Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, sempre que faz uma descoberta. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos, na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.

10 coisas que odiavas quando eras adolescente.

Toda a gente sabe que quando nos tornamos mães e pais somos acometidos por uma espécie de amnésia seletiva, que nos leva a esquecer uma boa parte de quem fomos antes.

É como se nos reinventássemos, numa desejada melhor versão de nós próprios que, por mais bem intencionada que seja, acaba sempre por deixar pelo caminho coisas importantes, como por exemplo, o facto de já termos tido a idade dos nossos filhos e de já ter sido nosso, o seu sentir.

E porque às vezes é preciso fazer um rewind para que os passos em frente se façam mais felizes, arrisco-me hoje a trazer de volta algumas das coisas que talvez te tenham feito “subir as paredes” quando eras adolescente.

Ora vamos a elas…

  1. Que não te ouvissem. Exatamente quando ias começar a explicar-te, lá vinha a voz da razão que dizia algo deste género: “Já estou a ver onde queres chegar! Nem penses nisso!” E tanto que tu tinhas treinado a argumentação na noite anterior…
  2. Que banalizassem tudo. Tenho uma amiga a quem a mãe dizia: “Deixa lá filha, os homens são como os autocarros. Não apanhas este, apanhas o próximo!” Lembras-te de alguma semelhante, que te fizesse ter a certeza que os teus pais estavam a milhas do que estavas a sentir?
  3. Que partilhassem a tua intimidade com toda a gente. “Nem imaginas o tempo que passa a pôr laca na poupa.” ou, “Agora lá em casa só come ervas. Manias.”. E tu só desejavas enfiar-te no primeiro buraco que te aparecesse…
  4. Que generalizassem tudo o que fazias. Andavas tu a dar o teu melhor e lá vinham os vaticínios começados por: “Estás sempre a…” ou “Tu nunca…” Bah.
  5. Que criticassem a roupa que vestias (válido para o penteado, para a música, alimentação…) Ah, e que te aconselhassem a levar um casaquinho.
  6. Que exigissem que soubesses o que fazer no futuro. “Já sabes qual é o curso? Não vais estudar, vais trabalhar!” ou “Tens de pensar bem, porque isto não está para brincadeiras!” E tu sabias disso, mas nem sempre era fácil decidir.
  7. Que duvidassem da tua capacidade para escolher os amigos (válido para os namorados/as também…). E logo quando tu te tinhas conseguido aproximar da malta mais arrojada do liceu…
  8. Que perguntassem “Como foi a escola? Havia sempre tanto para a dizer mas o enjoo da mesma pergunta todos os dias, só resultava num também enjoado: “Correu bem.”
  9. Que ligassem 30 vezes por dia.
  10. Que mandassem ligar outras 30.
  11. Que te comparassem aos outros. “Ah e tal, mas a Mariana foi para a Católica.” “E o que é que eu tenho a ver com isso? – perguntavas tu…” Absolutamente nada, te digo agora eu.
  12. Que pusessem em causa as tuas competências. “Tens a certeza que ficas bem? Se calhar a mãe deixa-te um franguinho guisado feito e basta aquecer…” E tu só querias que se fossem embora depressa, para poderes comer Nestum no sofá (ou quem sabe convidar o resto da malta lá para casa…)
Estas são 12 das frases que, muito provavelmente, odiavas ouvir na adolescência.

Aposto que com boa vontade, conseguias arranjar mais meia dúzia, tal como aposto também que se usares estes exemplos como checklist das tuas reações aos comportamentos dos teus filhos , ainda dás por ti a assinalar alguns.

Toda a gente sabe, que quando nos tornamos mães e pais, a coisa muda de figura e é tão mais fácil falar do que fazer. Afinal, amamentámos as criaturas e aturámos-lhes todas as birras, o que quase nos dá o direito de dizer todas estas coisas. Isso, e o facto de os amarmos como ninguém.

Toda a gente sabe disto, mas às vezes é mesmo preciso trazer a memória do adolescente que fomos e voltar a calçar os ténis, para entender…

P.S – Não te proponho que coles esta lista no frigorífico, porque existem coisas que devemos guardar para nós, mas se a colares num lugar mais reservado (pode ser no coração), sempre dá para lhe dar uma olhadela volta e meia… Eles agradecem. E tu já te lembras porquê. 

