A verdadeira missão da parentalidade.

Ter um filho.

Podemos começar por aqui.
Pela ideia que tantas vezes ouvimos acerca das motivações para a parentalidade: “Engravidei porque queria muito ter um filho” ou, “Desde miúda que sonhava ter filhos. Não um, mas muitos”, ou até, “A minha mulher sempre quis ter uma menina. Eu já me dava por contente por já ter o João.”

Ter um filho.

Pari-lo, alimentá-lo, cuidá-lo, mimá-lo. Dar-lhe o nosso melhor para que um dia se torne muito melhor do que nós, e assim nos afague o ego, nos redima de todos os lados lunares e se cumpra nas expectativas da pessoa que gostaríamos de ter sido.

Ter um filho.

Vinculá-lo a nós, amarrá-lo à ideia que temos de quem é, torná-lo refém da nossa aprovação, para que nos honre e se torne merecedor do nosso mais perfeito amor.

Desaprender.

Sentir o seu crescimento, a sua força de ser, a luz, que às vezes, de tão intensa, quase nos cega. Vê-lo desabrochar, sem saber ao certo o tom predominante das pétalas que lhe nascem dentro. Ouvir a sua essência, celebrar a sua unicidade e permitir-lhe a liberdade de a experimentar, a cada descoberta que faça sobre si.

Renascer.

Em quem somos e em tudo o que somos juntos. Um filho que é afinal mestre de vida, capaz de iluminar os lugares mais esquecidos em nós, não só porque precisamos de nos relacionar com eles, mas também porque precisamos de os compreender, de os sarar e, progressivamente, nos tornarmos conscientes de quem somos, abrindo o coração à ideia de que este filho É, para além de nós.

Aceitar.

Olhá-lo como parceiro de jornada. Livre, meticulosamente perfeito na sua imperfeição, nas escolhas que faça, na personificação do seu espírito. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queira ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de si.

É aqui que se aprende a amar incondicionalmente. Só aqui.

E é aqui, precisamente neste ponto de viragem e de consciência, que começa verdadeiramente a mais corajosa e transformadora viagem da nossa existência: Sermos pais.

Tudo, porque um dia sonhámos ter um filho e descobrimos que afinal, éramos nós que nos tornávamos para sempre seus…

Let it snow, let it snow, let it snow…

 

Primeiro, o pânico: Estamos em Dezembro!
Depois, a palmadinha nas costas: Respira fundo. Tenho boas dicas para ti…

Todos os anos é a mesma coisa. Ando o ano inteiro a sonhar com o Natal e a fervilhar de ideias brilhantes para criar coisas especiais e pôr estas mãozinhas de artista a trabalhar e depois, chego ao mês do dito, a não dar conta do assunto e a pensar: Caramba, I did it again!

A verdade é que mesmo que os presentes não saiam exatamente como o figurino imaginado, sairão, e por cá continuaremos a tentar que as escolhas se façam com o coração e pela vontade de mimar, cada uma das pessoas bonitas que nos enchem a vida.

Ficam por isso algumas sugestões, já testadas e aprovadas pela malta cá de casa:

Jogos de madeira. Podem ser comboios, casinhas de bonecas, puzzles, instrumentos musicais… São bonitos (às vezes apetece-me pô-los a decorar a sala), não precisam de pilhas, apelam à imaginação, deixam memórias e duram imenso tempo (ao contrário do plástico fantástico).

Brinquedos artesanais: pensar num brinquedo como uma peça única, criada por alguém que pôs nele o seu tempo e a sua dedicação, torna tudo mais especial. Transmitir essa ideia aos miúdos falando-lhes sobre a história de quem deu vida àquele brinquedo, contribui para quem entendam este valor e o procurem nas escolhas que façam. O projeto Biscoitos é um projeto assim, bonito e concebido com muito amor, em que cada detalhe conta uma história feliz e nos prepara para muitas outras. De certeza que perto de vós existem amigos, familiares, pequenos comerciantes com mãos de fada ou de duende, capazes de produzir tesouros que se tornarão presentes raros e muito especiais.

Jogos de tabuleiro ou outros. Por cá os preferidos são o mikado, o xadrez, o jenga, o dominó, o jogo da memória e um baralho de cartas. São jogos com benefícios enormes ao nível da aprendizagem, da memória, da atenção, da motricidade fina, e são ainda uma excelente forma de terminar os serões. Este ano descobrimos numa feira de artesanato, um jogo de madeira chamado a escada de Jacó que, vos garanto, vai fazer brilhar os olhos de curiosidade e desafio, dos miúdos que moram aí em casa.

