvi-las verdadeiramente, implica resistir ao julgamento fácil, requer o extraordinário exercício da empatia, o reconhecimento e a aceitação daqueles que são os seus desejos e daquelas que são as suas frustrações. Não têm de ser as nossas. Mas podem ser as de alguém.

Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E é seu o direito de falar sobre o assunto, de dar nome ao sentir, de sacudir, de vez, o peso do pecado que lhes puseram aos ombros.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem de assumir todos os dias um papel com o qual não se identificam, de sentirem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-las, constantemente, do sacrilégio em que NÃO vivem.

Repito: Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E isto é quanto me basta.

Isto, e um orgulho imenso por terem sido capazes de o gritar aos sete ventos. Para que ao mundo não restem dúvidas, que nem só de maternidade se faz uma mulher.

(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces ter.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei.

É assim que cresço. É assim que tu podes crescer.

Se há seis anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi esta a minha bandeira de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que aquele é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

Menino ou menina?

Disse-me, finalmente, depois de um silêncio ensurdecedor: “Eu não posso ir à escola porque não posso ir à casa de banho.”
Tentei disfarçar o aperto no peito e pensei: “Merda. Tu não sabes o que isso é!”
Tu não sabes o que é não saber a que casa de banho deves ir (ou melhor, saber, mas não poder fazê-lo com medo de que os outros não o saibam).
Não sabes o que é ouvi-los chamarem por ti, num nome que não queres ouvir.
Tu não sabes o que é menstruar todos os meses e saber que os rapazes não menstruam.
Não sabes o que é esmagar as mamas todas as manhãs com cinco camadas de tops, três números abaixo do teu, e ficar sem respirar o dia inteiro.
Não sabes o que é tomar banho de olhos fechados e despejar o gel diretamente do frasco para cima da pele, só para não teres de ver ou tocar o teu corpo nu.
Tu não sabes o que é ter toda a gente a falar sobre ti, justificando-te com os problemas em casa ou na escola ou com os amigos, sem nunca ninguém falar do único problema que tens.
Não sabes o que é ver a estranheza nos olhos dos outros e o tatear desajeitado na forma como se dirigem a ti.
Não sabes o que é olhar ao espelho, vezes e vezes sem conta, e nunca, em nenhuma delas te chegares a encontrar.
Tu não sabes o que é estar preso num corpo que não é o teu e quase desistir de falar com alguém, porque ninguém saberá do que falas.
Tu não sabes. Poucos sabem. Mas ELE sabe.

O termo pessoas transgénero integra todas as pessoas que vivem uma discordância entre a identidade ou expressão de género e o sexo atribuído à nascença, definido com base na observação do seus genitais. Falamos, por exemplo, de alguém com uma identidade de género masculina, mas que nasceu mulher, ou vice versa. Falamos de alguém cujo sentir de quem é, não se cumpre naquelas que são as expectativas e normas sociais que se desenham e alimentam pelos outros, ao longo da vida, exclusivamente a partir do sexo identificado desde a gravidez e/ou nascimento.

Falar de crianças e jovens transgénero neste país é ainda falar muito pouco, e tantas vezes mal. É ainda ouvir dizer, lá longe, sobretudo em relação aos filhos dos outros, que a Joana sempre foi maria rapaz ou que o Luís tem andado confuso. É alimentar silêncios, treinar a invisibilidade e agarrar-se à ideia de que se possa ser só uma fase, como se essa esperança, de um colete salva vidas se tratasse. É baralhar tudo e achar que identidade de género e orientação sexual são duas faces de uma mesma moeda e que o que é preciso mesmo é que ela tenha uma boa experiência com um rapaz para que isto tudo lhe passe.

Ser criança ou jovem transgénero nas escolas deste país ainda é ouvir todos os dias, várias vezes por dia, chamar um nome que não é o teu e ter de responder baixinho: “Presente”. É ter de inventar mil desculpas para não fazer a aula de Educação Física porque te esperam na equipa faminina, sempre que gritam: “Filipa ao campo!”. Ou porque acham que é preguiça, abrandar o passo na corrida, quando afinal só há falta de espaço no peito, não para correr, mas para respirar (pudesses tu correr para algum lado, aposto que não quererias senão, correr dali…). E depois vem o balneário, e os chuveiros sem porta e a vergonha e os olhares… Às vezes, vem até o medo.

E depois vêm os pais e os professores e os psicólogos e as avaliações e as sugestões, até que existe um dia em que finalmente se consegue dizer o que nos vai dentro ou em que alguém consegue entender aquilo que precisa de ser ouvido.