Estes dias, que se querem doces…

Eles estão na escola. Nós estamos a trabalhar.

Provavelmente não é a vida que sonhámos, mas é a vida que temos.

Aquela que vai agora começar a correr mais depressa e que nas manhãs de segunda, nos vai deixar a suspirar pelos sábados seguintes. E sim, esta coisa de voltarmos a ter de cumprir horários e não podermos continuar ao sabor do sol e do mar, é chata. Mas faz-se.

A parte mais difícil e a que tantas vezes me atordoa, é a noção clara de que é nesta velocidade dos dias que eles crescem, que mudam, que se tornam gente e que com isso ganham tantas outras coisas, verdadeiramente incríveis, a cada instante.

E enquanto tudo isto se passa, nós estamos, demasiadas vezes, sem tempo ou sem disponibilidade efetiva, para absorver cada segundo desta transformação quase mágica.

O desafio parece tornar-se maior na proporção do “encolher” dos dias, que se mede pela infindável lista de tarefas a que temos de dar resposta.

É por isso a partir deste momento, que devemos estar ainda mais atentos e disponíveis (tornando consciente essa necessidade), para aquilo que é realmente importante na relação com os nossos filhos, que será também o que constituirá porto seguro, nos momentos que se façam mais difíceis.

Depois do afastamento físico do dia, uma boa forma de restabelecer a ligação é em cada chegada a casa, através de um abraço, de uma conversa, da partilha dos desafios vividos: o que foi mais positivo, o que nos fez sentir tristes, o que nos surpreendeu, enfim… tudo o que em nós mudou desde que acordámos de manhã.

Na comunicação com os nossos filhos, as perguntas mais fechadas ajudam ao retorno de respostas específicas, estimulando a conversa e facilitando a construção de pontes de comunicação e afetividade.

E atenção às armadilhas a que cedemos facilmente e que acabam por tomar conta de nós: “Ok, deixa-me só tomar um duche, tirar a loiça da máquina, ler os emails… e já conversamos um bocadinho.”

No excuses.

É fundamental dar-lhes tempo (o que temos e o que precisamos de arranjar), de uma forma real e presente e ser também capaz de o fazer por nossa iniciativa, sem que eles tenham de o pedir ou, no caso dos adolescentes, sem que eles aprendam a achar que isso já não é necessário.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em cada regresso a casa…

 

P.S- Escrever este texto trouxe-me também a vontade de partilhar este vídeo. Convido-te a que o vejas, de coração aberto e atento, para não esquecer… 

A saga do material escolar: vale tudo, menos tirar olhos.

Com a entrada do Manel no ensino pré-escolar público, abriu-se-me a caixa de Pandora. Sim, porque nos últimos anos toda eu era inocência e alegria sem fim em Setembro, longe de saber a “tourada” por que passavam outros pais, com a preparação do ano letivo.

Pois bem meus amigos, já cá estou.

Tudo começou com a reunião de pais na qual foi distribuída uma lista (assim para o compridita) de material a adquirir. Aqui, aplaudo a atitude da educadora, que salientou a importância de reutilizar materiais que tivéssemos em casa e de não gastar dinheiro desnecessariamente, dando-nos também total liberdade para optar por outras marcas que não as sugeridas. Até aqui tudo bem. Identifiquei-me com a abordagem, compreendi a forma como o material seria gerido e lá fui, cheia de vontade, tratar do assunto.

Achei eu, ingénua outra vez, que podia cumprir a tarefa a qualquer hora do dia e assim, às 18:30, entrei com o pé direito numa grande superfície comercial (ou terá sido com o esquerdo? A avaliar pelo que se seguiu, é bem provável…).

Fui imediatamente engolida por um mar de gente, de braços no ar, de cócoras, de bicos de pé, à corrida… tudo o que permitisse agarrar o último exemplar do tão desejado objeto. No meio disto, as crianças, os adolescentes, os adultos saudosistas… todos, em estado de puro êxtase contemplativo, com as cores, os tamanhos, os desenhos, os cheiros… Tudo o que perniciosamente, pudesse desviar os pais do seu propósito: agarrar no dito e fugir dali!

