O bom do Pai Natal.

Tenho uma relação agridoce com esta história do Pai Natal.

Acho que não gosto, mas acabo por provar e ir mastigando a coisa. Por mastigar entenda-se, embarcar no disparate. Sim, porque hoje em dia, mesmo que eu não quisesse abraçar o conceito de um senhor de barbas distribuidor de presentes, tal seria tarefa quase inglória.

O bom do senhor está mesmo em todo lado. É no supermercado, é na televisão, é na escola, é nos outdoors, é nos catálogos na caixa do correio… e eu, que até percebo que papar com a Lapónia o ano inteiro, deixe qualquer um entediado (e que por isso, este apelo natalício seja um espécie de libertação), continuo a achar que o rapaz podia ser um pouco mais comedido na auto propaganda.

Ora vejamos então, uma das mil razões porque é que esta tradição é tramada…

No ano passado, um dos desejos da criança aqui de casa era o camião da patrulha pata. Eu, mantendo-me fiel àqueles que são os nossos princípios enquanto família, achei que cobrar 100 euros por um camião de plástico, usando perniciosamente o facto do mesmo povoar o imaginário de todas as crianças entre os 3 e os 5 anos, era, no mínimo, imoral. E mantive o boicote ao camião da patrulha pata.

Na altura expliquei ao Manel que talvez o Pai Natal não conseguisse trazer aquele brinquedo porque era muito caro e era preciso distribuir os brinquedos (a riqueza) por todos os meninos. A coisa colou mas uns dias depois do Natal, acalmadas as hostes, ele veio ter comigo e perguntou porque é que o Pai Natal tinha trazido um camião tão caro a alguns dos seus amigos e a ele não. Eu, engoli em seco e improvisei a melhor resposta que consegui na altura.

Este foi um dos milhares de momentos em que me apeteceu acabar com a fantochada. Não o tendo feito, procuro não alimentar demasiado a coisa e vou falando no Pai Natal dos pais, do avô, da avó, dos tios… vamos vendo juntos os catálogos dos brinquedos que nos chegam a casa (e que lhe fazem os olhos brilhar) e vamos falando sobre os preços e sobre a sua relação com a qualidade ou interesse do brinquedo. E o Manel vai sendo capaz de fazer escolhas cada vez mais conscientes, o que a mim me faz sentir que estamos no caminho certo.

Ultimamente tem-me feito perguntas estratégicas do género: “Mas porque é que o Pai Natal está sempre com a mesma idade?”, “Mas como é que o Pai Natal entra nas casas que não têm chaminé?, “E porque é que nós raramente vemos o Pai Natal verdadeiro?”

E na vez em que me pergunta se o Pai Natal existe de verdade, eu respondo que há pessoas que acreditam que sim e outras que acreditam que não. Não consigo dizer-lhe outra coisa.

Posto isto, vou continuar neste misto de amargo doce, a deixar-me levar pela sua imaginação e pelo seu ritmo, neste caso, ainda tão conduzido pela melhor estratégia de marketing de sempre: um senhor barbudo, de ar simpático e bochechas rosadas, vestido de vermelho e branco, a beber uma coca cola fresquinha.

Felizmente, o Natal é tão mais do que isto.

Felizmente, eu tenho cá para mim, que ele começa a entendê-lo…

 

Quando a cenoura é a perfeição.

A Sofia tem notas excelentes. Está, desde sempre, no quadro de honra da escola e todos a têm como modelo. Descansa professores, é chamada a ajudar os outros, a dar a resposta mais acertada, a ver os seus testes usados como modelo de correção. Perfeito.

A Sofia não é motivo de preocupação. Conhece as melhores técnicas de estudo, abandonou a dança para se dedicar ao horário diário de exercícios e preparação para os testes e só sai de casa quando não aceitam as suas desculpas. Perfeito.

A Sofia respira, mas não vive e falta-lhe o ar sempre que o pior acontece: Errar.

E sempre que erra, a Sofia dá força à certeza de que não vale nada, de que nada em si será, alguma vez, suficiente e que nunca, nunca estará preparada para os desafios que tem de enfrentar. E com isto a Sofia sofre. Mas só por dentro, porque já se cansou de ouvir dizer: “Andas sempre nesse stress mas tens sempre as melhores notas da turma.” Perfeito.

