Adolescentes fomos nós.

Se querem ver-me perdida nas horas é darem-me gente com histórias dentro para contar.

Foi assim naquela noite. Depois do pão, do queijo e do vinho sobre a mesa, depois da partilha dos desaires da semana e do ímpeto aos sonhos e aos projetos para a velhice, encontrámos, ao balcão, o António (nome fictício).

Não mais dali saímos. Não antes das histórias nos transbordarem a alma e nos vincarem a certeza de que uma das grandes riquezas da vida, são as pessoas.

Falou-nos da mãe e da gratidão que lhe tem. Falou-nos da mota e de quanto valiam duzentos contos na altura. Falou-nos dos filhos e do que um pai sofre quando os vê crescer longe. Falou-nos da mulher companheira das tempestades a que têm sobrevivido. Disse-nos, com um orgulho imenso (dela e de si próprio), que desde que a mulher tinha voltado a estudar, finalmente tinha aprendido a cozinhar e a passar as camisas a ferro. “Ainda não ficam grande coisa, mas vão ficando cada vez melhor”. Pediu-nos truques para que a pele do peixe assado na brasa não ficasse agarrada à grelha. Partilhou outros, que aprendeu com a vida. Pediu-nos que não tivéssemos só um filho. “Porque ser filho sozinho no mundo é uma tristeza sem fim.” Falou-nos de tudo e falou-nos de nada, porque a vida é feita das pequenas coisas e do amor com que nos lembramos delas.

E assim, o António, que nunca nos tinha posto a vista em cima, olhou-nos como já poucas pessoas o fazem e ainda nos disse: “Vocês são mesmo boa gente. Eu sei, porque sinto.”

Soubesses tu António, que por nos teres sorrido ao balcão e teres pedido mais um copo de vinho para encetar a conversa, mudaste a pessoa que eu era e tornaste-a substancialmente melhor.

Tudo, pela honra de te poder trazer comigo.

Nesta história, de Super não temos nada.

Há uns tempos, num dos grupos de facebook a que pertenço, alguém partilhou um vídeo que mostrava uma criança sob o efeito de uma anestesia e a conversa alucinada que mantinha com os pais. Olhos vidrados, expressão apática, discurso confuso e desorganizado. Falava sobre aliens, perguntava onde estava, deixava a cabeça cair para a frente, e ria, ria sem parar, longe de saber o que lhe estava a acontecer. Os pais, conscientes do sítio onde estavam e da origem do comportamento do filho, tiveram o feliz impulso de filmar o episódio e a brilhantíssima ideia de o partilhar na internet. Tornou-se viral. Vá-se lá saber porquê.

Ou talvez se saiba.

Talvez o vírus seja o mesmo que carregou a página oficial do programa Super Nanny de comentários a parabenizar a iniciativa, agradecendo a boa hora em que apareceu a ama que corrige e resolve, pedindo vida longa às histórias das crianças que se seguem, excitado com a possibilidade de continuar a espreitar pelo buraco da fechadura da vida dos outros. Aos muitos que se insurgem contra (tal como eu me insurgi contra o vídeo do miúdo anestesiado), acusam de falsos moralismos, de serem responsáveis pela má educação dos miúdos de hoje, de se meterem com decisões que só aos pais cabem, de lançarem polémica sob um formato que foi sucesso em tantos outros países. E outras pérolas mais.

E debaixo do fogo cruzado dos discursos inflamados, do ataque cerrado, das acusações sem fim, está a Mariana, que mesmo tendo sido batizada de “furacão” não conseguiu usar a força para desaparecer dali e deixar os adultos no meio do caos que os próprios criaram.

É, apenas e só, a Mariana que me interessa. É a ela que devo respeito, que devo colo, que devo proteção. Era nela que alguém devia ter pensado antes de ter pensado em dinheiro, em audiências, em projeção profissional.

Saiu-nos pela culatra o propósito desmedido e pelo caminho levámos a Mariana que não tem culpa nenhuma de que mandem nela. A mãe, a Nanny e o mundo inteiro.

O poder da empatia.

Na fantástica, e ao mesmo tempo assustadora, missão de educar, cada um de nós estabelece prioridades, modelando, através daquelas que são as suas (re)ações, o comportamento dos filhos e a sua forma de pensar o mundo.

Neste meu caminho de mãe em constante crescimento, tenho tentado que o Manel se torne pessoa, sem esquecer que se é pessoa perto dos outros e que a essência da nossa humanidade reside, precisamente, na disponibilidade para entender o sofrimento, a alegria, as frustrações, as conquistas… o sentir de quem nos rodeia.

