As razões pelas quais todos queremos ter um/a adolescente nas nossas vidas.

 

Sim, eu sei que às vezes não é fácil ser mãe ou pai de um/a adolescente (tal como não será fácil ser filho de um adulto…) mas a verdade é que, independentemente dos dias menos bons (desejáveis e necessários à transformação natural da família nesta etapa de vida), muitas são as razões que tornam tão incrível, a oportunidade de acompanhar os filhos na aventura da adolescência.

Daniel Siegel, é um neuropsiquiatra que nos últimos anos se tem dedicado a estudar o funcionamento do cérebro adolescente, cujas características e especificidades, considera fundamentais ao desenvolvimento humano. Para Siegel, é a “essência da adolescência” e a sua vivência positiva e plena, que permitirá ao cérebro manter-se saudável na idade adulta.

Assim, e para que não percamos de vista as maravilhas da adolescência, permitindo que se tornem luz e espaço para ser, cá seguem quatro bons motivos para querer tê-los por perto, e com isso, reaprender…

Gosto pela novidade, ou se quisermos, um saudável e apurado sentido de espanto. Relacionado com a ativação dos circuitos cerebrais que aumentam a sensibilidade para a procura de recompensas e sensações novas, é precisamente esta abertura às novas experiências, que alimenta o entusiasmo pela vida, a coragem para arriscar e a motivação para descobrir novas formas de realização pessoal, tão fundamentais a que um dia se sintam capazes de abandonar o conforto do ninho e construir o próprio caminho.

Intensidade emocional, alimentada pela experiência intensa dos diferentes estados emocionais que, nesta fase de vida, ainda se sobrepõe à racionalidade do córtex pré-frontal (desenvolvido por volta dos 20/25 anos). É esta vibração sonora dos diferentes estados de alma que tantas tempestades traz às famílias, desencadeando as tão conhecidas alterações de humor e a experiência de alguns momentos de grande reatividade, sobretudo perante as contrariedades ou as frustrações. No seu melhor, este arco-íris emocional proporciona aos adolescentes e a quem com eles convive, um enorme boost de energia e vitalidade, um sentido de entrega ao momento presente e uma excelente oportunidade de auto-conhecimento e auto-regulação.

Criatividade. Estimulada pelo conhecimento de que a realidade é o conjunto de todas as possibilidades, é a procura incessante de respostas e a criatividade no enfrentar dos desafios, que permite explorar o mundo, questioná-lo, testar as hipóteses e torná-las possíveis. “Experimentar o mundo ordinário como extraordinário”, contribui para desenvolver competências relacionadas com a proatividade e capacidade de adaptação e resolução de problemas e favorece o desempenho no campo das artes, da música, da ciência, trazendo descobertas únicas e crescimento pessoal.

Compromisso social. Na adolescência dá-se um pico de neurónios-espelho, células ativadas pela observação do comportamento dos outros e que levam à sua repetição. Para além disso, uma maior sensibilidade à ação da oxitocina, predispõe à criação de vínculos significativos com os outros. Na prática, ganha-se uma maior disponibilidade para estar em grupo e agir socialmente, o que permite o alargamento do mapa das relações sociais, tornando-as simultaneamente mais compensadoras e ainda, estimulando a procura de suporte comunitário, fatores altamente preditores de bem estar, satisfação e felicidade ao longo da vida.

E não é isto afinal que todos queremos para os nossos filhos?
Que se mantenham curiosos e criativos, que se sintam capazes de conquistar o mundo, que se emocionem com a vida e que descubram nos outros, parte importante da sua humanidade?

Não seria isto afinal que gostaríamos de ter preservado mais em nós?
Resgatemos pois a nossa essência e celebremos a oportunidade (e o adolescente que um dia fomos), junto daqueles que nos trazem a oportunidade e o privilégio de os ajudar a crescer.

Outra vez a saga do material escolar…

 

Lembram-se do primeiro episódio desta saga?