Conheço cada vez mais alunos a sentirem-se assim. Acredito que, enquanto adultos e enquanto sociedade, temos muita responsabilidade nisto, na forma como os ensinamos a crescer e naquilo que lhes vamos exigindo ao longo do seu percurso escolar, tornando incrivelmente redutora e limitada a noção daquilo que é ser-se um bom aluno. O sistema em que que crescem é afinal um sistema que lhes grita constantemente: “Tu és aquilo que produzes!”

O perfecionismo manifesta-se de muitas formas que podem tornar-se um verdadeiro inferno para quem com ele se habitua a viver: pode ser a dificuldade, o adiamento ou a recusa em iniciar uma tarefa para a qual não se tenha resposta 100% segura, pode ser a insatisfação permanente face ao resultado alcançado, pode ser um ritmo de trabalho mais lento, de forma a não deixar escapar nenhum pormenor, pode ser o enfoque nos bons resultados dos outros e a luta constante para os superar e pode, sobretudo, significar um sofrimento desmedido sempre que a nota final fuja do número definido como meta, ou que um erro “perfeitamente desnecessário” aconteça.

Muitas vezes são alunos vistos pelos outros como altamente irritantes, armados em espertos, marrões e isso não contribui para o estabelecimento de relações sociais capazes de funcionar como verdadeiro escudo de proteção, face às vulnerabilidades sentidas.

Os alunos perfecionistas são, na maior parte das vezes, alunos preocupados, ansiosos, com baixa auto-estima e estratégias de coping pouco eficazes.

Saber disto, ajuda-nos a ser capazes de compreender e ajudar os nossos filhos e alunos, de forma a que se tornem progressivamente mais confiantes face aos sucessos e mais tranquilos perante os insucessos:

Aceitar o que estão a sentir e ser paciente.

É difícil ver os nossos filhos fazer uma tempestade num copo de água por causa de um resultado num teste ou de um engano num trabalho, assistir à sua insatisfação permanente e à constante busca da perfeição. É por isso fácil, deixar sair as palavras: “Que disparate. Isso lá vale a pena!”. Garanto que estão cansados de o ouvir. Seguramente sentirão que ainda são mais esquisitos do que pensavam, porque de facto ninguém os entende.

Nenhuma criança ou jovem escolhe ser prisioneiro do medo de falhar e da ansiedade de não cumprir a expectativa de si próprio. Todas as crianças e jovens, se pudessem, libertar-se-iam num abrir e fechar de olhos.

Um simples: “Eu sei que isto é difícil para ti e é por isso que vamos resolvê-lo juntos…” é suficiente para fazer sentir que compreendemos, que aceitamos e que estamos disponíveis para pensar o problema e encontrar soluções. Demore o tempo que demorar. E assim, mediante reflexão conjunta e questionamento das crenças pessoais, se torna possível reconstruir a forma como é pensado o (in)sucesso.

Acarinhar o erro como parte do processo.

Passamos a infância a estimular as crianças a serem vencedoras e o mais eficazes possíveis nas tarefas a que se dediquem. Valorizamos o pintar dentro do risco e dizemos que está mal quando a couve é pintada de azul. Aplaudimos, sempre que a atividade é concluída dentro dos padrões que nós próprios criámos, mas olhamos pouco para o esforço que é despendido pelo caminho.

Errar desenvolve competências tão importantes como a paciência, a tolerância e a persistência e isso é tão mais rico do que tudo o que se possa assemelhar à perfeição. Partilhar com os nossos filhos aquelas que são as nossas dificuldades e os erros que cometemos (bem como a aprendizagem que deles advém), torna-nos mais humanos e ajuda-os a perceber que no fim, o que verdadeiramente importa é orgulharmo-nos do percurso feito e saber que temos em nós o que é preciso para continuar a tentar.

Valorizar o esforço, muito mais do que o resultado.

Lembro-me sempre da história de uma aluna que, quando mostrava ao pai o 95% que tinha tido no teste, levava com a seguinte resposta: “Boa. Mas mais importante que o resultado no teste, é que tenhas dado o teu melhor.” E mesmo que esta não fosse a resposta mais desejada, para quem só queria ter a família inteira em ovação, era uma resposta que servia aos 95%, assim como serviria aos 59%, cabendo nela a ideia que não é a nota num teste que define o aluno, mas sim o esforço, a dedicação e a capacidade de arriscar, que seja capaz de imprimir a cada desafio do seu caminho académico.