Falo aqui da capacidade de sermos empáticos, de nos aproximarmos do outro, de assumir o seu lugar, sem filtros e sem julgamento, fazendo sentir que se é compreendido e aceite. No matter what.

A empatia, diz quem sabe, melhora a relação com os outros, motiva o cuidado a quem está próximo, promove a aceitação social, a resolução pacífica de conflitos, diminuindo ainda a frequência de respostas agressivas. Tudo coisas boas, portanto.

E perguntam vocês:

“Mas como é que isso se consegue?”

1ª boa notícia: A empatia treina-se.

2ª boa notícia: Ajudar os nossos filhos a desenvolvê-la depende, em grande parte, de nós.

Vários estudos sugerem que existem práticas parentais que promovem o desenvolvimento da empatia nas crianças e nos jovens.

São os pais que incentivam os filhos à expressão emocional e à tomada da perspetiva do outro, e que experimentam os seus benefícios, sendo também eles empáticos nas relações que estabelecem.

É o permitir chorar, sem provocar o medo de perder o nosso amor. Sim, porque quando dizemos a uma criança que não chore, estamos a dizer-lhe que chorar é errado e isso, além de ensinar a reprimir emoções, pode também alimentar uma maior insegurança nas ligações que estabelecem connosco;

É contribuir para que identifiquem o que sentem e lhe dêem nome: “Estou triste porque um amigo não quis brincar comigo” ou, “Estou zangado porque não me deixaste sair à noite com o resto da turma”. E validar esse sentimento e a sua livre expressão;

É ajudar a que se coloquem na pele do outro e que pensem naquilo que possa estar a viver: “Imagina que te tinham feito o mesmo a ti (descrever a ação). Consegues imaginar como te sentirias?”

É dizer que aceitamos e compreendemos o que sentem, mas que, naquele momento, determinada atitude é a que nos parece mais acertada, por esta, ou por aquela razão;

É escutá-los. Sempre. Existe uma diferença abismal entre ouvir e escutar, já que a última não se limita a captar os sons à nossa volta, mas prefere ser sensível e estar verdadeiramente disponível para entender aquilo que está a ser comunicado.

Gosto de pensar que ser empático é estar de coração aberto e atento, na firme certeza de que, tal como o disse Adriano Moreira: “O mundo é a casa de todos os Homens”.

Não é a casa dos nossos filhos, não é a minha, não é a tua.

É a casa de todos nós e, como tal, nada mais amplo e justo do que, enquanto seres humanos, procurarmos sempre a construção de espaços comuns, que a todos cheguem e a todos permitam ser quem são.

Para melhor compreender e espalhar por aí o poder da empatia, aqui vos deixo esta pequena maravilha… :

Ideias para ensinar a amar o verde do mundo. E a protegê-lo.

Preocupamo-nos muito em saber se os nossos filhos dizem bom dia, ensinamo-los a dizer desculpa e a pedir por favor, insistimos com a arrumação do quarto e com as tarefas da casa, mas muitas vezes esquecemo-nos de outras coisas igualmente importantes, que transcendem aquele que é nosso cantinho ou o conforto imediato a que nos habituámos.

Falo da importância de os ensinar a cuidar do planeta no qual têm o privilégio de crescer e que lhes oferece, todos os dias, experiências absolutamente extraordinárias. Falo da urgência de educar para um consumo mais consciente, que seja capaz de desacelerar (e quem me dera travar), todas as atrocidades ambientais que temos cometido, desde o dia em que passámos a achar que éramos os reis da selva.

Se existiam muitos pontapés de saída possíveis para este ano que agora começa? Claro que sim, mas é com este que me apetece começar. Porque afinal o mundo merece bem melhor do que aquilo que lhe temos feito e eu acredito que este pequeno grande ser de quem tenho a honra de ser mãe, pode ter em mãos o enorme desafio da mudança que urge.

Partilho por isso três premissas base, que procuramos ter como norte aqui em casa, nesta tarefa tão necessária de educar para um consumo mais consciente e cada vez mais responsável e refletido:

Nós ensinamos aquilo que fazemos.