Perante o cenário quase dantesco, foquei-me no objetivo de ir direta ao assunto e tracei um mapa mental para não me perder para sempre. Foi difícil, porque ainda por cima a coisa está organizada de forma sadicamente labiríntica, mas lá consegui identificar alguns dos materiais da lista e sair.

No dia seguinte, levantei-me confiante, fiz uns alongamentos e pensei: “Hoje já não me apanham. Vou às três da tarde, que é uma hora que ninguém desconfia.”

Wrong again.

Mas estas pessoas não trabalham? Mas será que nunca ninguém pensou fazer um manual de sobrevivência para isto? Quais os truques, as dicas, os segredos, para nos safarmos ilesos?

Depois da odisseia, que felizmente se arrumou em duas experiências sociologicamente enriquecedoras, agradeci aos céus o marido artista, que conseguiu arranjar metade das coisas no meio dos seus próprios materiais e pensei: Caramba, Setembro era o meu mês preferido, bucólico e imaculado, e agora carregará para sempre o trauma desta estreia.

Posto isto, pais com filhos em idade escolar: o meu coração está, irremediavelmente, convosco e eu proponho que façamos uns círculos xamânicos antes e depois da coisa, para que a malta se recomponha e sobreviva às sequelas seguintes.

E olhem que serão pelo menos 12. Já pensaram nisso?

P.S – Assumo aqui o compromisso de criar um manual de boas práticas sobre este assunto, mas preciso da vossa ajuda. Dicas, experiências, truques macacos… tudo é válido, pela sanidade mental de todos. Meus senhores/as, isto sim é serviço público… Venham daí esses contributos, ser-me-ão preciosos para os anos que aí vêm. Muito grata. 🙂

Aos professores. Os bons.

Sou de uma família de professores.

Desde que me sei como gente, que me habituei a ouvir falar de escola, de alunos, de colegas, de livros, de exames, de dias difíceis, de conquistas importantes, enfim, da vida de quem passa grande parte da vida, na escola.

Quis o destino que viesse também eu, na minha profissão, a conviver diariamente com professores, a escutar as suas angústias e a partilhar os seus anseios, em relação à escola e a quem nela habita todos os dias.

Existem profissões que têm em si o poder de mudar o mundo, de salvar vidas e de fazer crescer a esperança. E aqui, falo convicta, dos professores. Dos bons professores.

E os bons professores são aqueles que se dão aos seus alunos todos os dias, que os levam para casa no coração e que procuram, incansavelmente, todas as formas de dar significado ao que é suposto ensinar-se, que tantas vezes está distante da vida e daquilo que é efetiva e afetivamente importante.

Sei por isso de cor, os nomes dos professores que marcaram o meu caminho. Reconheço-lhes as expressões, as marcas do rosto, as palavras ditas no momento certo, o afeto…

Alguns, tiveram a capacidade de me ajudar a compreender a forma como os números se relacionavam, a simplificar equações e a aprender que a matemática está em todo o lado, mesmo que eu tenha com ela uma relação difícil. Outros, fizeram com que me apaixonasse por aquilo que me ensinaram, de tal forma, que decidi fazer disso profissão.

Foi também na escola que aprendi a ser pessoa, que me relacionei com quem era diferente de mim e dos meus e que lidei com desafios gigantes, numa espécie de treino para a vida adulta.

E é afinal isto que a escola nos dá. Bagagem, sentido de ser, educação.

Porque mesmo que muitos me contestem, muito mais do que transmitir conhecimento, na escola EDUCA-SE, ensina-se a crescer. No saber e no coração.

E ainda bem que assim é, porque para muitas crianças e muitos jovens, o que existe para lá dos portões da escola é assustador, é desorganizador e duro, muito duro.

A escola pode tornar-se aqui uma espécie de porto seguro, quando as famílias sofrem e não sabem sê-lo. E os professores, os adultos significativos que com um gesto, uma palavra ou um olhar, têm em si o poder mágico de evitar que alguém que cresce, se zangue para sempre. Com as pessoas e com a vida.