E aqui o nosso papel torna-se ainda mais importante, sobretudo porque desde o momento em que os nossos filhos entram na escola e ao longo de todo o seu crescimento, tentarão vender-lhes a ideia de que o seu mérito enquanto pessoas dependerá, em primeira instância, dos prémios, das menções honrosas, dos certificados, dos louvores que consigam arrecadar, transformando a fantástica aventura de aprender numa corrida desenfreada em direção ao pódio.

Estarmos atentos, enquanto pais, a cada conquista feita no atingir de um determinado objetivo ajuda a redirecionar-lhes o olhar e a torná-las parte fundamental da aprendizagem: “Adoro ver-te entusiasmado a ultrapassar os problemas.” ou “Reparei que arriscaste em dar a resposta, mesmo não tendo a certeza. Que bom!”, constituem palavras de alento que contribuirão também para que entendam o valor do esforço e da persistência, mais do que o resultado que dele advenha.

Viver na senda da perfeição é difícil. Porque nos atrasa, porque limita a capacidade de resposta ao imprevisto, porque nos angustia, porque nos faz sentir incapazes, porque nos incita à comparação com o outro, porque nos cristaliza o olhar no resultado final e com isso nos faz perder tanto do que pelo meio acontece.

Viver na senda da perfeição será, muitas vezes, um caminho infeliz, simplesmente porque a perfeição não existe.

E é por isso tão vital ensinar a amar os desafios, a aceitar os erros e a procurar na cenoura, o valor do esforço e o crescimento da aprendizagem constante.

A carta que agora me apetece.

 

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas, para educar as crianças que por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.

O mérito, o valor e a excelência.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram no rosto o seu melhor sorriso e dançaram juntos ao som de Freddie Mercury, antes de sair de casa.

Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Tudo estava tão mais bonito, as flores enfeitavam o auditório, as luzes acesas iluminavam o palco, a toalha azul, a mesa de café e chá e uns rolinhos brancos com fita de cetim muito alinhados, faziam adivinhar o que de tão importante lá traziam escrito.

Todos se endireitavam, imponentes, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa de direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara lá estava. 

O mérito, o valor e a excelência ficaram envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada e os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes e por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam que os rolinhos brancos com fita de cetim haviam chegado ao fim.

“Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.

“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.

“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.

Um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Sim, era verdade, naquela escola viviam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.

“Ahãã…” avançou corajosamente alguém: “Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…”

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que por ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e juntos, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

A mais honrosa missão do mundo.

Acredito que a escola é um lugar de todos e um lugar para todos.

Quando a penso, penso-a enquanto espaço comunitário, de crescimento, de construção e aprendizagem conjunta, com a participação ativa e envolvida de todos os que têm a capacidade de a transformar: alunos, pais, assistentes operacionais, educadores, professores, técnicos. Cada um tem o seu papel e cada um terá, na mais firme certeza, contributos importantíssimos a dar, em nome da mais honrosa missão do mundo e que à Escola cabe: Educar.

E ainda que todos saibamos disto (uns mais do que outros), há escolas que ainda se fecham aos pais, há pais que ainda recusam abrir-se à escola, há funcionários que ainda acham que a sua opinião não conta (porque há quem nunca pergunte por ela), há professores que acreditam que a sua tarefa se encerra nas páginas do manual da disciplina que ensinam. E depois há os miúdos, esses, que depressa tiram a pinta aos adultos que, perdidos no meio das regras e dos números, vão tratando de transformar a escola num lugar inerte, de passos e caminhos contados, tantas vezes assustadoramente limitados, no pensamento, nas portas fechadas, nos horários, nas mesas arrumadinhas em fila.

E à medida que os meninos vão crescendo em tamanho, a comunicação vai deixando de existir, deixamos de saber os nomes dos funcionários, os carros limitam-se a parar ao portão de manhã e ao cair da noite, as festas já não se fazem, as reuniões de pais têm cada vez mais cadeiras vazias…

A Escola vai perdendo assim a sua essência e afasta-se da mais honrosa missão do mundo, aquela que ela lhe caberia, se tudo estivesse no seu devido lugar e se misturasse, muitas e muitas vezes, para crescimento de todos.

Hoje assumi o compromisso de integrar a equipa da associação de pais da escola do meu filho. Se me vai dar um trabalho do caraças? Vai. Se vai valer a pena? Vai. Se quero que a Escola mude? Quero. E vou lutar a cada instante para que a mudança aconteça e se construa positiva, refletida e sempre, sempre partilhada.

