O maior desafio da parentalidade somos nós, não são os nossos filhos…

“O meu filho está sempre a provocar-me e a contrariar tudo o que eu digo. O que eu precisava mesmo era de algumas estratégias para o ajudar a ter mais disciplina…”

Nunca falámos tanto sobre disciplina, nunca soubemos tanto sobre desenvolvimento infantil, nunca tivemos ao nosso dispor tantos manuais de “técnicas infalíveis” e ainda assim, provavelmente, nunca estivemos tão distantes de nós próprios e daquela que é a verdadeira missão da parentalidade…

O desafio de nos tornarmos pais é um desafio interno, é uma transformação que acontece no lugar mais fundo de nós e nos obriga a um outro olhar sobre quem somos, sobre quem fomos, sobre a pessoa que um dia, gostaríamos de ser. É uma força que nos empurra em direção ao caminho de desaprender tudo o que demos por certo, abrindo espaço a tudo o que afinal ainda não sabíamos.

Acredito de coração que os filhos são talvez o maior impulso a que isto aconteça, uma espécie de livre-passe de ouro trazido pela vida, para que que possamos polir-nos enquanto seres humanos, aceitarmo-nos nas nossas imperfeições e aprender a navegar em mar alto, às vezes espelho outras vezes tempestade.

É por acreditar nisto que quando me perguntam por estratégias para educar um filho, eu falo sempre em estratégias para nos educarmos a nós próprios, caminhos que podem ser trilhados desde o início e que nos abrirão todas as portas aquele que é o verdadeiro propósito de  acompanhar um ser humano na incrível aventura de crescer:

Auto regulação:
Compreender e gerir as nossas próprias emoções e ações será sempre o primeiro passo para sermos pais mais conscientes. Conhecer os meus gatilhos, parar para refletir sobre a forma como (re)ajo perante os diferentes desafios, procurar conhecer porque razão um determinado comportamento do meu filho me transtorna ao ponto de me fazer saltar a tampa, nos gestos e nas palavras que não quero dizer. Aquilo que eu não conheço ou que eu não aceito, dificilmente será controlado por mim e é por isso que este olhar atento para dentro de nós e daquilo que sentimos será sempre parte da formula necessária para conseguirmos, enquanto adultos, ajustar as nossas respostas emocionais e sermos cada vez mais capazes de inspirar autenticidade, tranquilidade, respeito e responsabilidade. E é assim que os nossos filhos aprenderão a fazê-lo também.

Conexão
As crianças crescem interiormente sempre que se sentem compreendidas, ligadas aos seus cuidadores, seguras do amor dos pais. É assim desde o momento do nascimento. Existe um sincronizar constante do bebé ao nosso próprio estado emocional (bebés de mães deprimidas ajustam-se à baixa estimulação e habituam-se à falta de sentimentos positivos, tal como bebés de mães agitadas aprendem a corresponder a esse estado também). Um apego seguro desenvolve-se com a capacidade dos adultos cuidadores em responder às necessidades emocionais do bebé, da mesma forma que respondem às suas necessidades físicas, sendo que serão estas relações afetivas que permitirão construir a base para o desenvolvimento de relações de confiança e intimidade, com efeitos profundos ao nível das experiências da criança, da sua expressão e ao nível da regulação das suas emoções. Sempre que somos capazes de nos ligar emocionalmente aos nossos filhos (o mais possível, livres das expectativas, da opinião dos outros, dos medos, das dúvidas…) estamos a criar os alicerces mais sólidos para todos os desafios de aprendizagem que nos surjam ao longo do seu crescimento.

Capacidade de guiar
Quando um pai ou uma mãe diz “Ele é tão desobediente!”, está na verdade a dizer “O meu filho não faz o que eu mando!”
Esta é talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade: a capacidade de olhar para os nossos filhos como parceiros de jornada, diminuindo a frequência das lutas de poder que nos tentam todos os dias. Uma criança estará naturalmente disponível à nossa orientação, sempre que se sinta respeitada, aceite e ouvida. Naturalmente também, reagirá às tentativas de controlo e de poder que lhe sejam impostas, exatamente como um adulto faria.
Os filhos não são nossos, nem no corpo, nem na vontade. São nossos no coração e será apenas essa a nossa tarefa, guiá-los no sentido de abrirem o coração à vida e a si próprios, sempre inspirados pela forma como estivemos a seu lado, nos momentos em que mais precisavam de luz.

Todos os desafios de comportamento são uma janela incrível de aprendizagem e a forma como lhes respondemos é aquela que (sempre que mais consciente e alinhada com o modelo que queremos transmitir) permitirá o desenvolvimento das competências de vida que um dia todos gostaríamos de observar nos nossos filhos.