Pois bem, tal como prometido e graças ao contributo de várias mães experientes e cheias de truques, que foram incansáveis a partilhar dicas de utilidade máxima sobre o tema das listas de material escolar, aqui vos deixo 7 magníficas ideias para sobreviver ao que aí se avizinha:

1.Implorarás aos educadores/ professores dos teus filhos que te dêem a lista aquando da reunião do final de ano letivo. Se não fores suficientemente convincente, podes sempre suborná-los, o motivo é nobre. Ganharás tempo e encontrarás o que precisas sem ter um colapso nervoso. Os menos sagazes andarão a banhos, temos pena…o mundo é dos mais fortes. Depois de comprares tudo, ainda podes leiloar a lista na darknet. Mas só depois de estares aviada/o ok?

2. Farás um mealheiro ao longo do ano, porque o rombo é grande. Podes até vender rifas e sortear um dos rolos de papel autocolante que te sobrou do ano passado ou até o cadernão preto cheio de vincos e tão mal forrado que tiveste vergonha de o deixar sair de casa nas mãos da criança. Bastará o mote: “Pela Educação do João”, para que a coisa pegue e faça furor entre avós e tios. Com sorte, com os trocos, ainda passam o fim de semana no Alentejo.

3. Resistirás estoicamente à tentação de te arrastares atrás da mochila mais pindérica ou do estojo mais multifunções. O mundo do material escolar é um mundo pernicioso, cheio de glitters, de promessas fajutas, de artimanhas para te desviar do teu propósito. Simples e eficaz: este deve ser o teu mantra. Repete-o em voz alta, ao mesmo tempo que fazes tapping na testa. Agora sim, podes sair de casa.

4. Comprarás no comércio local. A vizinha do quiosque do bairro ou o Sr António da papelaria da esquina, anseiam por que lá passes e conheças em 1ª mão, as maravilhas que por lá moram. Simpatia, atenção personalizada, preço acessível e conselhos altamente especializados são apenas alguns dos bónus desta opção, sem esquecer o impacto do teu apoio na economia das empresas familiares. Quem sabe, ainda descobres alguma pechincha vintage…

5. Se não tiveres papelarias por perto, encomendarás tudo o que possas, online. Centras-te no que é essencial, evitas a pressão das massas, manténs o ritmo cardíaco e a integridade física e com isso, ganhas foco e lucidez. Bebe um copo de vinho tinto. E desfruta. Pré requisitos: os miúdos têm de estar a dormir.

6. Reduzirás. Reutilizarás e Reciclarás. Há imensa coisa que se pode aproveitar. Os manuais escolares são uma delas (sempre que possível), os lápis, borrachas e marcadores sobreviventes do ano passado, a mochila que mesmo que tenha um buraquinho, haverá sempre um remendo mega fashion capaz de a tornar outra vez especial. E mesmo que eles te digam que o material para funcionar tem mesmo de ser novo, não te esqueças nunca que és modelo, de consumidor(a) e de vida. Apenas às coisas que já tenham sofrido as “passinhas do algarve” e tenham sido esgotadas todas as alternativas criativas de utilização, a essas sim, poderás permitir o descanso eterno: no amarelo, no verde ou no azul.

7. Quando finalmente o ano letivo começar, reservarás uma tarde num SPA (ou noutro sítio com um efeito semelhante). Serás massajada(o), perfumada(o), relaxada(o). E a cada snifadela de incenso e borrifadela de água de rosas, farás uma respiração intensa e profunda e acarinharás em ti a seguinte constatação: Miúda(o), qualquer dia estás a dar masterclasses disto. Para o ano, não te apanham outra vez…

Nota importante: Ainda que depois destas sugestões, nenhuma grande marca de mochilas ou de marcadores fluorescentes, ou nem sequer de apara lápis de zinco, queira patrocinar este blogue, por aqui dormiremos descansados outra vez: disseminámos conhecimento e prestámos serviço público.
Caramba, é mesmo isso que nos move! 😉

Ah, e se por aí surgirem outras ideias capazes de melhorar a vida das famílias com filhos em idade escolar, venham elas. O propósito é de valor. E eu conto convosco.

A elas e a eles, que educam os filhos dos outros.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração.