E é a partir desse dia que estas crianças e jovens passam novamente a existir em que todos à sua volta podem aprender, integrar e construir uma escola e um mundo em que todos (e cada um) podem experimentar, explorar, conhecer e construir a pessoa que são, sem olhar à pessoa que todos desejam que seja.

Falta muito ainda, mas já começámos o caminho e o que é mesmo preciso é continuar a lutar para que os direitos das pessoas LGBTI, ou melhor, para que os Direitos Humanos, não se fiquem no papel mas antes passem para a mesa do café, para a fila do supermercado e para a carteira da sala de aula, para a voz e para o corpo. Para todo o lado e por todo o lado.

Não é a Joana que é maria rapaz ou o Luís que tem andado confuso. Somos nós. Somos todos nós que andamos a precisar de entender que a diversidade da sexualidade não se encerra no entendimento binário de sexo e de género. Somos nós que andamos, sobretudo, a precisar de sentir.

Como?

Imagina o que sentirias se um dia te deitasses como mulher e acordasses num corpo de homem. Imagina agora que até podia ser assim desde o momento em que lembras de ti como gente.

Conseguiste? Pois bem, é mais ou menos isso…

 

Para saber mais e procurar apoio:

AMPLOS – Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género
ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo
Rede Ex Aequo – Associação de Jovens LGBTI e apoiantes
APF – Associação para o Planeamento da Família

A lua não fica cheia num dia…

Caminho a um passo apressado. O do costume.
Constante, alinhado com o relógio (ou desalinhado pela hora tardia), cheio de certezas mal amanhadas e de verdades absolutas.
Julgo-te logo atrás de mim, quando te abro a porta do carro, mas depressa percebo que não estás.
Procuro-te com o olhar…
Passo demorado, ao sabor do vento e da vida, cheio de dúvidas certeiras e em estado de puro êxtase com os sons, as cores, o traçado do chão…
Desatino.
É tarde. Tu sabes disso, porque já to disse 100 vezes desde que te acordei.
“Não há vida para isto!” volto a repetir, para depois ler nos teus olhos: Mas há vida mamã, e está em todo lado. Ainda consegues ver?

Esta história tem sido minha. Quase todas as manhãs.
E não há nenhuma delas em que eu não deseje ser diferente, ou pelo menos, ser mais vezes capaz de me espantar com o meu filho, de continuar a esforçar-me para estar atenta e disponível e reaprender essa sábia forma de vida que traz dentro.
Já a tive, sabes?
Já me detive no caminho e acompanhei com o olhar a formiga pequenina que me atravessava o caminho. Já corri atrás do som feliz do passarinho que pousou por instantes na mesa de esplanada ao lado. Já imaginei até, se o barulho da chuva não seria antes uma legião de borboletas azuis, prontas a resgatar-me da sala de aula.
E depois perdi-a. Perdi-me.
Nem sei bem quando, mas decerto quando pensei que já tinha visto quase tudo, ou sempre achei que havia coisas mais importantes do que a vida a acontecer, no chão que piso, na mesa ao lado, no cheiro da terra molhada…
Não sei quando perdemos de vista a capacidade instantânea de nos espantarmos com o mundo, mas sei que o mundo seria um lugar tão melhor, se os adultos que nele moram, pudessem mais vezes esquecer o relógio, e SER.

Não sei quando nos perdemos de vista, mas sinto, na tua mão pequenina que ainda não desistiu de me encantar, que vou a tempo de me encontrar.
Vou sempre a tempo, meu amor…

E é por isso que amanhã acordo uma hora mais cedo, e cedo ao passo demorado e à perfeita delícia de te acompanhar…

Nota: Se tal como eu te sentes assim (às vezes tempo demais), partilho contigo algumas ideias que procuro ter como farol, capaz de guiar a vontade de manter vivo e de boa saúde este seu (nosso) sentido de espanto:

Desligar a televisão e esconder os tablet e os outros gadgets maravilha (depreendo que imagines porquê…);

Manter o contacto com a natureza e tornar mais conscientes as sensações que isso nos traz: pôr os pés descalços na terra, comer frutos das árvores, fazer uma horta na varanda… Deixar a vida acontecer ao ar livre, sempre e o mais possível;

Dar espaço para a brincadeira livre. Enquanto adultos interferimos vezes demais neste processo: orientamos, damos diretrizes, proibimos ou permitimos… Brincar livremente e escolher a forma e o conteúdo da brincadeira favorece, como nenhuma outra atividade, o desenvolvimento social, criativo e emocional das crianças;