Pincéis, tintas, marcadores, blocos de papel, barro, plasticina… Tudo o que permita explorar materiais, conhecer melhor as cores, experimentar texturas, arriscar o traço é, na minha opinião, do melhor que há para estimular a criatividade, o conhecimento e a livre expressão de emoções e sentimentos;

Livros. Sempre e muitos. Há, hoje em dia, livros para crianças de enorme qualidade. Desde os textos, às ilustrações, aos temas abordados… a maior dificuldade será sempre ter de escolher. Um dos nossos preferidos é o “Pássaro da Alma” de Michal Snunit, que vale a pena conhecer e não mais largar. Depois, existem outros como o “Leonardo, o Monstro Terrível” de Mo Willems, que vos arrancarão umas boas gargalhadas e ainda darão para falar sobre assuntos importantes. Por cá andamos deliciados com a descoberta do “Robot Selvagem” de Peter Brown que conta a história fantástica de Roz, uma robot que vive numa ilha selvagem e cujas aventuras permitem aprender tanto sobre amizade, cooperação, respeito pela diferença, proteção do meio ambiente e progresso tecnológico. Uma espécie de Robinson Crusoé do futuro. Uma delícia, portanto.

Música. Pode ser um cd de qualidade, como por exemplo o “Mão Verde” de Capicua e Pedro Geraldes, que é também um livro, ou o da Luísa Sobral que adoramos, ou podem também ser instrumentos musicais, como um ukulele, uma pandeireta, uma viola, uma flauta… Cá em casa temos alguns e é sempre uma alegria imensa organizar concertos em família;

Experiências. A ideia é pensar numa atividade/ momento em família (um concerto, uma viagem, uma ida ao cinema, um piquenique…) e oferecê-lo num postal ou até num desenho. Valoriza os momentos (mais do que os presentes materiais) e é mais uma oportunidade para estarmos juntos e “experimentar”.

Solidariedade. E porque andamos sempre a apregoar que o Natal é um momento para celebrar o amor ao próximo, a família, os afetos, a generosidade… mas tantas vezes fazemos efetivamente muito pouco, para tornar as intenções verdadeiras, partilho convosco as ideias de uma leitora muito querida que, em família, opta por comprar oferecer um brinquedo ou uma roupa a uma instituição ou a alguém que precise de apoio e comprar estrelinhas da Associação Make a Wish.
(obrigada Célia !:) )

Made by us. Já há alguns anos que tentamos não comprar presentes para adultos e deitamos mãos à obra para tornar os mimos ainda mais especiais: uma compota de abóbora, um frasquinho de granola caseira, azeite aromatizado, um pacotinho de biscoitos feitos em família, são só alguns exemplos possíveis. O resto, só depende da vossa imaginação. Os mais pequenos gostam imenso de participar, desde a confeção até ao último toque especial no embrulho. E eu acredito mesmo, que estes presentes únicos e personalizados, chegam mais depressa ao coração de quem os recebe.

Para terminar, continuo a falar numa ideia de que gosto muito: um globo terrestre, daqueles iluminados. Oferecemos um ao nosso filho há uns anos atrás e sempre que falamos de um país novo lá vamos nós, a pedido, apontar onde o dito fica. Pode ser que seja um empurrãozinho para fazer crescer a vontade de mundo.

E para que eles aprendam, devagarinho (e para sempre), que o Natal é muito mais do que um saco cheio de presentes, tornemo-nos mais conscientes do nosso papel enquanto famílias, esquecendo o telemóvel e o computador, constituindo equipas na cozinha para fazer filhozes e aletria, vestindo casacos quentinhos para passear ao ar livre e sobretudo, demorando os jantares para que neles se converse, se olhe nos olhos e se faça sentir a todos que, afinal… já todos temos tudo, o que efetivamente é preciso ter.

Feliz Natal, pessoas tão bonitas!

Nota: E porque às vezes para entender é preciso fazer pensar, partilho convosco um anúncio produzido pela Ikea, que nos deixa o coração apertado, de tão real que esta cena podia ser…

A carta que agora me apetece.

 

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas para educar as crianças que, por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.

Entre nós, há um bebé.

Entre nós, há um bebé.

Preparamo-nos para tudo durante uma gravidez.
Fazemos uma lista dos sinais de alerta que podem significar risco, aprendemos a contabilizar o número de pontapés na barriga, a registá-lo num livrinho e a comer um chocolate sempre que a/o miúda/o esteja estranhamente mais calma/o. Compramos os melhores (e maiores) soutiens, espantadas com a inesperada voluptuosidade, besuntamos a barriga com toneladas de creme gordo, para evitar as estrias e até vamos, devagarinho, conformando-nos com a ideia de ter de gramar com um sem fim de malta a enfiar-nos o dedo na vagina nas idas ao hospital e durante todo o internamento.

