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“Pedrinhas” para o caminho…

Eu sei… Às vezes tens a sensação que os teus filhos foram levados durante a noite por uma nave espacial e voltaram no dia seguinte, sob a pele de uma qualquer espécie alienígena. E isso não é fácil. Nem para ti, nem para eles, que estão ainda a aprender a readaptar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.

No desafio constante de ajudar os filhos a crescer, o importante não é que sejamos pais perfeitos (isso são histórias da carochinha), mas sim que nos lembremos disso todos os dias e não deixemos nunca, de tentar trazer à tona aquilo que em nós existe de melhor, na consciência de que isso lhes será sempre inspirador.

Tal como não existem pais perfeitos, também não existem respostas mágicas que caibam a todas as famílias da mesma forma, mas existem “pedrinhas” que lançadas no momento certo, podem ajudar a encontrar caminhos mais positivos e afetivamente significativos, capazes de transformar as crises da adolescência em verdadeiras janelas de oportunidade. Atrevo-me a “atirar” algumas…

Conhecer o que os apaixona. Se na infância a coisa até é fácil porque eles tendem a idolatrar-nos e a mostrar interesse por tudo o que fazemos, uma maior maturidade traz, na adolescência, o desejo de construir significados próprios e de fazer escolhas pessoais. Pode ser a música, pode ser a tribo de pertença, pode ser o desporto…o importante é que sintam que queremos saber mais sobre aquilo que os move e os motiva. (Nota: não tens de pintar o cabelo de roxo neste processo de identificação);

Assobiar para o lado. Há coisas que simplesmente não precisam de ser transformadas em cavalos de batalha. Ainda que o gosto com que escolhem a roupa seja questionável ou que a paixão desenfreada pelo Justin Bieber nos pareça disparatada, estas experiências fazem parte da sua individualidade e devem ser respeitadas. É importante que a nossa autoridade se reserve para as situações em que o seu bem estar ou a qualidade da relação connosco ou com os outros é colocada em causa. Dizer “não” constantemente, só porque sim, banaliza-o e pode interferir com a honestidade com que nos procuram;

Alimentar as relações com outros adultos próximos. Mesmo sabendo que existe em nós o desejo (pouco assumido) de sermos sempre os seus únicos confidentes, é fundamental que sejamos capazes de estimular relações de confiança com outras pessoas. Tios, irmãos mais velhos, professores, poderão desempenhar um papel de suporte extremamente protetor, permitindo-lhes partilhar dúvidas e anseios, sem o medo de que lhes dê um treco (como a nós certamente daria…);

Deixá-los falhar. A vida às vezes é dura e a resiliência é talvez a competência mais valiosa que lhes podemos ensinar. Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, estaremos a impedir que desenvolvam as estratégias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem. Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da capacidade tolerância à frustração e da autonomia, tão importantes na idade adulta;

Estar por perto. Deixá-los sentir o sabor de uma decisão pouco refletida, não significa afastarmo-nos deles. É importante a noção de que todos cometemos erros e que o amor que nos une será sempre mais forte do que os desvios mais atribulados. Possamos sempre falar sobre o assunto e avançar.

E da mesma forma, é fundamental que cresçam na segurança de que nos orgulhamos das suas conquistas e que estaremos sempre na bancada da frente. Envolvidos, entusiasmados, apaixonados. Por quem são e por tudo aquilo que serão capazes de fazer. Como se voltássemos ao momento dos primeiros passos, do primeiro sorriso…

Créditos da imagem: Lília Nunes Reis, porque em família não há fórmulas mágicas mas há momentos que o são e assim, nos transcendem… Obrigada, Lília.

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O mito dos bons pais.

Ontem deitei-me outra vez a lamentar-me das vezes em que podia ter sido melhor mãe. Revivi as cenas, uma por uma, pensei-lhes outros cenários e cheguei a imaginar-me outra, capaz de ter dado ao meu filho a resposta feliz e atenta de que era tão merecedor. Ontem deitei-me outra vez agarrada à ideia que eu própria construí daquilo que é ser-se boa mãe. E hoje de manhã ele voltou a saber olhar-me e sussurrou-me ao ouvido: “Gosto tanto de ti mamã…”

É por isso por nós (e sobretudo por eles) que hoje proponho “despir” os bons pais de todas as boas intenções. Essas, que sorrateiramente nos vão atrapalhando o caminho… 😉

Os bons pais já nascem ensinados.