Este será sempre o primeiro passo, nesta e em todas as missões da parentalidade. De pouco adianta dizer-lhes que é importante poupar água, se depois nos veem a lavar os legumes com a torneira aberta. Fazer será sempre mais impactante do que dizer e eles aprenderão naturalmente a seguir os hábitos ecológicos da família. Partilho convosco um dos momentos recentes em que isto se tornou ainda mais claro para mim. Tentamos ter o hábito de, na praia ou noutros sítios por onde passamos, encher um saco com algum do lixo que vamos encontrando pelo caminho. Ontem, num dos passeios de final do dia com o Manel dei por ele a apanhar uma garrafa de plástico que estava no chão e levá-la conosco até ao ecoponto mais próximo. Confesso que nem reparei na dita, mas lembrei-me porque é que ele estava a fazê-lo, inchei o peito de orgulho e dei-lhe um beijo, seguido de um sussurro: “Boa Manel!”

Antes de comprar, pensar.

O mundo é uma montra gigante. São as lojas, são os outdoors, são os anúncios do canal Panda, são os brinquedos dos outros, são as pessoas, que oferecem prometem, acenam… E nós andamos maravilhados em busca daquele produto mágico que promete resolver todos os nossos problemas. Eles também, porque aprendem e porque precisam de ajuda para aprender a ler nas entrelinhas. Lutar contra o apelo constante do marketing e da publicidade é tarefa inglória, ensiná-los a refletir, a questionar, a perguntar porquê e para quê, é o caminho que mais nos faz sentido. Seja sobre o catálogo dos brinquedos, seja acerca da escolha dos iogurtes que têm menos papel ou plástico à volta, seja na compra dos legumes ao pequeno produtor, seja no hábito de pensar e criar os presentes para os amigos (ao invés de os comprar), seja na roupa emprestada dos amigos, tudo são boas desculpas para contrariar o consumo desenfreado e torná-lo cada vez mais sustentável.

O mundo é a nossa casa.

Para querer proteger o mundo, é preciso sentir de que substância se faz a sua preciosidade. É preciso pôr os pés na terra e fazer bolos de lama, é preciso apanhar com a chuva na cara e lamber-lhe as gotas, é preciso saber os nomes dos animais todos e conhecer-lhes a casa. É preciso amar o sol, venerar as árvores e olhar a lua, sabendo que tudo aquilo que somos é apenas uma ínfima parte de um bem tão maior do que nós. É preciso lutar contra a tentação fácil de deixar que as crianças cresçam enjauladas, sem saber de onde lhes vem a comida que têm no prato ou achar que a vida se encerra na estrada que percorrem todos os dias para a escola ou no baloiço do parque do bairro.

Eu, enquanto mãe e sobretudo enquanto ser humano, penso todos os dias que o meu contributo podia ter sido maior, que podia ter-me descentrado um pouco mais do meu bem estar imediato e escolhido o caminho menos fácil, mesmo que estivesse com pressa.

Penso nisto todos os dias e todos os dias aprendo mais um bocadinho e faço melhor, com a vantagem de que agora, conto com ele, para me dar a mão e dizer: “Olha mãe, está ali uma garrafa de plástico. Vamos levá-la connosco?”

Nota: A imagem perfeita que aqui partilho, nasceu da perfeição do olhar da Lília e traz-me força à vontade de lhes quebrar a redoma e ensinar o verde do mundo. Obrigada Lília. Sempre.

Diz quem sabe…

A lufada de ar fresco e a estrear do ano que agora começa, traz consigo a materialização de uma vontade que tenho vindo a namorar desde há alguns meses e que, acredito, dará ao blogue um contributo importante e cheio de significado, nesta caminhada feliz, de pensar o crescimento.

“Diz quem sabe” será um espaço de partilha e de reflexão conjunta sobre temas relacionados com o desenvolvimento infantil e juvenil, e contará com o precioso contributo de especialistas (profissionais, pais, filhos…) nas diferentes áreas que nos movem. E como o Pés na Lua se constrói e se enriquece a partir da força conjunta de todos os que o acompanham, será também criada a oportunidade de participação dos leitores (ainda a magicar esta parte), que trarão com certeza maior significado às conversas que eu espero, vos apeteçam como às cerejas.

Diz quem ama estar aqui e tem ainda muitos sonhos para 2018, que valerá muito a pena continuar a pensar com o coração e caminhar na Lua. E diz também que adoraria o privilégio de poder contar convosco. Posso?

Do velho e do novo.

Tenho escrito pouco. A vida pede-me tempo, os meus merecem que o tenha. Temos andado ao ritmo da preguiça e ao sabor da vontade e é tão bom poder estar assim.

Mesmo não exercitando os dedos no teclado, as palavras continuam a dançar-me na cabeça e, sempre que não agarro num papel de rascunho para lhes dar vida, elas fogem-me e eu nunca mais lhes ponho a vista em cima. Pelo menos da forma como as pensei na primeira vez.