É isto afinal que eu quero que ele mais aprenda: que cá dentro mora o sonho de que o mundo se pode tornar num lugar melhor e que a transformação bem pode começar no chão da Escola, com a participação de todos os que dela fazem espaço de Ser, espaço de Educação.

O tipo de amor que dói.

A Sara saiu a correr da sala. Quis ser a primeira a chegar ao bar. Nem teve tempo de anotar as dicas do professor de Filosofia para o teste do dia seguinte. O João detestava estar na fila e era dela a tarefa de assegurar que isso não acontecia. “Sim, é a tosta mista de sempre. Bem tostadinha, como ele gosta…”

O Sérgio idolatrava a Inês. Há séculos que andava atrás dela. Finalmente tinha conseguido que olhasse para si e há algumas semanas que saíam juntos. A Inês dizia-lhe que tinha potencial, mas que se queria estar com ela, havia coisas que tinham de mudar. O cabelo, a música que ouvia, a forma de falar, até as tardes de jogos de xadrez com os amigos de sempre. “Não posso deixar que pensem que ando com um totó”. O totó era ele, mas se calhar ela tinha razão.

A Bia adorava pessoas. Tinha amigos em todo o lado e nunca lhe faltava programa. Quando conheceu a Marta, achou que era amor para a vida toda. Uma cumplicidade única, a gargalhada sempre a saltar da boca. A forma despreocupada de encarar a vida. Já andavam há 6 meses e a Marta começou a achar que precisavam de mais tempo para estar juntas. “Um amor a sério não precisa de mais ninguém”. A carteira da sala era a mesma, a mesa na cantina encostada à parede também, os dois bancos no cinema, o único número de telefone… As amigas já não ligavam, a Bia estava uma “cortes” e já não havia nada a fazer.

O Paulo já tinha tido relações sexuais. Para a Ana, era a primeira vez. Falaram sobre o assunto, mas ela ainda não estava bem segura se o passo seria para já. Num dos dias em casa do Paulo, as coisas aqueceram e a Ana achou que sim. Quando tiraram a roupa interior, ele tentou penetrá-la e ela empurrou-o: “Espera. Não sei se quero.” Fingiu não a ouvir, disse-lhe que isso não se fazia a um gajo e que agora era para ir até ao fim. A Ana não se lembra de mais nada, só das lágrimas a aquecerem-lhe a pele e da sensação de sonho desfeito. Assim que pôde, levantou-se, vestiu-se e saiu. Nunca mais o viu.

A Inês já o tinha avisado: “Se me deixas faço-te a vida negra.” O Tiago sabia do que ela era capaz, mas já lhe bastava um ano inteiro de cenas à frente de toda a gente, discussões constantes, insultos. Nem sabia como é que tinha aguentado tanto tempo. Os amigos ajudaram-no a ganhar coragem e o Tiago disse à Inês que ficavam por ali. A calma dela surpreendeu-o, deu-lhe um abraço e seguiu caminho. No dia seguinte, ao entrar na escola, sentiu as risadas à volta, o burburinho, os olhares… Valeu-lhe o Pedro que o agarrou e lhe disse: “Meu, não te passa as coisas que a Inês anda a dizer de ti na net. Até um vídeo vosso na curtição lá anda…”

São estas. São outras. São muitas.
Infelizmente, conheço algumas.

Infelizmente sei que o tipo de amor que ensinam é amor que dói. É amor que acredita que o ciúme apimenta a relação. É amor que só precisa do outro para ser feliz. É amor que sabe que o sofrimento e as lágrimas o tornam mais forte. É amor que acha que há coisas tão íntimas que não devem ser partilhadas com mais ninguém. É amor que às vezes perde a cabeça, mas que só queria ajuda para mudar.

É amor que não mata mas mói. Ou melhor, é amor que pode matar.

E é preciso que todos saibam disto, que todos se metam no assunto, que agarrem a mão que ainda está livre e que esperem que a outra se liberte.

É preciso que o façamos. Sempre. As vezes que forem necessárias.