Encorajar a exploração do ambiente. As crianças são naturais inventoras e hábeis exploradoras do espaço e do meio em que se movem. Estimular essa descoberta traz-lhes ferramentas únicas para se superarem do ponto de vista físico e cognitivo;

Estimular o questionamento acerca das descobertas feitas. “O que achas que aconteceu aqui? Porque será que este passarinho preferiu fazer o ninho nesta árvore?” Formular hipóteses em conjunto acerca do que é observado, permitindo que construam as suas conclusões, traz significado próprio a todas as experiências e aprendizagens, e fortalece-as;

Transformar objetos da natureza e do quotidiano, descobrindo-lhes novas funções: estimula o pensamento divergente, a criatividade, a resolução de problemas. Resistir à tentação dos brinquedos luminosos, barulhentos, “pilhodependentes” e tão pouco desafiantes, é o primeiro passo para que isto possa acontecer;

Permitir o “aborrecimento”, e abraçá-lo como oportunidade única para estar atento ao que lhes acontece dentro e ao seu redor. Garanto-te que o que daí advém, é quase mágico.

E porque acabar de uma forma bonita ajuda a que o fim perdure, o vídeo que hoje te deixo, transforma tudo isto em poesia… Enjoy. <3

Aquilo que eu quero enquanto mulher.

Não quero ir a jantares de mulheres, não quero que me ofereçam flores, nem tão pouco que me dêem os parabéns. Disso não preciso. 
Tenho o privilégio de viver a liberdade que me permite gostar de ser mulher e isso, não dependerá nunca das homenagens com dia marcado que me prestem. E sobretudo, não pode continuar a ser um privilégio. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que em 1857 morreram 130 mulheres numa fábrica em Nova Iorque, apenas e só por reivindicarem o seu direito a melhores condições de trabalho. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que existem mais meninas do que meninos fora da escola. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que as mulheres ganham em média menos 23% do que os homens. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba, que em 70 países, as mulheres ocupam menos de 15% dos cargos de decisão política. 
O que eu quero, é que o mundo inteiro saiba que 1 em cada 5 raparigas já foi vítima de violência física e/ou sexual por um parceiro íntimo. 
O que eu quero, é que ninguém se cale e que todos ajam.
Para que um dia, nenhuma menina chore por ter nascido mulher e ninguém a impeça de ser tudo aquilo que sonhou.

O tipo de amor que dói.

A Sara saiu a correr da sala. Quis ser a primeira a chegar ao bar. Nem teve tempo de anotar as dicas do professor de Filosofia para o teste do dia seguinte. O João detestava estar na fila e era dela a tarefa de assegurar que isso não acontecia. “Sim, é a tosta mista de sempre. Bem tostadinha, como ele gosta…”

O Sérgio idolatrava a Inês. Há séculos que andava atrás dela. Finalmente tinha conseguido que olhasse para si e há algumas semanas que saíam juntos. A Inês dizia-lhe que tinha potencial, mas que se queria estar com ela, havia coisas que tinham de mudar. O cabelo, a música que ouvia, a forma de falar, até as tardes de jogos de xadrez com os amigos de sempre. “Não posso deixar que pensem que ando com um totó”. O totó era ele, mas se calhar ela tinha razão.

A Bia adorava pessoas. Tinha amigos em todo o lado e nunca lhe faltava programa. Quando conheceu a Marta, achou que era amor para a vida toda. Uma cumplicidade única, a gargalhada sempre a saltar da boca. A forma despreocupada de encarar a vida. Já andavam há 6 meses e a Marta começou a achar que precisavam de mais tempo para estar juntas. “Um amor a sério não precisa de mais ninguém”. A carteira da sala era a mesma, a mesa na cantina encostada à parede também, os dois bancos no cinema, o único número de telefone… As amigas já não ligavam, a Bia estava uma “cortes” e já não havia nada a fazer.

O Paulo já tinha tido relações sexuais. Para a Ana, era a primeira vez. Falaram sobre o assunto, mas ela ainda não estava bem segura se o passo seria para já. Num dos dias em casa do Paulo, as coisas aqueceram e a Ana achou que sim. Quando tiraram a roupa interior, ele tentou penetrá-la e ela empurrou-o: “Espera. Não sei se quero.” Fingiu não a ouvir, disse-lhe que isso não se fazia a um gajo e que agora era para ir até ao fim. A Ana não se lembra de mais nada, só das lágrimas a aquecerem-lhe a pele e da sensação de sonho desfeito. Assim que pôde, levantou-se, vestiu-se e saiu. Nunca mais o viu.