Que lhes dão colo e mimo e espaço para crescer. Que aprendem a lê-los por dentro, a cada sorriso tímido ou a cada hesitação no olhar. Que ensinam a paixão pelas histórias, a curiosidade pela natureza e lhes alimentam a fome de mundo e de saber.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração. Que dão tudo de si, todos os dias, para que o brilho se mantenha a dançar nos olhos pequeninos e atentos e a vontade de aprender seja sempre acha de fogueira, e de calor.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração. Que escondem a tristeza dos dias tristes num sorriso doce que entregam de bandeja, a quem dele precisa para acreditar que a vida é, quase sempre, bonita de viver. Que partilham a alegria das ideias novas e dos projetos que sonharam na noite anterior, para os fazer crescer no dia seguinte, no chão da sala, entre papel de seda e de cenário, no meio dos lápis de carvão e das aguarelas, em que o único guia é a desafinação feliz das vozes que riem e gritam e se entusiasmam a cada descoberta feita.

Às mulheres e aos homens que escolheram para a caminhada, a bonita tarefa de educar os filhos dos outros, a minha gratidão eterna. Por quem são, pela forma como o são e sobretudo por se darem todos os dias, inteiros, àqueles por quem temos um amor sem fim.

Tenho cá para mim que foi a vida que vos escolheu a vocês, porque sabe da grandeza da tarefa e da importância de se tornar eterno no coração das nossas (vossas) crianças, ensinando-as a fazer do crescimento, a mais bela das histórias de aventura.

Das coisas bonitas que me enchem o coração…

 

“Tivesse eu os tecidos bordados dos céus, 
lavrados com o ouro e a prata da luz.
Os tecidos azuis e turvos e de breu
da noite e da luz e da meia luz,
estenderia esses tecidos a teus pés.

Mas eu, que sou pobre, apenas tinha os meus sonhos.

São os meus sonhos que estendi a teus pés,
sê suave ao pisar, porque pisas os meus sonhos.”

William Butler Yeats

Há histórias que não foram feitas para crianças.

Dormes nos lençóis do Mickey, ou naqueles dos carrinhos vermelhos ou nos que foram bordados pela tua bisavó. Acordas de manhã com um sussurro ao ouvido que te diz: “Bom dia, meu amor maior…” Escolhes a tua roupa preferida e procuras sempre as peças que tenham a cor verde. Estão dobradas, arrumadas e cheiram a lavanda, tal como o saquinho aromático que tens na gaveta. Gostas de espreitar o frigorífico e escolher “uma fruta boa”, sempre que te apetece. Tens os amigos, os avós, os tios, os primos e um sem fim de pessoas que te querem bem, sempre à mão de semear. Tens-nos a nós. Que te amamos mais do que tudo e te enchemos o coração de abraços e de mimos. Vais à escola e de lá vens cheio de histórias e sonhos para contar. Trazes desenhos pintados, brinquedos emprestados, convites para a festa de aniversário seguinte. Gostas dos jantares demorados no terraço, do cheiro a maresia e do sol que se põe connosco à mesa todas as noites. Fazes planos para o dia seguinte e desejas que a vida seja sempre assim.

És feliz. Como todos os meninos do mundo mereciam ser.

Mas eles não são. Eles adormecem ao som de uma espécie de fogo de artifício, são arrancados da cama durante a noite sem que lhes expliquem porquê. Respiram o terror dos pais e aprendem a amarga sensação de impotência. Sonham com o colo quente que tiveram um dia. Perdem o rasto aos amigos, veem a escola onde aprenderam a ler, desaparecer de um sopro, de estrondo e de pó. Eles fogem de tudo e de todos e entram, assustados, num mar escuro e instável, porque o que se passa em terra firme é tão mais assustador… Eles têm o olhar baço e escuro, cheio de nada, porque afinal já viram tudo o que nunca deveria ser visto. Eles choram, eles gritam. E pedem para acordar do pesadelo todos os dias. Mas ninguém os atende. Ninguém lhes passa a mão no cabelo e nunca ninguém lhes sussurra: “Já passou, meu amor maior…”

Eles não compreendem. E eu também não. Porque sei que o lugar onde se nasce é apenas e só uma questão de sorte, aleatória, injusta, madrasta, como só a sorte sabe ser, mas não sei porque permitimos que assim se mantenha, como um fado de vida que toca, mas não nos toca a nós.