A violência no namoro é crime público e alimenta-se de todas as vezes em que fechamos a boca e olhamos para o lado: “Eles lá sabem entender-se…”

Não, eles não sabem. E há ainda quem não queira ser amado assim…

 

P.S – Um em cada quatro jovens portugueses são vítimas de violência no namoro. Podem ser os teus filhos, os teus amigos, os teus vizinhos… É por isso fundamental valorizar o assunto e saber mais (podes fazê-lo aqui), partilhando e refletindo a informação com eles.

Ansiedade nos testes. A nossa tarefa.

Já por aqui falámos no impacto que a ansiedade pode ter nos jovens, transformando os momentos de avaliação numa verdadeira dor de cabeça, capaz de os impedir de enfrentar de forma mais positiva e saudável, os desafios com que lidam em contexto escolar.

E tal como existem estratégias que lhes podem facilitar a vida, ajudando-os a lidar de forma mais adaptativa com o stress, também nós, como em tantas outras situações, podemos ter um papel fundamental nos momentos que antecedem os testes e nos momentos que a eles se seguem. Vejamos como:

Aprender com eles. Uma óptima maneira de testar as aprendizagens feitas é deixá-los explicar-nos os conteúdos que tenham estado a trabalhar, ou fazer-lhes perguntas e deixar que respondam por palavras suas;

Não insistir demasiado com afirmações como: “É só mais um teste…” ou “Não te preocupes tanto!”. A intenção é boa e até pode ser tranquilizadora para alguns, no entanto, quando eles se preocupam demais, pode fazê-los sentir que não compreendemos o que sentem. Quando assim é, é preferível lembrá-los de outras situações semelhantes pelas quais já passaram e a forma como conseguiram ultrapassá-las;

Pensar em conjunto algumas estratégias que possam apoiar no momento do teste, e treiná-las: respiração mais consciente e profunda, pensamentos tranquilizadores e promotores da auto-confiança; leitura atenta dos enunciados, gestão do tempo e das respostas (passando à frente as questões mais difíceis para voltar a elas mais tarde, por exemplo);

Pô-los a dormir. Não, não se trata de os “sedar”, mas sim de garantir que têm uma boa noite de sono. Deitarem-se tarde e estudarem intensivamente na véspera do teste apenas alimenta a ansiedade e contribui para uma maior insegurança, sempre que percebam que há conteúdos que não dominam tão bem. Um banho quente, uma refeição tranquila e um pouco de conversa em família antes de dormir, podem ser boas ajudas, para que consigam relaxar e ter um sono mais reparador, que deixe o cérebro preparado para dar o seu melhor no dia seguinte;

Encorajar a reflexão sobre o processo: “O que funcionou? O que não funcionou? O que é poderias ter feito de diferente?” Ajudar a pensar sobre a forma como se preparam para o teste e como se organizam na hora H, pode contribuir para que sejam capazes de identificar comportamentos a alterar ou pelo contrário, valorizar outros como estratégias eficazes e portanto, a manter.

E por último, e talvez a ideia mais importante a transmitir-lhes: “Tu não és um resultado num teste ou num exame e o teu valor vai muito mais para além disso.”

Terem a certeza de que sabemos disto, contribui para fazer crescer a força que lá dentro empurra para a frente e faz crer, que mesmo que a vida não seja perfeita todos os dias, é em nós que mora o sol capaz de nos guiar por muitas e muitas conquistas.

A revolução que lhes devemos.

O planeta aquece, as espécies extinguem-se, os robots assemelham-se a humanos e nós continuamos tremendamente enganados, neste caminho de achar que ensinamos as crianças a amar a natureza, explicando-lhes para que servem as cores do ecoponto ou dizendo-lhes para poupar a água que lhes cai, milagrosamente, da torneira.

Enquanto lhes construirmos recreios de betão, enquanto circundarmos de arame as árvores para que não lhes trepem, enquanto lhes comprarmos os legumes e as frutas já lavados e cortados num saco de plástico, enquanto os levarmos ao jardim zoológico e ao circo para que se divirtam, enquanto lhes pusermos televisões no quarto, impedindo-os de entender que a vida lá fora é tão mais interessante… enquanto lhes fizermos isto e tantos outros disparates mais, estaremos longe de resgatar aquela que é a sua essência.

A revolução que é verdadeiramente necessária, não acontecerá nunca dentro de quatro paredes, nem tão pouco precisará de computadores.