Engraçada esta coisa da inspiração. Fugaz e ainda assim tão vital.

Tenho escrito pouco mas tenho pensado muito. Pensado naquilo que o ano velho me trouxe, pensado naquilo que o novo pode trazer e uso esta dicotomia do velho e do novo para me insuflar de esperança, de força, de vontade e assim me libertar de tudo aquilo que não me serviu.

O 17 foi um ano generoso, como felizmente me têm sido todos. E eu sou mesmo uma sortuda, pelas pessoas que me amam, pelo trabalho pelo qual me apaixono todos os dias, pela materialização dos projetos que me fazem bem, pela saúde do corpo, pela insaciedade da alma… Este foi um ano cheio de conquistas pessoais e de aprendizagens enormes, mas também de algumas frustrações e suspiros cansados, os necessários para entender e aceitar que não posso ser tudo o que quero ser, pelo menos de uma só vez.

É preciso tempo e é preciso paz para deixar acontecer, na certeza de que todas as mudanças que ficam, se desenham num sem fim de pequenos grandes momentos (talvez este tenha sido o maior ensinamento).

Ao 18 eu peço a generosidade de sempre e prometo-lhe mais gratidão (aos meus e à vida), mais tranquilidade (para permitir às coisas o tempo que elas precisam), mais fé em mim (nos outros tenho sempre). Nestes 18, entrarei com os dois pés firmes, rodeada de amores para a vida e de amigos bons, no lugar mais bonito do mundo. E isto, eu sei, será sempre o melhor augúrio.

E se numa frase eu tivesse de resumir quem fui no ano que agora deixo ir, eu diria:

Ela aprendeu a ser quem era. E foi feliz.

Bom ano gente bonita e aproveitem os 365 dias que aí vêm para repetir tudo o que vos faz bem.

 

P.S – Obrigada por estarem aí. Sempre. Prometo continuar a dar-vos o que de melhor tenho em mim.

É p´ró menino e p´rá menina…

 

Sim, eu prometo que este é o último texto sobre a temática natalícia. Até eu já estou farta disto. Mas a verdade é que depois de todos os desabafos sobre a azáfama da época e as peripécias do senhor das barbas, achei que o mínimo era partilhar convosco algumas ideias para presentes felizes que, mesmo que não tenham sido pensados pelos mais pequenos, farão com certeza as suas delícias.

Ficam por isso algumas sugestões, já testadas e aprovadas pelo especialista cá de casa:

Jogos de madeira. Podem ser comboios, casinhas de bonecas, puzzles, instrumentos musicais… São bonitos (às vezes apetece-me pô-los a decorar a sala), não precisam de pilhas, apelam à imaginação, deixam memórias e duram imenso tempo (ao contrário do plástico fantástico).

Brinquedos artesanais: pensar num brinquedo como uma peça única, criada por alguém que pôs nele o seu tempo e a sua dedicação, torna tudo mais especial. Transmitir essa ideia aos miúdos falando-lhes sobre a história de quem deu vida àquele brinquedo, contribui para quem entendam este valor e o procurem nas escolhas que façam. O projeto Biscoitos é um projeto assim, bonito e concebido com muito amor, em que cada detalhe conta uma história feliz e nos prepara para muitas outras.

Jogos de tabuleiro ou outros. Por cá os preferidos são o mikado, o xadrez, o jenga, o dominó, o jogo da memória e um baralho de cartas. São jogos com benefícios enormes ao nível da aprendizagem, da memória, da atenção, da motricidade fina, e são ainda uma excelente forma de terminar os serões. É tempo tranquilo e tempo em família, que permite matar as saudades e ainda contribui para sonhos bons;

Pincéis, tintas, marcadores, blocos de papel, barro, plasticina… Tudo o que permita explorar materiais, conhecer melhor as cores, experimentar texturas, arriscar o traço é, na minha opinião, do melhor que há para estimular a criatividade, o conhecimento e a livre expressão de emoções e sentimentos;

Livros. Sempre e muitos. Há, hoje em dia, livros para crianças de enorme qualidade. Desde os textos, às ilustrações, aos temas abordados… a maior dificuldade será sempre ter de escolher. Um dos nossos preferidos é o “Pássaro da Alma” de Michal Snunit, que vale a pena conhecer (para miúdos e graúdos);

Música. Pode ser um cd de qualidade, como por exemplo o “Mão Verde” de Capicua e Pedro Geraldes, que é também um livro, ou podem ser instrumentos musicais, como um ukulele, uma pandeireta, uma viola, uma flauta… Cá em casa temos alguns e é sempre uma alegria imensa organizar os concertos em família;

Experiências. Vou tirar esta da manga pela primeira vez este ano e embora ainda esteja a magicá-la, a ideia é pensar numa atividade/ momento em família (um concerto, uma viagem, uma ida ao cinema, um piquenique…) e oferecê-lo num postal ou até num desenho. Valoriza os momentos (mais do que os presentes materiais) e é mais uma oportunidade para estarmos juntos a “experimentar”.