E aqui eu quase que aposto que me falariam na auto-estima, na regulação emocional, na cooperação, na autonomia ou na empatia. Imagino que nem se lembrariam da obediência… Não é dela que reza a história das pessoas verdadeiramente felizes.

Sento-me sozinha para almoçar. Estranha, esta coisa de nos desabituarmos da nossa companhia, de passarmos a fazer cerimónia com a nossa própria solidão. Na cadeira em frente, a frase: “Deixe aqui o seu tabuleiro”. Obedeço ao convite com a mão a tremer-me e a sacar-me a caneta do bolso. Agora tenho esta sina, das palavras me tomarem o corpo de assalto nos momentos mais inoportunos. Ou é quando me sento para comer, ou é quando decido deitar-me, ou é quando me deixo escorrer, inteira, debaixo do chuveiro. É como se quisessem ocupar-me espaço, ganhar protagonismo, sobrepor-se à satisfação das obrigações terrenas. Comer, dormir, respirar. Escrever, escrever, escrever. “Deixe aqui o seu tabuleiro”. Apetece-me engolir o arroz de pato e despejar no tabuleiro tudo o que não quero mastigar na alma. E o tudo, hoje, é tanto… Na mesa ao lado duas senhoras entretidas numa conversa sem interesse nenhum. O marido insuportável, a libido da vizinha de cima, as madeixas loiras demais feitas pelo cabeleireiro a que não voltarão. Toda a vida me aborreceram as conversas sem interesse nenhum. Aprendi a disfarçá-lo bem. Mantenho o esgar no sorriso, aceno delicadamente com a cabeça, vou rematando com meia dúzia de interjeições meticulosamente posicionadas, e nos entretantos, alheia ao clímax dos enredos, deixo-me voar por aí sem destino nem vontade nenhuma. Pergunto-me, se na mesa ao lado, as senhoras saberão que podem largar os martírios, as invejas e os queixumes no tabuleiro, junto aos guardanapos usados e às cascas de melancia. Pergunto-me se saberão que podem despejar-se todas no tabuleiro, entregar os maridos e as vizinhas e os cabeleireiros, assim, de bandeja, para não mais voltarem a pôr-lhes a vista em cima. Aposto que lhes saberia pela vida. Pela que querem esquecer e pela que ainda não desistiram de viver. Talvez as conversas se enchessem de reticências, o cabelo voltasse ao vermelho fogo e a pele se arrepiasse toda, apenas e só pela possibilidade leve do desconhecido.

Gosto de me embrenhar nas pessoas. De lhes sentir o pulso, de lhes imaginar a casa, de me deter nos detalhes que as enfeitam. Ainda esta manhã, numa bomba de gasolina, houve um senhor que me disse: “Isto hoje está uma brasa e olhe que eu saio de casa todos os dias às 7:07!” Quem se lembraria disto? Quem se lembraria de tornar preciosos estes 420 segundos, a ponto de os salientar numa conversa de beira de estrada? Fiquei a imaginar-lhe a existência nesse compasso de tempo. 420 segundos para desligar o despertador e voltar a adormecer, 420 segundos para aparar minuciosamente o bigode, 420 segundos para fazer amor com a mulher, 420 segundos para enrolar uma sandes de paio para o almoço… 420 segundos. Que podem não servir para nada, ou que fazem toda a diferença. É mais ou menos isto que fazemos com o tempo. Ou saímos às 7 e tal e nos atabalhoamos o resto do dia no meio dos ponteiros do relógio, ou saímos escrupulosamente às 7:07, dando-nos de presente a cada milésimo dos segundos que tivemos a mais. É mais ou menos isto que fazemos com a vida. Ou nos embrenhamos nas pessoas e esperamos que nos agucem a alma ou deixamos que nos passem ao lado, sem desejo, nem romance, nem paixão. Se for para ser assim, mais vale que nos sobrem segundos com fartura. Ou bem que é para nos pormos de corpo inteiro no tempo que nos resta, ou mais vale sair de casa a uma hora que ninguém desconfie.

Vai uma palmadinha?

Palmada = bofetada, pancada com a mão.

Pedagógica = que procura ensinar; educar.

Qualquer associação entre estas duas palavras resulta de um grande mal entendido. Ainda assim, é frequente que o ouçamos por aí…

Muitas vezes se pensa que para que os filhos aprendam que um determinado comportamento não é adequado, é preciso recorrer ao castigo ou até a uma palmada.