Eles são meninos como tu, com a diferença de que eles só queriam que a vida não fosse sempre assim.

Nota: Há vídeos necessários como este. Que nos lembram que, infelizmente, a vida não é para todos como é para nós e que há histórias que não foram feitas para crianças. Mas elas vivem-nas. Obrigada Malak, pela força e pelo sorriso, mesmo já tendo visto o pior lado do mundo…

“Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?”

Há uns tempos partilhei um texto sobre a tão corriqueira “palmada pedagógica”. Fundamentei a minha opinião sobre o assunto, com base nas minhas convicções pessoais, no trabalho que desenvolvo com crianças, jovens e famílias e claro, na minha vivência enquanto mãe.

O que se seguiu foi um sem fim de comentários acesos, alguns a concordar com o que era defendido, outros a contestar a ideia, defendendo que as palmadas são benéficas para as crianças e constituem “corretivos” indispensáveis ao crescimento e à aprendizagem. Até aqui tudo bem, não estava à espera que todos concordássemos com uma ideia que é afinal contrária a tudo aquilo que aprendemos ao longo da nossa existência. Até aí tudo bem, até porque acredito e defendo que é nas diferenças e na capacidade de as pormos em comum, que podemos avançar e crescer enquanto seres humanos.

Aquilo que verdadeiramente me assustou (a par do ódio que as pessoas são capazes de destilar na defesa dos seus argumentos), foi ver repetir-se a ideia de que o problema dos jovens de hoje reside na falta que têm de umas belas bofetadas. Assustou-me perceber que há pessoas que julgam que os limites se impõem pela violência e que, à falta de melhor, é com violência que se resolvem as dificuldades e se dá o exemplo. Assustou-me, sobretudo, porque sei que a maioria dos miúdos que manifesta problemas de comportamento na adolescência são precisamente, aqueles que cresceram a ser batidos, a não serem ouvidos, que confundem amor com pancada e que desenvolvem vínculos afetivos de enorme fragilidade com os seus cuidadores.

Confrontar-me com estas ideias trouxe-me à memória a pergunta que tantas vezes oiço: “Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?” E muito embora ache que parte desta ideia tem origem naquilo que gosto de pensar como uma espécie de saudosismo geracional, que nos leva a achar que no nosso tempo as coisas corriam sempre melhor, considero que as crianças e os jovens que hoje enfrentam de facto novos desafios, reflexo da sociedade na qual se integram, sobre os quais é importante refletir.

Estes são, na minha opinião, alguns deles:

Cansaço emocional e físico das pessoas em geral e dos pais em particular. Vivemos a um ritmo alucinante, queremos fazer tudo e estar em todo lado, trabalhamos 8h por dia (na melhor das hipóteses), os miúdos entram no infantário aos 5 meses de idade e por lá ficam 8h também. A tudo isto, acresce o facto da vida em comunidade ter deixado de existir, o facto da maioria dos avós trabalhar também e a dificuldade de criar redes de suporte social que permitam às crianças mais tempo em família. Deixa mossa, vos garanto.

Obsessão pelo mundo digital. Se eles são nativos digitais, nós somos emigrantes e andamos a absorver demasiado rápido tudo o que nos encanta neste admirável mundo novo. São os likes nas fotos e nas frases feitas, são as selfies para mostrar a vida boa que levamos, é a aplicação XPTO que promete fazer milagres e poupar tempo… É a estimulação excessiva, constante, frenética, que nos faz andar à roda, maravilhados e, mais grave ainda, levá-los a reboque. Não come? Distrai-o com o vídeo do Panda e enfia-lhe mais uma colher na boca. Não dorme? Põe a música da Xana TocToc a tocar ao pé da cama. Birra no restaurante? Por sorte trouxe o Ipad e sempre dá para se entreter um bocadinho. E de repente, ninguém está onde deveria estar, ninguém sente o que devia sentir.