Ora, claro que isto não é fácil e que existem cansaços, desalentos e frustrações, que conseguem por vezes desgastar os dias e roubar a esperança das histórias seguintes.

E é por isso eu sei, porque sinto, que os bons professores também precisam de colo. Precisam que lhes digam, muitas e muitas vezes, que podem realmente fazer a diferença e ser fonte de inspiração, conquistando assim a enorme honra de não serem esquecidos.

Eu fá-lo-ei sempre, com a gratidão de quem sabe que tem o privilégio de aprender, todos os dias, com aqueles que têm em si o poder de mudar o mundo.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

Mãe, quero ir brincar! Já fizeste os trabalhos de casa?

E porque a distância é a melhor conselheira, aproveito os dias que antecedem o ano letivo para recuperar um tema que me é tão querido: O bom do trabalho de casa.

Trago-o também porque foi levantado de chofre pelo meu filho, ontem no regresso da praia, com da seguinte pergunta: “Mamã, trabalhar é a melhor coisa do mundo?”

A resposta estava-me na ponta da língua: “Trabalhar naquilo que gostamos é uma das melhores coisas do mundo, meu amor.”

Resposta aceite.

Next round, porque a cabeça aos cinco anos fervilha e não arrefece: “Fazer trabalhos da escola é a coisa mais importante da vida? O M. diz que sim…”

A resposta foi outra vez imediata e fácil: “Não!” Mas desta vez foi seguida do peso da responsabilidade parental, que me fez morder a língua para não iniciar um discurso anti-trabalhos-de-casa e continuei… “Há trabalhos de casa que podem ser importantes, se nos ajudarem a saber mais e a descobrir coisas novas.” (Blarghhh, não era bem isto, mas foi o melhor que consegui…)

Resposta aceite.

Aproveitei a satisfação temporária para não me alongar no discurso. Deixo-o para depois, aquando da entrada no 1º ciclo, na esperança de que tenhamos sorte porque há cada vez mais professores e pais a defender que:

As crianças passam demasiado tempo na escola, para terem ainda de trazer o trabalho da escola para dentro de casa. Já chega de contas, já chega de letras impostas, já chega de problemas por resolver. Não quer isto dizer que não acompanhemos o seu crescimento enquanto alunos, que não falemos sobre as aprendizagens realizadas e até que não arranjemos forma de lhes mostrar a sua utilidade nas coisas do dia-a-dia, consolidando as aquisições feitas. Quer isto dizer, que há tantas outras maneiras interessantes de o fazer que não envolvem fichas, cadernos, cadeiras e mesas.

O regresso a casa deve ser o regresso ao tempo em família, ao tempo para não fazer nada, ao tempo para respirar, ao tempo para jantares e conversas demoradas e histórias bonitas para dormir. Ora, se quando chegamos a casa, com o sol a pôr-se, ainda tivermos que nos sentar à mesa e olhar com os olhos pesados de cansaço para as fichas de um livro, vamos ter de deixar todas as outras coisas para depois… E o depois tarda em chegar, porque no dia seguinte começa tudo outra vez.

Não há nenhuma associação entre a realização de trabalhos de casa e o sucesso escolar. São vários os estudos que deitam por terra a ideia de que os alunos que fazem muitos trabalhos de casa, são melhores alunos. Aliás, de acordo com a neurociência, o que as crianças aprendem durante o dia de escola, só é metabolizado nessa noite, o que, traduzido em miúdos, significa que “mastigar” a matéria dada no próprio dia não serve absolutamente para nada. Este argumento seria suficiente para convencer os mais céticos, não?

O melhor motor para a aprendizagem é a curiosidade e as crianças sabem como ninguém pô-lo a funcionar. É através da curiosidade sobre o que acontece à sua volta, que exploram e aprendem, motivando-se a si mesmas a saber mais e a descobrir o mundo. Ora se essa curiosidade nasce do lado de dentro, se estivermos constantemente a estimular a criança até ao limite e a cansá-la com excesso de trabalho, não estamos a permitir-lhe o espaço necessário para que se reorganize, para que consolide as aprendizagens feitas, alimentando a sede das que virão. Depois de um dia intenso de escola e de estímulos, o tempo para “não fazer nada” ou para inventar o que fazer, deve ser entendido como um tempo sagrado, pela importância que assume no bem estar cognitivo e emocional infantil.