Ora, para que percebamos melhor do que falamos, imaginemos a cena: “Chegas a casa, estás cansada(o) e apetece-te tudo menos arrumar a pilha de roupa que tens há uma semana na cadeira do quarto. O teu(tua) companheiro(a), farto(a) de tanta desarrumação diz-te que já chega e que tens de tratar do assunto. Tu, porque não estás para aí virada(o) e o dia foi caótico, gritas: “Epah, não me chateies mais!”. Perante a resposta torta, ele(a) e dá-te um valente par de estalos.”

Consegues sentir?

A humilhação, a vergonha, a raiva, a sensação de impotência, a falta de conexão… Pois é.

Agora imagina o que sente uma criança quando alguém, que ama mais do que tudo no mundo, lhe bate.

Bater numa criança ou num adolescente é tão errado como bater num adulto. Então, porque será que bater num adulto com quem temos uma relação afetiva é violência doméstica e bater num filho é educação?

Quando batemos numa criança estamos a pôr em causa a ligação de segurança que tem connosco, a colocá-la numa situação de ameaça e de ambivalência emocional: a pessoa que a protege e cuida é a mesma pessoa que a faz sentir em perigo. E isto, acreditem, é extremamente desorganizador.

Para além disso, geralmente a palmada surge como o recurso possível numa altura em que já estamos em situação de frustração extrema e de perda de controlo. Ora isto é também percebido pelos nossos filhos, que sentem que, naquele momento, não estão a ser suficientemente bons e que, por isso também, talvez até nem sejam merecedores do nosso amor. Pode não ser esta a mensagem que queremos transmitir mas é assim que ela é recebida. E aos poucos, se a estratégia se repetir, é assim que a mensagem se transforma no mensageiro e pode chegar a ameaçar a nossa capacidade de estabelecer vínculos afetivos.

O direito à integridade física é um direito fundamental e é um direito de todos os nós, independentemente da idade que tenhamos.

Por isso, quando falarmos de palmadas, falemos de agressão, porque a pedagogia nada tem a ver com isto.

No dia em que nasceste o universo alinhou-se dentro de mim para te receber. Trouxe as flores, trouxe o chão, o ajuste quente do colo… Só não trouxe o roteiro porque esse a ti pertence e eu não quereria nunca tirar-te o doce prazer da descoberta de quem és. Basta-me a honra de te dar a mão, ensinar-te o sorriso e esperar que ambos te fiquem e te abram o peito às coisas bonitas que a vida tem.❤️

Sobre as mães…

O Manel devia ter um ou dois meses quando fiquei com 39 graus de febre por causa de uma mastite. Lembro-me de estar no banho e de deixar o corpo escorregar para se encolher a um canto da banheira, num choro tão de dentro que só o som da água a cair conseguiu disfarçar. Na minha cabeça gritavam as palavras: “Não podes ficar doente. O teu bebé precisa de ti. Não podes ficar doente. O teu bebé, o teu bebé… “ Fiquei ali o tempo que pude. Sozinha (ainda que tivesse a casa cheia de gente) e a achar-me a pior mãe do mundo, apenas e só porque me sentia sem forças, incapaz de lidar com a intensidade com que precisavam de mim. E era o meu bebé que precisava de mim. Não falei disto a ninguém, a não ser agora, que partilho a mensagem deste sentir nos grupos de mães e pais com quem trabalho. Aquilo que ela me ensina é que a maternidade é um desafio imenso a que só se consegue dar resposta quando pomos a correr esta ideia pesada de que as mães são super mulheres. Uma mãe é uma mulher. Ponto final. Uma mulher que se transforma e se reajusta às exigências e aprendizagens que a maternidade implica, mas que continua a ser uma mulher. Uma mulher que é coragem mas que às vezes também morre de medo, uma mulher que tem as respostas na ponta da língua, mas que em tantos momentos não sabe o que fazer, uma mulher de colo grande e eterno mas que também precisa de colo e sobretudo, precisa de reaprender a dar colo a si própria. O auto cuidado é um dos grandes desafios da maternidade e a ideia de que eu existo antes de existir o meu filho, será sempre o primeiro passo para que este amor se viva e se goze, inteiro, pleno, real, e sobretudo capaz de inspirar este filho, a que um dia possa amar-se também… 