Estilo de vida sedentário. Quantos de nós subiram às árvores, inventaram brincadeiras com canas e paus, desapareceram horas sem fim a explorar o terreno à volta da casa dos avós, apanharam nêsperas, ficaram de molho no rio até ficar com a pele enrugada? Quantos miúdos têm a oportunidade de experimentar estas e outras coisas? Quantos miúdos têm o privilégio de se aborrecer porque não há nada para fazer e de terem de arranjar uma solução? Poucos, muito poucos, arriscaria eu. Há o tablet, há a consola, há o sem fim de tralha de plástico no quarto, há a televisão… E depois há o shopping, o cinema, as pipocas, o supermercado, a pizza encomendada… Tudo dentro de quatro paredes, enquanto a vida lá fora acontece, sem que percebam como.

Falta de tempo com os outros e para os outros. Cada vez mais tenho a sensação de que as pessoas vivem sozinhas, de que as famílias crescem isoladas. Pais a viver para os filhos, filhos a receberem a atenção exclusiva dos pais. Perde-se o hábito de abrir a porta de casa, perde-se o hábito de arriscar amigos novos e de mansinho, vamos desaprendendo a gostar de pessoas. O resultado? Começamos a acreditar que a mensagem de telemóvel substitui o abraço, que se a relação não está a dar, o facebook pode dizer-lhe isso por mim, que se eu tenho 3000 amigos virtuais, é porque sou mesmo boa pessoa… Poupa-se tempo, poupam-se emoções, foge-se à frustração e vive-se ao ritmo do gosto fácil da gratificação imediata.

E porque as palavras vão longas e já não somos assim tantos a ler tudo até ao fim, termino, com a pergunta que deu o mote a este texto:

– “Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?”

– “É falta de umas belas bofetadas!”, continuarão a responder alguns…

 

Nota: A fotografia fantástica que ilustra este texto é da Lília Nunes Reis e ao olhar para ela, ocorre-me sonhar que ainda é possível impedir que cresçam, a achar que voar é uma doença…

A vida dos outros.

A vida dos outros interessa-me.

Ou melhor, a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me.

Interessa-me porque acredito que não é possível ajudar alguém que não vai bem na escola, sem primeiro entender como vai em casa, ou como vai por dentro.

Interessa-me porque tudo aquilo que somos, ou melhor, tudo aquilo que mostramos aos outros, é resultado das nossas vivências, reflexo de tudo o que trazemos na “mochila” que colocamos às costas todos os dias.

E há “mochilas” tão pesadas que eu às vezes dou por mim a conter a vontade de chorar, quando ouço as histórias que nelas se carrega.

São histórias de perda, de abandono, de desilusão. São histórias mal explicadas e outras com detalhe a mais. São miúdos que aos 5 viram a mãe sair de casa para só voltar a entrar três anos depois, levar a irmã mais nova e desaparecer outra vez. São miúdos que aos 9 entendem como seu, o dever de proteger a mãe de um pai que grita, que bate e que se embebeda todas as noites. São miúdas que aos 15 se prostituem na rua com a irmã no banco ao lado e a mãe na curva seguinte. São histórias de vidas difíceis que a maioria de nós, felizmente, nunca imaginaria existirem.

São as vidas dos outros, que têm idade para só pensar em sonhos e guardar no coração a fé no mundo e nas pessoas mas que, em vez disso, se preocupam em saber de cor o melhor esconderijo quando os gritos tomam conta de tudo, que gostavam que alguém lhes dissesse a que lugar pertencem e que adormecem a acreditar que é amanhã que as promessas feitas se cumprem e trazem com elas a esperança de que tudo mude.

O comportamento de uma criança ou de um adolescente é sempre sintoma da sua vida psíquica, das suas experiências, da forma como tomaram conta de si.

Ora quando o seu crescimento é marcado por uma vinculação insegura, por momentos de trauma, ausência ou negligência, estará inevitavelmente comprometida a sua capacidade de se ligar aos outros e de lidar com os desafios da vida, nos quais a escola e a aprendizagem se incluem. Capacidade esta, só reparável com o amor das relações que quebram o ciclo, que ajudam a colar os pedacinhos e a fazer acreditar. Outra vez.