A Inês já o tinha avisado: “Se me deixas faço-te a vida negra.” O Tiago sabia do que ela era capaz, mas já lhe bastava um ano inteiro de cenas à frente de toda a gente, discussões constantes, insultos. Nem sabia como é que tinha aguentado tanto tempo. Os amigos ajudaram-no a ganhar coragem e o Tiago disse à Inês que ficavam por ali. A calma dela surpreendeu-o, deu-lhe um abraço e seguiu caminho. No dia seguinte, ao entrar na escola, sentiu as risadas à volta, o burburinho, os olhares… Valeu-lhe o Pedro que o agarrou e lhe disse: “Meu, não te passa as coisas que a Inês anda a dizer de ti na net. Até um vídeo vosso na curtição lá anda…”

São estas. São outras. São muitas.
Infelizmente, conheço algumas.

Infelizmente sei que o tipo de amor que ensinam é amor que dói. É amor que acredita que o ciúme apimenta a relação. É amor que só precisa do outro para ser feliz. É amor que sabe que o sofrimento e as lágrimas o tornam mais forte. É amor que acha que há coisas tão íntimas que não devem ser partilhadas com mais ninguém. É amor que às vezes perde a cabeça, mas que só queria ajuda para mudar.

É amor que não mata mas mói. Ou melhor, é amor que pode matar.

E é preciso que todos saibam disto, que todos se metam no assunto, que agarrem a mão que ainda está livre e que esperem que a outra se liberte.

É preciso que o façamos. Sempre. As vezes que forem necessárias.

A violência no namoro é crime público e alimenta-se de todas as vezes em que fechamos a boca e olhamos para o lado: “Eles lá sabem entender-se…”

Não, eles não sabem. E há ainda quem não queira ser amado assim…

 

P.S – Um em cada quatro jovens portugueses são vítimas de violência no namoro. Podem ser os teus filhos, os teus amigos, os teus vizinhos… É por isso fundamental valorizar o assunto e saber mais (podes fazê-lo aqui), partilhando e refletindo a informação com eles.

A importância do sono infantil.

E sai do forno, a segunda entrevista by Pés na Lua, com o amor de sempre.

A Teresa Sousa é Psicóloga Clínica, Especialista em Ritmos de Sono do Bebé. É autora do Blog do Bom Soninho e responsável pela Consulta do Sono do Bebé em vários locais no Algarve.

Nesta conversa tivemos oportunidade de conhecer um pouco do seu percurso de vida e como é que o facto de não ter sido uma criança de “sono fácil” a trouxe até à experiência de acompanhar pais e famílias para que possam ter noites progressivamente mais tranquilas.

Como já vem sendo hábito, a conversa informal levou-nos a descobrir outras coisas e a refletir sobre o crescimento, procurando algumas respostas sobre as principais dúvidas que levam os pais a procurar apoio para ajudar os filhos a dormir cada vez melhor.

E porque, tal como diz a Teresa, “nós estamos sempre a crescer como pessoas”, convido-vos a aprender mais um bocadinho sobre um tema tão pertinente. Espero que gostem! 🙂

“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

Mais amor, por favor.

Li esta frase há uns anos, escrita a giz, na parede de um restaurante. Nunca mais a esqueci. Tenho memória aguçada para a origem das coisas que me mudam por dentro e tendo a trazê-las na bagagem, como se me preparasse para os momentos em que se tornarão bússola, ou paraquedas.

O amor que marca o vínculo que desenvolvemos com um filho é diferente de todos os outros tipos de amor.

É diferente porque é forte, porque é irresistível, porque é inabalável e porque dura para lá da nossa existência, para lá de quem somos, transformando-nos irremediavelmente. É diferente ainda, porque é incondicional: Não deixaremos de gostar deles, nem eles deixarão de gostar de nós. No matter what.

É esta certeza (e sobretudo este sentir), que lhes permite ir mais longe, pisar o risco, ganhar coragem para se lançarem em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite que se mostrem sem filtro e sem disfarce, a quem tem por eles um amor sem fim, que resistirá sempre, a todos os lados lunares.

E é por isso que quando me perguntam qual é o ingrediente mais importante para ajudar a crescer uma criança, eu respondo, a cada dia mais convicta: “É o amor”.

E é por isso que quando me perguntam qual é a solução para um determinado desafio na relação com os filhos, eu respondo, antes de qualquer outra coisa: “É o amor”.