Pelo caminho, vamos também aprendendo mais sobre o recém nascido.
Falamos sobre o choro, sobre mamas, sobre o choro por falta de mamas e ainda arrecadamos a preciosa informação de que existem cerca de 30 tipos de mamilos, e que alguns poderão facilitar-nos (ou dificultar-nos) a vida daí em diante. Aprendemos a mudar a fralda, a conhecer as melhores marcas do mercado para evitar as fugas, sabemos medir a temperatura da água ao milésimo de grau centígrado e até a fazer uma “argolhinha” com os dedos para não deixar escorregar o bebé durante o banho (ainda que qualquer semelhança entre um nenuco e um bebé, seja pura coincidência). Iniciamos uma biblioteca privada e especializadíssima que nos acompanhará para o resto da nossa existência e que promete ter resposta pronta para todas as dúvidas: o sono, a falta dele, a fome, as rotinas, as birras, a disciplina, a entrada na escola, os irmãos, os tempos livres, and so on… and on, and on…

Falamos muito sobre quase tudo e passamos a pente fino os principais desafios da maternidade, para depois nos esquecermos de um: aquilo que se transforma na relação amorosa e sexual com os/as nossos/as parceiro/as.

Pois é, a boa da sexualidade. Logo ela que tantas vezes é negligenciada, como se fosse o parente pobre da educação. Logo ela, que mexe com tudo o que somos e impregna de uma energia incrível, aquilo que sentimos enquanto pessoas e a forma como nos relacionamos com os outros.

E como é que a chegada de um bebé podia ser imune a isto? Não podia.

A sexualidade no pós parto tem de ser tema de conversa e de reflexão, nos cursos, entre os amigos, na relação, para que o tempo e o que não se perguntou, não se transformem numa espécie de elefante no meio da sala e com ele remetam ao silêncio todos os que a vivem, transformando as naturais mudanças/ ajustamentos, em barreiras difíceis de transpor.

E as barreiras, às vezes, crescem em altura com as ideias feitas que às vezes se ouvem por aí…

Quarenta dias depois do parto, a mulher pode retomar a sua vida sexual.
Pode, não quer dizer que tenha de o fazer. A prolactina, hormona responsável pela produção do leite materno é diminuidora do desejo sexual, com natural impacto na lubrificação da vagina o que, no caso de uma relação sexual com penetração, pode tornar-se mais doloroso e significar uma menor predisposição da mulher. Para além disso, a intensidade e a exigência das transformações ocorridas durante a gravidez, no momento do parto e no puerpério, podem significar à mulher a necessidade de preservação de um espaço de retorno a si própria, do acarinhar da relação com o próprio corpo e de integração e entendimento dos novos desafios, nos quais o bebé se torna muitas vezes figura central. Pode por isso restar pouco espaço para a relação com o/a parceiro/a e isso deve ser entendido, respeitado e muitas vezes, desdramatizado por ambos. Retomar a vida sexual sim, sempre que haja essa indicação médica, mas sobretudo apenas e quando a mulher assim o sentir.

É importante não deixar que o bebé desvie a atenção da relação e nos impeça de investir na relação com o/a parceiro/a. 
Quando se nasce mulher, nasce-se também com a ideia de desejabilidade social, de cuidadora exímia, de mãe extremosa, de amante sensual… no matter what. E depois, quando por razões mais do que óbvias, nada disto é possível, vem a culpa que se carrega em silêncio e se disfarça de “sins” e de lingerie nova e de jantar feito e de casa arrumada. A experiência de nos tornarmos mães, por mais que isso seja desejado e verdadeiramente apaixonante, é mais ou menos como ser abalroada por um camião em desgoverno, que nos despeja em cima um sem fim de caixotes cheios de informação variada, que é preciso digerir e arrumar devagarinho e a seu tempo, sem pressão. O sexo pode aqui não ser efetivamente o mais importante.

Depois do parto, a vagina da mulher não volta a ser o que era.
Os músculos do assoalho pélvico sofrem e alteram-se, não apenas devido à passagem do bebé, mas também devido ao aumento de peso da mãe e às inúmeras mudanças hormonais ocorridas. Esta é uma das questões que por vezes preocupa as mulheres (e os homens), ainda que isso não seja muitas vezes verbalizado. E a importância de falar sobre isto é tão pertinente que há mulheres que relatam que, após a episiotomia (incisão na região do períneo da mulher, realizada durante o período expulsivo), lhes tenha sido sugerida a possibilidade de realizar um ponto extra – “ponto do marido” que, pretensamente deixaria a vagina mais apertada, com o objetivo de proporcionar mais prazer ao parceiro durante a penetração. Ainda que na literatura científica esta prática não esteja devidamente sustentada e, sobretudo, não exista nenhuma justificação clínica para que a mesma pudesse ser sugerida, uma vez que o prazer sexual não está relacionado com o estreitamento da entrada da vagina, esta é uma questão que é referida por algumas mulheres, o que, a par da episiotomia não consentida, é considerado violência obstétrica. De facto, as mudanças ocorridas durante o parto não provocam alterações significativas e, com o passar do tempo e a recuperação natural do corpo, as mesmas são minimizadas, sobretudo pelo facto da vagina se tratar de uma região em que os músculos são elásticos e têm a fantástica propriedade de relaxar e contrair. Existem por isso, exercícios específicos para o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, como os exercícios de Kegel, que serão fundamentais a um maior bem estar e à prevenção de problemas como a incontinência urinária ou a dor durante uma relação sexual com penetração.