É preciso brincar. Muito e todos os dias. E para brincar é preciso tempo, tempo esse que num dia normal de uma criança se circunscreve aos 20 minutos de intervalo da manhã e às duas horas entre o regresso a casa e o jantar, que muitas vezes ainda têm de ser divididas entre outras tarefas. São tantas as investigações que provam que o hábito de brincar ajuda a desenvolver a alfabetização, favorece a leitura, a familiaridade com os números, promove a criatividade, potencia a criação de laços afetivos e o treino de competências pessoais e sociais, que é difícil entender porque é que a brincadeira é a primeira a saltar do barco, sempre que achamos que a criança precisa de melhorar os resultados na escola.

E depois de tudo isto e porque falamos de coisas sérias, continuemos a pensar sobre o assunto para que, em conjunto (pais, professores, educadores…), não tenhamos medo da mudança e mantenhamos a coragem de questionar o hábito e contrariar as ideias feitas, aprendendo sempre mais sobre aquilo que fazemos e sobre aquilo que podemos fazer melhor.

Tudo, pela causa mais importante do mundo: ajudar miúdos a crescer, mantendo acesa a chama da paixão por aprender, que naturalmente trazem dentro.

P.S – Bom ano letivo. Com poucos trabalhos de casa. Ou muitos, como este…

Às mulheres que não queriam ter sido mães.

Uma vez cruzei-me na rua com uma mulher que se zangava com os dois filhos gémeos e ouvi-a gritar-lhes: “Eu nunca vos devia ter tido!”

Fiquei horrorizada. Achei que devia ser uma péssima mãe, achei que não merecia tê-lo sido e, acima de tudo, que nenhuma criança, em nenhum cenário, deveria ter de ouvir palavras assim.

Passaram-se alguns anos, fui mãe e nunca mais me lembrei desta história. Até há uns dias, quando encontrei um texto no qual se contava o trabalho de uma socióloga israelita, Orna Donath, que no seu livro Regretting Motherhood, se dedicou a reunir depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos mas que, se pudessem voltar atrás sabendo o que a maternidade implica, optariam por não ser mães.

Voltei a ficar horrorizada. Não pelo que as mulheres entrevistadas tiveram a coragem de assumir, mas pelos comentários de quem as ouviu (ou melhor, de quem não foi capaz de as ouvir) e prontamente lhes tirou a pinta, colando-lhes na testa o rótulo feio de “má mãe”. Exatamente como eu fiz, há uns anos atrás, ainda distante do desafio da maternidade.

E se continuo a achar que aquela mãe com quem me cruzei, poderia não ter dito aos filhos que preferia não ter sido mãe deles, porque sei o quanto estas palavras podem magoar quem não tem nenhuma responsabilidade em ter nascido, há muitas coisas em mim que se transformaram desde então e que eu procuro que, todos os dias, me ajudem a crescer.

A vida há muito que me ensina, que isto não é um guião encomendado, que as personagens não sabem as falas de cor, e que a história não se repete com os mesmos takes para todos.

A vida há muito que me ensina, que o mundo não se encerra na forma como o penso e como o sinto. Felizmente.

Conhecer as histórias destas mulheres e querer ouvi-las verdadeiramente, implica resistir ao julgamento fácil, requer o extraordinário exercício da empatia, o reconhecimento e a aceitação daqueles que são os seus desejos e daquelas que são as suas frustrações. Não têm de ser as nossas. Mas podem ser as de alguém.

Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E é seu o direito de falar sobre o assunto, de dar nome ao sentir, de sacudir, de vez, o peso do pecado que lhes puseram aos ombros.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem de assumir todos os dias um papel com o qual não se identificam, de sentirem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-las, constantemente, do sacrilégio em que NÃO vivem.

Repito: Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E isto é quanto me basta.

Isto, e um orgulho imenso por terem sido capazes de o gritar aos sete ventos. Para que ao mundo não restem dúvidas, que nem só de maternidade se faz uma mulher.