Precisava da cabeça limpa, não de ti a entrar por ela adentro sem cerimónia nem pudor.
Precisava da cabeça limpa, não só porque já me ocupas espaço demais mas porque sem ti, talvez ficasse mais arejado e conseguisse ouvir-me melhor. Já é tempo demais contigo dentro. Nem ela (a cabeça) te aguenta. Nem eu. Abro os olhos de manhã e lá estás tu. Ensaboo o corpo, abro o chuveiro no lado frio e ainda assim, és tu. Há mais de uma semana que tomo banhos gelados na esperança de te pôr a mexer, e nada. Continuas aqui. Desço a rua para o trabalho a olhar para as janelas a ver se me encanto por alguém, e lá estás tu. Oiço as conversas sem graça nenhuma para ver se me encho de nada, e lá estás tu. Preparo o jantar de ervilhas com ovos de que não gosto, e lá estás tu. Sempre tu, sempre à coca, à espera de me apanhar o desespero num passo em falso que não quero dar.
Densa, espaçosa, repetida.
E eu nem sei bem porquê. É isso que me é mais difícil de engolir neste espaço que me ocupas: não saber porquê. Não és especialmente bonita. Não és especialmente interessante. Da inteligência nem falo, não chegámos aí para que o pudesse perceber, mas imagino, do que te tenho visto, que até nem seja nada fora de série. Não sei mesmo bem porquê.
Talvez seja porque que as pessoas não se explicam.
Há qualquer coisa nelas que encontra qualquer coisa em nós e depois pronto, deixamos de ser nossos para passar a viver na cabeça dos outros. Foi assim contigo, embora eu ache que foi coisa de um lado só. Tu moras em mim mas eu não cheguei a entrar-te.
Há quem tenha outros fados, eu agora tenho este, precisar da cabeça limpa mas ter-te a ti a sujar-me tudo…

(A foto bonita que dá vida a este texto é da Lília. Tão grata, minha Portugueselily…)

Janeiro

Não nasci em tempo quente.
Acho mesmo que este facto foi um erro crasso que devia ter sido cuidadosamente acautelado na noite de amor em que fui gerada. Restou-me, ao longo dos anos, a árdua tarefa de tornar janeiro um mês mais interessante, poupando-o à constatação evidente de que era no meio do calor que aconteciam as melhores coisas da vida.
Agora, a modos que sou esta pessoa de janeiro que devia ter nascido em junho mas que ainda assim teve a sorte de que o feito quase se desse por terras algarvias. Venha por isso o sol a queimar-me a pele, as conchas ao pescoço, o cabelo feito sal, o pé descalço e as noites quentes. Venham as sardinhas e o gaspacho, os amigos tardios, a música na rua e o tinto de verano.
Venha tudo isto, que para o resto e para o janeiro, há-de sempre haver tempo que sobre…

Bom primeiro fim de semana de verão, pessoas tão bonitas ❤️

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu andava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse, ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto sem fim. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

O mito dos bons pais.

Ontem deitei-me outra vez a lamentar-me das vezes em que podia ter sido melhor mãe. Revivi as cenas, uma por uma, pensei-lhes outros cenários e cheguei a imaginar-me outra, capaz de ter dado ao meu filho a resposta feliz e atenta de que era tão merecedor. Ontem deitei-me outra vez agarrada à ideia que eu própria construí daquilo que é ser-se boa mãe. E hoje de manhã ele voltou a saber olhar-me e sussurrou-me ao ouvido: “Gosto tanto de ti mamã…”

É por isso por nós (e sobretudo por eles) que hoje proponho “despir” os bons pais de todas as boas intenções. Essas, que sorrateiramente nos vão atrapalhando o caminho… 😉

Os bons pais já nascem ensinados.

Quando um filho nos nasce, nasce-nos pela primeira vez e é com ele que (re)nascemos também. Não só como pais ou como mães, mas também como pessoas. E ainda que outros já nos tenham nascido ou que outros se lhes sigam, cuidar de um filho (daquele filho) será sempre uma experiência única, que exigirá de nós a humildade da certeza de que muito está ainda por aprender, por melhorar, e por construir. Não esquecendo nunca que cada um de nós o fará de uma forma muito própria, à luz das coisas que nos façam bater o coração e dos desafios e aprendizagens que cada filho nos exija.

Os bons pais sabem sempre o que fazer.

A parentalidade é um caminho cheio de curvas, de socalcos, de bancos para recuperar o fôlego, de vias rápidas e de atalhos desconhecidos, que por vezes nos desconcertam e em tantas outras nos permitem maior segurança. A parentalidade é tudo isto mas não é, nunca, algo que se aprenda nos manuais de procedimentos à boa maneira das viagens de aviões: “Ora agora coloque o colete de salva-vidas. Ora agora insufle-o. Ora agora respire a partir da máscara de oxigénio…” Bom seria. Ou talvez não… A parentalidade é uma aprendizagem constante, sem respostas certeiras e em que os aprendizes (pais e filhos) são os atores principais e criativos argumentatistas, capazes de dar luz e cor e emoção ao guião, construído (e reconstruído) vezes sem conta, a cada passo dado.