Depois de um bebé a relação amorosa nunca mais será a mesma.
O nascimento de um bebé e a experiência da parentalidade altera profundamente quem somos e a forma como pensamos a relação connosco e com os outros. Ter um bebé em casa, sobretudo nos primeiros tempos, altera toda a rotina familiar, interfere nos padrões de sono, implica um sem fim de reajustes e, sobretudo, assume muitas vezes contornos de uma verdadeira montanha russa emocional. Os silêncios, a falta de espaço íntimo, os medos relativos aos novos papéis, a falta de disponibilidade física e mental para o/a parceiro/a, podem efetivamente fazer mossa na relação. Tornar isto consciente, procurar partilhá-lo, sempre e quando nos for possível, e ser empático naquilo que o outro poderá estar a sentir, serão sempre ingredientes indispensáveis ao “surfar” da onda avassaladora de nos tornarmos mães e pais, sem perdermos de vista as mulheres e os homens que somos.

E se entre nós (vós) há um bebé, muitas vezes haverá também amor, amizade, companheirismo, cumplicidade, aceitação… E sempre que assim for, o bebé existirá e crescerá, na medida proporcional do amor que o gerou. Até ao fim dos tempos, ou até que o amor e o tempo, se transforme não naquilo que se esperava, mas naquilo que aconteceu.

E isso, pode ser bonito também.

Gestão emocional e padrões parentais.

Passou algum tempo desde o meu último texto.
Voltei ao tempo dos desafios maiores e com eles e apesar do cansaço, voltei a não conseguir parar a vontade, nem tão pouco a impedir que as ideias me desinquietem a alma e o corpo se ponha em sentido para as fazer nascer. Acho mesmo que não sei ser de outra maneira.

Foi com esta vontade que sonhei para a Lua o espaço “Diz quem sabe”, para que outras pessoas pudessem entrar e ajudar a refletir sobre temas relacionados com a parentalidade e o desenvolvimento infantil e adolescente, trazendo outras perspectivas, partilhando sonhos e projetos e, acima de tudo, crescendo em conjunto.

A Paula foi companheira de viagem nesta aventura de gravar a primeira entrevista do Pés na Lua em que, sob o mote da gestão emocional e dos padrões parentais, procurámos, de uma forma descontraída e muito próxima contribuir para tornar mais consciente o impacto que os modelos da nossa infância têm na relação com os nossos filhos, na certeza de que podemos sempre, enquanto pais, tornar as nossas escolhas mais equilibradas e adequadas ao que efetivamente pretendemos ensinar.

Hoje partilho contigo o resultado deste desafio que me obrigou também a receber e a aceitar algumas das minhas vulnerabilidades, sobretudo aquelas que a palavra escrita permite esconder. É com elas que aqui estou, cheia de “bengalas” no discurso, com a voz às vezes trémula e a certeza de que não perguntei tudo o que planeei perguntar, porque me entreguei me entreguei à conversa e deixei acontecer.

Com a Paula foi fácil e no final, ainda que esse momento tenha ficado só para nós, houve uma gargalhada sonora e cúmplice que só por ter acontecido, já fez tudo valer a pena.

Espero que gostes e prometo em breve trazer mais pessoas bonitas (e textos, porque continua a ser neles que me esqueço de tudo, e me encontro outra vez…)

Nota: Um agradecimento muito especial às gentes fantásticas da Tertúlia Algarvia que nos receberam de uma forma tão acolhedora e familiar e, claro, à equipa maravilha da BotodaCruz Creative Studio que fazem sempre acontecer magia por aqui. <3

O mérito, o valor e a excelência.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram no rosto o seu melhor sorriso e dançaram juntos ao som de Freddie Mercury, antes de sair de casa.

Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Tudo estava tão mais bonito, as flores enfeitavam o auditório, as luzes acesas iluminavam o palco, a toalha azul, a mesa de café e chá e uns rolinhos brancos com fita de cetim muito alinhados, faziam adivinhar o que de tão importante lá traziam escrito.

Todos se endireitavam, imponentes, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa de direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara lá estava. 

O mérito, o valor e a excelência ficaram envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada e os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes e por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam que os rolinhos brancos com fita de cetim haviam chegado ao fim.

“Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.

“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.

“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.

Um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Sim, era verdade, naquela escola viviam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.

“Ahãã…” avançou corajosamente alguém: “Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…”

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que por ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e juntos, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

“O passarinho engaiolado” – por Rubem Alves

Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida, o mínimo que se poderia dizer era que era segura e tranquila, como seguras e tranquilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos.

Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para bater suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguer que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da Ponte dos Suspiros.

Há aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa… Ó filhos, voemos pelo azul!… Comei!

É certo que a mãe do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer. Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!

Do seu pequeno espaço ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos seus vôos tranqüilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranquilizavam. Ele queria ser como os outros pássaros, livres… Ah! Se aquela maldita porta se abrisse…

Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!

Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas aguentariam. Elas não estavam acostumadas.

O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

— Ei, você! – era uma passarinha. – Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá… Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.

Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:

— Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego.

Pois, passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar…

O beijo dos sapos ou os sapinhos na boca.

Demorei algum tempo a chegar aqui. Muita tinta já correu, muito bitaite já se atirou, mas eu não consigo deixar de escrever sobre o assunto, como se as palavras pudessem ser uma espécie de purga, deste lado feio humanidade. Tão feio, que preciso, a todo o custo, sacudi-lo de mim.

Daniel Cardoso, pessoa, cidadão, professor universitário e com certeza muitas outras coisas interessantes que só a si, e aos seus, dirão respeito, teve a ousadia de dizer, num programa televisivo, em horário de telenovela, aquilo que há muito se sabe sobre auto determinação, consentimento e respeito pela integridade da criança.

Todos os programas de prevenção do abuso sexual infantil falam sobre isto: sobre a importância de ensinar, desde a infância, o respeito pelo próprio corpo, sobre a possibilidade incontestável, de dizer Não, sobre os limites do próprio, sobre os limites dos outros e ainda, e sobretudo, sobre afeto e relações interpessoais.

Há muito que se sabe disto. E não é preciso estudar-se o assunto ou trabalhar-se na área para se chegar a esta conclusão. Só é preciso alguma sensibilidade, dois dedos de testa e ser-se capaz de os usar para sair do próprio umbigo e para pensar para além da opinião fácil, que carregamos desde o tempo dos afonsinhos (e dos avós deles).

Só que não.

As pessoas indignaram-se, empunharam as armas bacocas e desataram a destilar ódio e a baralhar argumentos infelizes e infundados, com ataques violentos e pessoais, baseados em premissas carregadas de um preconceito atroz, vergonhoso e sobretudo assustador, num tempo de mundo com tanta coisa a acontecer, difícil de digerir. Somos mesmo uma espécie estranha. E só por isso, vale a pena que nos centremos nos factos que, neste assunto, é quase como ir a banhos:

Facto nº 1 – As crianças aprendem modelos de relacionamento humano através da observação dos outros e, sobretudo, dos outros que lhe são mais significativos. Não é preciso mandar fazer, basta ser e fazer, e a criança aprenderá.

Facto nº 2 – As relações de afetividade constroem-se com base na aceitação e respeito mútuos. Não é porque uma criança cumprimenta um adulto mediante coação, que a criança é “bem educada” ou aprende valores como o respeito ou o afeto. Pelo contrário. Forçar uma criança a um determinado comportamento, retira dessa ação toda a possibilidade de ensinar e deixa cair por terra a melhor das intenções. E mais grave ainda, apenas consegue ensinar a obedecer ao adulto, mesmo que essa obediência se coloque num contexto de abuso físico.

Facto nº 3 – A maioria das situações de abuso sexual na infância acontecem no seio familiar e é por isso importante que percebamos que, ao obrigar uma criança ao toque e ao beijo, só porque existe proximidade familiar e quando há manifesta recusa da própria, estamos também a ensinar-lhe que o seu corpo e a sua vontade não têm qualquer valor e que o afeto (forçado) é uma boa moeda de troca.

Facto nº 4 – Não é porque toda a vida se obrigaram as crianças a distribuir beijos indiscriminadamente, só porque sim (ou pior, para atestar a eficácia do adulto como educador), que devamos continuar a fazê-lo. Felizmente, olhamos cada vez mais para a infância, como uma etapa de vida fundamental a todo o desenvolvimento humano, com um potencial de aprendizagem incrível e uma capacidade de olhar o mundo e de o entender à luz do que é efetivamente importante, absolutamente inspiradora. Há muito que as crianças deixaram de ser vistas como tábuas rasas ou como adultos em miniatura e que o respeito pela sua integridade física e emocional tem de ser sempre o ponto de partida para qualquer reflexão que se faça sobre educação e sobre a infância.

E depois desta catarse muito minha, é ao Daniel, que eu agradeço. Por se ter esquecido da substância de quem o ouvia e por ter dito aquilo que há muito se sabe: Forçar uma criança a beijar seja quem for, é um ato de violência, que nada ensina sobre amor, respeito ou liberdade.

E só para terminar à altura de tudo o que eu já li por aí: Eu bem sei que sapos há muitos, agora se fossem acometidos por uma ligeira mononucleose (vulgo doença do beijinho)… aí sim, seria feita justiça.

…Que a comer bem, se cresce bem.