Quando um filho nos nasce, nasce-nos pela primeira vez e é com ele que (re)nascemos também. Não só como pais ou como mães, mas também como pessoas. E ainda que outros já nos tenham nascido ou que outros se lhes sigam, cuidar de um filho (daquele filho) será sempre uma experiência única, que exigirá de nós a humildade da certeza de que muito está ainda por aprender, por melhorar, e por construir. Não esquecendo nunca que cada um de nós o fará de uma forma muito própria, à luz das coisas que nos façam bater o coração e dos desafios e aprendizagens que cada filho nos exija.

Os bons pais sabem sempre o que fazer.

A parentalidade é um caminho cheio de curvas, de socalcos, de bancos para recuperar o fôlego, de vias rápidas e de atalhos desconhecidos, que por vezes nos desconcertam e em tantas outras nos permitem maior segurança. A parentalidade é tudo isto mas não é, nunca, algo que se aprenda nos manuais de procedimentos à boa maneira das viagens de aviões: “Ora agora coloque o colete de salva-vidas. Ora agora insufle-o. Ora agora respire a partir da máscara de oxigénio…” Bom seria. Ou talvez não… A parentalidade é uma aprendizagem constante, sem respostas certeiras e em que os aprendizes (pais e filhos) são os atores principais e criativos argumentatistas, capazes de dar luz e cor e emoção ao guião, construído (e reconstruído) vezes sem conta, a cada passo dado.

Os bons pais não sentem culpa.

Sentem pois. E arrependem-se. E martirizam-se. E sofrem, sobretudo com o peso duro das expectativas dos outros. É a culpa de não terem agido assim ou assado, é a culpa de terem perdido a cabeça, é a culpa de não passarem tempo suficiente com os filhos, é a culpa de não terem percebido mais cedo que alguma coisa estava a acontecer na escola, é a culpa de terem sono, de comerem chocolates às escondidas, de estarem de folga e deixarem o filho na escola apenas e só porque querem ter um dia de crescidos… A culpa, a maldita da culpa, que rouba tempo e exige, insaciável, a perfeição sem fim. A culpa não é boa aliada dos pais, mas existe, chateia e é preciso falar sobre ela e sacudi-la dos ombros com energia e vontade. Só assim lhe retiramos a força e ganhamos espaço para ser pais e, sobretudo, humanos.

Os bons pais sabem sempre o que os filhos precisam.

As crianças não trazem manuais de instruções e ainda que às vezes algumas dicas práticas nos deem um jeitaço e nos ajudem a pensar em formas alternativas de resolver as situações/dilemas com os quais nos vamos deparando, isso não quer dizer que funcionem sempre. Para se saber o que uma criança precisa, é preciso, tantas vezes, desaprender tudo o que pensámos ou ouvimos, ou ainda tudo aquilo que nos disseram e experimentar outros caminhos, ainda que audazes ou pouco testados. Para se saber o que uma criança precisa é preciso sobretudo aprender a ouvi-la, olhá-la nos olhos e tocar-lhe no coração, deixando que o nosso se abra, e sinta também.

Os bons pais não mimam demais os filhos.

A experiência amorosa familiar é o primeiro contacto da criança com o maravilhoso mundo dos afetos. É ela que lhe permitirá amar os outros e ganhar coragem para se lançar em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite entender a Casa (lugar no coração dos pais) como porto seguro, onde pode mostrar-se sem filtro e sem disfarce, a quem tem por ele um amor sem fim, capaz de resistir a todos os lados lunares. Os pais podem (e devem!) mimar muito os filhos e não é por isso que deixarão de balizar aqueles que são os seus comportamentos e de ensinar, com a doçura e a paciência necessárias, as coisas mais importantes, para que se tornem gente a saber mimar os outros.

Os bons pais satisfazem sempre primeiro as necessidades dos filhos.

Voltando à analogia das instruções de segurança dos aviões, há uma razão pela qual a tripulação sugere que o colete salva-vidas seja colocado primeiro ao adulto e só depois à criança: para cuidarmos do outro, é preciso que estejamos cuidados. A parentalidade está carregada de desafios, muitos deles capazes de alterar o padrão de satisfação de necessidades básicas como as do sono ou da alimentação adequada, ou a prioridade dada às necessidades sociais ou amorosas. Em nome dos filhos, os pais anulam-se vezes demais e acabam por deixar para depois atividades ou experiências, capazes de lhes proporcionar bem estar e satisfação pessoal, premissas fundamentais para ensinar os filhos a quererem, um dia, cuidar-se também.