Até aqui, nada de novo. O mundo há muito que sabe que o amor por um filho é incondicional e à prova de tudo. O problema está, nas vezes em que o mundo acha que este amor pode ser usado para moldar, para gerir, para manipular e para dosear, sempre que o comportamento deles não alimente a expectativa criada.

É o inocente “ Ai não me dás um beijinho? Assim, já não gosto de ti” ou o “Depois dessa birra, achas que mereces um abraço?”.

São os bem intencionados “Deixa o bebé chorar. Isto já começa a ser manha.”  e “Pára imediatamente com isso ou vais para o quarto sozinho até te passar”.

E são ainda as pérolas de sabedoria que, prontamente, diagnosticam: “O problema desta criança é mimo a mais…”

Estes são apenas alguns dos exemplos, tão enraizados em nós, que ensinam a ideia de que o amor tem de ser merecido, tem de ser conquistado, deve ser refreado e até que pode diminuir, sempre que o passo se faça mal dado. Afinal, amam-me pelo que eu faço. Não pelo que eu sou.

Se o amor por um filho não é moeda de troca, não é punição ou sequer recompensa (e eu acredito que no fundo, todos concordamos com isto), então porque não é assim que às vezes o mostramos?

Se o amor e a sua materialização física e emocional é o maior bem que podemos dar aos nossos filhos, então porque raio é que atribuímos ao mimo (= afeto), a responsabilidade dos momentos mais desafiantes na sua educação?

Se calhar, porque estamos todos a precisar de parar e pensar naquilo que andamos a fazer, de nos tornarmos mais conscientes das mensagens que transmitimos e, sobretudo, a precisar de baixar a guarda, sacudir o peso das frases gastas, abrir o coração e ouvir, tudo o que de extraordinário e libertador acontece cá dentro.

Se calhar, porque andamos todos a precisar de mimo.

E é por isso que, chegada ao fim deste texto, já só me apetece pedir…

Melhor amor, por favor.

Quando a cenoura é a perfeição.

A Sofia tem notas excelentes. Está, desde sempre, no quadro de honra da escola e todos a têm como modelo. Descansa professores, é chamada a ajudar os outros, a dar a resposta mais acertada, a ver os seus testes usados como modelo de correção. Perfeito.

A Sofia não é motivo de preocupação. Conhece as melhores técnicas de estudo, abandonou a dança para se dedicar ao horário diário de exercícios e preparação para os testes e só sai de casa quando não aceitam as suas desculpas. Perfeito.

A Sofia respira, mas não vive e falta-lhe o ar sempre que o pior acontece: Errar.

E sempre que erra, a Sofia dá força à certeza de que não vale nada, de que nada em si será, alguma vez, suficiente e que nunca, nunca estará preparada para os desafios que tem de enfrentar. E com isto a Sofia sofre. Mas só por dentro, porque já se cansou de ouvir dizer: “Andas sempre nesse stress mas tens sempre as melhores notas da turma.” Perfeito.

Conheço cada vez mais alunos a sentirem-se assim. Acredito que, enquanto adultos e enquanto sociedade, temos muita responsabilidade nisto, na forma como os ensinamos a crescer e naquilo que lhes vamos exigindo ao longo do seu percurso escolar, tornando incrivelmente redutora e limitada a noção daquilo que é ser-se um bom aluno. O sistema em que que crescem é afinal um sistema que lhes grita constantemente: “Tu és aquilo que produzes!”

O perfecionismo manifesta-se de muitas formas que podem tornar-se um verdadeiro inferno para quem com ele se habitua a viver: pode ser a dificuldade, o adiamento ou a recusa em iniciar uma tarefa para a qual não se tenha resposta 100% segura, pode ser a insatisfação permanente face ao resultado alcançado, pode ser um ritmo de trabalho mais lento, de forma a não deixar escapar nenhum pormenor, pode ser o enfoque nos bons resultados dos outros e a luta constante para os superar e pode, sobretudo, significar um sofrimento desmedido sempre que a nota final fuja do número definido como meta, ou que um erro “perfeitamente desnecessário” aconteça.

Muitas vezes são alunos vistos pelos outros como altamente irritantes, armados em espertos, marrões e isso não contribui para o estabelecimento de relações sociais capazes de funcionar como verdadeiro escudo de proteção, face às vulnerabilidades sentidas.

Os alunos perfecionistas são, na maior parte das vezes, alunos preocupados, ansiosos, com baixa auto-estima e estratégias de coping pouco eficazes.