Conheço a Ana desde a minha infância.
Crescemos juntas no banco de jardim da praceta onde a minha avó morava e mesmo depois de alguns anos sem nos vermos, quis a vida que continuássemos a escrever a história, desta vez pela mão dos nossos filhos. E tem sido tão bom descobrir que o essencial não nos fugiu com os anos e que a empatia e o sorriso se mantêm de boa saúde e para ficar.

A Ana é nutricionista e a paixão pela alimentação e pela diferença que aquilo que se come pode significar no bem estar das pessoas, fê-la dedicar-se a tempo inteiro a um projeto pessoal que tem como missão ajudar as pessoas a tornarem-se mais saudáveis e mais satisfeitas com o seu peso e com quem são. Assim, para além das consultas de nutrição que assegura (a um valor atento às necessidades atuais e capaz de fazer chegar a todos e a todas a possibilidade de usufruir desse apoio), a Ana ainda é responsável pelo projeto Quintal Saudável, no qual nos brinda generosamente, com menus diários, cuidados e equilibrados, tendo como base a dieta mediterrânea e como premissas o sabor e a criatividade.

A Ana aceitou o meu convite e inaugura este nosso cantinho com algumas ideias pensadas para pais de adolescentes, relativamente à alimentação nesta fase de vida. Ora aproveitem muito, e já agora vão escolher uma receita boa para experimentar em família. 😉

Como deve ser pensada a alimentação na adolescência?

Alimentar-se de forma equilibrada e variada durante a adolescência é tão importante como em qualquer outra fase do crescimento. No entanto, muitas necessidades têm de ser supridas para assegurar o rápido desenvolvimento que acontece nesta fase de vida. Assim, podemos considerar que um dia alimentar saudável deve ser composto por 5 a 6 refeições – pequeno-almoço, meio da manhã, almoço, meio da tarde, jantar e, caso se justifique, a ceia, assumindo como regra que o intervalo entre refeições seja próximo das 3 horas/máximo.

Que dicas práticas podem ser úteis?

Devem ser evitados bolos, cereais muito açucarados, sumos/refrigerantes, croissants e folhados com cremes, pãezinhos com chocolate, leites achocolatados ou iogurtes com guloseimas incorporadas. Se os nossos filhos não gostarem de legumes ou saladas, desde que comam a sopa já não é problemático. Tentar colocar na sopa as verduras que normalmente são rejeitadas no prato, pode ser uma estratégia, por exemplo. O mesmo se passa com a fruta, quando a evitam, podemos tentar sugerir em batido com leite ou uma sobremesa com fruta triturada. É importante ter atenção aos sumos naturais que normalmente levam uma grande quantidade de fruta (+- 3 peças por copo) e são muito ricos em açúcar. São boas fontes de vitaminas e minerais, mas pobres em fibra, por isso podem ser oferecidos 1 a 2 vezes por semana.

Podes dar-nos um menu diário que consideres equilibrado nesta fase de vida?

Sim, claro. Existem muitas possibilidades mas estas podem ser algumas delas:

Pequeno-almoço: deve ser composto por um lacticínio ou substituto vegetal + cereais integrais com pouco açúcar/ pão escuro/ tostas + fruta

Exemplos: 

  • Leite + flocos de trigo integral tostados + banana
  • Leite + pão integral/ sementes + fiambre de aves + 1 kiwi
  • Iogurte natural + flocos de milho + maçã
  • Tostas integrais + queijo de barrar + 1 laranja
  • Leite + pão torrado + manteiga

Meio da manhã: pode incluir 1 peça de fruta + bolachas/ tostas integrais/ pão/ iogurte/ queijo/ frutos secos

Exemplos: 

  • maçã + bolachas de arroz/ integrais
  • iogurte + bolachas/ tostas integrais
  • fruta + iogurte
  • fruta + frutos secos
  • fruta + gelatina sem açúcar
  • palitos de cenoura + tostas integrais + queijo fundido
  • maçã + queijo flamengo + 2 nozes

Almoço: deve ser composto idealmente por uma sopa de legumes + segundo prato – com uma proporção correta dos alimentos ( ½ prato de vegetais + ¼ prato fonte proteica + ¼ prato fonte de hidratos de carbono)

Meio da tarde: deve ser constituído por derivado lácteo ou substituto vegetal + cereais/ pão / tostas + fruta.

Exemplos:

  • pão com queijo + fruta ou sumo natural de fruta
  • cereais integrais + leite/ bebida vegetal + fruta
  • pão com fiambre de aves + iogurte + fruta
  • batido de leite e fruta + bolachas integrais
  • tostas com queijo de barrar + tomate cereja + chá
  • pão torrado com queijo-fresco + fruta

Jantar: deve ser semelhante ao almoço.

Sabemos também que a alimentação desempenha um papel fundamental nos períodos de maior stress e exigência intelectual. Que sugestões darias de alimentos benéficos em período de exames, por exemplo?