Os bons pais gostam sempre de ser pais.

Existem mulheres e homens que preferiam não ter sido pais. Existem mulheres e homens que não gostam de ser pais, mas isso não significa que não gostem dos filhos. Significa apenas que, por variadíssimas razões, tiveram de assumir um papel com o qual não se identificam, que sentem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido. Não há com estes pais nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-los, constantemente, do sacrilégio em que não vivem. Existem pais que não amam de paixão sê-lo, mas que ainda assim, sabem amar como ninguém os filhos que os tornaram em tal.

Os bons pais não erram.

Os bons pais erram a vida inteira. Tal como as boas pessoas fazem, só por serem pessoas. O que os bons pais trazem dentro de si (que é o que lhes permite serem verdadeiramente bons), é a capacidade de olhar para os tropeços e enganos como parte desejável da caminhada e deixar que a consciência e a aceitação os transformem para sempre e permitam reparar, com pó de ouro e de amor, cada “lasquinha” acontecida.

Os bons pais não existem. Existo eu, existes tu… e se o somos é porque um dia alguém nos olhou como ninguém e nos viu como os melhores do mundo. Imperfeitos e insubstituíveis. Até ao fim dos tempos…

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As pessoas crescidas.

Passo a vida a deliciar-me com a beleza das palavras dos outros e a espantar-me com as coisas grandes que me ensinam e que, ainda que complicadas, se tornam simples, pela forma sentida como alguém as soube contar.

Hoje, voltei a reencontrar um livro de que gosto muito e aproximei-me outra vez das pessoas pequeninas (crescidas por dentro, mas não em tamanho) e de tudo o que tão sabiamente lêem na alma das pessoas adultas:

“As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da minha mãe… Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia nelas era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes no mundo: os bichos de seda e os guarda-chuvas de chocolate. Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaro. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza… não sei se sou crescido.” 

E assim, na história reencontrada no Livro de Crónicas do fabuloso António Lobo Antunes, voltei a pensar que também eu não sei se sou crescida.

Se calhar sou, nas contas que pago, nos horários que cumpro, na tristeza que já trago no olhar, na frustração que me assalta nas vezes em que sinto que já não me maravilho como antes, na fartura da rotina, no desejo constante de não me desviar do que é verdadeiramente importante na vida…

Se calhar sou. Vezes demais.

Mas depois ele vem, saltita à minha volta, tira-me tudo do lugar, chama-me vezes sem conta: “Oh mãe, anda cá ver isto!, desenha naves espaciais capazes de sair do papel e levar-nos aos dois até à lua, dá gargalhadas sonoras, transforma-me o chão da sala numa cidade para super-heróis, recorta máscaras de homem peixe, com barbatanas e tudo e vem tirar-me a mão do teclado para me dizer: “Vá, anda daí, está na hora de jogarmos um jogo.”

E é nestes momentos que eu volto a sentir que afinal talvez ainda não seja assim tão crescida e prometo a mim mesma que na próxima ida ao supermercado vou trazer dois guarda-chuvas de chocolate que comeremos juntos, no meio das almofadas que todos os dias atiras para o tapete.

Afinal, de bifes tártaro está o inferno cheio.

P.S – Se tal como eu te encantaste com as palavras de Lobo Antunes, podes ler este e outros textos aqui.

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Entrevista: O papel da família no desenvolvimento vocacional dos filhos.

Há uns meses atrás, a convite do Programa Uma Janela Aberta à Família, estive à conversa sobre a importância da família no desenvolvimento vocacional dos filhos.

A experiência diz-me que sempre que nos envolvemos de forma intencional e refletida no percurso escolar e profissional dos nossos filhos, construímos pontes de diálogo e de comunicação, que se revelarão insubstituíveis nos momentos de maior desafio. Fazê-lo com consciência, afetividade e empatia, traz-lhes a força que precisam para fazer todas as escolhas. De cabeça erguida e coração ao alto.

P.S – Vale a pena conhecer este projeto iniciado em 2007, que assume como honrosa missão, apoiar e esclarecer as famílias, através da abertura de uma “janela” de comunicação sobre parentalidade, saúde materno infantil e promoção de hábitos de vida saudáveis. Foi para eles que escrevi o meu primeiro texto, e é esta família que trarei também para sempre no coração.