Esta de que falo, e que acredito ser a única capaz de salvar o mundo, precisa de crianças sem medo de mexer na terra, precisa de miúdos a desejar o cheiro do mar bravo de inverno, a procurar o sabor doce dos figos acabados de apanhar, a saber porque é que os cucos não fazem ninhos ou a conhecer a idade de uma árvore, pelos anéis que traz desenhados no tronco.

Precisa, enfim, de gente que sinta na pele o privilégio que é estar vivo e que saiba que existem coisas tão mais importantes do que o nosso umbigo ou o nosso conforto. Afinal, o sol nasce e põe-se todos os dias, porque é assim que deve ser e assim será, para além da nossa existência.

Era esta, só esta, a minha mais honrosa missão. E eu estou ainda tão longe de ta ensinar como mereces.

Perdoa-me meu amor e eu prometo-te não desistir. Ainda não…

 

P.S – Esta é a Sophia. E é ela que materializa a revolução que mais temo.

ansiedade no estudo

A ansiedade face aos testes. O desafio deles.

Este assunto preocupa-me. Mesmo.
Porque tenho clara noção de que a eles os preocupa. Muito.
Porque sei que a ansiedade face aos testes pode transformar o seu percurso escolar num verdadeiro inferno, minar-lhes a autoconfiança e com isso bloquear a capacidade de pensar o sucesso pessoal como a conjugação de múltiplos fatores, que não apenas os relacionados com a nota num exame.

Cada vez mais me deparo com situações de alunos que têm verdadeiro pavor aos momentos de avaliação, sejam eles testes, seja a apresentação de trabalhos de grupo, sejam exames nacionais.

Corre entre eles a ideia que estes momentos vão decidir o rumo das suas vidas, que falhar uma batalha é perder a luta e que não há margem para negociações, nesta corrida desenfreada pelo melhor resultado.

A ansiedade pode manifestar-se a nível físico, cognitivo e comportamental, com impacto importante na capacidade do adolescente em gerir adequadamente os momentos de maior pressão e desafio.

Esta incapacidade pode materializar-se, por exemplo, em comportamentos de evitamento e de procrastinação na preparação dos testes, bem como em dificuldades em gerir o tempo e em evocar a informação (as conhecidas “brancas”) durante a realização do mesmo. Para além disso e como “um mal nunca vem só”, são frequentes os pensamentos negativos e quase catastróficos: “Vou chumbar” ou “Nunca vou ser capaz de ultrapassar isto”, que em nada contribuem para a autoconfiança.

Reconhecer o impacto da ansiedade no bem estar psicológico dos jovens e, consequentemente, no seu sucesso académico, pode ajudar-nos a nós, pais e professores, a refletir sobre aquelas que poderão ser estratégias importantes no ultrapassar das dificuldades:

adequada gestão do tempo, evitando o estudo intensivo na véspera dos testes, que apenas contribui para que se sintam mais cansados (interferindo com a qualidade do sono) e ainda mais nervosos;

recurso a técnicas de estudo, adequadas às diferentes disciplinas e o esclarecimento de dúvidas que possam surgir durante este processo;

tomada de consciência dos pensamentos automáticos e negativos, frequentes nestas situações e a sua substituição por outros, mais positivos. Ex: “Vou dar o meu melhor e vou ficar contente com isso”, em vez de “Isto vai correr mal e eu vou ter negativa”;

adopção de técnicas como o relaxamento muscular progressivo e a respiração profunda, que podem ajudar a desenvolver uma maior consciência corporal e a acalmar as manifestações físicas da ansiedade, para um nível em que se tornem mais fáceis de gerir;

prática de exercício físico e a realização de atividades que proporcionem prazer e ajudem a libertar as tensões diárias. É importante por isso enquadrar estes momentos na agenda semanal;

reflexão sobre os resultados obtidos, que ajude a integrar o insucesso como parte do processo e como uma oportunidade de aprendizagem e crescimento individual. Ex. Se o teste correu menos bem, é importante perceber se existem comportamentos que devam ser alterados (antes e durante o teste), para que sintam que é sua, a capacidade de superar as dificuldades na próxima oportunidade.

E finalmente, mas não menos importante: falar sobre o assunto.

E aqui o papel dos amigos e da família é, mais uma vez, fundamental.
Para que se sintam apoiados e compreendidos, naqueles que são os seus desafios, os desafios de um mundo centrado na competição e no resultado, que todos os dias os põe à prova, e que pode, naturalmente, ser sentido como extraordinariamente assustador.