Existem alguns alimentos que ajudam a melhorar a concentração e a memória, mas é necessário incluí-los numa base diária, e não somente em alturas de exames. Talvez o mais importante seja não os descurar nestas alturas mais exigentes do ponto de vista intelectual. Destaco os alimentos fornecedores de ómega 3 – salmão, sardinha, atum, cavala, óleo de fígado de bacalhau, sementes de chia/linhaça, nozes – necessário para o desenvolvimento do tecido cerebral; alimentos ricos em antioxidantes (frutos vermelhos, frutos secos, legumes e fruta em geral). E, porque a principal fonte de energia do cérebro são os açúcares, estes também têm um papel muito importante. Devem ser escolhidos os de absorção lenta – leguminosas, arroz, massa, batata, pão escuro, cereais integrais – que fazem com que os níveis de glicose no sangue se mantenham mais estáveis.

E em relação a uma das grandes preocupações atuais, a do apelo ao consumo de fast-food, que acaba por ser muito popular entre os mais jovens, como é que podemos contribuir, enquanto pais, para escolhas mais conscientes?

Sabemos que é difícil conseguir controlar tudo na alimentação dos nossos filhos, mas uma vez não são vezes, e desde que a exceção não passe a ser a regra, podemos permiti-los esporadicamente. É importante, no entanto, dar-lhes algumas dicas acerca das melhores opções – escolher água em vez de refrigerante, carne grelhada em vez de bife panado, evitar comer toda a porção das batatas fritas e dos molhos que as acompanham… e sempre, fazer em casa versões mais saudáveis e até, convidar os amigos, para comprovar o sabor!

E qual é o papel dos pais e da família no meio disto tudo?

O mais importante na alimentação das crianças e adolescentes (como em tantas outras coisas) é precisamente o exemplo que damos em casa. Os pais serão sempre modelos de vida e o exemplo contagia…ter disponível e comer regularmente sopa, acompanhar sempre o prato com uma salada (variando o máximo possível), escolher maioritariamente água como acompanhamento da refeição, evitar fritos e os cozinhados com muita gordura e privilegiar os pratos mais simples e coloridos.

Ah, e deixar que eles participem sempre na seleção dos alimentos e na preparação da refeição. Isto vai encorajá-los a provar os seus próprios petiscos. (e se a cozinha ficar um caos, será mais uma oportunidade para ensinarmos mais qualquer coisa e trabalharmos em equipa.) 🙂

Ana Leal

Contactos: 912735486
Email: info@analeal.pt
analeal.pt
quintalsaudavel.com

Coisas que devem começar a acontecer, antes que os teus filhos se tornem adolescentes.

Advertência: este texto pode conter propostas susceptíveis de provocar o pânico nos mais sensíveis. Estão, intencionalmente, misturadas com outras sugestões mais toleráveis, para que não provoquem aos leitores nenhum piripaque. Estamos prontos? 😉

No outro dia, num jantar com amigos, falávamos sobre a forma como os miúdos crescem hoje em dia. A reflexão levou-nos, claro, à memória dos nossos dias de adolescência e ao vangloriar das coisas que já fazíamos sozinhos aos 12 anos. Esta conversa trouxe-me a ideia de que efetivamente, por razões várias, são capazes de existir algumas diferenças significativas e que a forma como os protegemos (sempre com a melhor das intenções), pode ser impeditiva de uma maior autonomia.

Posto isto, acredito que existem tarefas/responsabilidades que, mesmo que aparentemente simples, poderão fazer toda a diferença na forma como se farão à vida. O mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Importa por isso pensar um bocadinho no nosso papel nesta tarefa, tornando mais conscientes as vezes em que lhes facilitamos a vida (não facilitando nada) e na forma de ajudar a desenvolver comportamentos que lhes farão toda a diferença no futuro:

Acordar por sua conta e risco. Não me lembro quando tive o meu primeiro despertador mas seguramente já o tinha bem antes de chegar à escola secundária. Conheço miúdos que aos 16 anos continuam ferrados à espera do toque no ombro, para se despacharem para ir para escola. Pode ser um despertar mais suave, mas não durará para sempre e impede que se responsabilizem pela gestão dos seus horários e compromissos pessoais. E o miminho pode sempre continuar a ser dado, com um abraço apertado de bom dia. Nada se perde, muito se ganha.

Fazer o pequeno almoço ou cozinhar uma refeição para a família. Chegar à mesa e ter, literalmente, a papinha toda feita é óptimo, mas não contribui para que aprendam a desenrascar-se sozinhos. Dar-lhes a tarefa de pensar num menu e confecioná-lo para a família, é uma excelente maneira de começar e eu aposto que eles vão adorar a confiança de serem chefes por um dia (ou vários).