E, para terminar, uma ideia de que gosto muito: um globo terrestre, daqueles iluminados. Oferecemos um ao Manel há uns dois anos e sempre que falamos de um país novo lá vamos nós, a pedido, apontar onde o dito fica. Pode ser que seja um empurrãozinho para fazer crescer a vontade de mundo.

Assim eu gostava que fosse.

P.S – E porque eu já prometi que este era o último texto de inspiração natalícia, cá vai o desejo de um Natal com maior significado, gratidão, momentos felizes e sorrisos bons de quem nos faz suspirar por mais… Ah, se ainda vos aparecer por aqui um postalito, perdoem-me, é da febre da época…

O bom do Pai Natal.

Tenho uma relação agridoce com esta história do Pai Natal.

Acho que não gosto, mas acabo por provar e ir mastigando a coisa. Por mastigar entenda-se, embarcar no disparate. Sim, porque hoje em dia, mesmo que eu não quisesse abraçar o conceito de um senhor de barbas distribuidor de presentes, tal seria tarefa quase inglória.

O bom do senhor está mesmo em todo lado. É no supermercado, é na televisão, é na escola, é nos outdoors, é nos catálogos na caixa do correio… e eu, que até percebo que papar com a Lapónia o ano inteiro, deixe qualquer um entediado (e que por isso, este apelo natalício seja um espécie de libertação), continuo a achar que o rapaz podia ser um pouco mais comedido na auto propaganda.

Ora vejamos então, uma das mil razões porque é que esta tradição é tramada…

No ano passado, um dos desejos da criança aqui de casa era o camião da patrulha pata. Eu, mantendo-me fiel àqueles que são os nossos princípios enquanto família, achei que cobrar 100 euros por um camião de plástico, usando perniciosamente o facto do mesmo povoar o imaginário de todas as crianças entre os 3 e os 5 anos, era, no mínimo, imoral. E mantive o boicote ao camião da patrulha pata.

Na altura expliquei ao Manel que talvez o Pai Natal não conseguisse trazer aquele brinquedo porque era muito caro e era preciso distribuir os brinquedos (a riqueza) por todos os meninos. A coisa colou mas uns dias depois do Natal, acalmadas as hostes, ele veio ter comigo e perguntou porque é que o Pai Natal tinha trazido um camião tão caro a alguns dos seus amigos e a ele não. Eu, engoli em seco e improvisei a melhor resposta que consegui na altura.

Este foi um dos milhares de momentos em que me apeteceu acabar com a fantochada. Não o tendo feito, procuro não alimentar demasiado a coisa e vou falando no Pai Natal dos pais, do avô, da avó, dos tios… vamos vendo juntos os catálogos dos brinquedos que nos chegam a casa (e que lhe fazem os olhos brilhar) e vamos falando sobre os preços e sobre a sua relação com a qualidade ou interesse do brinquedo. E o Manel vai sendo capaz de fazer escolhas cada vez mais conscientes, o que a mim me faz sentir que estamos no caminho certo.

Ultimamente tem-me feito perguntas estratégicas do género: “Mas porque é que o Pai Natal está sempre com a mesma idade?”, “Mas como é que o Pai Natal entra nas casas que não têm chaminé?, “E porque é que nós raramente vemos o Pai Natal verdadeiro?”

E na vez em que me pergunta se o Pai Natal existe de verdade, eu respondo que há pessoas que acreditam que sim e outras que acreditam que não. Não consigo dizer-lhe outra coisa.

Posto isto, vou continuar neste misto de amargo doce, a deixar-me levar pela sua imaginação e pelo seu ritmo, neste caso, ainda tão conduzido pela melhor estratégia de marketing de sempre: um senhor barbudo, de ar simpático e bochechas rosadas, vestido de vermelho e branco, a beber uma coca cola fresquinha.

Felizmente, o Natal é tão mais do que isto.

Felizmente, eu tenho cá para mim, que ele começa a entendê-lo…