Por tudo isto e porque o sítio onde se nasce continuará a ser sempre uma questão de sorte, não nos limitemos a julgar, a repreender, a criticar, a enquadrar um determinado comportamento naquelas que são as nossas vivências, naquele que é o nosso quadro de valores. Há quem esteja dele muito distante e apenas precise de alguém que saiba olhar e esteja disponível para entender.

Às vezes, aquilo que eu faço é aquilo que me é possível fazer num determinado momento e isso não resume tudo aquilo que eu sou. Tudo aquilo que trago cá dentro.

Assim é connosco. Assim será com eles.

Não meus senhores, eu não entendo…

Não meus senhores, eu não entendo que se deixem as crianças ao portão da escola e não se possa sorrir ao professor, e aos funcionários e às outras crianças, desejando-lhes um dia feliz;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas se tenham tornado jardins de betão, sem terra, nem árvores, nem cor;

Não meus senhores, eu não entendo que a seleção dos profissionais que cuidam das crianças todos os dias, não obedeça a uma listagem extensa de critérios rigorosos, que mais não fazem do que procurar garantir-lhes o direito de crescer com os melhores modelos;

Não meus senhores, eu não entendo que se acredite que para aprender é preciso sofrer e que por isso se continue a mandar escrever 30 vezes: “Não volto a falar sem pôr o braço no ar!”;

Não meus senhores, eu não entendo que os programas curriculares se pensem de forma a espartilhar e a matar a criatividade do professor, impedindo-o de ensinar a paixão pelo conhecimento, vivendo-a;

Não meus senhores, eu não entendo que sempre que uma criança que se atrasa ou se engana num exercício da aula, fique proibida de ir ao intervalo e definhe, mais 30 minutos, sentada na mesma cadeira onde está cerca de 7 horas por dia;

Não meus senhores, eu não entendo que nos corredores das escolas se grite, se ameace, se mande caminhar em fila indiana encostada à parede, como se essa fosse forma de manter o controlo e de ensinar a crescer;

Não meus senhores, eu não entendo que uma família deixe de jantar tranquilamente ou de ir ao parque ou de ver filmes no sofá, só porque há três fichas de matemática, duas de estudo do meio e ainda um ditado para fazer;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas promovam desfiles de vaidades (dos pais e da própria escola), com base nas notas dos testes, deixando de fora centenas de crianças que, só por serem crianças, mereceriam todos os louvores;

Não meus senhores, eu não entendo que se pense e se apregoe, que um aluno bem comportado é um aluno que se cala e obedece;

Não meus senhores, eu não entendo que se desista de uma criança apenas e só porque ela dá trabalho e esse trabalho cabe à família.

Não meus senhores, eu não entendo…

Mas há, felizmente, quem a mim me entenda.

E é graças a eles e a elas, e à forma como amam aquilo que fazem, à forma como superam o cansaço e a frustração das histórias difíceis que lhes caem ao colo, como não esquecem a enorme honra e a responsabilidade que trazem dentro e, sobretudo, à forma como reconhecem que têm em mãos o maior legado de todos, que a escola há-de conseguir TRANSFORMAR-SE.

E assim ensinar, a quem nela vive a acreditar que afinal, as pessoas, são mesmo o melhor que a Escola tem.

Acreditar que o futuro vale a pena. (5 de 5)

E que vale a pena treiná-lo!

Saber que a adolescência é um período de aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção a esse futuro.

É por isso importante, ajudá-los a que desenvolvam aprendizagens que lhes facilitarão a vida mais tarde, preparando-os para lidar com os diferentes desafios que se lhes coloquem, quando entrem para a faculdade ou aquando da procura do 1º emprego.

Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, não estaremos a protegê-los mas sim a impedir que desenvolvam as estratégias necessárias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem.

Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade, tão importantes na idade adulta.

Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas para a solução dos problemas com que se deparem, fá-los também sentir que confiamos na sua capacidade para superar os desafios.

Finalmente, e sobretudo porque fazer escolhas no momento de instabilidade profissional e social atual pode ser sentido como algo extraordinariamente ameaçador, é importante ajudar a focar nos pontos positivos, que representem uma oportunidade de crescimento: o desenvolvimento de diferentes competências, a possibilidade do desempenho de tarefas variadas, a aprendizagem e, sobretudo, a valorização das experiências e características pessoais de sucesso.