Saber disto, ajuda-nos a ser capazes de compreender e ajudar os nossos filhos e alunos, de forma a que se tornem progressivamente mais confiantes face aos sucessos e mais tranquilos perante os insucessos:

Aceitar o que estão a sentir e ser paciente.

É difícil ver os nossos filhos fazer uma tempestade num copo de água por causa de um resultado num teste ou de um engano num trabalho, assistir à sua insatisfação permanente e à constante busca da perfeição. É por isso fácil, deixar sair as palavras: “Que disparate. Isso lá vale a pena!”. Garanto que estão cansados de o ouvir. Seguramente sentirão que ainda são mais esquisitos do que pensavam, porque de facto ninguém os entende.

Nenhuma criança ou jovem escolhe ser prisioneiro do medo de falhar e da ansiedade de não cumprir a expectativa de si próprio. Todas as crianças e jovens, se pudessem, libertar-se-iam num abrir e fechar de olhos.

Um simples: “Eu sei que isto é difícil para ti e é por isso que vamos resolvê-lo juntos…” é suficiente para fazer sentir que compreendemos, que aceitamos e que estamos disponíveis para pensar o problema e encontrar soluções. Demore o tempo que demorar. E assim, mediante reflexão conjunta e questionamento das crenças pessoais, se torna possível reconstruir a forma como é pensado o (in)sucesso.

Acarinhar o erro como parte do processo.

Passamos a infância a estimular as crianças a serem vencedoras e o mais eficazes possíveis nas tarefas a que se dediquem. Valorizamos o pintar dentro do risco e dizemos que está mal quando a couve é pintada de azul. Aplaudimos, sempre que a atividade é concluída dentro dos padrões que nós próprios criámos, mas olhamos pouco para o esforço que é despendido pelo caminho.

Errar desenvolve competências tão importantes como a paciência, a tolerância e a persistência e isso é tão mais rico do que tudo o que se possa assemelhar à perfeição. Partilhar com os nossos filhos aquelas que são as nossas dificuldades e os erros que cometemos (bem como a aprendizagem que deles advém), torna-nos mais humanos e ajuda-os a perceber que no fim, o que verdadeiramente importa é orgulharmo-nos do percurso feito e saber que temos em nós o que é preciso para continuar a tentar.

Valorizar o esforço, muito mais do que o resultado.

Lembro-me sempre da história de uma aluna que, quando mostrava ao pai o 95% que tinha tido no teste, recebia a seguinte resposta: “Boa. Mas mais importante que o resultado no teste, é que tenhas dado o teu melhor.” E mesmo que esta não fosse a resposta mais desejada, para quem só queria ter a família inteira em ovação, era uma resposta que servia aos 95%, assim como serviria aos 59%, cabendo nela a ideia que não é a nota num teste que define o aluno, mas sim o esforço, a dedicação e a capacidade de arriscar, que seja capaz de imprimir a cada desafio do seu caminho académico.

E aqui o nosso papel torna-se ainda mais importante, sobretudo porque desde o momento em que os nossos filhos entram na escola e ao longo de todo o seu crescimento, tentarão vender-lhes a ideia de que o seu mérito enquanto pessoas dependerá, em primeira instância, dos prémios, das menções honrosas, dos certificados, dos louvores que consigam arrecadar, transformando a fantástica aventura de aprender numa corrida desenfreada em direção ao pódio.

Estarmos atentos, enquanto pais, a cada conquista feita no atingir de um determinado objetivo ajuda a redirecionar-lhes o olhar e a torná-las parte fundamental da aprendizagem: “Adoro ver-te entusiasmado a ultrapassar os problemas.” ou “Reparei que arriscaste em dar a resposta, mesmo não tendo a certeza. Que bom!”, constituem palavras de alento que contribuirão também para que entendam o valor do esforço e da persistência, mais do que o resultado que dele advenha.

Viver na senda da perfeição é difícil. Porque nos atrasa, porque limita a capacidade de resposta ao imprevisto, porque nos angustia, porque nos faz sentir incapazes, porque nos incita à comparação com o outro, porque nos cristaliza o olhar no resultado final e com isso nos faz perder tanto do que pelo meio acontece.

Viver na senda da perfeição será, muitas vezes, um caminho infeliz, simplesmente porque a perfeição não existe.

E é por isso tão vital ensinar a amar os desafios, a aceitar os erros e a procurar na cenoura, o valor do esforço e o crescimento da aprendizagem constante.