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Quando eles preferem morrer…

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas.

Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

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Mais amor, por favor.

Li esta frase há uns anos, escrita a giz, na parede de um restaurante. Nunca mais a esqueci. Tenho memória aguçada para a origem das coisas que me mudam por dentro e tendo a trazê-las na bagagem, como se me preparasse para os momentos em que se tornarão bússola, ou paraquedas.

O amor que marca o vínculo que desenvolvemos com um filho é diferente de todos os outros tipos de amor.

É diferente porque é forte, porque é irresistível, porque é inabalável e porque dura para lá da nossa existência, para lá de quem somos, transformando-nos irremediavelmente. É diferente ainda, porque é incondicional: Não deixaremos de gostar deles, nem eles deixarão de gostar de nós. No matter what.

É esta certeza (e sobretudo este sentir), que lhes permite ir mais longe, pisar o risco, ganhar coragem para se lançarem em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite que se mostrem sem filtro e sem disfarce, a quem tem por eles um amor sem fim, que resistirá sempre, a todos os lados lunares.

E é por isso que quando me perguntam qual é o ingrediente mais importante para ajudar a crescer uma criança, eu respondo, a cada dia mais convicta: “É o amor”.

E é por isso que quando me perguntam qual é a solução para um determinado desafio na relação com os filhos, eu respondo, antes de qualquer outra coisa: “É o amor”.

Até aqui, nada de novo. O mundo há muito que sabe que o amor por um filho é incondicional e à prova de tudo. O problema está, nas vezes em que o mundo acha que este amor pode ser usado para moldar, para gerir, para manipular e para dosear, sempre que o comportamento deles não alimente a expectativa criada.

É o inocente “ Ai não me dás um beijinho? Assim, já não gosto de ti” ou o “Depois dessa birra, achas que mereces um abraço?”.

São os bem intencionados “Deixa o bebé chorar. Isto já começa a ser manha.”  e “Pára imediatamente com isso ou vais para o quarto sozinho até te passar”.

E são ainda as pérolas de sabedoria que, prontamente, diagnosticam: “O problema desta criança é mimo a mais…”

Estes são apenas alguns dos exemplos, tão enraizados em nós, que ensinam a ideia de que o amor tem de ser merecido, tem de ser conquistado, deve ser refreado e até que pode diminuir, sempre que o passo se faça mal dado. Afinal, amam-me pelo que eu faço. Não pelo que eu sou.

Se o amor por um filho não é moeda de troca, não é punição ou sequer recompensa (e eu acredito que no fundo, todos concordamos com isto), então porque não é assim que às vezes o mostramos?

Se o amor e a sua materialização física e emocional é o maior bem que podemos dar aos nossos filhos, então porque raio é que atribuímos ao mimo (= afeto), a responsabilidade dos momentos mais desafiantes na sua educação?

Se calhar, porque estamos todos a precisar de parar e pensar naquilo que andamos a fazer, de nos tornarmos mais conscientes das mensagens que transmitimos e, sobretudo, a precisar de baixar a guarda, sacudir o peso das frases gastas, abrir o coração e ouvir, tudo o que de extraordinário e libertador acontece cá dentro.

Se calhar, porque andamos todos a precisar de mimo.

E é por isso que, chegada ao fim deste texto, já só me apetece pedir…

Melhor amor, por favor.

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Aprender pelo espanto ou o espanto de aprender.

Tu, pela milionésima vez: “Vá, vamos embora. Já chega!”

O teu filho, como se fosse a primeira… “Olha só para isto, mamã!”

A ideia da aprendizagem pelo espanto é a base da teoria educativa de Catherine L´Ecuyer, investigadora canadiana, que se dedica a estudar a forma como as crianças aprendem e aquilo que as move na construção de significados próprios, decorrentes das experiências que vivem.

A autora, que valoriza a curiosidade como o factor chave no crescimento, capaz de despertar nas crianças o desejo e a busca constante de conhecimento, empurrando-as assim para que descubram o mundo, diz-nos ainda que na infância mora o sentido inato para nos estimularmos com o que acontece à nossa volta e que por isso, aos pais, cabe apenas tarefa de serem jardineiros (e nunca carpinteiros ou escultores), capazes de regar e fazer crescer esse sentido.