Escolher a roupa (pânico!!!). Fundamental. A partir de uma determinada idade (geralmente 4/5 anos) eles próprios começam a pedir para o fazer e nós, gurus de moda experimentadíssimos, tendemos a torcer o nariz à conjugação do vermelho com o verde ou às galochas com o tutu purpurina. Borrifa-te no que vão achar se o teu filho quiser sair à rua vestido de spiderman em pleno verão. Ele está feliz não está? O resto é puramente acessório… Para além disso, se não experimentarem, não saberão como se sentem, o que por sua vez não lhes permite melhorar a escolha, de acordo com o seu próprio conforto e bem estar.

Arrumar a mochila. Organizar o material para o dia seguinte, escolher os livros, guardar a cartolina para o trabalho de grupo… são tarefas que lhes cabem a eles, por isso, nível de resistência máximo para as vezes em que percebas que, pela milionésima vez, se esqueceram de algo. Se calhar podem ter de descobri-lo sozinhos, quando chegarem à escola. No dia seguinte, o mais provável, é que o façam de uma forma mais atenta.

Fazer os trabalhos de casa sozinhos. É fundamental que os pais estejam próximos nestes momentos, mas estar próximo é andar ali por perto e não, sentarmo-nos com eles, do início ao fim da tarefa, quase a soletrar: “Vá, agora é a letra “p”…” Sempre que surja uma dificuldade, podes devolver-lhes a pergunta: “O é que tu achas que esta questão poderá querer dizer?” e, como quem não quer a coisa, estarás a ajudá-los a levantar hipóteses, para que sejam eles/as a chegar lá.

Ir a pé para escola ou ir buscar o pão à mercearia (pânico!!!). Esta é tramada eu sei, e claro que depende da distância e do contexto onde vivam. Mas se for possível, é importante que aconteça, mesmo que tenhas de vestir um fato de ninja e te vás escondendo atrás dos postes, para te assegurares que chegam em segurança. Os tempos mudaram mas é preciso desenvolver estratégias, que lhes permitam explorar, conhecer e não crescer no medo. Eles sentir-se-ão dignos de confiança e de certeza que vão estar à altura.

Tratar da própria roupa. A ideia de um adolescente que grita: “Mas eu queria aqueles calções para hoje e tu não os lavaste a tempo!!!” é algo que me dá um arrepio na espinha, sobretudo porque sei que acontece em casa de muitas famílias. E aqui te digo que a responsabilidade é toda nossa… Colocar a roupa para lavar, estendê-la, separá-la, arrumá-la, ajuda-los-á a cuidar de si e a perceber se o modelito escolhido está disponível ou não, poupando-se horas de desgaste familiar.

Resolver os seus problemas na escola. Claro que existem problemas e PROBLEMAS, mas o espírito de leoa/leão que incorporamos sempre que a nossa cria foi injustiçada na escola (por um colega ou por um professor, por exemplo), faz com que nos saiam as garras e saltemos em direção à fonte da questão. Muitas vezes, sem a necessária reflexão. E aqui, é mesmo fundamental respirar fundo e analisar em conjunto a questão, podendo até ajudá-los a pensar nas estratégias que considerem mais adequadas para assumir e enfrentar a situação. A vida é feita destas coisas, não te esqueças…

Andar de transportes públicos (pânico!!!). Podes fazer algumas viagens com eles e definirem ambos os passos mais importantes: comprar os bilhetes, pedir ajuda ao condutor se necessário, conhecer o percurso, tocar à campainha antes da paragem… E depois se tiveres preparação cardíaca para isso, deixá-los fazer um pequeno trajeto sozinhos para que testem as aprendizagens feitas.

Ir às compras. Fazer a lista do que faz falta em casa e ser responsável por assegurar que ao carrinho chega tudo aquilo que é necessário para a semana (e nada mais). Discutir com eles questões como a marca, o preço, a interpretação dos rótulos, as estratégias de marketing, deixá-los-á muito mais à vontade para as vezes em que tenham de gerir a sua própria despensa.

Falar com desconhecidos (pânicooooooooooooo!!!). Conheço um miúdo que um dia perguntou ao pai: “Mas se eu não posso falar com desconhecidos, como é que eu vou fazer amigos?” E é mais ou menos isto… A regra, à medida que vão crescendo e vão ganhando um maior discernimento, deve ser a de tentar distinguir os “desconhecidos seguros”, dos “desconhecidos estranhos”, sendo também fundamental a noção de espaço/ abordagem/limites para que os amigos se possam fazer.

Chegada ao fim destas propostas, confesso que sinto que este texto é uma espécie de “diz o roto ao nú”. Também eu tenho os meus dias e também eu cometo os meus pecados (como enfiar-lhe uma colherzinha de sopa na boca ou arrumar-lhe os brinquedos…), mas percebo que isso acontece, na maior parte das vezes, para me facilitar a vida a mim e nunca a ele. E só isto me basta, para parar, pensar e tentar fazer melhor da próxima vez.

Afinal, o mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.