Promover cenários positivos para o futuro, é fundamental para que os filhos se interessem por prepará-lo e assim se sintam capazes de superar todos os desafios e conquistar o mundo.

Que assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Na prática: Definir em família a partilha de responsabilidades e a participação de todos nas tarefas e rotinas da casa, desde cedo, é importante para que treinem competências como a cooperação, a partilha e a responsabilidade. A gestão do próprio dinheiro através de uma mesada, a experiência de uma viagem com amigos, a responsabilidade da lista de compras de supermercado, a confeção de refeições para a família, entre outras, são oportunidades que permitem estimular a autonomia e a independência dos nossos filhos, ajudando-os a preparar o futuro. Ajudar a identificar situações anteriores que tenham realizado pela primeira vez e em que se tenham saído bem, ajuda a que se sintam mais confiantes e não tenham medo de arriscar as diferentes opções, não desistindo nunca de tudo aquilo que poderão conquistar na vida.

Não esquecer que a história é deles. (4 de 5)

Sermos conscientes da importância da família, não significa que sejamos nós a assumir as rédeas de um destino que não é o nosso. E eu sei que a tentação é grande… Afinal existem coisas que a vida já se encarregou de nos ensinar e que com certeza lhes poupariam algum trabalho. E até algumas desilusões.

O medo da frustração dos desejos dos pais e o receio de não estar à altura das suas expectativas, é um dos fatores que mais atormenta os adolescentes, dificultando a tomada de decisões face ao percurso na escola ou às áreas/experiências que venham a desenvolver.

“O meu pai diz que esta profissão não tem futuro.” ou, “O que eu gostava mesmo era de fazer um curso profissional, mas lá em casa diz-se que é para os maus alunos…” ou ainda, “A minha mãe sempre quis ser advogada e eu gostava de poder cumprir esse objetivo.” Estas são apenas algumas das ideias que eles absorvem e que, invariavelmente, acabam por influenciar as escolhas que têm de fazer, que deveriam ser, o mais possível, livres de pressões e de medos.

Apoiar os nossos filhos não significa decidir por eles, nem tão pouco direcionar aquelas que serão as suas opções. Significa orientá-los ao longo do seu crescimento, significa sobretudo estar por perto, motivar, valorizar e ajudar a refletir e a debater, para que as decisões aconteçam de uma forma responsável, mais consciente e ponderada.

Apoiar os nossos filhos implica que sejamos capazes de aceitar que as suas escolhas podem ser diferentes das nossas, estimulando a sua autonomia e contribuindo para que sintam confiantes em todos os desafios que lhes surjam. A autonomia promove a responsabilidade, pelo que eles crescem enquanto pessoas sempre que sentem que existe da nossa parte, a confiança necessária para que possam experimentar, arriscar, concretizar.

E por fim, para que tudo isto possa acontecer, é importante recordar que o diálogo e o respeito serão sempre as chaves mágicas que abrem todas as portas. Ainda que discordemos de muitas das opiniões que têm, é seu o direito de as partilharem, de as defenderem, de as porem em comum.

E é precisamente nesta partilha que podem surgir outras reflexões, que os ajudem a pensar nas diferentes opções de uma forma mais sólida, e sobretudo mais próxima da decisão que, no momento, dê sentido a quem são e aos sonhos que namoram por dentro.

Na prática: Mesmo que os projetos que os nossos filhos equacionam nos pareçam disparatados ou pouco consistentes, se nos limitarmos a gritar: “Nem penses nisso!”, estaremos inevitavelmente a afastá-los e a fazer com que magiquem todos os planos em segredo ou, pior, que frustrem sonhos e projetos apenas e só, porque não houve abertura para sequer pensar sobre eles. Pegar nas ideias que têm e, em conjunto, identificar e disponibilizar informações objetivas, que permitam conhecer os diferentes percursos e opções disponíveis, será sempre uma boa estratégia e muitas vezes, aquela que permite a que cheguem eles próprios a novas alternativas e possibilidades.