Os bons pais não sentem culpa.

Sentem pois. E arrependem-se. E martirizam-se. E sofrem, sobretudo com o peso duro das expectativas dos outros. É a culpa de não terem agido assim ou assado, é a culpa de terem perdido a cabeça, é a culpa de não passarem tempo suficiente com os filhos, é a culpa de não terem percebido mais cedo que alguma coisa estava a acontecer na escola, é a culpa de terem sono, de comerem chocolates às escondidas, de estarem de folga e deixarem o filho na escola apenas e só porque querem ter um dia de crescidos… A culpa, a maldita da culpa, que rouba tempo e exige, insaciável, a perfeição sem fim. A culpa não é boa aliada dos pais, mas existe, chateia e é preciso falar sobre ela e sacudi-la dos ombros com energia e vontade. Só assim lhe retiramos a força e ganhamos espaço para ser pais e, sobretudo, humanos.

Os bons pais sabem sempre o que os filhos precisam.

As crianças não trazem manuais de instruções e ainda que às vezes algumas dicas práticas nos deem um jeitaço e nos ajudem a pensar em formas alternativas de resolver as situações/dilemas com os quais nos vamos deparando, isso não quer dizer que funcionem sempre. Para se saber o que uma criança precisa, é preciso, tantas vezes, desaprender tudo o que pensámos ou ouvimos, ou ainda tudo aquilo que nos disseram e experimentar outros caminhos, ainda que audazes ou pouco testados. Para se saber o que uma criança precisa é preciso sobretudo aprender a ouvi-la, olhá-la nos olhos e tocar-lhe no coração, deixando que o nosso se abra, e sinta também.

Os bons pais não mimam demais os filhos.

A experiência amorosa familiar é o primeiro contacto da criança com o maravilhoso mundo dos afetos. É ela que lhe permitirá amar os outros e ganhar coragem para se lançar em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite entender a Casa (lugar no coração dos pais) como porto seguro, onde pode mostrar-se sem filtro e sem disfarce, a quem tem por ele um amor sem fim, capaz de resistir a todos os lados lunares. Os pais podem (e devem!) mimar muito os filhos e não é por isso que deixarão de balizar aqueles que são os seus comportamentos e de ensinar, com a doçura e a paciência necessárias, as coisas mais importantes, para que se tornem gente a saber mimar os outros.

Os bons pais satisfazem sempre primeiro as necessidades dos filhos.

Voltando à analogia das instruções de segurança dos aviões, há uma razão pela qual a tripulação sugere que o colete salva-vidas seja colocado primeiro ao adulto e só depois à criança: para cuidarmos do outro, é preciso que estejamos cuidados. A parentalidade está carregada de desafios, muitos deles capazes de alterar o padrão de satisfação de necessidades básicas como as do sono ou da alimentação adequada, ou a prioridade dada às necessidades sociais ou amorosas. Em nome dos filhos, os pais anulam-se vezes demais e acabam por deixar para depois atividades ou experiências, capazes de lhes proporcionar bem estar e satisfação pessoal, premissas fundamentais para ensinar os filhos a quererem, um dia, cuidar-se também.

Os bons pais gostam sempre de ser pais.

Existem mulheres e homens que preferiam não ter sido pais. Existem mulheres e homens que não gostam de ser pais, mas isso não significa que não gostem dos filhos. Significa apenas que, por variadíssimas razões, tiveram de assumir um papel com o qual não se identificam, que sentem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido. Não há com estes pais nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-los, constantemente, do sacrilégio em que não vivem. Existem pais que não amam de paixão sê-lo, mas que ainda assim, sabem amar como ninguém os filhos que os tornaram em tal.

Os bons pais não erram.

Os bons pais erram a vida inteira. Tal como as boas pessoas fazem, só por serem pessoas. O que os bons pais trazem dentro de si (que é o que lhes permite serem verdadeiramente bons), é a capacidade de olhar para os tropeços e enganos como parte desejável da caminhada e deixar que a consciência e a aceitação os transformem para sempre e permitam reparar, com pó de ouro e de amor, cada “lasquinha” acontecida.

Os bons pais não existem. Existo eu, existes tu… e se o somos é porque um dia alguém nos olhou como ninguém e nos viu como os melhores do mundo. Imperfeitos e insubstituíveis. Até ao fim dos tempos…