Há, nas crianças, uma predisposição natural para a observação atenta do que as rodeia, numa atitude de enorme respeito pelo mistério e pela beleza das coisas de todos os dias. A décima descida no escorrega nunca é igual à anterior. A estrelinha ao lado da lua parece ainda mais brilhante esta noite.

Há, nos adultos, uma pretensão aprendida de quem já sabe muito e por isso acha, que o muito que sabe, é suficiente para não ter que insistir num segundo olhar: Quem já viu um pôr do sol já viu todos. Quem já correu à chuva não precisa de se molhar outra vez.

E depois há a vida que acontece, com eles a espantarem-se a cada passo dado e connosco a seguir caminho, quase cegos.

Acredito pois, que sempre que nascemos pais ou mães, temos em mãos uma espécie de segunda oportunidade. A oportunidade de nos reconciliarmos com a criança que fomos, o privilégio de nos pasmarmos com a criança que os nossos filhos são e com tudo aquilo que de mágico podemos descobrir juntos, a cada virar de esquina.

E são essas descobertas que movidas pela curiosidade insaciável e pela atenção no olhar, serão capazes de nos arrancar suspiros e assim nos mudar por dentro, fazendo perdurar no tempo o respeito e a gratidão com que lemos o mundo.

Para que entendamos, de uma vez por todas, que por mais coisas que saibamos e que tenhamos vivido, os dias nunca acontecem da mesma maneira, o céu tem sempre um azul diferente e aquele sorriso, daquela pessoa, jamais se fará igual.

Para que na próxima vez que ouvirmos: “Olha só para isto, mamã!”, nos deixemos de tretas e tenhamos a humildade de estar e chegar perto, permitindo que os seus olhos nos guiem e nos tragam deslumbramento. Pela vida nas coisas e pelas coisas da vida.

 

Nota: E porque em 8 minutos se pode dizer tanto e porque em 8 minutos cabe a vontade gigante de não esquecer e recuperar a cor perdida, algures, na rotina dos dias. Aqui vos deixo então, esta pequena delícia…

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O meu filho não é como eu. E isso é extraordinário.

De todas as aprendizagens que tenho feito enquanto mãe, esta tem sido a que mais me tem desafiado nos últimos tempos.

Talvez se tenha tornado mais presente agora, que a idade do meu filho já lhe permite argumentar, contestar e contrariar, aquelas que são as minhas ideias sobre a forma como deve agir ou sobre a pessoa que deve ser.

Talvez eu já devesse ter entendido isto, no momento em que deixámos de ser um só, para nos tornarmos dois. No corpo, na vontade, na voz. Mas não… Ainda dou por mim a insistir na culpa ou na frustração, sempre que ele, dando firmeza a quem é, age de forma diferente da que previ.

No dia em que nasceu, eu já sabia que a liberdade de ser é o maior bem que se pode dar a um filho. Mas não basta sabê-lo. É preciso experimentá-lo.

Nesta transformação de mulher e de mãe (de homem e de pai), é preciso caminhar e deixar acontecer, para assim aprender que um amor maior como este nosso, não precisa de ser espelho, nem montra, nem sequer precisa de um guião que antecipe todos os passos, ou reproduza todas as falas.

Pelo contrário, querê-lo seria reduzir a quase nada, a nobre missão de ajudar a crescer.

Um amor maior faz-se das vezes em que aceitamos quem os nossos filhos são, sem filtro ou condição. Das vezes em que trazemos à consciência que não são (nem serão) iguais a nós, nas escolhas, no sentir, nem tão pouco no agir. Faz-se, tanto, das vezes em que abraçamos todas as emoções que o seu comportamento nos acende, nos momentos fáceis e apaixonantes mas, sobretudo, nos mais terríveis e desesperantes.

Aceitar os nossos filhos tal como são. Tarefa que eu julguei tão fácil e que afinal, me é ainda tão exigente.

E se às vezes eu ainda penso: Caramba, não era isto que eu esperava que tu fizesses… também já consigo responder a mim própria: Quem me mandou a mim esperar?

Eu só preciso que sejas, não assim e nem assado. Que sejas. E me permitas a extraordinária aventura de o ser contigo.

 

P.S – E tu? Aceitas os teus filhos tal como são? Acredito tanto que vale a pena pensarmos sobre isto…